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quinta-feira, 31 de maio de 2018

Tratado Geral Sobre a Crise Nacional do Petróleo e o Falso Empoderamento Racial


O óleo que queima na lata, iluminando a saga ingrata de um negrinho sem teto, é o mesmo óleo arrancado da pele preta pela aguda[1] dor da chibata;

A luz da candeia que ilumina o caro talher de prata num banquete antropofágico escravocrata, e que reflete iluminando a trilha da mata que dá passagem ao capitão-do-mato, é a mesma (luz) produzida pelo óleo arrancado da pele preta pela aguda dor da chibata;

A luz emitida pela tela da TV que não me vê e ignora você, é a mesma (luz) de prata produzida pelo óleo arrancado da pele preta pela aguda dor da chibata;

O luz que produz o reflexo da sombra negra da ginga do capoeira que espreita sobre a luz faceira da lua cheia, é a mesma (luz) produzida pelo óleo arrancado da pele preta pela aguda dor da chibata;

A luz que produz a sombra da cruz sobre a ribalta, alimentando a mente de qualquer crente carente de luz própria, é a mesma (luz) produzida pelo óleo arrancado da pele preta pela aguda dor da chibata;

A luz da Cultura Negra que produziu toda a riqueza das famílias tradicionais e dos descendentes de uma europoide inglesa, agora ilumina o sangue que jorra da alma retalhada pela chibata desde Goré[2], vinda através do Grande Calunga[3] até chegar ao planalto Central; Sangue arrancado da pele preta pela aguda dor dessa chibata que, alcançando o coração dilacerou-o; e desse horrendo rasgo verteram lágrimas que temperaram os oceanos do mundo inteiro, formando um laço de sangue nunca d’antes visto, e as gerações de pele preta, separadas pela aguda dor dessa chibata, ele novamente as uniu.

Hoje, a chibata permanece na língua ferina do lugar de fala eurocentrada, e a mesma luz é produzida pelo óleo arrancado da pele preta na aguda dor dessa chibata se faz presente ao ouvir da canção  produzida pelos tambores do além-mar, trazidos na alma através do Grande Calunga, enquanto a chibata impiedosamente vai cortando a língua e, a cada toque desse tambor, decepando a alma brancopofágica do impostor, enquanto a luz desse óleo ilumina, curando o espírito alquebrado pela aguda dor provocada chibata do inquisidor.



[1] Ver Agudá.
[2] Entreposto comercial de escravizados.
[3] Oceano Atlântico.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

A fórmula da Emoção Estética na Construção do Super Herói e do Vilão


Existe uma dupla relação entre expectador e o ato artístico, quando esse expectador se derrama em lágrimas, acreditando na realidade da cena. O ato desperta nele a mesma emoção que a vida, mesmo sabendo que se trata de uma encenação. Portanto, isso cria um processo que suscita o contraditório, do momento em que essa ficção passa a provocar sentimentos de tristeza ou alegria, pois bastaria lembrar que é uma cena inventada e ensaiada para que tais sentimentos cessassem.

Se o expectador tivesse em mente que aquela cena se trata de uma mera montagem cinematográfica, apenas uma ficção, as emoções similares à realidade da vida deixariam de fazer sentido.  Mas, certamente por esse expectador não distinguir entre realidade e a ficção, entre o que assiste na tela e o que vê na vida real, e diante do choro, esquece que se trata de uma ficção, caso contrário ele nunca chegaria a sentir emoções especificamente artísticas.

Portanto, a arte exige uma emoção dupla: a de esquecer e a de lembrar de que tudo aquilo se trata de uma ficção. Só mesmo através da arte poderia ser possível se escandalizar ou se horrorizar diante de um assassinato e ao mesmo tempo admirar o desempenho do referido ator.

Essa técnica usada na Arte Estética foi incorporada nas pautas da programação dos meios de informação e comunicação, indo para além dos filmes e novelas, seriados e folhetins; se incorporando também ao sensacionalismo jornalístico impregnando todo o roteiro meticulosamente preparado para mexer com as emoções do incauto cidadão, visto que a televisão não pede licença e nem permissão para invadir os pensamentos e mexer com as emoções, formando, dessa maneira, apaixonadas opiniões formatam a realidade da sociedade e da nação. Visto que é a partir da produção dessa emoção que o expectador tem seu subjetivo controlado, sendo perfeitamente possível induzir e controlar suas ações e atitudes frente ao cenário preparado para que assim ele proceda.

Exatamente como o cão de Pavlov ou a cobaia de Skine, o expectador reproduz o comportamento previsto, induzido pelas propagandas e notícias que compõem o roteiro da pauta acordada pela plutocracia oligárquica nacional e internacional, a fim de manter o sistema por si só. Dessa maneira, através dos algorítimos, a ficção se torna realidade, do momento em que ambas semanticamente se interpenetram, num processo onde os limites interseccionais são derrubados.

Diante dessa produção cultural e produção de conhecimento efetivamente eurocentrados, a desumanização racial padronizada, leva a banalização da violência categórica direcionada exclusiva aqueles que são estigmatizados e escravizados pelas correntes do patriarcalismo, feminismo e meritocratismo, como símbolos de sustento do sistema capital. Símbolos esses que já se tornaram arquétipos do constructo social produzidos pela cultura de nossa colônia contemporânea. Tais símbolos dão significância a personagens ficcionais e/ou reais, encontrados em novelas e manchetes de jornais, das propagandas aos pronunciamentos oficiais.

Foi dessa forma que o sentimento de medo encorpou no cidadão através dos jornais e televisão, suscitando no mesmo, a raiva e a carência do paternalismo que implora pelo herói do filme exibido pelo noticiário onde o pronunciamento do político da oposição contrasta com o da situação, completando a trama desse roteiro que tem seu grand finale no espetáculo do sufrágio universal obrigatório.

É dessa maneira que são produzidos os capítulos roteirizados por essa grande empresa cultural de padrão monorracial, que habilmente usam essa prosaica e inocente Fórmula da Emoção Estética, para modificar de maneira eficaz a forma pensamento do neófito, a partir da inserção de motores que produzem emoções, agindo de forma similar aos psicotrópicos ao criar uma perfeita dependência servil e obediência civil.

Destarte, o indivíduo vive seu duplipensar, imerso nesse mar de assimilação, surfando intrepidamente sobre as ondas de verdades superficiais pré e pós-fabricadas, onde seu ódio se tornou seletivo e o seu amor objetificado entre o clarão do céu azul e o sangrar desse oceano vermelho que miraculosamente  se abriu para dar passagem ao infame comércio.


segunda-feira, 14 de maio de 2018

O Negro Drama e a Escravização Contemporânea

As imagens aqui exibidas mostram a ilustração da glândula pineal em três momentos, e implicitamente mostra a sua função e a sua forma de atuação no indivíduo humano. 

A segunda imagem, exibe o corte de um cérebro humano que serviu de modelo para ambas às ilustrações. É importante ressaltar que é nessa glândula que jaz o 24º cromossomo[1] humano que ainda não foi detectado e nem registrada pela caixa de verdade da ciência contemporânea, já que se trata de um par de cromossomos de natureza quântica.

A primeira imagem de origem egípcia, confirma que o Homem pode ser um Deus, ou pode ser Deus; imagem com mais de 5 mil anos, comparando a pineal com o olho de Hórus; enquanto a terceira imagem, idealizada por Michelangelo, mostra essa versão com o nome de “A criação do Homem[2]”, mostrando Deus como criador do homem, mas que de forma paradoxal e subliminar, coloca o homem como produtor e criador da imagem e da ideia de Deus.

Nesse caso, ao contrário do caso egípcio, essa pintura vem ilustrando que foi o homem criou e patenteou o Deus europeu, do momento em que se apropriou da narrativa da história de Hórus e a encorpou ao seu livro sagrado, de acordo com as conveniências do império romano, consolidando desse modo, seus privilégios e desejos como vontades divinas, para a completa satisfação de Constantino e de seus patrícios da elite romana.

Desde então, todos os personagens sagrados com que os etíopes cristianizaram os europeus, foram ganhando maquiagens e indumentárias ocidentais, sendo assim sacralizados, vestindo de vez o casaco branco europeu do absolutismo racial. Dessa forma, todas narrativas que identificava a África e a sua filosofia como espaço geográfico do cenário bíblico, foram devidamente diluídas e europeificadas através da arte, da história e da cultura padronizada pela violência da colonização.

Portanto, atualmente é notório que um negro evangélico, que se contenta em ter seu pastor como leitor, tradutor e explicador do seu livro sagrado, se recuse ao estudo de sua própria cultura, de sua história e da geografia, estigmatizando tudo que se encontre fora dessa caixa de verdades manufaturadas pelo ocidente. Essa caixa das ciências destinadas às verdades históricas das religiões se tornaram também as caixas da política e da cultura de massa, que são expostas nas vitrines midiáticas diuturnamente a fim de nos conduzir as certezas e as convicções próprias de um povo que tem com prioridade única, a preocupação com individualidade do seu futuro no além.

Essa a forma mais eficiente de colonização jamais vista em toda a história da humanidade; um processo avassalador, que leva o escravizado a defender sua própria escravização, fazendo dele mesmo, a arma de controle mais eficiente e perigosa usada contra o próprio até então. Por esse motivo, qualquer tomada de consciência é comprovadamente um processo não linear extremamente doloroso.

Olhar para dentro de si, como primeiro passo, já é um processo demasiadamente demorado; visto que trabalhar com o turbilhão de sentimentos advindo desse primeiro olhar até o momento de enxergar, requer um fortalecimento e amparo desse ser que, repentinamente, sai das profundezas dessa histórica caverna, preparada como sendo seu lar, por um anfitrião chamado Platão, que pôs o seu cérebro no lugar do coração, transformando a lógica numa disciplina de sofrimento e instrumento de exclusão.






[1] Todos os seres vivos possuem 24 cromossomos, com exceção do homem, que possui 23 cromossomos; fato este que tem intrigado profundamente os cientistas e pesquisadores da área.
[2] Pintura exibida na capela cistina.

sábado, 12 de maio de 2018

Brazil: O Treze de Maio e a Reparação.

Os jornais dos tempos coloniais expunham em seus classificados o próspero negócio de compra, venda e aluguel de pretos sequestrados, traficados e escravizados provenientes do continente Africano, além das fotos desenhadas de negros fugidos, apresentavam a polpuda recompensa para quem capturasse os procurados, que seriam posteriormente supliciados por ousarem se considerar humanos, e por sua liberdade assim aspirar.

Hoje, após fixar a festiva data do 13 de maio, dia e mês do aniversário de D. João; esse senhor da escravidão; como um marco no calendário cínico escolar; os telejornais, seguindo os Tempos Modernos, não mais desenham os negros fugidos; agora eles mostram ao vivo e a cores pela televisão e todas as mídias faladas e escritas, para que possamos comemorar finalmente o 14 de maio como o dia Nacional do Desemprego desse negro que nem camelô ou tabaréu tem a permissão de ser, já que são proibidos pelos atuais senhores feudais, esses donos da Casagrande contemporânea e chefes das famílias tradicionais, que hoje repartem as capitanias hereditárias nacionais.

Treze de maio foi o dia da Revolta Das Carrancas, no Estado das Gerais, de onde nossas Minas escoavam para enricar Portugal. Esse evento como data nacional não consta no atual calendário colonial. Calendário este, que endeusa esse assassino genocida chamado Caxias, que nomeiam ruas, bairros e cidades, assim como os cruéis bandeirantes, os arrogantes duques e duquesas, marqueses e princesas que hoje povoam os sonhos das crianças pretas adestradas pelos livros didáticos estáticos e pela mídia racista e fascista, comandadas pelas famílias tradicionais das capitanias hereditárias atuais.

Treze de maio deixou de ser o dia da Revolta em que se almejou a liberdade de um povo, para ser transformado no dia de comemoração do aniversário desse algoz que acorrentou a todos nós no pelourinho geográfico da dor, do desdém, do holocausto e que ainda nos faz refém, fazendo com que o escravizado mental permita que seu irmão seja tratado como animal pela força nacional, banalizando desse modo, essa semente do mal plantada na imensidão daquele canavial que financiou nossos Tempos Modernos tirando a europa da idade das trevas, e nos colocando numa permanente inquisição, onde a Polícia Militar, cumpre a risca o seu papel de proteger a elite brasileira e estrangeira dessa ameaçadora massa negra desempregada, que produziu, e ainda produz toda a riqueza dos ricos eurodescendentes que sempre comandaram os destinos da nação brasileira desde os tempos da invasão da Terra Brasilis.

A Reparação aos Descendentes dos Povos Africanos Escravizados no Brasil, que ainda hoje sofrem as consequências desse crime histórico, é a única alternativa que atualmente se apresenta como viável para transformar esse país numa nação de fato, e não uma nação uni-étnica como sempre foi e tem sido o Brasil até o presente momento.

Essa nação que foi parida pela violência colonial, transformando o Filho da Pátria em marginal, excluindo a quem não se mostrava europeu e adestrando o negropeu como o lacaio que vai proteger seus interesses oligárquicos através da violência, patenteou o cidadão de bem como matador de qualquer Zé Ninguém, sem teto e sem chão; todo aquele alforriado que procura ganhar o seu pão de cada dia por todos os meios necessários, desde que concederam exclusivamente as cotas de trabalho e de empregos aos imigrantes europeus em solo tupiniquim.

Nos dias treze de maio, é visível a minha Carranca de Revolta estampada na face preta de quem almeja pela liberdade de verdade, em vez continuar a escutar os prolixos, gongóricos e pomposos discursos retóricos proferidos do alto dos púlpitos das assembleias, religiosas ou políticas, que esconde a face belicosa de quem golpeia e mata o povo que construiu essa nação.

Treze de Maio não, Reparação Já...!!




quinta-feira, 3 de maio de 2018

A Caixa de Crença da Ciência e da História Como Formatadora do Inconsciente Coletivo Difusor da Cultura de Massa.

Todos nós somos espelhos, mesmo que estejamos no limbo, de olhos fechados e de costas; Porque o Espelho, assim como a alma, é diatopicamente um fractal; uma geometria espiral que reproduz infinitamente a si mesma, nesse evento quântico rotulado como um clássico Big Bang pela ciência encaixotada, mas que realmente se trata de um evento cronotrópico e entropico sem tempo ou espaço linear.

Falo de um tempo que não é passado, presente ou futuro; evento este suscitado pelo reflexo de uma ação decorrente do pensamento que se soma o coração à mente, pulsantes num ritmo único, de uma forma elegante e madura. Esse refletir de coração e mente num contexto fractal, faz com que a caixa da ciência e da história se tornem ínfima para esse átimo infinito, pleno de tudo o que é.

Esse desencaixotar a mente e o coração é um processo que efetivamente humaniza o Frankstein em que nos transformaram ao mesmo tempo em que faz a vida surgir plena nesse corpo zumbi que nos paralisa. Isso fará categoricamente enxergar a tudo o que olharmos; escutar além da simples audição; e também sentir plenamente o que for tocado. Esse processo só se dará efetivamente quando sairmos desse armário metafísico, cuja função tem sido a mesma função de um caixão horizontal, que nos tem enterrado em escritórios, igrejas, quartéis, escolas e universidades; caixões estes que tem orgulhosamente ornamentado a estética desse imenso cemitério urbano em que se transformou essa caótica Urbi.

Essas caixas que delimitam, limitam e imobilizam metafisicamente as energias potenciais que habitam o ser humano, evitam que possamos sincronizar o nosso conviver com as forças da natureza que nos cerca, e faz parte do nosso ser, nos impedindo de entrar no ritmo desse universo que equilibra-se em si e por si próprio. Só a mansidão de uma alma em festa seria capaz de quebrar as tábuas metafísicas desse armário encaixotador de vidas e de possibilidades, nos desterrando finalmente dessa cidade tumbeiro; é esse o exercício de reconexão com o que já foi. Ou seja, é o contato com o que se encontra fora dessa caixa, que permitirá compreender o que somos, fazendo com que a escuridão que existe no interior da mesma caixa; essa escuridão que assombram os discursos e engessam as ações, definitivamente se dissipem.

Essas mesmas madeiras que constituem as caixas formadoras desse armário metafísico que capsulam os espíritos, são as madeiras que constituem as cruzes pedagógicas que norteiam calvários, semeiam o medo e ornamentam as sepulturas dos batalhões de redivivos aculturados e assimilados.

A luz, que penetra gradativamente pelas frestas desse armário, provoca a rebeldia ao aprendizado do ódio seletivo e o desaprender o temor do desconhecido. O madeiro dessa cruz e desse armário metafísico, uma vez rompidos, transformam o tempo e o espaço mental e físico, em arquivos de memórias passadas e memórias futuras, transmutando dessa forma, o indivíduo finito, num ser multidimensional.

Dessa forma, os discursos formadores de opiniões destinadas ao controle da massa populacional, uma vez iluminados pela lógica, acabam perdendo sua força e sentido. Assim, as entrelinhas do discurso comprometido com o poder constituído pelo egocentrismo, são expostas, trazendo a lume o que era ocultado pelas sombras das paredes dessas caixas-caixões que projetam as perspectivas da Casagrande sobre os arranha-céus dessa Cidade-Tumbeiro.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

A Filosofia Africana e o Princípio De Estranhar o Comum e Tornar Comum o Que é Estranho...

Há muito mais entre o Ordinário e o Extraordinário do que imagina a nossa vã filosofia, como sempre tem mostrado, de forma prosaica, qualquer Arco-da-Velha que se mostra após as tempestades, mesmo sem exibir seu começo ou o seu fim. O exercício de olhar e ver, divisando um e outro, já é em si, um processo Extraordinário. Nesse processo cabe a analogia daquele peixe que mergulha em pleno ar, e percebe nesse deliberado ato, a existência de um novo e desconhecido mundo. Dessa forma, o fantástico, o maravilhoso e os milagres saem do terreno exótico para o mar do prosaico.

As miríades desse processo, com seus incontáveis e luminosos tons expostos pelo ar, podem até sufocar o desavisado peixe urbano que nem percebe a mudança de forma do oxigênio, tal como o processo da água que se transforma em gelo; mas é um processo natural, que segue seu curso da mesma forma que o rio segue seu caminho em direção ao mar; diferente a cada momento, mas que se mostra simultaneamente de forma coletiva e individual. 

Sair da superfície profunda dessa escuridão da alma, para perceber além do Ordinário senso da vala comum a qual o indivíduo diuturnamente é submetido pelos pseudos controladores dos destinos alheios, é um processo simplesmente Extraordinário; e esse processo se resume em perceber que ter Força é diferente de possuir Poder. Ou seja, a mão que possui o Controle não são as mesmas mãos que possuem as Pilhas; e é nesse hiato que o Ying e Yang se harmonizam com a canção cósmica do universo. Dessa forma, a simplicidade se torna tudo o que há de mais Extraordinário e belo nesse incrível processo.

Portanto, há muito mais entre o Extraordinário e o Ordinário que imagina essa nossa vã filosofia que necessita deixar toda a sua pesada carga, durante a travessia por debaixo desse Arco-da-velha que aponta por sobre esse rio de coisas que correm em direção ao mar da vida, e levar somente a fraterna simplicidade como óbolo para o irmão Carontes.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Carta Aberta à Branquitude


Cara pessoa branca, caso deixasse de escrever esta carta, estaria lhe concedendo a carta branca para continuar a sua saga de desumanizar o outro que não combina com o seu querer eurocentrado; por esse motivo, essa carta não está em branco.

Certamente você deve desconhecer que entre a escravização dos Povos Negros e a atual existência dos sem tetos e da abundante mendicância pelas ruas da cidade, existe uma relação estreita que se encontra justamente no processo da banalização desse mal apresentado em ambos os fatos; episódios estes que foram e são socialmente aceitos por pessoas de bem[1] como você.

As vezes vejo docentes, discentes e  pessoas de bem que parecem se surpreende com a passividade de outrora,  daquelas pessoas que foram sequestradas em África, diante da crueldade  do cativeiro do regime escravagista, todas as vezes que se folheiam, passando as vistas por revistas e pelas comprometidas páginas dos livros didáticos, que propagandeavam, e ainda propagandeiam, referindo-se a escravização das pessoas negras como se fosse um mero fato acontecido num passado distante na história da humanidade.

São esses mesmos docentes, discentes e pessoas de bem que hoje tentam evitar olhar diretamente nos olhos dos pedintes e dos maltrapilhos que lhes encaram com aquele olhar profundo que imputa um misto de remorso e de repulsa; o mesmo olhar que outrora mostrava os escravizados supliciados à sociedade do Brazil colônia medieval da citada época.

Esse sentimento contraditório suscitado, jacente de uma suposta empatia que camufla um profundo desdém; contradição nascida em meio a um surto momentâneo de humanidade imiscuída à pseudo intelectualidade egocentrada, mostra-se como um escatológico resultado fruto de nosso Medieval Tempo Moderno[2], invariavelmente advindo de uma inteligência alijada por completo da sabedoria; que desnuda o que há por detrás das máscaras sociais. Tal paradoxo expõe impiedosamente a banalização desse mal[3] de cada dia que nos dói hoje, de forma simplesmente escandalosa, indolente, arrogante e indecente.

Mas este fato enunciado que é exaustivamente anunciado, além de denunciado onde quer que se vá; de tão banalizado; já foi devidamente assimilado e introjetado, de modo a fazer parte definitiva da paisagem que compõe essa natureza morta que fora perversamente pintada com o vermelho que copiosamente jorra às claras da carne preta, em todas às escuras esquinas da vida desse planeta, além dos noticiários matinais, dos convescotes[4] semanais, na mesa posta para um simples café de todas as manhãs, até as frugais conversas em um pomposo jantar de gala servido na Casagrande que ladeia as atuais Senzalas.

A atração principal desse circo de horrores, erigido pela inteligência colonial da europa medieval, tinha como objetivo incutir o hábito de apreciar e deliciosamente degustar o sofrimento do outro; sofrimento este que vinha talhado com as fortes cores do vermelho e do preto[5]; cores que especialmente provocavam e provocam a adrenalina, que fazia, e ainda faz irromper um rio de dopamina; é como assistir os segundos que antecedem ao final da vida de uma joaninha indefesa, que esvoaça por sobre o espinho de uma perfumosa rosa, num lindo dia de sol, ante seu voraz e cruel predador.  

A visão dessa cena de horror parece fazer levar a branquitude valorizar sua própria vida; e para que ela possa se sentir agradecida por esta mesma vida, que por hora ainda lhe pertence, a branquitude vê a necessidade de possuir a vida de cor alheia, para poder repetir ad infinitun esse mórbido espetáculo que acaba se tornando um círculo vicioso. E como espectador dependente alquímico que de fato se tornou; como qualquer outra espécie de dependência, ela, a branquitude necessita de tratamento. Para iniciar esse tratamento, o viciado precisa dar o primeiro passo, que é o de identificar tal anomalia; e os passos seguintes, que seria o de arrependimento, culpabilidade e sucessivamente o de procurar pelo antídoto que o leve a cura, até passar definitivamente, passo-a-passo, a poder combater tal doença um dia de cada vez.

Mas tal processo, em cada uma de suas etapas, é algo absoluta e profundamente doloroso, além de envolver uma complexidade do tamanho de sua simplicidade; por isso, nem todos desejam a cura, visto que a saída do vício implicaria em deixar sua zona de conforto. Nesse caso, lhe parece bem mais convidativo, conveniente e atraente, além de satisfazer seus caprichos a cada sessão que proporcionada pelo horário nobre que o representa com todas as pompas e circunstâncias, permanecer onde suas taras e fantasias possam lhe servir de anestésico a tal grotesca realidade sensual.

Talvez você não esteja sabendo, cara pessoa branca, que esse ato terrorista antropofágico de assimilar a força do adversário devorando seu medo até a morte, foi inaugurado pelo egocentrismo, depois de creditada e apresentada como uma prática de invenção selvícola, para que pudesse justificar uma civilidade europoide pretensamente evoluída; sendo rotulada como tal, com o intuito de amenizar as funestas consequências quando, se por acaso, viesse o mesmo opressor a olhar no fundo dos olhos do supliciado e a culpa repentinamente lhe assaltasse o ser. 

Dessa maneira, a mesma ação que outrora fora direcionada exclusivamente contra o corpo preto, hoje evoluiu, sendo também dirigida para além da carne: para o nível psicológico, filosófico e espiritual; sendo meticulosamente adornada com uma nova, vistosa e difícil nomenclatura, depois de intelectualizada e inserida pelas bulas Papais[6], médicas e científicas[1] no glossário do bem viver do cidadão de bens.

Dessa forma, banaliza-se o mal, mesmo que a razão tente em vão amenizar a dor que se faz presente no fundo do coração; dor essa, que insiste em provocar, e até mesmo expor, o resquício dessa renitente emoção que lhes aponta no cerne do ser. Mesmo que seres portentosos como você, como portador da razão eurocêntrica tente com sua justificativa manufaturada e fabricada por uma inteligência desprovida de sabedoria, eliminar a parte emotiva que ainda lhes fazem pulsar a alma esterilizada, fazendo-os lembrar do resquício de sua humanidade. 

É notório perceber que é para evitar essa dolorosa lembrança, que vocês contraditoriamente se juntem a seus iguais; contraditório porque a coletividade é justamente uma qualidade humana o opressor abomina, tem ojeriza e procuram peremptoriamente eliminar, a partir da prática do genocídio há muito perpetrado contra os povos que produziram tal princípio a fim de eliminar o bem pela raiz.

Enfim, foi neste cenário rico de pedintes, pleno de desgraças e abundante de desgraçados, como perfeito solo fértil, com a potencialidade extrema de se plantar e de se colher humanidades, que o eurocentrismo semeou a competição e a meritocracia como modus vivendi, a fim de manter a ecologia do empreendedorismo predador racializado, através da banalização desse mal de cada dia que nos dói hoje, ao colorir o homem bom e o homem ruim, qualificando e tipificando seus vícios e virtudes, além de rotular embalando-os em recipientes contrários, transformando assim, antídoto em veneno, além de criar regras, leis e tratados de consumo para a comercialização desse novo produto produzido pela famigerada indústria moderna desse infame mercado capitalista. 

Esse com esse infame processo que se transformou, o que outrora era ser humano, em ser consumidor, e o que era Povo transmutou-se num festivo público sempre presente nas arquibancadas desse circo montado para exibir esse novo filme antigo, mostrando a luta do homem bom contra o homem ruim, numa eterna batalha entre o Bem e o Mal. Batalha esta preparada como atração especial nesse infindável novelo humano, cujo tema exibe personagens que vampirescamente se alimentam da humanidade do incauto espectador que se imagina além da tela dessa TV que ele não vê, graças ao Grande Irmão e a sua insuperável tecnologia produtora de sentimentos perdidos nas esquinas Eldoradas dessa colônia muito amada chamada Brazil, que é formado por indústrias fascistas e poderes nazista mad in europa, exibindo a bandeira branca da paz sangrenta enquanto rasgam a bandeira pirata que exibe desavergonhadamente a caveira como Raio X da história humana desumanizada.

Dessa forma, o peso da pele branca foi colocado no prato de uma balança ao lado de um pelourinho com mais de 500 anos de sangue e carne preta triturada, misturada a infindáveis litros das lágrimas que temperaram os oceanos do mundo, enquanto os esvoaçantes cabelos loiros e os olhos azuis observavam os ossos moídos das crianças emasculadas e dos eunucos fantoches, essa balança da justiça branca se refestelou numa confortável rede, movimentando-se ao sabor das batidas do relógio da fábrica que alterna os intervalos de descanso, entre o trabalho servil e a ignorância senil da mão que segura o martelo e a foice; é nesse balançar infinito, marcado pelo intervalo das cabeças negras que rolam ante a afiada lâmina da guilhotina do carrasco e do corpo preto que sangra ao sabor do chicote do feitor, que este hiato mostra que tem a cor branca da passividade daquele opressor que se exime através do silêncio; desse silêncio nefasto que faz a vida passar em branco suave, observando as fofas nuvens brancas, de um futuro paraíso branco divino, com reluzentes deuses e anjos brancos. Ou seja, ser branco significa passar confortavelmente a vida em branco.

Dessa maneira, torna-se notório que a cor da pele traz um peso referente ao seu passado, seja como supliciado ou como algoz, pois tudo que foi vivido, e o que está sendo vivenciado pelo indivíduo enquanto sujeito, decorre desse mosaico racial divido perversamente, montado pelos privilégios e pelas desditas ditadas pela Necropolítica desse estado de arte conferido pela indolência e pela arrogância da colonização. É desse modo que, apesar da existência do racismo, tornou-se impossível detectar a existência do racista, já que a cor de sua pele lhe confere os privilégios da lei, mas nunca os rigores da justiça.

A forma de sobrevivência ditada através da violência trazida pela pseudo alforria da falsa abolição, violência esta que vem de ambos os lados, fez com que essa mesma violência quando promovida pelo grupo que tem a cor do opressor sejam eximidas de quaisquer responsabilidades. Visto ser este um crime que se iniciou com o sequestro dos Povos Africanos, há mais de quinhentos anos, percebemos que a violência do oprimido, após legalmente criminalizada pela abolição, fez com que qualquer reação promovida pelos afrodescendentes contra esse crime da história fosse devidamente enquadrado pela lei de um congresso Uni-étnico.

Destarte, a banalização desse mal, fazendo parte do senso comum manipulado pela cultura de massa, transformou a população preta numa massa negra matável para a qual é dirigido o desejo de morte dessa sociedade que se tornou uma aberração cognitiva, após ter o cérebro ferido pela mídia fascista; assim como todos os meios de comunicação e informação que concorrem para a perpetuação desse crime. Dessa maneira, poderíamos fazer uma analogia com o holocausto sofrido pelos judeus e o holocausto sofrido pelo Povo Negro, e perceber a forma diferenciada como ambos são tratados pelas diversas mídias. Ou seja, um mesmo princípio com pesos distintos; enquanto se sensibiliza para o sofrimento de um, se banaliza e desumaniza o outro. Percebemos então que o direito de justiça é prerrogativa do algoz e raramente do supliciado.

Para quaisquer operadores do direito, formados e formatados pela academia eurocêntrica como você, cara pessoa branca, prosaicamente não refutam esse princípio e nem esboçam qualquer intervenção nesse estado de direito inquisitório, romano e comprometido com o que há de mais espúrio no ser humano que se dispõe de qualquer ética para permanecer em sua zona de conforto racial. Portanto, venho lhe dizer que Reparação por esse crime é o primeiro passo para uma nação legítima, pautada pela justiça e a pela inclusão dos povos que aqui habitam; sem ela, continuaremos a viver nessa idade das trevas travestida de democracia racial.

O branco que se desprover de sua branquitude; assim como a verdade se apresenta desavergonhadamente nua; tornado humano, perceberá nessa missiva um alerta fraternal e não um desafio bélico proposital. Caso contrário, verá nessa carta uma declaração de uma antiga guerra, iniciada há mais de 500 anos, mas que apenas o oponente, que era a pessoa negra, não tinha conhecimento da existência desse massacre anunciado.

Eis a bandeira preta, a bandeira pirata, içada em sua hora decisiva, para atravessar esse mar de infâmias brancopofágicas eurocentradas, anunciando a hora para os que chegaram em Navios e os que chegaram em Tumbeiros decidirem se constroem ou se destroem a vida como ele é. Está carta foi emitida de um Tumbeiro para uma Caravela expressando o desejo de realizarmos algo diferente de uma reedição das peripécias daquele mesmo grupo que resolveu que a vida seria só mais um triste episódio do Delenga Cartago como uma mórbida continuação de mais um Espetáculo das Raças.

O preto está escrito no branco, tenho dito, que de acordo com a branquitude, hoje vale o que está escrito. Portanto declaro extinta a branquidade desta data em diante, revogando quaisquer disposições em contrário, que se cumpra e se faça cumprir, guardando tudo que nela contém. 




[1] A expressão homem de bem foi criado pelos estupradores e assassinos que compunham o grupo racista norte-americano da Ku Krux Klan para se diferenciar da pessoa de pele Black.
[2] Alusão ao filme homônimo de Charles Chaplin.
[3] Alusão a Hannah Arendt.
[4][4] Era o nome dado ao piquenique realizado pelas famílias componentes da Ku Krux Klan após a realização dos linchamentos de negros afro americanos.
[5] Referência a genocídio dos Povos indígenas e dos Povos Africanos escravizados no Brasil.
[6] Em 1452, o papa Nicolau V (1397-1455) emitiu a bula Dum Diversitas, autorizando os reis da Espanha e de Portugal a escravizarem não-cristãos. O papa mirava os povos do Oriente Médio, que resistiam ao evangelho e suas cruzadas, mas a medida beneficiou os traficantes negreiros a partir do século XV. Porém, desde 324 a igreja proibia, sob pena de excomunhão, que se ajudasse na fuga de escravos. 




[1] Narrativas baseada no racismo científico que afirmava que os negros eram subumanos e por isso estava tudo bem tomar-lhes as terras e os corpos para o trabalho forçado.
Narrativa culturalista e as questão das civilizações adiantadas versus as atrasadas, estas últimas sendo as dos negros... Mais justificativas para dominação...
Finalmente estamos na teoria do racismo baseado em construção social, esta que estamos vivendo nos dias atuais...