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domingo, 8 de abril de 2018

O Dicionário Da Morte


O idioma transforma ideias em atos através da palavra que leva a ação, e é dessa forma que a razão foi alçada a um patamar inaugurado pelo mecanismo da hierarquia vertical. Processo este que possibilitou a divisão racial do ser humano, além de estabelecer às classes sociais que eclipsam invisibilizando a questão racial, impedindo possíveis soluções desse crime que tem sua legalidade estabelecida pelas Ciências Sociais e pelo vocabulário jurídico.

Desse modo, a banalidade do mal[1] se faz presente através da fala que encontra seu eco na razão estabelecida por esta hierarquia vertical produzida pela indústria que sustenta e patrocina o capitalismo cognitivo, destinado àqueles que se encontram na condição servil quando nos referimos a questão de classe social, e os racialmente escravizados que se encontrando na condição de párias, nesta sociedade que se divide em mundos opostos, e ambos os mundos são dominados por este seleto grupo de Necrófagos europoides.

Esse grupo maquiavelicamente faz uso do estado e da religião para manter a Ordem e o Progresso de seus ideais antropofágicos legitimados pela falsa civilidade digna de um Mordomo da Casa branca[2], usando o livro sacralizado por divindades por eles repaginadas e as ciências por eles estabelecidas como bula, a fim de dominar uma Maioria que foi classificada como minoria e transformada numa massa negra. Desse modo, usando, de forma misógina, a palavra homem para ser referir ao Ser chamado de humano, determinado por uma filosofia que, sendo feminina, só contempla o gênero masculino como senhores de uma verdade padronizada como saber universal.

Dessa maneira, criando o patriarcalismo e o matriarcado, olvidando o sistema matrilinear dos povos melanodérmicos; povos estes que foram classificados como escravos em seus livros didáticos, a fim de ocultar o crime histórico da infame escravização desses mesmos povos; além de transformarem as Comunidades dos povos autóctones, em Tribos, enquanto esses mesmos indígenas eram rotulados como índios para confrontar uma falsa ideia de civilidade de um, e uma suposta selvageria do outro.

Enfim, inventaram o outro, colocando a competição no lugar da competitividade, estabelecendo assim, um processo seletivo de ódios para que as classes sociais ficassem ocupadas, com seu foco catártico direcionado aos racializados eleitos como sendo o outro. Ou seja, este outro passou a ser aquele que representa, colore e anima os meios de comunicação que o coloca como o inimigo a ser combatido. Esta campanha racial sistemática, é dominada e administrada por este sistema eugênico e gentrificante que transforma pessoas em objetos, a partir do momento que as desumaniza e as transformam em dígitos, com tarja de validade, e com o direito de vida e de morte ditado e editado pelo Estado, que representa essa elite formada por europoides necrófagos que se alimentam do medo e da morte melanodérmica.

O discurso narrativo racial corrente, recorrente e sacralizado que perpassa a história reeditada através da religião e da política, e assimilada pela cultura de massa, foi formatado por essas palavras que estruturam o desejo de morte àqueles que foram transformados no outro; criando assim, um inimigo imaginário a ser combatido e vencido impreterivelmente.

Destarte, foi criado um vocabulário paralelo para ser usado contra aquele que se encontra do mesmo lado nesse campo de batalha e que tem a percepção do contexto dessa anomalia necrofágica brancopófaga; é a ideia do fogo amigo estabelecida como um conceito no processo de eliminação da contra-narrativa em sua senda inevitável de equidade.

Com o fogo disparado por esse vocabulário matamos o espírito com os discursos formatados, e depois da alma negra supliciada, esse corpo negro é esquartejado publicamente, enquanto suas partes se transformam em atração principal desse Espetáculo das Raças iluminado por holofotes e flashes em diferentes ângulos e sensuais posições, num indecente movimento porno erótico grafados pelos editorias que propõe o debate pseudo intelectual sobre classe em detrimento da raça.

Dessa forma, a morte trazida na fala é saboreada pela língua enquanto é engolida, degustada e deglutida pela boca, enfeitando o olhar público que assiste pela TV os zumbis dançando sobre as lápides sociais que colorem os corredores dos Shopping Center da zona Sul a Zona norte, nos comerciais e propagandas do consumo capital, formatando o cemitério social que comemoram o holocausto do povo negro no calendário das santas datas festivas. É dessa forma que os locutores, artistas  e atrizes constroem emoções que controlam a pessoa emocionada, enquanto historiadores, mestres e doutores são os engenheiros da razão que molda o olhar que fala a morte enunciada nos editorias, livros didáticos e comerciais fazendo a morte lhes cair bem.

E assim, a história grafada pelas bibliotecas europoides, escrita com muito sangue, suor e sofrimento infindos, são expostos diuturnamente nos editorias dos jornais matinais tupiniquins em cada palavra e sentença anunciada por este lacrimoso dicionário de morte enunciada.



[1] Hannah Arendt
[2] Referência ao filme com o mesmo nome.

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