Total de visualizações de página

Pesquisar estehttp://umbrasildecor.wordpress.com/2013/05/29/jornal-cobre-lancamento-de-escrito blog

terça-feira, 13 de março de 2018

WakandÁfricA


Numa distância profunda, aonde a vista se perde no tempo, bem lá, ao longe, nos confins do horizonte, em meio às névoas, gaivotas, pelicanos e albatrozes; eis que surge uma mancha que marcha em direção a um inexistente cais.

Na medida em que se aproxima trazida pelo vento norte, a definição de sua forma disforme vai chegando ao olhar que atento está a lhe observar, trazendo junto aos ouvidos, dolorosos gemidos de sofrimento e mau agouro que se fundem e se confundem com o impiedoso açoite das ondas do mar azul contra o rígido casco daquele estranho monstro marinho; a princípio uma mancha amorfa que traz em sua cabeça altiva uma bandeira branca, e sua barriga faminta preenchida com alimentos quase vivos; uma carga Negra; uma carga de mortos-vivos recém-devorados; uma carga comprimida de almas deprimidas.

Mas ao aportar no porto-fantasma, com o mostro a vomitar essa carga; descobriu-se nesse desembarcar que essa era uma carga viva. Sim, mas era uma carga viva de história, de geografias, filosofias, matemática e geometrias, num eterno regurgitar de tesouros sem fim.

Aquela mancha na verdade, era um cofre-tumbeiro, uma Arca-Sepulcrário, um navio negreiro que ancorava sem carnaval, sem samba, nem canavial; não houve cerimônias, discursos, nem estouro de champanhes importada; e foi justamente aqui, que essa carga de saberes e sabedoria, construiu N’gola Janga; nossa Pequena África, bem aqui no Rio de Janeiro; esse lugar onde coube um continente inteiro e que hoje vem se mostrar por inteiro, mesmo que suas ruas tenham nomes de carcereiros, carrascos, carniceiros e até de padre aventureiro, a fim de esconder os 70 tons de preto que reluz o ano inteiro, nesse Rio de Fevereiro que faz ressoar Tambores Laicos do Estado arcaico dos tempos de Wakanda, fazendo crescer a Pequena África que já não cabe mais em si, como a nota de um acorde que ecoa no coração e nas mentes de pele preta, quase-preta e quase-branca, nesse lugar onde tudo que reluz é ouro e tudo que se se planta, dá.

WankandÁfrica do Rio solto e faceiro, que não se deixa enganar pelo empreiteiro trambiqueiro que derruba a casa do mico-leão-dourado, comprando senaDOR e dePUTAdo o ano inteiro nesse mercado infame que mancha o horizonte de forma atroz, agora sem pelicano, gaivotas, ou albatroz.



Nenhum comentário: