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quinta-feira, 22 de março de 2018

Entrelinhas

A narrativa perdeu espaço para a informação, e hoje estamos obesos de informações e carentes de histórias. Encontramo-nos tão inflados de informes que atingimos uma obesidade mórbida de informações velozes on-line que se tornam antigas no mesmo instante em que são veiculadas.

Dessa maneira, passamos de seres humanos a seres patológicos que mesmo próximos, nos encontramos de costas, necessitando gritar para sermos ouvidos, já que o olho no olho só se encontra no olhar perdido, sem vida, nem rima.

Essa distância que nos aproxima através da informação, nos separa e nos distancia do coração fazendo a mente perder a razão. A razão humana se transformou numa patologia de esquizofrenias e bipolaridades sociais, advinda desse hibridismo transgênico da palavra que se transmutou em código de barras, com validade passada no futuro de nosso presente de grego: é a palavra de Tróia gongoricamente disfarçada do discurso suicida do fogo amigo homicida.

Tudo que é, deixa de ser, pois o verbo não mais reverbera, e o eco que bate no vácuo da razão brancopofágica faz da informação um cancro sem cura e sem cara, mas de corpo sedutor, que transmorfo, ganha a forma amorfa do monstro que segura o chicote a destra do pelourinho do norte.

Como insaciáveis e glutões seres patológicos, nos alimentamos de informações confeccionadas, manufaturadas, remasterizadas e veiculadas no espetáculo exibido nesses jogos vorazes[1] promovidos pela insana sociedade dos poetas assassinados[2]; esses heróis que nunca morreram de overdose[3].

Essa palavra jogada no ar é similar uma peça de xadrez deslocada, que transloucada pela absoluta impossibilidade da fala que não se pode ouvir, nem escutar, mergulha no éter entrópico da esquizofrenia social e na histeria popular do senso comum que acorrenta e escraviza sensos e sentidos; é dessa maneira que Zumbi vive; pois nós somos o sepulcro de Palmares, onde as sepulturas são decoradas com tela plana e horário nobre e o moderno contador de histórias possui uma suave voz monódica, postura robótica, e veste terno e gravata, como qualquer pastor, político ou Pretor[4].


[1] Referência ao filme de ficção científica, com o mesmo nome.
[2] Referência ao filme e livre “Sociedade dos poetas mortos”.
[3] Referência a música dos anos 80 cantada pelo cantor Cazuza.
[4] Magistrado da antiga Roma encarregado da administração da justiça.

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