Enquanto a
pomba da paz possuir uma cor específica, personificando uma religião que afirma
nunca julgar e sempre amar ao próximo; além de se mostrar sempre belicosamente pacífica; essa paz será sempre, e nada mais, que a personificação daquele abutre ricamente travestido com as fardas da
hipocrisia, que vem célere todos os dias para degustar o sangue fresco que
corre nas mãos do carrasco domador de pássaros cativos, que molda
o status quo da liberdade nas gaiolas
do social.
Falo dessa
mesma paz que aparece sempre em cartaz nas passeatas, propagandas, telas
de cinema e telejornais, e que sempre nos faz ter uma enternecedora compaixão pelo mais pobre
aldeão e o mais puro ódio pelo rico que lhe nega a mão. Essa é a branca paz
seletiva, que evoca ódio e o amor, quando convém aquele que não vê a si mesmo
no outro, só desdém.
Foi extremamente
conveniente e convincente essa política de relacionar a escuridão com a cor negra
e o que é limpo e puro com a cor branca, já que o cérebro humano tem a
sua natureza fundamentada na linearidade, na classificação e consequentemente,
na hierarquização daquilo que se apresenta a sua frente. Foi dessa forma se deu
o desmembramento entre o intelecto e a emoção, causando a dualidade entre mente
e coração, entre o masculino e o feminino, o preto e o branco, e assim sucessivamente.
Dessa maneira, a nossa humanidade foi esquartejada, supliciada e compelida a
viver permanentemente a procura de si mesma.
A cicatrização
e cura das profundas feridas deixada por esse dialógico suplício, só poderão se
dar, também de forma dialógica, quando houver o equilíbrio, através da equanimidade
das causas e das consequências provocadas pela dualidade dessas forças que em
nós habita. Dessa forma, como seres completos e não mais fragmentados, vamos
colorir com cores diversas, e não mais com cores mortas, a natureza humana que
se forjou no seio de suas próprias contradições. Enfim, somente dessa maneira,
com nossa bandeira colorida e não mais dolorida, poderemos nos reconciliar
conosco ao reconhecer a nossa própria imagem no outro.
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