Rompendo noite adentro, de mansinho,
e sem pedir licença, sutilmente ela foi chegando, penetrando suavemente na
penumbra do meu lar; que se
encontrava de portas e janelas abertas; me compelindo a
levantar do confortável dossel, aonde me encontrava deitado em berço esplêndido;
sem nem mesmo se importar como os meus dolosos
murmúrios de protestos, e os insistentes alaridos de infindáveis objeções.
Diante dos meus olhos semiabertos, na
contraluz das cortinas soerguidas, as voluptuosas formas das escuras sombras se
esvaneciam, desintegrando-se progressivamente na medida em que foram sendo
trazidas a luz.
Mesmo em face dos meus indolentes protestos,
a Aurora veio alegremente ao meu
encontro, me saudando com um longo e delicado abraço, ao mesmo tempo em que me
fazia ouvir o trinado da passarada, bailando entre o farfalhar das verdejantes
folhas amareladas pelo tempo.
Enquanto os silfos e as Sílfides acariciavam
as páginas em branco da luminosa Aurora,
as sombras se recolhiam espantadas, procurando abrigo entre os rasgos das
folhas outonais, que se dobravam sobre si mesma, exibindo uma arquitetura gestáltica, fazendo a luz da alvorada fluir
em espiral sobre uma gota de orvalho, metamorfoseando-se numa forma idêntica à
de uma luneta usada pelo astrônomo que observa a Estrela D’Alva;
canalizando deste modo, a mensagem trazida pelo alvorecer, revelando tudo aquilo
que havia abrolhado entre o nascer do dia e o Pôr-do-Sol.
Foi assim que recebi essa página em
branco como presente, para que eu
pudesse confeccionar o origami dessa existência
embalada pela alegria, delicadamente expressada no franco sorriso sem crivo, da
Nova Aurora que ali se apresentava.
Desse modo, despertei nesse abraço suave,
na doce brisa soprada dessa formosa Aurora,
para a seguir, caminhar de mãos dadas com a Liberdade,
enquanto era intimamente beijado pela Felicidade,
depois de ter sido coroado Rei, soberano
desse Reino, aonde Eu Sou Senhor de mim
mesmo.
Desse modo, o Arauto anuncia a Nova Roupa do Rei, confeccionada pela
pueril alegria, que expõe agora a verdade nua; enquanto, sem nenhum pudor; o
Rei dança nesse baile sem máscaras, celebrando a existência sem os filtros das
crenças e ideologias, perpetradas através dos dogmas e paradigmas; impostos por
meio do autoritarismo estabelecido em forma de lei; decretando assim, com Aurora a sua destra, que, o passado não
existe mais, e o futuro nunca existiu, abolindo dessa forma, os impostos taxados,
que eram exigidos pelo trânsito realizado entre as antigas memórias e o momento
do agora, acoplando à noite escura ao dia seguinte.
Dessa maneira, assentado no trono de
Rá[1],
com o brilho do sol a pino, ele pode agora avistar o fundo da sua caverna, através desse luminoso espelho solar,
que mostrava-se como portal cósmico, por meio do qual, o seu Eu Maior pode atravessar, retirando-se
enfim, da aludida caverna.
Esse labirinto de diáfanos, espelhando
cada relação, refletindo as imagens das pessoas existentes dentro da sua
própria pessoa, permitiu que ele finalmente, pudesse reconhecer as suas sombras,
se deparando enfim, com o girassol tatuado em seu peito, pela intensa Aurora de cada dia, que nos abraça hoje.
[1] Referência aos rastafáris ancestrais, os antigos sacerdotes egípcios que tinham o Sol como referência espiritual, comparando as suas tranças como equivalentes aos raios do astro-rei.

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