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terça-feira, 26 de março de 2019

Da Verdadeira Liberdade Desde a Bandeira da Paz a Bandeira da Pan Africanidade


Enquanto a pomba da paz possuir uma cor específica, personificando uma religião que afirma nunca julgar e sempre amar ao próximo; além de se mostrar sempre  belicosamente pacífica; essa paz será sempre, e nada mais, que a personificação daquele abutre ricamente travestido com as fardas da hipocrisia, que vem célere todos os dias para degustar o sangue fresco que corre nas mãos do carrasco domador de pássaros cativos, que molda o status quo da liberdade nas gaiolas do social. 


Falo dessa mesma paz que aparece sempre em cartaz nas passeatas, propagandas, telas de cinema e telejornais, e que sempre nos faz ter uma enternecedora compaixão pelo mais pobre aldeão e o mais puro ódio pelo rico que lhe nega a mão. Essa é a branca paz seletiva, que evoca ódio e o amor, quando convém aquele que não vê a si mesmo no outro, só desdém.

Foi extremamente conveniente e convincente essa política de relacionar a escuridão com a cor negra e o que é limpo e puro com a cor branca, já que o cérebro humano tem a sua natureza fundamentada na linearidade, na classificação e consequentemente, na hierarquização daquilo que se apresenta a sua frente. Foi dessa forma se deu o desmembramento entre o intelecto e a emoção, causando a dualidade entre mente e coração, entre o masculino e o feminino, o preto e o branco, e assim sucessivamente. Dessa maneira, a nossa humanidade foi esquartejada, supliciada e compelida a viver permanentemente a procura de si mesma.

A cicatrização e cura das profundas feridas deixada por esse dialógico suplício, só poderão se dar, também de forma dialógica, quando houver o equilíbrio, através da equanimidade das causas e das consequências provocadas pela dualidade dessas forças que em nós habita. Dessa forma, como seres completos e não mais fragmentados, vamos colorir com cores diversas, e não mais com cores mortas, a natureza humana que se forjou no seio de suas próprias contradições. Enfim, somente dessa maneira, com nossa bandeira colorida e não mais dolorida, poderemos nos reconciliar conosco ao reconhecer a nossa própria imagem no outro. 

Finalmente nosso navio deixará de ser negreiro e nossa bandeira de ser pirata, enquanto as bandeiras vermelhas não mais sangrarão, cravada no peito cidadão, secando suas mentes e corações, fontes dos mais sinceros sentimentos e da mais profunda emoção. Dessa maneira, o navio em que chegamos aportará finalmente no museu da humanidade, não como mero espetáculo, mas como uma lembrança do que o mais puro sentimento é capaz de reconstruir dentro desse círculo entrópico no jogo entre a biopolítica e necropolítica definidas e classificadas por cores e bandeiras.


sexta-feira, 8 de março de 2019

A Face de Jânus[1]: De Esperança Garcia a Luiz Gama

O Direito de justiça passa pelo tortuoso caminho do poder sem pudor, em face do etéreo contrato[2] assina entre oprimido e opressor. Mas Esperança Garcia rasgou por direito seu sinistro contrato injusto enquanto Luiz Gama bradou pelos irmãos feridos pela justiça, interrompendo essa estrada de mão única num chuvoso[3] dia de tempestade, fazendo a contramão de retorno do direito de justiça. Da mesma forma que Jânus, olhar o futuro sem esquecer o passado, seria a deixa para repensar quaisquer contratados confeccionado pelo terrorismo estatal anunciado no tempo/espaço em torno do pelourinho contemporâneo de propriedade da elite escravista moderna.

Essa é uma questão maiêutica e diatópica necessárias àqueles que não querem se perder em meio a tempestade cênica hollywoodiana, provocada por esses sinistros tempos de eclipses religiosa e política que grassa em nossa sociedade eurocentrada. Para resgatar a nossa história é necessário realizar a ancestral dança da chuva , a fim de que sejamos a própria tempestade e não as suas vítimas. Sendo assim, o senso prático da ação, deve sobrepor-se ao da reação, a fim de aproximar nosso discurso da prática, na medida em que nos afasta dessa hipocrisia, projetada pela mídia moderna no pano de fundo social, como imagem padrão e razão egocêntrica constituinte do cidadão de bem.

Outrora, a disputa bélica entre os povos, fez eclodir o racismo patológico, hierarquizando toda a humanidade, com o perverso intuito de controlar e subalternizar aquele outro que traz na pele a cor de sua bandeira de lutas, esse sinistro processo levou o ser humano a mais completa cegueira, a ponto de coisificar a pessoa da cor de noite sem lua. Esse olhar para o outro que não encontra a si mesmo, passou a ser a senha para as desditas ditadas pelos privilégios de uma ditadura pautada pelo poder racializado resoluto e absoluto, mas contraditoriamente dialógico.

Dessa forma, o preto e o branco, assim como o dia e a noite ou a luz e a escuridão não se juntam,  também contrastam com as letras sobre o papel do contrato assinado entre oprimido e opressor, enquanto dão voltas e circulam numa dança semelhante a um cachorro que roda em torno de si correndo atrás do próprio rabo; é dessa forma que jorra sangue, suor e lágrimas da caneta do doutor, assim como outrora jorrava sangue do chicote desse feitor, que, hoje anda travestido de terno preto, gravata colorida e colarinho branco, pregando a diversidade. 

Redescobrir a nossa história, olhando em volta do passado, é a forma mais eficaz de ampliar a visão e os pontos de vistas, e também a maneira mais precisa para vislumbrar possibilidades de futuros e prováveis devires, enquanto rasgamos todos contratos de medo redigidos pelo terrorismo do poder constituído.



[1] Janus era um Deus que possuía duas faces; uma em direção ao passado e outra em direção ao futuro.
[2] Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire.
[3] Alusão a Marcus Garvey; “procurem por mim na tempestade...”

quarta-feira, 6 de março de 2019

Capoeira, legado do Povo Negro



Foi aqui no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro que o negro se fez africano; pois antes disso, eles eram somente etnias vindas da costa do continente negro; eram genericamente bantos ou sudaneses. Mais especificamente, eram Ovimbundos, Ambundos, Ashantis, Nagôs, Fulanis, Fons, Mandingas, yorubás, Gêges, Minas, Haussás, etc. das regiões de Loanda, Benim, Guiné Bissau. Enfim, de toda a costa do continente.

Aqui no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, a única capital europeia fora da europa, uma vez transformada num caldeirão de todas essas culturas, se deu a síntese nascida na forja desse encontro dessas etnias. Dessa forma, a identidade negra começou a ser tecida, tornando-se enfim, numa Cultura Negra Unificada.

Capoeira, era o nome de um pássaro, que normalmente tinha o seu assovio imitado pelos praticantes de capoeira, mas também era o nome de um cesto carregado pelos negros no centro urbano da cidade do Rio; onde “ca”, em tupi-guarani, significa material vindo da mata; e “pu”, significa cesto. Ou seja, os carregadores de capu, cestos feitos com produtos da mata, eram os capueiros; assim como açougueiros, barbeiros, etc., mas mato ralo é também conhecido pelo nome de Capoeira.

Notamos então que a origem da Capoeira se deu nesse caldeirão de culturas; fato este que não aconteceu em nenhum outro lugar das Américas, para onde os negros foram traficados durante um dos maiores crimes da história, que foi a escravização. Nesse caldeirão, misturou-se o N’golo; ou dança da zebra vinda de Angola; a Bássula, vinda de Loanda; e o Umundinhu.

Pode-se afirmar que os Capoeiristas formavam uma protonação bantu no Rio de Janeiro do Século XIX; pois era uma força que enfrentava, afrontava e desafiava o Estado Nacional, mas que provocaram sua própria derrota a enfrentar seus iguais: os crioulos, negros nascidos no Brasil, e os pobres, brancos que se juntaram aos mulatos praticantes da capoeiragem.

Essa rivalidade tem seu início justamente na cisão entre negros africanos e negros mulatos. Os mulatos capoeiristas chamavam os africanos recém-chegados do continente de cabeça seca, por terem os mesmos a cabeça raspada; tal como é feito até hoje com qualquer prisioneiro nas cadeias de todo Brasil; esses “novatos”, no caso, ainda não eram capoeiras.

Dessa forma, quando os grupos rivais se encontravam, os Nagoas e Guaiamuns, nas Fortalezas de um ou de outro, que eram os bares que ficava na área aonde costumavam dominar e se reunir, o desafio era lançado e a luta tinha início, terminando com dois ou três mortos, um grande número de feridos e alguns presos.

Um ritual típico de desafio era um capoeirista chegar na fortaleza do outro, pedir um copo de vinho e outro de cachaça, jogar o vinho no chão e pisar em cima, para em seguida jogar a cachaça sobre o vinho pisado. Era uma afronta inadmissível, visto que o vinho representando a cor vermelha, cor dos Guaiamuns e que representava a sua divindade: Xangô, fosse pisado, e por cima dele se jogasse a cachaça, cor branca dos Nagoas e que representava também sua divindade: Oxalá.

O Estado percebeu que ia perder esse jogo, quando finalmente as duas maltas de capoeiristas pararam de se matar e se juntaram uma única vez. Desse modo, surgiu a lei de 1890. Dos vadios e capoeiras. Antes disso, a punição de quem era preso por capoeiragem era de cem chibatadas e uma estadia preso na ilha das cobras. Depois dessa lei, passou a ser o exílio em Fernando de Noronha. Foi dessa maneira que as maltas de capoeiras foram desfeitas.

Antes disso, o capoeirista nunca temia ser pego, pois, uma das principais missões de um capoeirista, para ser capoeirista de verdade, era pôr a polícia para correr, assim como fazia o afamado Manduca da Praia. Além do mais, grande parte dos soldados do exército eram capoeiristas, e quando viam outro capoeirista sendo preso, eles próprios enfrentavam a polícia junto com outros capoeiristas que se somavam a confusão e que não eram poucos no Rio imperial até o início do golpe militar republicano no Brasil.

Mesmo com o fim das maltas, a capoeira sobreviveu no Brasil republicano que foi tremendamente implacável para a sobrevivência dos negros e de seus descendentes, visto que a república buscava construir um Estado branco, pois pretendia fazer do Brasil uma França tropical na América Latina, tal como hoje deseja ser um Estados Unidos da América. 

Foi logo após a inauguração da Avenida Central, hoje chamada de Avenida Rio Branco, no Centro do Rio de Janeiro, que um magrinho chamado Ciríaco, um mulato que tinha o apelido de macaco na capoeira, enfrentou o campeão mundial de jiu-jitsu Sado Mako, conhecido como conde Koma; um homem que dava dois e meio do magrinho Ciríaco. Bastou uma meia lua para o japonês voar para fora do tatame e de volta para o Japão enquanto o capoeirista era levado nos ombros da multidão pela avenida Central do Rio de Janeiro.

Dessa forma, a capoeira chegou nos dias de hoje como jogo e como esporte, deixando um pouco de lado seu caráter marcial após a década de 1980; faço o registro aqui das disputas acirradas que até então existia entre os grupos de capoeira no Rio de Janeiro; visto que as firulas e floreios é que hoje dão o tom dessa capoeira contemporânea de pura exibição; tipo de capoeira essa que no Rio antigo, os caxinguelês, os meninos aprendizes, praticavam se exibindo frente as maltas que abriam caminho durante os desfiles militares, as procissões e o carnaval na cidade do Rio.

Dessa maneira, no Brasil, além de ser forjada uma identidade negra, se formou também aqui, o povo negro. Ou seja, tudo o que a república temia aconteceu: o único povo brasileiro hoje de fato, no Brasil, é o povo negro, já que os indígenas foram quase que totalmente dizimados e os imigrantes brancos que aqui vivem, reivindicam as suas devidas cidadanias europeias. Ironicamente, o negro, por ter sido rotulado e classificado propositalmente como afrodescendente, ainda não se reconhece legitimamente como povo.

Diante desse paradoxo, quem construiu este país, são os únicos que tem a legitimidade de serem considerados e reconhecidos como povo de fato. Desde sua padroeira do Brasil, passando pelo carnaval e pela capoeira, nossa cultura negra, como cultura peculiar e única, agora toma o seu caminho de volta ao continente negro, totalmente formada e graduada, nessa Diáspora terceira, onde está sendo levada através das rodas de Jongo, Tambor de Minas e de crioula, Maracatu e Capoeira. Eis o legado Negro deixado como presente a este Mundo cujo planeta se chamou um dia Etiópia.


Do Ubuntu a Alquimia

O Ser humano é uma poderosa Usina de pura Alquimia. Dentro de cada um de nós, existem todos os elementos da natureza, como a água, a terra, o fogo e o ar, além dos metais de toda a natureza e de todos os elementos existentes da tabela periódica e no universo conhecido. E isso nos dá a faculdade de possuir o dom dos extremos, fazendo residir em nosso interior o Amor e o ódio, o masculino e o feminino, a Luz e a escuridão, Deus e o Diabo, o céu e o inferno, e assim por diante; e esse fantástico estado diatópico e entrópico é proporcionado por todos esses elementos únicos dos quais somos possuidores. Nosso corpo é um incrível vaso aonde foram misturados e depositados todas as nossas Alegrias, Sentimentos e Emoções experienciadas e ainda por se experienciar. E o que fazer com essa sopa de contradições e paradoxos que alimentam diuturnamente o nosso espírito e nosso estado de arte do viver...?

Se dermos uma pausa para observarmos esse caldeirão de Emoções, perceberemos que essas mesmas emoções têm sua origem única em nossa falta de entendimento do que se passa ao nosso redor, nossas relações com a realidade, etc.; a questão seria o que fazer com essas emoções...? (Tristeza, medo, raiva, insegurança, etc). Primeiramente elas não devem ser julgadas ou reprimidas, mas sim, deveríamos procurar olha-las de uma posição neutra, a fim de que possamos nos tornar emocionalmente calmos para que nunca tomemos decisões baseados na emoção; visto que, normalmente, tais decisões sempre se mostram equivocadas. 

Ser levados pela emoção (que são provocadas pelo mal entendimento), traz desiquilíbrio; tal como uma criança quando se acidenta, se chocando contra uma mesa; a culpa de seu desconforto não deve ser atribuída a mesa, mas sim, a dor. Ou seja, a causa não é externa a si; é interna. Desse modo, aprendemos a lidar com nossa dor e não responsabilizar essa condição a outrem. Dessa forma, deixamos de ser vítima ou de sentir raiva, e focamos na resolução do problema; deixando de escolher a raiva como emoção que domina nosso ser. Dessa maneira, temos três escolhas: Manter a emoção dentro de nós mesmo, intoxicando-nos; usar a emoção para aprender sobre a gente; ou usá-la contra outra pessoa, provocando um lamentável efeito dominó.

É através do silêncio interior que identificamos nossas emoções, para que ela possa se mostrar; visto que, as mesmas, são como nuvens que esconde o sol. Dessa maneira, assumindo a responsabilidade sobre ela, é a única forma de evitarmos nos tornar vítimas dessas mesmas emoções, impedindo dessa forma, de nos afogar ao mergulhar fundo nessas mesmas emoções; partindo do princípio de que a vida não é uma questão de estar certo, mas sim, é uma questão de ser livre. Dessa maneira, podemos escolher entre suprimir ou assumir nossas emoções. Mas, isso requer a disciplina da coragem e da honestidade para conosco mesmo.

Análogo a alquímica emoção, são também os sentimentos; deveríamos nos indagar então, como fazer para convocar os bons Sentimentos...? Sentimentos são sussurros do coração; são respostas a uma crença, assim como as emoções, os sentimentos não devem ser negados nem suprimidos, mas sim, podem e devem ser mudados, transmutados quando os mesmos se mostram tóxicos. Os Sentimentos são nossos professores, e as emoções são nossos alunos.


E a melanina, o carbono do qual somos constituídos, produz toda a energia do multiverso necessária para que possamos mudar nossa realidade, desde o momento que assim escolhermos. Nós somos os responsáveis por nossa realidade, por nosso devir, por nosso vir-à-ser; porque somos; sempre fomos; e assim é. Sendo assim, o primeiro passo de transmutação nessa caminhada do Ubuntu à Alquimia, seria o de se olhar para o outro como olhasse para si mesmo. Dessa forma, nossos sentimentos e emoções se transmutariam em alegria; pois nascemos com direito a alegria; a fim de sermos alegres na felicidade, e mais alegres ainda na tristeza. Porque assim é...


terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Iº Seminário Nacional Sobre Reparação para os Descendentes de Povos Afri...

Um Breve Olhar Sobre o Iº Seminário Nacional de Reparação no Brasil

Como Professor negro, venho aqui expor o meu olhar, como partícipe presente nesse seminário, mas não na qualidade de palestrante e integrante do Movimento de Reparação no Brasil, mas sim como jornalista negro e cidadão de cor.  

Quando publiquei em meu blogue sobre as possibilidades desse encontro nacional, expondo a conjuntura atual, fazendo contraponto e explicitando as contradições existentes entre os conceitos de Reparação Histórica e de Ações Afirmativas, as polêmicas a respeito dessa postagem[1], a qual trago um breve trecho como nota de rodapé, foi motivo de apaixonados debates e infindáveis discussões consequentes de seu teor destemido e sem meias palavras. Diante desse meu exercício de livre expressão, o MNU imediatamente me exigiu explicação e retratação[2] pública respectivamente, ignorando qualquer noção de livre arbítrio da pessoa que não fere o livre arbítrio do outro.

Enfim, o Seminário aconteceu, seguindo fielmente o padrão conjuntural da atual política brasileira em céu de brigadeiro[3], com Legislativo, STF[4] e tudo mais; e novamente os adeptos das políticas de Ações Afirmativas que contemplam uma ínfima parte da massa negra do Brasil varonil, sem absolutamente apresentar nenhuma tática ou estratégia, a fim de possibilitar a construção do Projeto Político do Povo Negro para a Nação brasileira, objetivo do Seminário, elaborando para isso, um requintado labirinto de discursos e retóricas, deixaram os ouvintes circulando em volta da questão, como um cão circula em torno de si mesmo atrás do próprio rabo.

O Seminário, cujo tema era REPARAÇÃO, teve 80% de seu tempo utilizado para produzir e reproduzir, fazendo e refazendo diagnósticos e prestação de contas, através de intrincados números estatísticos, a fim de convencer e justificar a validade das Ações Afirmativas como possibilidade de ser usada como tática de construção do Projeto Político de Nação, sem, no entanto, propor ou apresentar absolutamente nenhuma tática além do discurso e das retóricas de convencimento.

Sabemos que esse tipo de adestramento de permanecer andando em círculo como cobaia de laboratório, com o intuito único de mudar o suficiente para tudo permanecer exatamente como está, é usado há bastante tempo por movimentos sociais e ONGs que recebem polpudos incentivos financeiros do próprio governo e seus afiliados, como forma de procrastinar quaisquer possibilidades efetivas de liberdade verdadeira; essa é uma prática notória e pública escondida atrás do fino e frágil véu que veste e movimenta a dança da hipocrisia social, protagonizando esse espetáculo promovido por nosso moderno e cruel sistema de casta.

O que os “movedores” que organizaram esse Seminário não contavam, e que subestimaram em demasia, foi justamente o olvidar da inteligência alheia e da capacidade de percepção de nosso povo que acorda, e observa esse cenário que se apresentava em forma de política rasa de manipulação, que tem a clara pretensão de usar a massa negra, tal como a mídia o faz. Essa percepção foi o saldo positivo que deu qualidade a esse encontro nacional; fazendo assim, o tiro sair pela culatra, acertando não só o pé, mas o coração da hipocrisia conjuntural reinante.

Dessa maneira, a palavra Reparação soou como um Tobal[5], ecoando pelos quatro cantos do Brasil através dos partícipes que aqui vieram somar conosco nesse acontecimento único; apesar de todas as tentativas de sabotagem para que a Reparação fosse silenciada no Brasil.

Mas esse é um caminho sem volta; a Reparação, assim como uma flecha lançada, já atingiu o tecido da hipocrisia nacional e se espalha como uma música de libertação, uma canção de redenção que ecoa até mesmo nos ouvidos menos atentos, a despeito das tentativas de debrankkkir[6] e eclipsar seu processo que já se alastra como um grande incêndio na Casagrande tupiniquim.
Reparação já...!!




[1] “Este Seminário vai trazer a lume os meios disponíveis para concretizar o Projeto Político do Povo Negro para o Brasil, e explicitar as estratégias do mesmo para atingir tal objetivo, seja esta estratégia definida através da Reparação histórica, que vem sendo trazida como proposta pela OLPN, ou definida através das Ações Afirmativas, trazida como proposta pelo MNU.
Nesse Seminário será definida e exposta a tática necessária a ser colocada em prática, para implementar o referido Projeto, como será tal Projeto, e o objetivo final a ser atingido. A princípio, é de se esperar que os equivocados conceitos veiculados pelo senso comum a respeito do que venha a ser a Reparação Histórica, e o seu gritante contraste diante da definição do que venha a ser, e o que se veicula, sobre as Ações Afirmativas, fatos que serão explicitados, analisados e pesados, a fim de desfazer as desinformações, deformações e contrainformação relativas ao assunto em questão, permitam que possamos finalmente, avançar na luta diante, dessa dicotomia que tem paralisado nossas ações efetivas relativas a esse processo que se iniciou no ano de 1993 e que se arrasta até os dias de hoje”.


[3] Alusão as forças armadas brasileiras golpistas-democrático-brasileiro.
[4] Alusão ao golpe de Estado de 2016 no Brasil.
[5] Tambor de Guerra.
[6] Contraponto da palavra denegrir grafadas com as três letras K da Ku Krux Klan.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

DO MOVIMENTO REPARAÇÃO PARA SEMINÁRIO NACIONAL DO MNU (FEV/2019)

Lutas táticas negras: Ação afirmativa e Reparação da História

1. Ação afirmativa fundamentado na lei referentes aos crimes de ódio: a discriminação racial. Reivindicando a cada governo, o respeito ao sistema de cotas para negros, e políticas que visem a promoção de igualdade racial com aplicação do Estatuto em vigor.

2. Reparação pelos crimes da história: exige  a Reparação pelos crimes do tráfico e escravização dos povos africanos e a seus descendentes. Exigência ao Estado nacional de ressarcimento com bens materiais e pecuniário da dívida da história, pelos crimes de escravização do africano, aos descendentes no Brasil numa reparação negociada.

- Diferenças pontuais-
Ação afirmativa é do direito individual; está prevista na lei Norte Americana dos Direitos Civis e adotada por negra negra a sua aplicação no Brasil. A discriminação racial é um fato individual e social, e não está previsto como crime contra a humanidade, que é amparada pelos Direitos humanos, com direito a reparação, exigida pelo povo que quer ser reparado.

Reparação pelos crimes da história é do direito coletivo, uma vez que uma coletividade inteira e por quatro séculos, como povos da África, foi traficada e escravizada, declarados ambos crimes contra a humanidade, crimes imprescritíveis e garantia de direito de ser reparado aos descendentes, como direito de justiça.

O direito a reparação, não é só pela escravização de nosso antepassado, mas pelo fato do crime de escravidão, ser crime continuado, uma vez que as condições de vida hoje do descendente na favela nada tem de diferente a do seu antepassado na senzala.

-Diferença Conceitual-
3. Ação Afirmativa
São medidas especiais e temporárias tomadas pelo Estado ou pela iniciativa privada, espontâneas ou compulsórias, com objetivo de eliminar desigualdades historicamente acumuladas, garantindo a igualdade de oportunidade e de tratamento, bem como compensar perdas provocadas pela discriminação e a marginalização, por motivos raciais, étnicos, religiosos, de gênero e outros.


Obs.” As ações afirmativas” são colocadas em práticas através de políticas de Governo, com objetivo de compensar erros do passado por ele reconhecido, sendo o governo quem determina a forma da compensação.

4. Reparação pelo crime da história:
São bens materiais e pecuniário negociados com o Estado nacional como ressarcimento da dívida da história a ser paga a um povo em sentido histórico ou a um coletivo de origem étnica, tradição, cultura comuns, de mesma identidade de destino e que no presente encontra-se em péssimas condições de vida em razão de crime cometido em determinado período da história da humanidade, a escravidão, contra seus antepassados e que se reflete no presente como crime continuado.

Obs.: 1) A reparação do ponto de vista conceitual é do estágio político de negociação. A negociação entre reparado e reparador onde o reparado – aquele que exige ser reparado é quem determina ao reparador a forma de como quer ser reparado. A forma de como tem que ser a sua reparação.

Obs.: 2) No Brasil a reparação pelos crimes da História, coloca na Mesa de Negociação, de um lado o Estado Nacional e de outro representantes dos descendentes de escravizados. Definido povo negro. Estado versus povo.

5. Reparação em geral: Reconhecido pelas Nações Unidas.
A reparação em geral é relação que se estabelece entre povo povo ou Estado e povo, desiguais em força política e poder de persuasão, se definem como reparador e reparado propensos a negociarem o que é direito de um dever do outro, negociação afirmada em tratado ou em encontros onde são consensualizados.

- A Reparação por crime contra a humanidade tem base em princípios.

A. Reparação por crime contra a humanidade tem bases e princípios;
B. É direito de coletivo humano o objeto da negociação da reparação;
C. A reparação é exclusivo atendimento de aspirações coletivas da parte
que exige ser reparada.

Yedo Ferreira