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sábado, 31 de março de 2018

Da descolonização a Decolonização

Como diria o grande pensador Bezerra da Silva, cadeia é igual a baile: se não tiver lotada não tem lucro. Sendo assim, podemos afirmar que cem corpos negros encarcerados ou sepultados diuturnamente desde a colonização é lucro, assim como sem corpos negros encarcerados ou sepultados pela decolonização é prejuízo irrecuperável para a indústria do medo, produtora de armas, de polícias e dos gongóricos discursos em nome da segurança; e isso certamente levaria a bancarrota as Multinacionais do Terrorismo Democrático Estatal oficial pós-moderno vigente.

Assim como o mercado religioso, e também o mercado educacional representado pela academia que produz e reproduz dissertações e teses que geram dividendos, status e diplomas de doutor ao discorrer e denunciar esse processo colonial que produziu a nossa modernidade e o padrão racial de sofrimento e de mortes nela contido. 

Ironicamente esse mesmo padrão racial que faculta o lugar de fala a esses doutores e mestres formados por essa academia cínica e hipócrita que destila e arrota Grécia e Roma pelos poros eufemelaninados da brancopofagia desvairada, fazendo com que o sangue de cem corpos negro, encarcerado ou chacinado diuturnamente, possa colorir e redigir cada diploma despachado, desde a América portuguesa a até aquela rua da zona Sul da cidade do Rio de Janeiro que tem nome de Princesa, e não é de Dandara, de Acotirene ou de Marieli Franco, e menos ainda da professora Irene que mora nas quebradas do exílio negro, 

Invisibilizada, a Dona Irene que semeia as sementes de tâmaras, enquanto a Polícia Militar orgulhosamente usa sua tradicional, bem ajustada e vistosa coleira, e ocasionalmente uma bela focinheira, desfila pelas ruas, de sete de setembro a vinte de novembro, e mesmo de farda e pele preta, mostram seus caninos brancos ao povo negro supliciado pela inquisição racista, fascista e misógina.

Eis porque os diplomas e certificados banhados a sangue e suor, fazem a festa justamente onde os tambores laicos dos evangélicos negros fazem soar seu eco; nas encruzilhadas da madrugada onde deuses e Exus, Ethos e Natureza se reúnem para observar as desditas ditadas por palavras mal ditas, grafadas nos livros da santa igreja romana, fundadora da civilização brancopofágica egocentrista mundial. A única coisa que esta civilização inventou foi a egolatria, visto que todo o saber existente, ganhou um padrão racial grego e um fundador como proprietário desse saber surrupiado. 

Desde então, todo o conhecimento posto em livros de histórias e livros didáticos, como fonte monopolizadora e detentora desse saber patenteado e embranquecido, tem sido a matéria que recheia as teses de descolonização, sem, no entanto, propor qualquer contra-narrativa que venha desestabilizar o status quo que mantém e sustenta o próprio lugar desse discurso proferido. Esse seria um exercício paradoxal, fundamentado por um processo digressivo que o lugar de fala da descolonização não contempla.

É preciso coragem para se desvencilhar dessa grande invenção brancopofágica que é o ego. Esse ego que julga, policia e executa do lugar onde pisa, pois os inventores da sabedoria sempre foram entes sem nomes. Portanto, o conhecimento não deve ser objeto de comércio, nem a cognição um instrumento de hierarquia vertical. Quem assim procede, mostrando diplomas e certificados de competências e douto saber, são dignos de todo o silêncio e paciência, visto que os mesmo certamente não veriam qualquer lógica em relacionar cem corpos negros, encarcerados ou sepultados, com uma Rave em Ipanema ou Leblon e o baile funk da favela que em todas as horas de todos os dias vela por um corpo preto morto no gueto, e ainda tem tempo para cantar e dançar, sem a presença dos livros que os livrem da liberdade condicional imposta pelo capital controlado pela família tradicional, cujos filhos frequentam essa mesma rave; cracolância dos playboys e abastados. 


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