Existe uma
dupla relação entre expectador e o ato artístico, quando esse expectador se
derrama em lágrimas, acreditando na realidade da cena. O ato desperta nele a
mesma emoção que a vida, mesmo sabendo que se trata de uma encenação. Portanto,
isso cria um processo que suscita o contraditório, do momento em que essa
ficção passa a provocar sentimentos de tristeza ou alegria, pois bastaria
lembrar que é uma cena inventada e ensaiada para que tais sentimentos
cessassem.
Se o
expectador tivesse em mente que aquela cena se trata de uma mera montagem
cinematográfica, apenas uma ficção, as emoções similares à realidade da vida
deixariam de fazer sentido. Mas,
certamente por esse expectador não distinguir entre realidade e a ficção, entre
o que assiste na tela e o que vê na vida real, e diante do choro, esquece que se trata de uma ficção, caso contrário ele nunca chegaria a sentir emoções
especificamente artísticas.
Portanto, a
arte exige uma emoção dupla: a de esquecer e a de lembrar de que tudo aquilo se
trata de uma ficção. Só mesmo através da arte poderia ser possível se
escandalizar ou se horrorizar diante de um assassinato e ao mesmo tempo admirar o
desempenho do referido ator.
Essa técnica usada na Arte Estética foi incorporada nas pautas da programação dos meios de informação e comunicação,
indo para além dos filmes e novelas, seriados e folhetins; se incorporando também ao
sensacionalismo jornalístico impregnando todo o roteiro meticulosamente
preparado para mexer com as emoções do incauto cidadão, visto que a televisão
não pede licença e nem permissão para invadir os pensamentos e mexer com as
emoções, formando, dessa maneira, apaixonadas opiniões formatam a
realidade da sociedade e da nação. Visto que é a partir da produção dessa
emoção que o expectador tem seu subjetivo controlado, sendo perfeitamente possível induzir e controlar suas ações e atitudes frente ao cenário preparado para que assim ele proceda.
Exatamente como o cão de Pavlov ou a cobaia de Skine, o expectador reproduz o
comportamento previsto, induzido pelas propagandas e notícias que compõem o
roteiro da pauta acordada pela plutocracia oligárquica nacional e
internacional, a fim de manter o sistema por si só. Dessa maneira, através dos algorítimos, a ficção se torna realidade, do momento em que ambas semanticamente se
interpenetram, num processo onde os limites interseccionais são derrubados.
Diante dessa
produção cultural e produção de conhecimento efetivamente eurocentrados, a
desumanização racial padronizada, leva a banalização da violência categórica
direcionada exclusiva aqueles que são estigmatizados e escravizados pelas
correntes do patriarcalismo, feminismo e meritocratismo, como símbolos de
sustento do sistema capital. Símbolos esses que já se tornaram arquétipos do
constructo social produzidos pela cultura de nossa colônia contemporânea. Tais símbolos dão
significância a personagens ficcionais e/ou reais, encontrados em novelas e
manchetes de jornais, das propagandas aos pronunciamentos oficiais.
Foi dessa forma
que o sentimento de medo encorpou no cidadão através dos jornais e televisão,
suscitando no mesmo, a raiva e a carência do paternalismo que implora pelo
herói do filme exibido pelo noticiário onde o pronunciamento do político da
oposição contrasta com o da situação, completando a trama desse roteiro que tem
seu grand finale no espetáculo do sufrágio universal obrigatório.
É dessa maneira
que são produzidos os capítulos roteirizados por essa grande empresa cultural
de padrão monorracial, que habilmente usam essa prosaica e inocente Fórmula da Emoção Estética, para
modificar de maneira eficaz a forma pensamento do neófito, a partir da inserção
de motores que produzem emoções, agindo de forma similar aos
psicotrópicos ao criar uma perfeita dependência servil e obediência civil.
Destarte, o
indivíduo vive seu duplipensar,
imerso nesse mar de assimilação, surfando intrepidamente sobre as ondas de
verdades superficiais pré e pós-fabricadas, onde seu ódio se tornou seletivo e
o seu amor objetificado entre o clarão do céu azul e o sangrar desse oceano vermelho que miraculosamente se abriu para
dar passagem ao infame comércio.

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