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quarta-feira, 6 de março de 2019

Capoeira, legado do Povo Negro



Foi aqui no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro que o negro se fez africano; pois antes disso, eles eram somente etnias vindas da costa do continente negro; eram genericamente bantos ou sudaneses. Mais especificamente, eram Ovimbundos, Ambundos, Ashantis, Nagôs, Fulanis, Fons, Mandingas, yorubás, Gêges, Minas, Haussás, etc. das regiões de Loanda, Benim, Guiné Bissau. Enfim, de toda a costa do continente.

Aqui no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, a única capital europeia fora da europa, uma vez transformada num caldeirão de todas essas culturas, se deu a síntese nascida na forja desse encontro dessas etnias. Dessa forma, a identidade negra começou a ser tecida, tornando-se enfim, numa Cultura Negra Unificada.

Capoeira, era o nome de um pássaro, que normalmente tinha o seu assovio imitado pelos praticantes de capoeira, mas também era o nome de um cesto carregado pelos negros no centro urbano da cidade do Rio; onde “ca”, em tupi-guarani, significa material vindo da mata; e “pu”, significa cesto. Ou seja, os carregadores de capu, cestos feitos com produtos da mata, eram os capueiros; assim como açougueiros, barbeiros, etc., mas mato ralo é também conhecido pelo nome de Capoeira.

Notamos então que a origem da Capoeira se deu nesse caldeirão de culturas; fato este que não aconteceu em nenhum outro lugar das Américas, para onde os negros foram traficados durante um dos maiores crimes da história, que foi a escravização. Nesse caldeirão, misturou-se o N’golo; ou dança da zebra vinda de Angola; a Bássula, vinda de Loanda; e o Umundinhu.

Pode-se afirmar que os Capoeiristas formavam uma protonação bantu no Rio de Janeiro do Século XIX; pois era uma força que enfrentava, afrontava e desafiava o Estado Nacional, mas que provocaram sua própria derrota a enfrentar seus iguais: os crioulos, negros nascidos no Brasil, e os pobres, brancos que se juntaram aos mulatos praticantes da capoeiragem.

Essa rivalidade tem seu início justamente na cisão entre negros africanos e negros mulatos. Os mulatos capoeiristas chamavam os africanos recém-chegados do continente de cabeça seca, por terem os mesmos a cabeça raspada; tal como é feito até hoje com qualquer prisioneiro nas cadeias de todo Brasil; esses “novatos”, no caso, ainda não eram capoeiras.

Dessa forma, quando os grupos rivais se encontravam, os Nagoas e Guaiamuns, nas Fortalezas de um ou de outro, que eram os bares que ficava na área aonde costumavam dominar e se reunir, o desafio era lançado e a luta tinha início, terminando com dois ou três mortos, um grande número de feridos e alguns presos.

Um ritual típico de desafio era um capoeirista chegar na fortaleza do outro, pedir um copo de vinho e outro de cachaça, jogar o vinho no chão e pisar em cima, para em seguida jogar a cachaça sobre o vinho pisado. Era uma afronta inadmissível, visto que o vinho representando a cor vermelha, cor dos Guaiamuns e que representava a sua divindade: Xangô, fosse pisado, e por cima dele se jogasse a cachaça, cor branca dos Nagoas e que representava também sua divindade: Oxalá.

O Estado percebeu que ia perder esse jogo, quando finalmente as duas maltas de capoeiristas pararam de se matar e se juntaram uma única vez. Desse modo, surgiu a lei de 1890. Dos vadios e capoeiras. Antes disso, a punição de quem era preso por capoeiragem era de cem chibatadas e uma estadia preso na ilha das cobras. Depois dessa lei, passou a ser o exílio em Fernando de Noronha. Foi dessa maneira que as maltas de capoeiras foram desfeitas.

Antes disso, o capoeirista nunca temia ser pego, pois, uma das principais missões de um capoeirista, para ser capoeirista de verdade, era pôr a polícia para correr, assim como fazia o afamado Manduca da Praia. Além do mais, grande parte dos soldados do exército eram capoeiristas, e quando viam outro capoeirista sendo preso, eles próprios enfrentavam a polícia junto com outros capoeiristas que se somavam a confusão e que não eram poucos no Rio imperial até o início do golpe militar republicano no Brasil.

Mesmo com o fim das maltas, a capoeira sobreviveu no Brasil republicano que foi tremendamente implacável para a sobrevivência dos negros e de seus descendentes, visto que a república buscava construir um Estado branco, pois pretendia fazer do Brasil uma França tropical na América Latina, tal como hoje deseja ser um Estados Unidos da América. 

Foi logo após a inauguração da Avenida Central, hoje chamada de Avenida Rio Branco, no Centro do Rio de Janeiro, que um magrinho chamado Ciríaco, um mulato que tinha o apelido de macaco na capoeira, enfrentou o campeão mundial de jiu-jitsu Sado Mako, conhecido como conde Koma; um homem que dava dois e meio do magrinho Ciríaco. Bastou uma meia lua para o japonês voar para fora do tatame e de volta para o Japão enquanto o capoeirista era levado nos ombros da multidão pela avenida Central do Rio de Janeiro.

Dessa forma, a capoeira chegou nos dias de hoje como jogo e como esporte, deixando um pouco de lado seu caráter marcial após a década de 1980; faço o registro aqui das disputas acirradas que até então existia entre os grupos de capoeira no Rio de Janeiro; visto que as firulas e floreios é que hoje dão o tom dessa capoeira contemporânea de pura exibição; tipo de capoeira essa que no Rio antigo, os caxinguelês, os meninos aprendizes, praticavam se exibindo frente as maltas que abriam caminho durante os desfiles militares, as procissões e o carnaval na cidade do Rio.

Dessa maneira, no Brasil, além de ser forjada uma identidade negra, se formou também aqui, o povo negro. Ou seja, tudo o que a república temia aconteceu: o único povo brasileiro hoje de fato, no Brasil, é o povo negro, já que os indígenas foram quase que totalmente dizimados e os imigrantes brancos que aqui vivem, reivindicam as suas devidas cidadanias europeias. Ironicamente, o negro, por ter sido rotulado e classificado propositalmente como afrodescendente, ainda não se reconhece legitimamente como povo.

Diante desse paradoxo, quem construiu este país, são os únicos que tem a legitimidade de serem considerados e reconhecidos como povo de fato. Desde sua padroeira do Brasil, passando pelo carnaval e pela capoeira, nossa cultura negra, como cultura peculiar e única, agora toma o seu caminho de volta ao continente negro, totalmente formada e graduada, nessa Diáspora terceira, onde está sendo levada através das rodas de Jongo, Tambor de Minas e de crioula, Maracatu e Capoeira. Eis o legado Negro deixado como presente a este Mundo cujo planeta se chamou um dia Etiópia.


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