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terça-feira, 14 de novembro de 2023

O Pensamento Exagerado É Oficina Do Diabo

Certa feita, há muitos e muitos tempos atrás, um casal de neandertal entediado com a ocupação de pichadores de cavernas, decidiram sair para espairecer um pouco, e foram caminhar pelas pradarias inexplorada do seu quintal. E assim, por onde passavam saudavam efusivamente os seus irmãos selvagens e silvícolas, sem distinção de espécies ou reinos.

Em dado momento, enquanto o macho se deteve para desenvolver um debate sobre a qualidade de paus e pedras, com um símio contrariado, a fêmea, mais à diante do caminho, se deparou com um imenso precipício a sua frente; era um abismo de profundezas tão abissais, que a fez soltar um grunhido de grande admiração. O seu grito de intensa surpresa ecoo através do espaço, trazendo de volta o estrondoso som por ela emitido; fato este que só fez somatizar o seu surto de admiração.

Ato contínuo, ela correu, trazendo o seu companheiro até a beira do dito precipício, alegando que havia encontrado ali, um poderoso Demônio[1]. O neandertal, por estar de mau-humor após a altercação com o simiano, deu um urro abissal, soltando os bichos em cima da companheira. Mas antes que ele tivesse a chance de completar a sua grotesca ação, o eco devolveu o som emitido por seu ronco, de maneira verdadeiramente assustadora.

Deste modo, paralisado pela surpresa, ele se deteve, olhando longamente para o vácuo; após se refazer do susto, ele correu para informar a sua descoberta ao símio descontente e a todos os outros selvagens e silvícolas, jurando ter o poder de conversar com um Demônio.

Assim, com o retorno do seu urro psicossomatizado, ele demostrou o poder da sua voz, ao lança-la em meio ao vácuo daquele tenebroso precipício; fato que serviu para comprovar a sua alegação, fazendo com que todos recuassem assustados, se retirando imediatamente do lugar, além de manter uma medrosa distância do assombrado local.

Desde aquele dia em que o neandertal se aventurou, desvendando o mistério do eco, ele decidiu que sabia mais do que todos os outros seres da natureza; foi assim que passou a categorizar a tudo e a todos, outorgando-se o título de ser pensante. Ou seja, de prosaico neandertal, ele se elevou a categoria de homo sapiens.

Dessa maneira, todos passaram a aguarda-lo voltar daquele Monte, dentro dos limites por ele demarcado, aguardando que ele trouxesse as leis provenientes do ser abissal. Somente a sua companheira sabia, que, era ele petrografava as ditas leis, se fazendo passar por Lúcifer.

Foi assim que muitos anos se passaram, enquanto ele, através de rituais secretos, realizou a formatura de inúmeros auxiliares, a fim de estender o seu poder, dominando todos os silvícolas das cavernas além das pradarias.

Como não existem planos de dominação que sejam perfeitos, certa feita, um grupo de auxiliares, com desmedida paixão pelo poder; ambição resultante do efeito colateral desenvolvida desse processo; tiveram a ousadia de encarar o abismo; e assim, desvendando o Mecanismo, passaram a dar nomes as entidades imaginárias ecoadas do próprio cerne. Foi assim que descobriram que o Monte Olimpo, não era monte e nem olimpo; era na verdade, um enorme buraco, de onde nasciam os deuses criados por suas próprias sombras.

Foi então que a companheira do ex-neandertal, cujo nome era Eva, observando toda aquela histeria coletiva instalada, provocar uma grande insanidade generalizada, decidiu jogar tudo no ventilador, expondo toda a verdade sobre aquele movimento de satã[2]. Foi assim que ambos foram expulsos do movimento organizado, cujos membros combinaram dividir os territórios, designando para cada região, um deus personalizado e devidamente patenteado, se apropriando assim, da anunciação e publicação dessa fantástica narrativa divina.

Desse modo, desde a pré-história, até os dias de hoje, o ser humano moderno continua a ouvir o eco emitido por suas sombras, ribombando freneticamente dentro do seu cérebro; análogo a uma bolinha do jogo de Pinball quicando desvairadamente; enquanto os seus representantes politicamente divinos, continuam a lhes educar, alimentar, cuidando da sua saúde e segurança, com as regras trazidas nas mensagens oficiais grafadas em seus livros sagrados, ditados diretamente do paraíso.

Deste modo, nunca mais se ouviu falar de Eva, nem das suas rogativas por um mundo fundamentado na sinceridade e na transparência; só se sabe, que, foi ela a responsável por ter apresentado o Exu Rei, conhecido como Lúcifer, para o seu casto companheiro, e por conta disso, foram expulsos da caverna; mas o abismo continua lá, e os homens continuam a pensar, que pensam.

Foi assim, que o pensamento se transformou num laboratório manicomial, aonde as questões emocionais extremamente adoecidas, se digladiam em nome do amor. Desse modo, as cavernas contemporâneas abrigam e cultivam no interior dos seus hospícios milhares de casulos de luz, transformados em lagartas, com cérebros reptilianos que só conseguem identificar o eco de sua abissal programação.

Dessa maneira, a percepção da energia do amor como atributo, agora classificado por níveis, foram compartimentados em escaninhos que os hierarquizam tal energia como amor de mãe, amor de pai, de amigos, companheiros, filhos, família, animais etc.


Assim sendo, o vozerio dos gurus, dos padres, pastores, professores, consortes e pais, ecoando no abismo do cérebro reptiliano, desse mesmo ser que se diz humano, vem provocando um contínuo ruído psicológico, que o impede de ouvir a própria voz; evitando que ele tenha não tenha chance de fazer uso do discernimento, a fim de questionar essas mesmas vozes de comando, que lhe perpetraram o gatilho de um guiado pela lógica conclusiva, análogo a inteligência de colmeia, que reage somente ao comando rainha.

Portanto, a mente vem se comportando exatamente como aquele agitado coelho, que está sempre atrasado, correndo acelerado através desse Mundo de Alice, que se transformou o cérebro humano, aonde Dante desceu para nutrir um aprofundado diálogo com Eva, ponderando acerca dos arquétipos e mitos desse encefálico abismo, que lá no fundo promiscuamente se prostituem e se dopam, fugindo da autoconsciência.  



[1] Etimologicamente usado para designar um Ser de luz.

[2] Etimologicamente significa Adversário. 

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