Cara pessoa branca, caso deixasse de
escrever esta carta, estaria lhe concedendo a carta branca para continuar a sua
saga de desumanizar o outro que não combina com o seu querer eurocentrado; por
esse motivo, essa carta não está em branco.
Certamente você deve desconhecer que entre
a escravização dos Povos Negros e a atual existência dos sem tetos e da
abundante mendicância pelas ruas da cidade, existe uma relação estreita que se
encontra justamente no processo da banalização desse mal apresentado
em ambos os fatos; episódios estes que foram e são socialmente aceitos por pessoas
de bem[1] como você.
As vezes vejo docentes, discentes e pessoas
de bem que parecem se surpreende com a passividade de outrora, daquelas
pessoas que foram sequestradas em África, diante da crueldade do
cativeiro do regime escravagista, todas as vezes que se folheiam, passando as
vistas por revistas e pelas comprometidas páginas dos livros didáticos, que
propagandeavam, e ainda propagandeiam, referindo-se a escravização das pessoas
negras como se fosse um mero fato acontecido num passado distante na história
da humanidade.
São esses mesmos docentes, discentes
e pessoas de bem que hoje tentam evitar olhar diretamente nos
olhos dos pedintes e dos maltrapilhos que lhes encaram com aquele olhar
profundo que imputa um misto de remorso e de repulsa; o mesmo olhar que outrora
mostrava os escravizados supliciados à sociedade do Brazil colônia
medieval da citada época.
Esse sentimento contraditório suscitado,
jacente de uma suposta empatia que
camufla um profundo desdém;
contradição nascida em meio a um surto momentâneo de humanidade imiscuída à pseudo
intelectualidade egocentrada, mostra-se como um escatológico resultado fruto
de nosso Medieval Tempo Moderno[2],
invariavelmente advindo de uma inteligência alijada por completo da sabedoria; que
desnuda o que há por detrás das máscaras sociais. Tal paradoxo expõe impiedosamente
a banalização desse mal[3] de
cada dia que nos dói hoje, de forma simplesmente escandalosa, indolente,
arrogante e indecente.
Mas este fato enunciado que é
exaustivamente anunciado, além de denunciado onde quer que se vá; de tão
banalizado; já foi devidamente assimilado e introjetado, de modo a fazer parte
definitiva da paisagem que compõe essa natureza morta que fora
perversamente pintada com o vermelho que copiosamente
jorra às claras da carne preta, em todas às escuras
esquinas da vida desse planeta, além dos noticiários matinais, dos convescotes[4] semanais,
na mesa posta para um simples café de todas as manhãs, até as frugais conversas
em um pomposo jantar de gala servido na Casagrande que ladeia as atuais Senzalas.
A atração principal desse circo de
horrores, erigido pela inteligência colonial da europa medieval, tinha
como objetivo incutir o hábito de apreciar e deliciosamente degustar o
sofrimento do outro; sofrimento este que vinha talhado com as fortes cores
do vermelho e do preto[5];
cores que especialmente provocavam e provocam a adrenalina, que fazia, e ainda
faz irromper um rio de dopamina; é como assistir os segundos que antecedem ao
final da vida de uma joaninha indefesa, que esvoaça por sobre o espinho de uma
perfumosa rosa, num lindo dia de sol, ante seu voraz e cruel
predador.
A visão dessa cena de horror parece
fazer levar a branquitude valorizar sua própria vida; e para que ela possa se
sentir agradecida por esta mesma vida, que por hora ainda lhe pertence, a
branquitude vê a necessidade de possuir a vida de cor alheia, para poder repetir
ad infinitun esse mórbido espetáculo
que acaba se tornando um círculo vicioso. E como espectador dependente
alquímico que de fato se tornou; como qualquer outra espécie de dependência,
ela, a branquitude necessita de tratamento. Para iniciar esse tratamento, o
viciado precisa dar o primeiro passo, que é o de identificar tal anomalia; e os
passos seguintes, que seria o de arrependimento,
culpabilidade e sucessivamente o de
procurar pelo antídoto que o leve a cura, até passar
definitivamente, passo-a-passo, a poder combater tal doença um dia de
cada vez.
Mas tal processo, em cada uma de suas
etapas, é algo absoluta e profundamente doloroso, além de envolver uma complexidade do tamanho de sua simplicidade; por isso, nem todos
desejam a cura, visto que a saída do vício implicaria em deixar sua zona de
conforto. Nesse caso, lhe parece bem mais convidativo, conveniente e atraente,
além de satisfazer seus caprichos a cada sessão que proporcionada pelo horário
nobre que o representa com todas as pompas e circunstâncias, permanecer onde suas
taras e fantasias possam lhe servir de anestésico a tal grotesca realidade sensual.
Talvez você não esteja sabendo, cara
pessoa branca, que esse ato terrorista antropofágico de assimilar a força do
adversário devorando seu medo até a morte, foi inaugurado pelo egocentrismo,
depois de creditada e apresentada como uma prática de invenção selvícola, para
que pudesse justificar uma civilidade europoide pretensamente evoluída; sendo
rotulada como tal, com o intuito de amenizar as funestas consequências quando, se
por acaso, viesse o mesmo opressor a olhar no fundo dos olhos do supliciado e a
culpa repentinamente lhe assaltasse o ser.
Dessa maneira, a mesma ação que outrora
fora direcionada exclusivamente contra o corpo preto, hoje
evoluiu, sendo também dirigida para além da carne: para o nível psicológico, filosófico
e espiritual; sendo meticulosamente adornada com uma nova, vistosa e difícil
nomenclatura, depois de intelectualizada e inserida pelas bulas
Papais[6], médicas e científicas[1] no
glossário do bem viver do cidadão de bens.
Dessa forma, banaliza-se o mal, mesmo
que a razão tente em vão amenizar a dor que se faz presente no fundo
do coração; dor essa, que insiste em provocar, e até mesmo expor, o resquício
dessa renitente emoção que lhes aponta no cerne do ser. Mesmo que seres
portentosos como você, como portador da razão eurocêntrica tente
com sua justificativa manufaturada e fabricada por uma inteligência desprovida
de sabedoria, eliminar a parte emotiva que ainda lhes fazem pulsar a alma
esterilizada, fazendo-os lembrar do resquício de sua humanidade.
É notório perceber que é para evitar
essa dolorosa lembrança, que vocês contraditoriamente se juntem a seus iguais;
contraditório porque a coletividade é justamente uma qualidade
humana o opressor abomina, tem ojeriza e procuram peremptoriamente
eliminar, a partir da prática do genocídio há muito perpetrado contra os povos
que produziram tal princípio a fim de eliminar o bem pela raiz.
Enfim, foi neste cenário rico de
pedintes, pleno de desgraças e abundante de desgraçados, como perfeito solo
fértil, com a potencialidade extrema de se plantar e de se colher humanidades,
que o eurocentrismo semeou a competição e a meritocracia como modus
vivendi, a fim de manter a ecologia do empreendedorismo predador racializado,
através da banalização desse mal de cada dia que nos dói hoje, ao colorir o
homem bom e o homem ruim, qualificando e tipificando
seus vícios e virtudes, além de rotular embalando-os em recipientes contrários,
transformando assim, antídoto em veneno, além de criar regras, leis e tratados
de consumo para a comercialização desse novo produto produzido pela famigerada indústria
moderna desse infame mercado capitalista.
Esse
com esse infame processo que se transformou, o que outrora era ser humano, em ser consumidor, e o que era Povo transmutou-se num festivo público
sempre presente nas arquibancadas desse circo montado para exibir esse novo filme
antigo, mostrando a luta do homem bom contra o homem ruim, numa eterna batalha
entre o Bem e o Mal. Batalha esta preparada como atração especial nesse
infindável novelo humano, cujo tema exibe personagens que vampirescamente se
alimentam da humanidade do incauto espectador que se imagina além da tela dessa
TV que ele não vê, graças ao Grande
Irmão e a sua insuperável tecnologia
produtora de sentimentos perdidos nas esquinas Eldoradas dessa colônia muito amada chamada Brazil, que é formado
por indústrias fascistas e poderes nazista mad in europa, exibindo a bandeira branca da paz sangrenta enquanto rasgam a bandeira pirata que exibe desavergonhadamente a caveira como Raio X da história humana desumanizada.
Dessa
forma, o peso da pele branca foi colocado no prato de uma balança ao lado de um
pelourinho com mais de 500 anos de sangue e carne preta triturada, misturada a
infindáveis litros das lágrimas que temperaram os oceanos do mundo, enquanto os
esvoaçantes cabelos loiros e os olhos azuis observavam os ossos moídos das
crianças emasculadas e dos eunucos fantoches, essa balança da justiça branca se
refestelou numa confortável rede, movimentando-se ao sabor das batidas do
relógio da fábrica que alterna os intervalos de descanso, entre o trabalho
servil e a ignorância senil da mão que segura o martelo e a foice; é
nesse balançar infinito, marcado pelo intervalo das cabeças negras que rolam
ante a afiada lâmina da guilhotina do carrasco e do corpo preto que sangra ao
sabor do chicote do feitor, que este hiato mostra que tem a cor branca da
passividade daquele opressor que se exime através do silêncio; desse silêncio nefasto
que faz a vida passar em branco suave,
observando as fofas nuvens brancas,
de um futuro paraíso branco divino, com reluzentes deuses e anjos brancos. Ou seja, ser branco significa
passar confortavelmente a vida em branco.
Dessa
maneira, torna-se notório que a cor da pele traz um peso referente ao seu
passado, seja como supliciado ou como algoz, pois tudo que foi vivido, e o que
está sendo vivenciado pelo indivíduo enquanto sujeito, decorre desse mosaico
racial divido perversamente, montado pelos privilégios e pelas desditas ditadas
pela Necropolítica desse estado de arte conferido pela indolência e pela arrogância
da colonização. É desse modo que, apesar da existência do racismo, tornou-se
impossível detectar a existência do racista, já que a cor de sua pele lhe
confere os privilégios da lei, mas nunca os rigores da justiça.
A
forma de sobrevivência ditada através da violência trazida pela pseudo alforria
da falsa abolição, violência esta que vem de ambos os lados, fez com que essa
mesma violência quando promovida pelo grupo que tem a cor do opressor sejam
eximidas de quaisquer responsabilidades. Visto ser este um crime que se iniciou
com o sequestro dos Povos Africanos, há mais de quinhentos anos, percebemos que
a violência do oprimido, após legalmente criminalizada pela abolição, fez com
que qualquer reação promovida pelos afrodescendentes contra esse crime da história
fosse devidamente enquadrado pela lei de um congresso Uni-étnico.
Destarte,
a banalização desse mal, fazendo parte do senso comum manipulado pela cultura
de massa, transformou a população preta numa massa negra matável para a qual é
dirigido o desejo de morte dessa sociedade que se tornou uma aberração
cognitiva, após ter o cérebro ferido pela mídia fascista; assim como todos os
meios de comunicação e informação que concorrem para a perpetuação desse crime.
Dessa maneira, poderíamos fazer uma analogia com o holocausto sofrido pelos
judeus e o holocausto sofrido pelo Povo Negro, e perceber a forma diferenciada
como ambos são tratados pelas diversas mídias. Ou seja, um mesmo princípio com
pesos distintos; enquanto se sensibiliza para o sofrimento de um, se banaliza e
desumaniza o outro. Percebemos então que o direito de justiça é prerrogativa do
algoz e raramente do supliciado.
Para
quaisquer operadores do direito, formados e formatados pela academia
eurocêntrica como você, cara pessoa branca, prosaicamente não refutam esse princípio
e nem esboçam qualquer intervenção nesse estado de direito inquisitório, romano
e comprometido com o que há de mais espúrio no ser humano que se dispõe de
qualquer ética para permanecer em sua zona de conforto racial. Portanto, venho
lhe dizer que Reparação por esse crime é o primeiro passo para uma nação
legítima, pautada pela justiça e a pela inclusão dos povos que aqui habitam;
sem ela, continuaremos a viver nessa idade das trevas travestida de democracia
racial.
O
branco que se desprover de sua branquitude; assim como a verdade se apresenta
desavergonhadamente nua; tornado humano, perceberá nessa missiva um alerta
fraternal e não um desafio bélico proposital. Caso contrário, verá nessa carta
uma declaração de uma antiga guerra, iniciada há mais de 500 anos, mas que apenas
o oponente, que era a pessoa negra, não tinha conhecimento da existência desse
massacre anunciado.
Eis
a bandeira preta, a bandeira pirata, içada em sua hora decisiva, para atravessar
esse mar de infâmias brancopofágicas eurocentradas, anunciando a hora para os
que chegaram em Navios e os que
chegaram em Tumbeiros decidirem se
constroem ou se destroem a vida como ele é. Está carta foi emitida de um Tumbeiro
para uma Caravela expressando o desejo de realizarmos algo diferente de uma reedição
das peripécias daquele mesmo grupo que resolveu que a vida seria só mais um triste episódio
do Delenga
Cartago como uma mórbida continuação de mais um Espetáculo das Raças.
O preto está escrito no branco, tenho dito, que de acordo com a branquitude, hoje vale o que está escrito. Portanto declaro extinta a branquidade desta data em diante, revogando quaisquer disposições em contrário, que se cumpra e se faça cumprir, guardando tudo que nela contém.
[1] A
expressão homem de bem foi criado pelos estupradores e assassinos que compunham
o grupo racista norte-americano da Ku Krux Klan para se diferenciar da pessoa
de pele Black.
[2] Alusão
ao filme homônimo de Charles Chaplin.
[3] Alusão
a Hannah Arendt.
[4][4] Era
o nome dado ao piquenique realizado pelas famílias componentes da Ku Krux Klan
após a realização dos linchamentos de negros afro americanos.
[5] Referência
a genocídio dos Povos indígenas e dos Povos Africanos escravizados no Brasil.
[6] Em
1452, o papa Nicolau V (1397-1455) emitiu a bula Dum Diversitas,
autorizando os reis da Espanha e de Portugal a escravizarem não-cristãos. O
papa mirava os povos do Oriente Médio, que resistiam ao evangelho e suas
cruzadas, mas a medida beneficiou os traficantes negreiros a partir do século
XV. Porém, desde 324 a igreja proibia, sob pena de excomunhão, que se ajudasse
na fuga de escravos.
[1]
Narrativas baseada no racismo
científico que afirmava que os negros eram subumanos e por isso estava
tudo bem tomar-lhes as terras e os corpos para o trabalho forçado.
Narrativa culturalista e as questão
das civilizações adiantadas versus as atrasadas, estas últimas sendo as dos
negros... Mais justificativas para dominação...
Finalmente estamos na teoria do racismo
baseado em construção social, esta que estamos vivendo nos dias
atuais...
Nenhum comentário:
Postar um comentário