Certa feita, há muitos e
muitos tempos atrás, um casal de neandertal
entediado com a ocupação de pichadores de cavernas, decidiram sair para
espairecer um pouco, e foram caminhar pelas pradarias inexplorada do seu
quintal. E assim, por onde passavam saudavam efusivamente os seus irmãos
selvagens e silvícolas, sem distinção de espécies ou reinos.
Em dado momento, enquanto o
macho se deteve para desenvolver um debate sobre a qualidade de paus e pedras,
com um símio contrariado, a fêmea, mais à diante do caminho, se deparou com um
imenso precipício a sua frente; era um abismo de profundezas tão abissais, que
a fez soltar um grunhido de grande admiração. O seu grito de intensa surpresa
ecoo através do espaço, trazendo de volta o estrondoso som por ela emitido;
fato este que só fez somatizar o seu surto de admiração.
Ato contínuo, ela correu, trazendo
o seu companheiro até a beira do dito precipício, alegando que havia encontrado
ali, um poderoso Demônio[1]. O neandertal, por estar
de mau-humor após a altercação com o simiano, deu um urro abissal, soltando os
bichos em cima da companheira. Mas antes que ele tivesse a chance de completar a
sua grotesca ação, o eco devolveu o som emitido por seu ronco, de maneira verdadeiramente
assustadora.
Deste modo, paralisado pela
surpresa, ele se deteve, olhando longamente para o vácuo; após se refazer do
susto, ele correu para informar a sua descoberta ao símio descontente e a todos
os outros selvagens e silvícolas, jurando ter o poder de conversar com um Demônio.
Assim, com o retorno do seu
urro psicossomatizado, ele demostrou o poder da sua voz, ao lança-la em meio ao
vácuo daquele tenebroso precipício; fato que serviu para comprovar a sua
alegação, fazendo com que todos recuassem assustados, se retirando imediatamente
do lugar, além de manter uma medrosa distância do assombrado local.
Desde aquele dia em que o
neandertal se aventurou, desvendando o mistério do eco, ele decidiu que sabia
mais do que todos os outros seres da natureza; foi assim que passou a categorizar
a tudo e a todos, outorgando-se o título de ser pensante. Ou seja, de prosaico neandertal,
ele se elevou a categoria de homo sapiens.
Dessa maneira, todos passaram
a aguarda-lo voltar daquele Monte,
dentro dos limites por ele demarcado, aguardando que ele trouxesse as leis
provenientes do ser abissal. Somente a sua companheira sabia, que, era ele
petrografava as ditas leis, se fazendo passar por Lúcifer.
Foi assim que muitos anos
se passaram, enquanto ele, através de rituais secretos, realizou a formatura de
inúmeros auxiliares, a fim de estender o seu poder, dominando todos os
silvícolas das cavernas além das pradarias.
Como não existem planos de
dominação que sejam perfeitos, certa feita, um grupo de auxiliares, com desmedida
paixão pelo poder; ambição resultante do efeito colateral desenvolvida desse
processo; tiveram a ousadia de encarar o abismo; e assim, desvendando o Mecanismo, passaram a dar nomes as
entidades imaginárias ecoadas do próprio cerne. Foi assim que descobriram que o
Monte Olimpo, não era monte e nem olimpo; era na verdade, um enorme
buraco, de onde nasciam os deuses criados por suas próprias sombras.
Foi então que a companheira
do ex-neandertal, cujo nome era Eva,
observando toda aquela histeria coletiva instalada, provocar uma grande
insanidade generalizada, decidiu jogar tudo no ventilador, expondo toda a
verdade sobre aquele movimento de satã[2]. Foi assim que ambos foram
expulsos do movimento organizado, cujos membros combinaram dividir os
territórios, designando para cada região, um deus personalizado e devidamente
patenteado, se apropriando assim, da anunciação e publicação dessa fantástica narrativa
divina.
Desse modo, desde a
pré-história, até os dias de hoje, o ser humano moderno continua a ouvir o eco
emitido por suas sombras, ribombando freneticamente dentro do seu cérebro;
análogo a uma bolinha do jogo de Pinball
quicando desvairadamente; enquanto os seus representantes politicamente divinos,
continuam a lhes educar, alimentar, cuidando da sua saúde e segurança, com as
regras trazidas nas mensagens oficiais grafadas em seus livros sagrados, ditados
diretamente do paraíso.
Deste modo, nunca mais se
ouviu falar de Eva, nem das suas
rogativas por um mundo fundamentado na sinceridade e na transparência; só se sabe,
que, foi ela a responsável por ter apresentado o Exu Rei, conhecido como Lúcifer,
para o seu casto companheiro, e por conta disso, foram expulsos da caverna; mas
o abismo continua lá, e os homens continuam a pensar, que pensam.
Foi assim, que o pensamento
se transformou num laboratório manicomial, aonde as questões emocionais
extremamente adoecidas, se digladiam em nome do amor. Desse modo, as cavernas
contemporâneas abrigam e cultivam no interior dos seus hospícios milhares de casulos
de luz, transformados em lagartas, com cérebros reptilianos que só conseguem identificar
o eco de sua abissal programação.
Dessa maneira, a percepção da
energia do amor como atributo, agora classificado por níveis, foram compartimentados
em escaninhos que os hierarquizam tal energia como amor de mãe, amor de pai, de
amigos, companheiros, filhos, família, animais etc.
Portanto, a mente vem se
comportando exatamente como aquele agitado coelho, que está sempre atrasado,
correndo acelerado através desse Mundo de
Alice, que se transformou o cérebro humano, aonde Dante desceu para nutrir um aprofundado diálogo com Eva, ponderando acerca dos arquétipos e
mitos desse encefálico abismo, que lá no fundo promiscuamente se prostituem e
se dopam, fugindo da autoconsciência.
[2] Etimologicamente significa Adversário.
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