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segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A breve História de um tempo White ou: Um Novo Juízo Final


Dos Tempos antropofágicos, eis que surge um ser, suicida e mágico, chamado humano; que hoje sorri e chora; na mesma hora em que sofre rindo de tudo, por conta de um relógio por ele criado, que conta e canta o tempo ao pé do seu ouvido surdo: ... Tempux edax rerum[1]... tempux edax rerum... tempux edax rerum... tempux edax rerum... tempux edax rerum...


Seu Tempo não é cósmico e nem tem tempo, nesse muro de lamentos onde bebem momentos em movimentos, acorrentados a uma história in memoria do tempo que morre com o tempo de quem mata o próprio tempo, na desordem criada por sua ordem a um Tempo que corre sem Money, ponteiros, parteira ou porteira.



[1] “O tempo que estraga todas as coisa”

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Sobre Rainhas e Reis


A justiça é uma linda e exuberante mulher negra, vestida com roupas confeccionadas pelas bisavós de todas as vidas, que caminha por ruas e becos, casebres e festas populares, mansões e congressos de todas as Nações dos mundos conhecidos e desconhecidos.

Leva tão poucas coisas em sua algibeira, mas tão poucas coisas que são possíveis preencher totalmente qualquer ambiente em todas as suas possíveis dimensões; são coisas tão leves com peso de todos os mundos solidamente etéreos e repletos de mistérios, que até a morte, com respeitosa reverência, lhe dá passagem para acessar dos mundos mais escondidos e aos mundos inexistentes.

Essa simples Rainha negra reina sem ter tronos, governa sem nunca ter sido eleita e caminha mesmo estando estática, em cada único movimento onisciente. Ela se encontra Onipresente lado a lado com seu fiel companheiro previdente, o Rei Cronos; e juntos avançam caminhando sem andar nem Andor; vendo sem olhar, e mesmo assim, a tudo enxergar; além de ouvir, sem nem mesmo escutar.

Por isso, a Justiça, há seu Tempo, com seu corpo etéreo de células-olhos, de mãos dadas com Cronos, vai continuamente entrelaçando as tramas da natureza que aflora e se transforma a cada estação que vem e vai, volta e retorna pelos caminhos das estrelas e de sóis nascentes e poentes nesse infinito ciclo de vidas vividas, vidas vivenciadas e vidas ainda porvir.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Considerações acerca do museu da escravidão da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro

A Cultura Black Face e a Estética White-afro juntou-se ao violento processo de linchamento racial promovido pelo Município genocida carioca, uma vez municiados pelos adversários de Solano Trindade[1] em meio a essa guerra santa, onde neo-pentecostais decidiram superar, em nome de Deus, a podridão da senta inquisição.
Dessa maneira, hora usa a Arte, a história ou a história da arte, nessa geografia de escola sem partido, liderada pela arrogância indolente do serviçal da elite neoliberal responsável por dessa conjuntura gótico-contemporânea; eis que surge, em meio a esse atoleiro de direitos, certo museu da escravidão, cuja aparição não configurou nenhuma ameaça aos atabalhoados membros do MBL (Movimento Brazil Livre), seguramente fãs do pintor Espanhol[2] Modesto.
Dessa forma, o incrível surgimento desse museu, vindo de uma generosidade repentina, espontânea e automática do bispo prefeito, em pleno período pré-eleitoral, trazendo a sagrada missão de manter o manto de invisibilidade da história que antecede ao cativeiro dos Povos Africanos escravizados no Brazil e de seus descendentes; garantindo a continuidade do processo de gravação, introjeção, guardando nos corações e nas mentes desse público afrodescendente, o lugar reservado para eles pelos traficantes brancos bem lá no fundo do navio negreiro; navio de outrora que hoje se transformou no camburão mandado pelo governo da situação; governo que solenemente ignora qualquer protesto ou oposição; e dessa maneira, deve continuar obrigando o negro a perceber o mundo através do olhar eurodescendente, de seu opressor.
O museu do bispo prefeito é o Museu do Ontem[3] que vem perpetuar a vergonha do lugar da escravização; o lugar onde o europeu violentamente colocou a pessoa de cor, humilhando-a, dissecando-a, empalando-a e empalhando-a, após silenciar sua voz e sua vez como ser humano. 
Assim como a escola sem partido deseja assegurar esse futuro de ontem aos deserdados e feridos pela justiça branca ao instaurar uma pedagogia que adormeça nossa memória já perdida no tempo e anestesiada pela mídia ensandecida ao som do Rock in Rio, nesse Brazil-senzala com uma Casagrande cercada por campos de concentrações[4] por todos os lados.
REPARAÇÃO JÁ...!!!



[1] Referência ao poema “NEGROS,” de Solano Trindade.
[2] Referência à pintura “A redenção de Cam”.
[3] Referência ao museu do amanhã.
[4] Referência as Favelas, palafitas e alagados.

domingo, 3 de setembro de 2017

PEQUENA ÁFRICA: Território Histórico do Povo preto nascido no Brasil

Dia 1º de Setembro de 2017 vivemos um momento histórico na Assembleia Legislativa do estado do Rio de Janeiro durante a tramitação do processo da Campanha de Reparação para os Descendentes dos Povos Africanos Escravizados no Brasil; foi o momento em que exigimos a nossa efetiva, necessária e verdadeira liberdade; aquela mesma liberdade que fora prometida aos nossos antepassados num dia 13 de maio qualquer, mas o que ironicamente se viu foi a absolvição dos seus algozes e carrascos, empreendedores e arquitetos dos crimes da escravidão. 

Dia 1º de Setembro foi um dia histórico porque demos prosseguimento a esse dia 13 de um maio qualquer que ainda não chegou aos seu fim, nos fazendo chegar até esta plenária, para finalmente dar o efetivo início ao processo de Reparação, a fim de resgatar dessa forma, a nossa memória roubada pela escravidão e pela colonização denunciando os responsáveis por esses hediondos e infames crimes.

Portanto, é chegada a hora do Estado, da igreja e das famílias tradicionais brazilleiras, que sempre controlaram os destinos de nossa nação; da nação dos brasileiros; responderem pelo holocausto do povo negro; holocausto que o Brazil sempre negou e escondeu desde Rui Barbosa até o presente momento.

Esse momento é histórico, não pela subliminar comoção social produzida e comandada pela desonesta mídia, que estupra nossa humanidade e consciência, uma vez que estrutura nossa atual conjuntura de esquizofrenia total, produzindo esse contexto que teve seu início no golpe militar republicano derrubando o império e que se estende até ao mais recente golpe delles; histórico porque estamos tratando do cessar de golpes recebidos pelo Povo Preto desde o pelourinho até os golpes desferidos pela caneta do dotôr que faz jorrar tanto sangue da alma preta como outrora nos fazia sangrar o chicote do feitor. Da plenária dessa assembleia, o estrondoso eco da classe plebeia veio para dar desfecho a essa saga de injustiças e opressões, de abusos e ingratidão contra os construtores dessa nação.

Dia 1º de Setembro foi o dia em que finalmente exigimos de volta a nossa história, elaborando o resgate de nossa memória embotada pelo ambiente insalubre dos campos de concentrações em que vivemos em eterno exílio: as favelas, palafitas e alagados em que fomos depositados por conta das sucessivas limpezas étnicas promovida diuturnamente pelo estado genocida brazilleiro, que perpetua o apartheid e protege os bens da oligarquia adquiridos através dos crimes da infame política de escravização.

Reparação já...!!



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Da ditadura racial republicana contemporânea: Sobre súmulas, Habeas corpus e autos de resistência.



Todo preto é Amarildo, toda preta é Cláudia Ferreira, e todo negro que pensa ser livre é potencialmente Rafael Braga; a questão não é o Ser e o não Ser, mas sim, quando se deixa de ser, acreditando no padrão branco de qualidade humana quando até mesmo Narciso[1] se matou.

Hoje os atuais Narcisos suicidas, antes provocadores de suas próprias mortes, covardemente elegem seus substitutos para ingressar na barca que atravessa o rio da morte em direção ao Umbral, e tal qual Sísifo[2], viciosamente assassinam os que não refletem sua indolente e arrogante imagem, para satisfazer mais um mero capricho qualquer consequente de uma tediosa tarde.

Os negros que ainda não perceberam a sutileza desse ardil, e se levantam todas as manhãs sem se darem conta de que, na verdade, entram numa imensa fila aguardando por seu inevitável funeral, por ocasião de seu encontro com esse branco representado na figura de um Policial preto. Por enquanto ele não sabe, que nem sabe, que está condenado a perpétua prisão dentro de si mesmo, devido apreensão e a assimilação da apolínea imagem grega, preparada e vestida em seu eficaz disfarce de Tróia, numa vestimenta que esconde a arapuca da viúva branca, armada em seu caminho rumo a sua finitude como Ser.

Enquanto ele se desumaniza durante sutil processo em que é desumanizado pelo carcereiro branco, zelador de sua liberdade presa ao medo de ser o que é; um negro; perdido como Ser de cor, avidamente se procura nas capas das revistas, filmes e propagandas, passivamente sentados, esperando por ele próprio surgir de repente na tela do cinema; espera esta que invisibiliza, escondendo o progressivo e atribulado processo do caminhar dos seus pares, que é também o seu próprio caminhar, em direção ao cadafalso banalizado pelo pelourinho de cada dia que nos dói hoje.

Os habeas corpus e as súmulas 70 misturados aos autos de resistência se enredam, feitos labirintos construídos, tal qual peças de dominós, entre as teias das masmorras de leis medievais, democraticamente preparadas e propositalmente emaranhadas pelo juridiquês da ditadura racial contemporânea.

As bandeiras, símbolos que são a cútis tatuadas de preto da pessoa negra, funciona como uma flâmula de liberdade que inflama e excita a animalidade das caras pessoas brancas, que se veem aviltadas com a imensa quantidade do humano, demasiado humano[3], contido num só único corpo preto.

Destruir essa humanidade melanodérmica passou a ser a missão primeira dos Narcisos assassinos, que travam uma intensa cruzada[4] em todos os níveis, para quebrar esses espelhos negros, que insistem em exibir seu reflexo mostrando-o como uma leucodérmica alma vazia.

Preto que ingenuamente espera pela justiça branca é aquele preto que pateticamente permite que seu pescoço seja conduzido, de forma passiva, até a forca, para que, após executada a sentença imposta, possa enfim ser julgado o mérito da causa.

Foi dessa forma que a educação forjada pelo branco o adestrou, domesticando-o e o fazendo acreditar numa instituição constituída unicamente para controlá-lo e transformá-lo num eterno parvo e gentil servo. Enfim, num preto da casa, um preto de estimação, desumanizado e coisificado.

Mas os ensurdecedores gritos vindo do fundo das prisões, que ecoam das imponentes salas dos indolentes tribunais, das paredes frias dos cruéis hospícios, dos eternos e dolorosos velórios de todos aqueles feridos pela justiça, fazem um desarmônico e contraditório contrapondo, contrastante com o nosso profundo e retumbante silêncio atitudinal, compondo um réquiem que nunca nos deixarão esquecer essa violenta e criminosa conivência com nosso vil opressor, enquanto advogados, negros e brancos, advogam pelas regras feneratícias desse jogo leonino.




[1] Narciso, de Beócia, ou o auto admirador.
[2] Segundo a mitologia grega, era filho do rei Éolo, que com a sua astúcia tentou enganar a morte.
[3] Alusão ao livro de Nietzsche com o mesmo nome.
[4] Referência aos terroristas cristão da idade média.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Dia do lutador de capoeira e do capoeirista


Não tem bala perdida nem tem bala achada,

O bom capoeira não tem medo de nada...

Capoeira, magia e defesa, hoje não passa de simples esporte; Antes, luta do fraco contra aquele mais forte, Davi e Golias, o Sul contra o norte;

E Hoje é só briga de macho, pra diversão e pro mais puro escracho.

Ontem, garantia a vida que ela defendia sem medo da morte, hoje virou diversão do nosso dia-a-dia, e depende da sorte;

De luta de preto surgida no gueto, para competição de branco, pra saciar seu encanto;

Futebol nacional e capoeira regional, expulsou o ritual do Bantu ancestral.

Essa sentença que canto agora, na cadência do meu berimbau sem escola, é fruto da falência da alma de Angola...

Yê, Vamos embora...


sexta-feira, 28 de julho de 2017

ENTRE MUNDOS OPOSTOS

Nesse país chamado Brasil, segundo Machado de Assis, existem dois países: um oficial e um Real; observando mais de perto esses dois espaços perfeitamente distintos, posso afirmar que o brazill oficial, que é esse bRAZILL velhaco e corrupto, é o aquele que dita as regras e as desditas que estruturam o Brasil Real; o mesmo Brasil que paga e sustenta os privilégios, caprichos, frivolidades e frugalidades desta ilha da fantasia que transformou este brazill oficial. visto que somente ao Brasil real é destinado a cobrança de pagamento de impostos, taxas e sobretaxa de todas e quaisquer naturezas, além do cumprimento dos deveres mosaicos na forma da lei.
Em relação ao tamanho do brazill oficial para o Brasil real, eles guardam a mesma proporção de uma bola de gude para a bola do pilates respectivamente. A arquitetura do mundo real foi habilmente planejada, de forma que os indivíduos que nele habitasse, tivesse sua liberdade condicional em permanente estado de total controle em todos os níveis, e em particular e especialmente no que se refere aos níveis dos setores econômico, social, jurídico e religioso.
A polícia militar tem a fúnebre incumbência de estabelecer a ordem exigida pela elite opressora, a fim de manter o progresso dos clãs em sua gestão de ambos os Brasis através de todos os meios necessários. Trabalho este que essa macabra polícia se orgulha em cumprir e executar com perfeição, em sua truculenta prática da lei que exclui qualquer resquício da lembrança da sombra de alguma possível justiça, Haja visto o recorrente hábito às mórbidas coações e as tétricas intimidações aos cidadãos marginais, habitantes desse mundo real.
A subsistência daqueles que habitam nesse mundo real está integralmente condicionada a venda coercitiva de sua força ativa ao arrogante mundo oficial e seus clãs tradicionais. Sendo assim, existe uma total dependência desses habitantes do mundo real, no que se concerne a moradia, alimentação, educação, mobilidade, e tudo mais. tornando-se os mesmos incautos reféns dessa conjuntura nacional  escravagista contemporânea. 
É notória e pública, além de banalizada, essa relação escravista contemporânea, onde os indivíduos não conseguem distinguir as linhas divisórias entre o senso e o contrassenso, levando-os pensarem que realmente pertencem a um só país; fato que os induzem imaginar que pensam por “vontade própria”, acreditando dessa maneira, que fazem mesmo parte de uma democracia; principalmente quando trazem estampado no peito o orgulho de participar de um pleito eleitoral aonde elegem integrantes do brazill oficial como seus representantes, e ocasionalmente nesse processo, alguns biônicos pinçados do mundo Real, a fim de legitimar a fachada democrática da ditadura oficial, retroalimentando esse pleito. Dessa forma, as falsas representações roteirizadas para tal fim servem como propaganda e repasto ao bom cidadão.
O fato pateticamente irônico a ser assinalado, é que entre ambos os Brasis, existe hoje uma etnia satélite, que é a raça negra; que uma vez tendo sofrido o vil processo de assimilação, hoje integra uma sociedade fictícia, nutrindo a triste pretensão de alcançar uma oportunidade fictícia de igualdade racial, imaginando que dessa maneira possa finalmente fazer parte efetiva de um país, cujo Estado de exceção, sempre se fez e se faz presente na vida dele, como política de estado.
Na condição efetiva de assimilado ele defende as instituições eurocentradas que foram estruturadas exclusivamente para garantir a opressão e submissão, lhe conferindo a subalternidade como herança hereditária, uma vez que através dessas mesmas instituições é garantida a sua condição de exilado em seu próprio solo; de forma que as trincheiras passaram a ser seu permanente lar a partir da pele em que habita. 
Mas a servilidade introjetada ao seu modus vivendi através do eficaz processo de assimilação, faz com que esse indivíduo crie tolerância as mais sórdidas das opressões, fazendo com que ele ignore totalmente a sua condição de escravizado e de servilismo a esse brazill oficial, sendo meramente mais uma peça a figurar nas vitrines do mundo Real como oferta de um produto capital, com tarjas de valores e validade total.
Dessa maneira, o povo negro, que ainda não possui a consciência de ser um povo, e de saber menos ainda o que é ser negro, não sabendo nem que não sabe desse irônico e cruel fato, em decorrência desse inescrupuloso processo de assimilação combinado com a política da eugenia e gentrificação, que o mantem pacificamente no exílio, subsistindo em seus Campos de exílio, que são os Territórios de Exceção; as favelas, palafitas, alagados e periferias; locais para os quais foram removidos a força por conta da cor de sua pele; servindo hoje, como sempre serviram outrora, como estoques de força ativa para garantia do bom funcionamento da Metrópole eurocentrada.
Sendo assim, entre esses dois mundos, existe esse imenso Campo de Concentração que faz justamente a interseção entre esses Brasis. E como sempre foi, desde a implantação do assimilacionismo, o negro de mente colonizada mantem a ambos com sua força ativa, através de sua total, geral e irrestrita servidão a elite desse país, aonde a Ordem e o Progresso é o slogan da propaganda oficial pacificamente aceita pelas colônias negras de todo esse país tropical onde tudo que se planta dá.