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sábado, 18 de novembro de 2023

O Despertar Do Divino Masculino

Rompendo noite adentro, de mansinho, e sem pedir licença, sutilmente ela foi chegando, penetrando suavemente na penumbra do meu lar; que se encontrava de portas e janelas abertas; me compelindo a levantar do confortável dossel, aonde me encontrava deitado em berço esplêndido; sem nem mesmo se importar como os meus dolosos murmúrios de protestos, e os insistentes alaridos de infindáveis objeções.  

Diante dos meus olhos semiabertos, na contraluz das cortinas soerguidas, as voluptuosas formas das escuras sombras se esvaneciam, desintegrando-se progressivamente na medida em que foram sendo trazidas a luz.

Mesmo em face dos meus indolentes protestos, a Aurora veio alegremente ao meu encontro, me saudando com um longo e delicado abraço, ao mesmo tempo em que me fazia ouvir o trinado da passarada, bailando entre o farfalhar das verdejantes folhas amareladas pelo tempo.

Enquanto os silfos e as Sílfides acariciavam as páginas em branco da luminosa Aurora, as sombras se recolhiam espantadas, procurando abrigo entre os rasgos das folhas outonais, que se dobravam sobre si mesma, exibindo uma arquitetura gestáltica, fazendo a luz da alvorada fluir em espiral sobre uma gota de orvalho, metamorfoseando-se numa forma idêntica à de uma luneta usada pelo astrônomo que observa a Estrela D’Alva; canalizando deste modo, a mensagem trazida pelo alvorecer, revelando tudo aquilo que havia abrolhado entre o nascer do dia e o Pôr-do-Sol.

Foi assim que recebi essa página em branco como presente, para que eu pudesse confeccionar o origami dessa existência embalada pela alegria, delicadamente expressada no franco sorriso sem crivo, da Nova Aurora que ali se apresentava.

Desse modo, despertei nesse abraço suave, na doce brisa soprada dessa formosa Aurora, para a seguir, caminhar de mãos dadas com a Liberdade, enquanto era intimamente beijado pela Felicidade, depois de ter sido coroado Rei, soberano desse Reino, aonde Eu Sou Senhor de mim mesmo. 

Desse modo, o Arauto anuncia a Nova Roupa do Rei, confeccionada pela pueril alegria, que expõe agora a verdade nua; enquanto, sem nenhum pudor; o Rei dança nesse baile sem máscaras, celebrando a existência sem os filtros das crenças e ideologias, perpetradas através dos dogmas e paradigmas; impostos por meio do autoritarismo estabelecido em forma de lei; decretando assim, com Aurora a sua destra, que, o passado não existe mais, e o futuro nunca existiu, abolindo dessa forma, os impostos taxados, que eram exigidos pelo trânsito realizado entre as antigas memórias e o momento do agora, acoplando à noite escura ao dia seguinte.

Foi assim que o Príncipe Noturno despertou, logo que fora abraçado pela Aurora encantada, inebriando-se com a Felicidade trazida pela Estrela D’Alva; quebrando assim, o feitiço realizado no lado escuro da lua que não era de mel; enquanto a boca da noite, sem nenhuma reserva, beijava o dia que a devorava.

Dessa maneira, assentado no trono de [1], com o brilho do sol a pino, ele pode agora avistar o fundo da sua caverna, através desse luminoso espelho solar, que mostrava-se como portal cósmico, por meio do qual, o seu Eu Maior pode atravessar, retirando-se enfim, da aludida caverna.

Esse labirinto de diáfanos, espelhando cada relação, refletindo as imagens das pessoas existentes dentro da sua própria pessoa, permitiu que ele finalmente, pudesse reconhecer as suas sombras, se deparando enfim, com o girassol  tatuado em seu peito, pela intensa Aurora de cada dia, que nos abraça hoje.



[1] Referência aos rastafáris ancestrais, os antigos sacerdotes egípcios que tinham o Sol como referência espiritual, comparando as suas tranças como equivalentes aos raios do astro-rei. 

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