Numa
distância profunda, aonde a vista se perde no tempo, bem lá, ao longe, nos confins
do horizonte, em meio às névoas, gaivotas, pelicanos e albatrozes; eis que surge uma
mancha que marcha em direção a um inexistente cais.
Na
medida em que se aproxima trazida pelo vento norte, a definição de sua forma
disforme vai chegando ao olhar que atento está a lhe observar, trazendo junto
aos ouvidos, dolorosos gemidos de sofrimento e mau agouro que se fundem e se confundem
com o impiedoso açoite das ondas do mar azul contra o rígido casco daquele estranho
monstro marinho; a princípio uma mancha amorfa que traz em sua cabeça altiva uma
bandeira branca, e sua barriga faminta preenchida com alimentos quase vivos; uma
carga Negra; uma carga de mortos-vivos recém-devorados; uma carga comprimida de
almas deprimidas.
Mas
ao aportar no porto-fantasma, com o mostro a vomitar essa carga; descobriu-se
nesse desembarcar que essa era uma carga viva. Sim, mas era uma carga viva de história,
de geografias, filosofias, matemática e geometrias, num eterno regurgitar de
tesouros sem fim.
Aquela
mancha na verdade, era um cofre-tumbeiro, uma Arca-Sepulcrário, um navio
negreiro que ancorava sem carnaval, sem samba, nem canavial; não houve
cerimônias, discursos, nem estouro de champanhes importada; e foi justamente
aqui, que essa carga de saberes e sabedoria, construiu N’gola Janga; nossa Pequena
África, bem aqui no Rio de Janeiro; esse lugar onde coube um continente
inteiro e que hoje vem se mostrar por inteiro, mesmo que suas ruas tenham nomes
de carcereiros, carrascos, carniceiros e até de padre aventureiro, a fim de
esconder os 70 tons de preto que reluz o ano inteiro, nesse Rio de Fevereiro
que faz ressoar Tambores Laicos do
Estado arcaico dos tempos de Wakanda, fazendo crescer a Pequena África que já
não cabe mais em si, como a nota de um acorde que ecoa no coração e nas mentes
de pele preta, quase-preta e quase-branca, nesse lugar onde tudo que reluz é
ouro e tudo que se se planta, dá.
WankandÁfrica
do Rio solto e faceiro, que não se deixa enganar pelo empreiteiro trambiqueiro
que derruba a casa do mico-leão-dourado, comprando senaDOR e dePUTAdo o ano inteiro nesse mercado
infame que mancha o horizonte de forma atroz, agora sem pelicano, gaivotas, ou
albatroz.

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