Todo preto é Amarildo, toda preta é Cláudia Ferreira, e todo negro que pensa ser livre é potencialmente Rafael Braga; a questão não é o Ser e o não Ser, mas sim, quando se deixa de ser, acreditando no padrão branco de qualidade humana quando até mesmo Narciso[1] se matou.
Hoje os atuais Narcisos suicidas, antes
provocadores de suas próprias mortes, covardemente elegem seus substitutos para ingressar na barca que atravessa o rio da morte em direção ao Umbral, e tal qual Sísifo[2], viciosamente assassinam os que não refletem sua indolente e arrogante imagem, para
satisfazer mais um mero capricho qualquer consequente de uma tediosa tarde.
Os negros que ainda não perceberam a
sutileza desse ardil, e se levantam todas as manhãs sem se darem conta de que,
na verdade, entram numa imensa fila aguardando por seu inevitável funeral, por
ocasião de seu encontro com esse branco representado na figura de um Policial
preto. Por enquanto ele não sabe, que nem sabe, que está condenado a perpétua
prisão dentro de si mesmo, devido apreensão e a assimilação da apolínea imagem grega,
preparada e vestida em seu eficaz disfarce de Tróia, numa vestimenta que
esconde a arapuca da viúva branca, armada em seu caminho rumo a sua finitude
como Ser.
Enquanto ele se desumaniza durante sutil
processo em que é desumanizado pelo carcereiro branco, zelador de sua liberdade
presa ao medo de ser o que é; um negro; perdido como Ser de cor, avidamente se procura
nas capas das revistas, filmes e propagandas, passivamente sentados, esperando por
ele próprio surgir de repente na tela do cinema; espera esta que invisibiliza,
escondendo o progressivo e atribulado processo do caminhar dos seus pares, que
é também o seu próprio caminhar, em direção ao cadafalso banalizado pelo
pelourinho de cada dia que nos dói hoje.
Os habeas corpus e as súmulas 70
misturados aos autos de resistência se enredam, feitos labirintos construídos,
tal qual peças de dominós, entre as teias das masmorras de leis medievais,
democraticamente preparadas e propositalmente emaranhadas pelo juridiquês da
ditadura racial contemporânea.
As bandeiras, símbolos que são a
cútis tatuadas de preto da pessoa negra, funciona como uma flâmula de liberdade
que inflama e excita a animalidade das caras pessoas brancas, que se veem
aviltadas com a imensa quantidade do humano,
demasiado humano[3],
contido num só único corpo preto.
Destruir essa humanidade
melanodérmica passou a ser a missão primeira dos Narcisos assassinos, que
travam uma intensa cruzada[4] em
todos os níveis, para quebrar esses espelhos negros, que insistem em exibir seu
reflexo mostrando-o como uma leucodérmica alma vazia.
Preto que ingenuamente espera pela
justiça branca é aquele preto que pateticamente permite que seu pescoço seja
conduzido, de forma passiva, até a forca, para que, após executada a sentença
imposta, possa enfim ser julgado o mérito da causa.
Foi dessa forma que a educação
forjada pelo branco o adestrou, domesticando-o e o fazendo acreditar numa
instituição constituída unicamente para controlá-lo e transformá-lo num eterno
parvo e gentil servo. Enfim, num preto da casa, um preto de estimação,
desumanizado e coisificado.
Mas os ensurdecedores gritos vindo
do fundo das prisões, que ecoam das imponentes salas dos indolentes tribunais, das paredes frias dos cruéis hospícios, dos eternos e dolorosos velórios de todos aqueles feridos pela
justiça, fazem um desarmônico e contraditório
contrapondo, contrastante com o nosso profundo e retumbante silêncio atitudinal,
compondo um réquiem que nunca nos deixarão esquecer essa violenta e criminosa conivência
com nosso vil opressor, enquanto advogados, negros e brancos, advogam pelas regras feneratícias desse jogo leonino.
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