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quinta-feira, 19 de agosto de 2021

I mólè kó ní tàn ti kò bá fi dúdú bo’ra - “A luz não brilhará sem primeiro se cobrir de escuridão”

Era uma vez uma pedra, que fora jogada de muito longe; muito longe mesmo. Atravessando, como um poderoso raio, o espaço tempo de éons, e partindo-se em mil pedaços no impacto contra o solo Gaiano.

Essa pedra; que era na verdade, um diamante bruto; foi transformada em mil seixos de carbono no baque virado do solo aquecido pelo sol maior. Aonde caiu, ficou; estagnada num movimento estático recorrente, vivenciando o looping da eterna continuação de sua chegada, com repetidas e incontáveis pedradas desnecessárias contra o generoso colo de Gaia; nessa detenção paradoxal, além de ficar completamente submersa pelo limo, criou em baixo de si, uma escuridão inarredável, que se estendeu para dentro do seu endurecido ser.

Dessa maneira, no espaço ao seu torno, o Tempo circundou fora de si; e ambos; Tempo e Espaço; ramificando-se, como os galhos de um milenar Baobá, fez dormir a consciência ao acordar o pensamento como sua primeira forma de autodefesa autocentrada.

Dessa forma, cada pedra, ao relacionar-se com os seus próprios Espaços/Tempo, progressivamente foram sofrendo mutações que as fizeram transmutar-se, ao serem submetidas a lapidação pelos elementos das estações de cada sítio em que permaneceram; até que viessem as tempestades, que lhes retiravam todo limo, trocando-as de espaços, aparando as suas arestas e potencializando essa lapidação através dos Tempos.

Durante esse pedregoso processo, muitas dessas pedras, fizeram de lustrosos e requintados sapatos, o seu confortável casulo; enquanto outras pedras preferiram ser acariciadas pelas mãos daqueles que possuíam os pés descalços e se antagonizavam com as diversas outras belicosas pedras transformadas em surpreendentes armas; outras ainda, decidiram ornamentar com alegrias incontidas todos os portais de Gaia, compondo harmonicamente as runas do tempo, demarcadoras do caminho de volta para casa; transformando-se assim, em diamantes plenamente lapidados pelo Tempo circundante nesse espaço intenso de Tempo real.

Quando cada pedra, a seu turno, descobrir que, a sua opacidade é somente um aspecto da sua própria luz interior, trajada pela escuridão exterior, percebendo finalmente, a importância de a luz ter que, antes de brilhar, se vestir de escuridão; compreenderá que, mesmo na condição de pedra opaca, ela é a própria Luz abstrusa em si mesma. Ou seja, é ela quem é a doadora, e também a recebedora do presente oferecido. Sendo assim, é no momento do agora, em nosso hoje, que recebemos a pedrada por nós desferida ontem.

Essa preciosa percepção só pode ser alcançada na experiência de se viver cada agora de nosso hoje, quando então, o pensamento se torna um complemento, e não mais o ator principal, protagonizando e conduzindo o Tempo e o espaço em torno de si mesmo; visto que, quem possuí o tempo é dono do pensamento, sem se deixar levar ou ser domado por esse assassino da realidade em que se tornou o pensamento, tornando-se assim, um senciente autoconsciente.

Portanto, podemos inferir que, a pedra, como uma metáfora de peso, igual a uma criança, ela é integralmente neutra, isenta do maniqueísmo, dualidade ou dicotomia, já que é o espaço e o Tempo que a transforma, na qualidade de criadora e criatura, em sua própria artesã. Esse princípio, só pode ser cognizado, a partir e através da autoconsciência. Ou seja, sem as justificativas e defesas estabelecidas pelo ego, que depende desses artifícios, para sobreviver de forma apolínea.

Por certo, o ego é o principal gestor de nossa escuridão, que jaz por debaixo e por dentro da nossa pedra coronária em estado bruto, exposta na vitrine da joalheria universal. O tempo e o vento, que move a tempestade desse inverno que burila a alma do Homem-Pedra, trazem consigo os Cavaleiros da Revelação com os quais pelejamos, nessa épica jornada do herói.

Enquanto as pedras continuarem a serem lançadas sobre pretextos e justificativas germinadas e cultivadas pelo ego, continuaremos a ser apedrejados hoje, pelas mesmas pedras que arremessamos ontem; já que somos a causa de, absolutamente, todas as consequências vividas em cada momento da nossa existência.

Que a partir desse Agora, não atire mais a primeira pedra quem jamais apedrejou; ou talvez sim.... Já que, somente dessa forma, descobriremos que as pedras nunca foram jogadas; elas é que se atiram, tendo a si mesma como alvo, nesse sítio multidimensional que é o Tempo quântico, simultaneamente absoluto e relativo quando o observado é o próprio observador. Dessa maneira, perceberemos que, a despeito das formas e cores diversas, somos tod@s pedras preciosas; somos um somente; e é justamente nessa percepção única, que passamos a compor essa imensurável joia universal, de inestimável valor, que brilha no firmamento ancestral, nas escuras noites da nossa existência, fulgurando na fronte da inominável Fonte Criativa.


quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Pedagogia das Encruzilhadas

Quando nascemos fomos programados, crescendo robotizados e nos tornamos um clone de nós mesmos. Por isso, nos mantemos distância das encruzilhadas, pois elas apontam para o caminho do meio; esse lugar de onde podemos observar as gradações entre a ida e a volta, nos tornando testemunhas de nosso próprio percurso.

Esta metafórica encruzilhada, é o Espaço aonde o Tempo circula sobre uma terra, que não é plana, amalgamando o passado e o futuro transformados em momentos de eternidade de uma história sem fim, confrontado assim, o Criador e a Criatura como Observador e Observado. É nesse ponto que abandonamos os extremos, nos afastando desse xadrez preparado com as regras do extremismo, percebendo enfim, que existe muito mais entre os céus e a terra do que imagina a nossa vã filosofia.

Dessa forma, o totalitarismo se desfaz, quando percebemos que além dos 50 tons de cinza e dos setenta tons de preto, também existem as miríades de um extenso arco-íris à frente do maniqueísmo e da dicotomia do preto e branco. Nossos antepassados tinham total ciência desse panorama elegante, revelado no azimute das estradas da vida, vista das encruzilhadas dessa mesma estrada aonde cruzam muitas mais do que, somente gatos pretos e panteras negras sobre as cores do arrebol. Passando por ali, muito mais do que, somente gregos e troianos, negros e brancos, homens e mulheres, vindo da esquerda ou da direita, religiosos ou agnósticos; por ali cruzam pessoas que são gente como toda gente de cor e credo diferente.

Quando paramos na encruzilhada, a nossa consciência, como testemunhas das nossas ações, revela a responsabilidade ocultada pelo nosso contumaz ego defensivo, substituindo assim, o Sim e o Não, pelo silêncio da inflexão. Dessa forma, o pensamento genuflexo deixa de ser repetitivo, para torna-se criativo, ao recriar a si mesmo diante da autoconsciência que se apresenta incólume. É dessa maneira que a encruzilhada se transmuta num arco-da-velha, transformando-se numa cristalina ponte avivada por encontros e descobertas, por risos e abraços.

É na encruzilhada, que abrimos os olhos para enxergar, nas meninas de todas as cores, dos outros olheiros e olhos alheios, o espelho da vida que reflete na alma, a nossa própria alma. Portanto, para parar nessa encruzilhada, e mirar no silêncio desse espelho profundo, é preciso coragem. Assim sendo, devemos desaprender, e nos desapegar do temor que nos foi ensinado ao ver um Gato Preto cruzar a esquina da vida; ou no olhar penetrante da Pantera Negra, que silente, nos observa de dentro da nossa própria escuridão; suprindo esse adestramento de medo, pela alegria da vida que se manifesta em todas as suas majestosas cores e formas.

Para isso, é necessário abandonar as crenças e cerimônias aprendidas e executadas no interior dos templos religiosos, para viver a criação do Grande Espírito que tudo é, vivendo no interior de todos e de tudo. É na encruzilhada que o totalitarismo se desfaz, pois é d
esse lugar que as possibilidades de observar e testemunhar a si mesmo, e a todos, enquanto um só, se faz premente e presente.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

O Poder da Elegância

Somos viajantes do Tempo, nosso Corpo é uma Nave conectada diretamente a Nave do Tempo Gaia. O nosso agora sempre nos faculta codificar conscientemente o futuro ou a recriar inconscientemente o passado. Só a lembrança do futuro; através da alegria e do Tempo da Arte; e a preservação dos ensinamentos passados, recupera a nossa Memória Cósmica.

Como o ar é atmosfera do corpo, o Tempo é a atmosfera da alma; quem possui o tempo, possui a mente. Portanto, somos um Templo sagrado Natural feito de Corpo, com um coração em Paz que celebra, em festa, por todos os lugares por onde passa, desde do momento em que escolhemos seguir a nossa própria Luz interior, deixando de se deixar levar pelo aparente caos ao entorno e os dramas daí advindos.

É a nossa Luz interior, que ilumina o senso da gentileza e da beleza, que se expressa na relação com toda a criação existente na natureza, e cada ser, visível e invisível, que se apresenta a nossa frente.

A elegância das palavras e do silêncio, nos gestos e nas atitudes, nascida no pensamento criativo, cultivada nos sentimentos e manifesta nas emoções, é como um pequenino fósforo aceso em meio a escuridão de um gigantesco recinto. A simplicidade desse momento, se dá na alegria, ao enxergar através do olhar de uma criança, o milagre da vida, que desfila e dança, celebrando a existência plena de si, nesse caminho aonde tudo o que se encontra, também é caminho.

Para que isso seja real, é necessário deixar que o pensamento fale sozinho, desviando o foco de tudo aquilo que vem do exterior, já que, o que vem de fora, se concretiza a partir do pensamento. As formas pensamentos, se manifestam de uma maneira ou de outra, nos limitando ou libertando, já que se trata de energia, e toda energia não pode ser destruída, ela se transforma naquilo que o pensamento determina que seja.

Certamente nunca teríamos dúvidas de que poderíamos levantar de uma cadeira e andar até uma poltrona, mas se fossemos desafiado a fazer esse mesmo trajeto da cadeira até a poltrona voando, não teríamos dúvida da impossibilidade. Tudo aquilo que cognizamos, isto é, acreditamos peremptoriamente, definitivamente deixaria alguma dúvida quanto ao seu desempenho.

Porém, com o nosso consciente manipulado e o subjetivo subalternizado, fomos transformados em perfeitos robôs, com respostas definidas a partir da programação a qual fomos submetidos desde o nascimento.

É notório o fato de defendermos e acreditarmos nos limites a nos impostos pelas instituições, que definitivamente nos condicionaram, social e biologicamente, fazendo a gente reproduzir e perpetuar tudo aquilo que nos foi ensinado por terceiros, ou por suposições feitas a partir desse pérfido padrão de programação, que efetivamente nos transformaram numa prisão de segurança máxima de nós mesmos.

Sendo assim, os gongóricos discursos retóricos padronizados proferidos por nossos algozes de estimação, gozam de prestimosos prestígios ao mesmo tempo em que domesticam continuamente os subalternizados, que foram mentalmente escravizados através da dor impingida pela infame escravização e a covarde colonização.

Por esse motivo, não deveria ser surpresa alguma o fato de muitos ainda acreditarem no evento da abolição da escravidão, no conceito da terra plana, ou, no discurso do tempo linear. Todos esses fatos foram narrados a partir dos livros manufaturados pela casta dominante, que implantaram uma nova cultura e uma nova história, a fim de formatar os subalternizados, se encontram profusamente disseminados nas páginas midiáticas que cotidianamente bombardeiam os nossos sentidos, ao confirmar a retórica do ver para crer, como sinal de inteligência, quando na verdade, se trata de Crer para Ver. Ou seja, trata-se de construir a nossa verdade, desapegando da verdade colonizada, que abundantemente adorna o nosso cotidiano com obsidiadas ilusões.

A elegância se faz presente nos gestos de quem enxerga a beleza, ao ver os pequenos milagres cotidianos ofertado pela natureza; e como nós fazemos parte dessa natureza, somos o próprio milagre se expressando em plena vida; caso os reconheçamos e passemos agir de acordo, em vez de sempre reagir aos belos adornos holográficos, apresentados nos trajes roubados da verdade, através da astúcia da mentira.

In Lak’esh...!! 

quarta-feira, 2 de junho de 2021

O Ferro Afia o Ferro: o Paradoxo que Cinge a Consciência e o Pensamento

As diversas versões das Realidades; versões passadas e futuras; que nos são apresentadas repetidamente; somadas as Linhas de Tempo criadas pelo nosso Poder pessoal de Foco, como portadores que somos dessa verdade elegantemente trazida por nossos Sentimentos; criam um paradoxo que exibe o seu contraste, ao expor uma dicotomia, análogo as que são apresentadas pelas rosas de plásticos, que não morrem e nem ferem, diante das Rosas de Fato; revelando desse modo, distintas realidades que são sutilmente envoltas por múltiplas camadas, que só podem ser descobertas após serem debulhadas constante e continuamente, como se fora um sabático rosário.

A metáfora alusiva as flores de plásticos, é o processo que vem sendo meticulosamente usado para adornar os inflamados discursos produzidos nos porões dos escuros jardins dos reichs monárquicos contemporâneos, ornamentando o panteão que abriga os santos com pés de barro[1], perfilados no pedestal das efemérides produzidas pelos senhores da cultura e das narrativas propositalmente enviesadas, que foram grafadas e sacralizadas respectivamente nos livros didáticos e religiosos; são essas mesmas literaturas que fabricam os paradigmas e dogmas, que formataram a arquitetônica da famigerada sociedade pós-moderna, impondo a liberdade condicional para uns e o toque de recolher para outros; estes dogmas e paradigmas são como remendos usados para costurar o véu que tece a máscara da escuridão, usada como disfarce holográfico pela democracia natimorta.

Desse modo, fazendo uso desse dogmas e paradigmas, criamos a nossa ilusão particular e procuramos impingi-la ao outro, já que vemos o mundo como nós somos, e não como ele realmente é; nesse caso, é o ego dirigente dessa mente que, como intrusa, nos instruí, impondo os pensamentos que nos guiam, como se existisse uma verdade única[2], diante da realidade que muda a cada segundo.

Diante desse véu ilusório, o músculo do coração é o que se encontra mais atrofiado nesse processo, pois raramente ele é tão exercitado como os tríceps, deltoide, trapézio ou abdominal; e tudo isso se reflete em nosso corpo físico, mental e emocional.

Portanto, as realidades mutantes se transformam a cada minuto em que o olhar do observador se faz presente, nesse tempo em que, a eternidade se revela como momentos vívidos que se vive, já que o tempo em si mesmo, é inexistente, pois assim com a terra não é plana, ele, o tempo, também não é linear. O tempo linear foi uma ilusão necessária para sustentar o mercado infame, esse cruento regime de escravidão gerenciado pelo poder do medo.

Quebrar paradigmas requer coragem; rescindir-se os dogmas proporcionado pelas crenças limitantes, requer o desapego integral a esse intelectualismo débil, que lustra o ego ao mesmo tempo em que infla esse baixo autoestima oferecida como oblação compensatória.

As efemérides são as nossas flores de plásticos, que Pavlov e Skinner cultivaram, para nos fornecer respostas prontas; necessárias a amenização do paradoxo surgido entre a ação do pensamento e processo da tomada de Consciência. A incrível sagacidade dessa saga patrocinada pelo mercado infame, foi a de transformar o indivíduo em sua própria prisão; fazendo ele esquecer-se de si mesmo enquanto sujeito humano, com direito à liberdade e felicidade de berço. Dessa forma, ele defende e acredita no roteiro de felicidade estipulado pela sociedade dos Tempos Modernos, enquanto busca pela autoafirmação endossada e aprovada por essa mesma sociedade que o consome.

 



[1] Referência ao sonho do profeta Daniel.

[2] “Existe a minha verdade e sua verdade; o que podemos fazer é juntar as nossas verdades e buscar pela Maior Verdade”; esse provérbio africano nos faz inferir que a verdade tem cerca de sete bilhões e meio de partes; que é o número de habitantes do planeta atualmente; e todos estão com a verdade e são a verdade, desde que reconheça a verdade que reside no outro. Portanto, o ato de ouvir o outro também se torna um ato de meditação, pois esse é um processo exige que que nos tornemos presente, uma vez que, o ato de ouvir difere do ato de escutar. Escutamos porque não somos surdos, e ouvimos quando aquilo que é falado não passa pelo crivo do julgamento e da crítica por parte do ouvinte, já que ele não procura rebater ao que é dito, enquanto é dito, buscando por alguma resposta ou rotulando o assunto; que não se trata de opinião dada, mas sim da exposição de uma ideia a ser debatida e não combatida; assim sendo, o diálogo não exige a ação do intelecto, mas sim a predisposição que transforma a escutar numa atividade ativa. 

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Elementar, meu caro Watson...

Os mundos do Pensamento, dos Sentimentos e das Emoções, se reúnem todos num só corpo, que é multidimensional, habitando consecutivamente, na pura lógica das sinapses Mentais, nas delicadas ondas mestras do Amor reinante no coração e no intempestivo turbilhão do congestionado e Emotivo Estômago. Alinhar esses três cérebros é um processo paradoxal, pois ao mesmo tempo em que vem a ser extremamente complexo, ele também pode ser assaz simples, pois tudo se resume no poder da crença em si mesmo, após toda essa cruel experiência tatuada em nossa pele, nos habituando a uma traumática existência de adestramentos e subserviência.

É inevitável fazer uma analogia entre a dificuldade encontrada para se destreinar um renitente animal, com as nossas frequentes tentativas para desaprender e desconstruir os limites sorrateiramente instituídos em nossa sedutora zona de conforto. Nesse caso, os pensamentos são como tatuagens superpostas, pintadas pelos pincéis dos sentimentos, sobre as molduras incandescentes das emoções formadas nesse palimpsesto à flor da pele.

A vitória se encontra no trabalhar com o poder das emoções, aliando as mesmas aos sentimentos originados. Ou seja, trabalhar com os únicos olhos que enxergam de fato, que são os olhos do coração; uma vez trazido ao nível do canal da dialética, nos permitirá gerar um processo, aonde as consequências provocadas através dos nossos atos, passem a ser medida de fato. Essa é a maneira diligente, através da qual deixamos de ser vítimas das nossas próprias ações, já que, somos a causa de absolutamente tudo aquilo que acontece conosco.

Por sermos seres curiosos por natureza, acabamos por criar variadas maneiras de produzir nossos próprios monstrengos; principalmente quando encaramos o obscuro abismo existente no espelho da nossa fantasia; só que realizamos esse procedimento no metafórico processo de lançar esse olhar sobre o outro, que naturalmente já é o nosso espelho. Portanto, é muito mais conveniente nos equipar com um responsável a tiracolo para se apontar, que não seja a gente mesmo, pelos atos desconfortáveis que abrolham como consequências em nosso cotidiano, para enfim, descobrirmos mais uma vez que esse é um método simplesmente inócuo.

Deste modo, podemos então parar observar o cenário maior, na condição de sermos nossa própria testemunha, num processo que exige que investiguemos profundamente a nós mesmo, com a profunda aptidão de um autêntico buscador, como um cientista se autopsiando, confirmando ser, tudo aquilo que deseja descobrir Ser.

Portanto, é a autoconsciência desse sentir, que deve motivar o pensar na nossa ação, que enfim, moverá a nossa intenção. Dessa maneira, uma bela revoada de borboletas se fará sentir no estômago, junto com a afetuosa leveza de um coração saltitante no coroamento das refinadas, elegantes e legítimas intenções originárias.  Assim, os mundos do Pensamento, dos Sentimentos e das Emoções, alinhados, comemorarão, celebrando este acontecimento único com folia até nos confins da galáxia.

Eis o sujeito em festa, celebrando numa folia que acontece simultaneamente em três diferentes mundos coexistentes em seu próprio corpo. Assim, tudo o que ressoar nesses mundos, repercutirá como um raio refletido no infinito, retornando ligeiro como um bumerangue trazido pelo vazio responsivo do silente eco cósmico observador. Desse modo, o que a mão esquerda faz, a direita também vai saber, pois agora elas trabalham de forma conjugada; assim como os mundos existentes em nosso interior; o que faz do nosso corpo, um corpo celeste, orbitando em nosso próprio universo, que timidamente reflete o firmamento, frente ao desmedido brilho emitido pela abóboda desse espelho Cósmico universal. 

quarta-feira, 12 de maio de 2021

A Jornada do Herói: De Romântico Príncipe idealista A Real Feiticeiro Alquimista.

Uma idílica Poesia escrita no Livro dos Mortos, entoa que a Vida Começa Quando o Medo termina. Portanto, após ouvir essa inspiradora récita oralmente grafada, podemos inferir que, absolutamente todas as doenças e infortúnios, são forjados justamente no relacionamento entre as partes, do mesmo modo como as estrelas circulam em torno do ponto central da galáxia, estabelecendo toda a física sidérea daquele conglomerado estelar. Dessa mesma forma, esse processo inevitavelmente ocorrerá, no instante em que um relacionamento; seja com o meio, com algo ou com alguém; se abalizar através do medo; medo este, oriundo de qualquer tipo de insegurança, relativa a perdas ou ganhos, dentro dessa mesma relação.

Nesse caso, essa poesia está impecavelmente exata. Não porque devamos simploriamente basear as nossas relações numa ou outra poesia qualquer, mas sim, porque qualquer relação, como um axioma, deveria ser a própria poesia vivida em si mesma. É como deixar que a flor ostente o seu olor e exponha a sua beleza naturalmente, sem que haja qualquer necessidade (egoísta) de colhe-la, tomando-a somente para si; visto que esse ato contínuo, determinará a morte da sua beleza e esplendor, extinguindo toda a química estabelecida na física dessa relação.

Essa é uma situação análoga à de uma criança: ela, a criança, não necessita se esforçar para ser alegre; pois ela, já é a própria alegria, vivendo absolutamente sem nenhum medo de ser feliz; sem as adultas bengalas das culpas e desculpas; ela apenas é. Ou seja, essa criança só aprenderá os pecados da vida quando passar pela sabatina da religião e da escola, como nós passamos, ao nos tornar produto desse meio adestrador e manipulador de corações e mentes. Inegavelmente, essa foi a pérfida forma com que a educação e a religião, sequestraram o nosso subjetivo, ao enclausurar a nossa criatividade e originalidade, nos obrigando a repetir todos os vorazes autores-predadores da narrativa dos povos.

Dessa maneira, nos transformaram em papagaios do futuro, que sempre repete o passado inventado e narrado como história dominante, nos forçando a entrar num letárgico looping robótico, sem que a gente se dê conta da condição submissa e subserviente, que sinceramente acabamos por normatizar, naturalizar e nos tornar multiplicador dessa pérfida realidade.

Sendo assim, uma vez inseridos nesse histórico contexto doentio como cobaias laboratoriais voluntariosas; as nossas relações também adoecem, sem que possamos conhecer as causas da moléstia. De tal modo que, passamos pela assunção de um processo de culpa interior, gestando um predador em nosso estômago, que nos tornaram amargamente discricionais conosco mesmo.

Logo, em meio a gravidade dessa doença terminal a qual fomos forçosamente acometidos, a única forma de cura, seria a da remição espontânea, instigada a partir do momento em que passamos a observar homeopaticamente os nossos medos, em vez de combate-los, como se estivéssemos defendendo um importante título numa arena de MMA. Então, atuando deste modo; como testemunhas de nós mesmos, e de nossos atos em si; em qualquer relação que se revele tempestuosa, teremos a consciência de que, todas as consequências por nós vivenciadas, nós fomos e somos a própria causa.

Depois de vencer com galhardia essa homérica luta hercúlea conosco mesmo, lançaremos uma polinizadora poesia pelo ar, trovando festivamente sobre o heroico ato de se enfrentar os terríveis monstros das sombras; monstros estes que foram forjados em nossa própria escuridão, durante essa incrível jornada relacional do herói de folhetim, que se transtornou em Senhor do Destino.

Todo esse autêntico aprendizado da história real, se encontra ocultado no fundo da nossa Memória, aguardando ansiosamente ser cutucado, e regado pela silente observação de si mesmo, enquanto um ser que deseja ser o que é. Essa longa jornada para se descobrir todas as pessoas existentes dentro da mesma pessoa, só pode ser percorrida pela pessoa que busca a si mesma; pois essa é uma jornada que não termina, até que essa pessoa reúna todas as pessoas que existe dentro dela numa só.

Portanto, enquanto o dito-cujo optar pelo duelo contra o seu semelhante, abrigando e acobertando os seus próprios monstros, ela jamais terá a oportunidade de iniciar a jornada do herói, a fim de ter a faculdade de escolha do próprio destino, visto que continuará servindo como entretenimento, sendo joguete dos mitos e dos arquétipos traçados pela intelectualidade discricionária.

Essa maravilhosa jornada de Alice é composta de intermináveis oitavas, numa escala de um a dez, aonde tudo é perfeitamente imperfeito; e em cada oitava percorrida, resgatamos um de nossos Eus pelo caminho, até chegarmos ao naipe aonde nos tornamos nosso próprio herói. É nesse ponto que descobrimos que, somos uma estrela de extrema grandeza, encarnado numa nano célula Cósmica, em meio ao mar universal do enigmático Omnverso. Em outras palavras, somos uma gota d’agua frente ao interminável oceano cósmico, como aquele singelo rio, que suavemente deslizou em direção ao Grande Calunga, quando repentinamente uma de suas pequeninas gotas, que não acreditava na existência desse tão comentado oceano, e boquiaberta, se deparou com aquele tremendo e misterioso Mar se fim.

Dessa maneira, podemos fazer dessa caminhada, uma brilhante aventura entre os verdejantes vales de um bucólico paraíso, ou podemos arrastar violentamente as margens que delimitam nosso caminho, como faria um emotivo tsunami, ou um raivoso touro frente a um ousado toureiro. O fato a ser observado é que, todo caminho se faz caminhando. Sendo assim, podemos escolher entre caminhar o caminho alheio, ou fazer o próprio caminho aonde ainda não há caminho. Ou seja, Ser o que se é, ou aceitar ser aquilo em que fomos transformados, eis a questão.

No final da jornada, veremos que não existe caminho certo nem errado, percebendo enfim, que tudo simplesmente se resume a escolhas e consequências: a primeira, nós dominamos e a segunda nos domina. É nessa nota da oitava que, aquele príncipe moldado por Maquiavel, se transmuta no Alquimista três vezes grande, vivido por Toth; é nessa perfeita jornada imperfeita, que se forja o herói da verdade.

Enfim, o silente oceano, de braços abertos, recebeu em seu regaço aquele minúsculo pingo, que, finalmente percebeu a sua grandeza, ao ver que, absolutamente tudo o que existia naquela imensidão, sempre esteve dentro dele. Dessa forma, aquela pequena gota compreendeu quanto tempo perdeu zombando dos peixinhos que não acreditavam em mundos que fossem diferentes do seu ambiente aquático, pois não admitiam que algum ser pudesse ser capaz de respirar fora d’agua.

Foi assim, que esse inaudito pingo; intrépido herói sem medo; passou a dar as boas-vindas a todas as gotas recém chegantes, com o coração, a mente e os braços abertos; enquanto dos seus olhos nasciam águas de regozijos, formando extensos oceanos de felicidade sobre aquele mar de profunda alegria.  Dessa forma, o seu candeeiro pode iluminar as profundezas abissais nas gotículas do seu próprio ser, revelando o mar de beleza ocultado pelas sombras ulteriores.

Destarte, enquanto o ser humano continuar a desconhecer absurdamente o seu admirável mar interior, perdendo tempo em duvidar daquele que flutua e anda sobre as suas águas, a sua beleza continuará ocultada por suas sombras abissais. Para isso, é necessário construir um processo diferente do método de Narciso; um processo que nos possibilite mergulhar em nosso próprio mar, e jamais num tecnológico lago holográfico, que, como uma sedutora arapuca, ilusoriamente reflete a nossa imagem pré-fabricada; esta imagem falseada que absorve e transfere o nosso amor-próprio para o objeto de pulsão de morte.

A jornada poderá ser longa, até chegar o momento do caminho em que se faça mister andar sobre as próprias águas. Nessa hora, o medo deverá ser colocado numa embalagem a prova d’água, existente nos escaninhos do alforje, embutido nessa pesada bagagem carregada a ser descartada. Após essa caminhada sobre a Terra, sobre o Fogo e a Água, o cavalheiro ou a Dama, poderá alçar o voo da Liberdade plena, para observar do alto a longa jornada percorrida.

Assim, a transformação do herói se dará naturalmente, partindo daquilo que é imposto como ideal, até aquilo que se revela na plenitude do ser que ele realmente é. Dessa forma, ele verdadeiramente se conscientizará de que, Liberdade é não ter medo; e nesse ponto, sua vida começará de fato; quando o medo for abolido e a sua idílica poesia se iniciar em meio ao silêncio repousado, finalmente o relacionamento entre as partes se harmonizaram, como as estrelas que giram em torno do Sol galáctico; somando sempre, sem perdas ou ganhos; sendo tudo aquilo que se deseja ser.

  

terça-feira, 11 de maio de 2021

Sobre o Grito Silencioso do 13 de Maio

Certa feita, um sinistro grito se fez ouvir das profundezas abissais, vindo de um som tetricamente produzido por um carnívoro e insensível chicote, que impiedosamente destroçava seguidamente a carne de vítimas especialmente escolhidas em consequência da intensa melanina presente na tez; foi assim que o verbo se fez carne; justamente numa das oitavas oitivas, em meio ao feral espetáculo de um barulhento piano operístico, que silenciosamente sangrava, enquanto era afinado pelo maestro das sombras; regente este que, depois de toda essa funesta preparação, se refestelava impassível a fim de assistir, do alto de seu imponente dossel, o piano calibrado, entoando as melodias de ódios exclusivamente dedicados ao seu bel prazer.

Nesse macabro espetáculo da escuridão, as teclas pretas, de angélicos pássaros idílicos, se transformaram em carniceiras aves de rapina, enquanto o restante das teclas alvas, decidiram repousar sobre papeis em branco, sendo em seguida, transformadas em emocionantes cartas endereçadas aos patriotas; esses soldados desconhecidos que morreram sem razão, durante a ocupação e construção dessa nação de alienados e degenerados, presidida por uma indescritível aberração.

Foi então que, finalmente perceberam estupefatos, após as longas leituras relidas e debatidas sobre o silêncio das referidas cartas sem letras, e da audição dessa melódica canção executada ao fundo, sem as densas teclas do instrumento pertencente a esse cruento verdugo; a existência do estrondoso silêncio se revelou, açulado pelo sangue corrente que copiosamente borbulhava, contrastando com a vibrante cor da celeste cútis que cobriu aquela longa noite sem lua, com o inaudível som produzido por esse momentum, com seus mais de setenta tons tatuados sobre essa pele brancamente empretecida; expondo dessa forma, essa arte em alto-relevo, que fora dolorosamente esculpida sobre a receptiva derme da melanina estigmatizada; formando assim, possantes erupções de fantasmáticas sombras bruxuleantes, embaçando a visão desse preto-ator que desempenha o seu próprio papel, contraditoriamente dirigido por um Maquiavélico político-mor, proprietário major do chicote e do teatro de sombras S/A.

Hoje, após tantos novembros entoando as inaudíveis notas das teclas inexistentes nessas invisíveis oitavas, o preto-ator, tenta ser o que é, mesmo esquecido do próprio papel, que agora se torna audivelmente bem descrito pelo tropel do Palomino que adentra, marchando impávido sobre a clareira do pelourinho, e também pelo esvoaçar surreal dos trajes da elegante princesa que gentilmente o cavalga, observando do alto de sua montaria, as flores de lótus e as Camélias passantes, a caminho do grito ortivo do Gólgota, enquanto do lado oposto, o estático dossel do inominável observa paralisado, feito estátua comemorativa postada em praça pública.

A chuva de sangue que escoa do alto, através dos sulcos criados pelos caminhantes, nas encostas, em torno do citado Gólgota, quando toca a base das faldas, transforma a poeira da estrada em completa vermelhidão, enquanto o réquiem entoado se torna cada vez mais audível para aquele que se encontra lá no alto, dependurado, sendo seguro somente pelos impassíveis e pontiagudos cravos que lhe transpassam a carne preta, enquanto o que internamente ele ouve, é o coral da sua epifania, entoando nas letras do seu cântico que, o real valor da alegria só pode ser perpetrado através do conhecimento administrado por uma pungente dor; dor esta, que só pode ser sentida quando se caminha sobre o tapete vermelho-sangue, que tem o fluxo de sua oitava, oriundo nas simples manjedouras d’uma pobrecita maloca qualquer, indo até o  tenebroso pelourinho de um Gólgota ortivo particularmente público.

Diante desse espetáculo, de longe, pode-se ver as teclas, pretas e brancas, entrincheiradas em fila, formando infinitas oitavas de causas e efeitos, sendo destilados por meio de melodias, ritmos, rimas e axiomas ditados pelos compassos compassivos, abduzidos pelos ouvidos moucos que, costumeiramente malhavam com frias chibatas, a preta carne quente dos nubentes, provocando desmaio de morte frente ao show aonde se homenageava os melhores do ano, como representantes dessa alienada nação.

Desse modo, as efemérides se tornaram preciosos instrumentos ressuscitadores, exatamente como os aparelhos volta e meia usados em cirurgias cardíacas, a fim de dar sobrevida a carcaça desse paciente que, há muito, já está ausente.

É dessa forma, vendo o sangue alheio escorrendo sobre os seus pés, que um escravizado padrão se sente enfim, um cidadão; pois só mesmo cotejando os sofrimentos alheios com os seus próprios sofrimentos, que ele consegue sobreviver ao silêncio cantado nas cartas e nas canções de denúncias dessas efemérides homicidas, que adornam as paredes desse labirinto em que foi transformada a nossa existência, quando encobriram todas as portas e possíveis saídas, com as espectrais datas comemorativas, e por conseguinte, encobriram também as nossas reais chances de liberdade plena.

Portanto, fazer calar o tétrico espetáculo das manipuladoras efemérides; adjudicadas a partir das instituições oficiais e suas Tecnologias de Informação e Comunicação; fatalmente provocará intensos rubores nas princesas de maio e nos seus fiéis seguidores Caxias, que céleres, cobrarão providências urgentes em prol da família e dos bons costumes, clamando veementemente pela volta dos chicotes-com-pelourinhos-públicos, com direito ao retorno imediato da arcaica política do café-com-leite, com AI5 e similares fazendo parte dos adereços e penduricalhos que adornam o atávico carro-chefe que puxa o carnaval da ala das nações.

É nesse momento que a porta do sagrado se encontra em profundo silêncio, sigilosamente aguardando serena pelo despertar das notas mudas emitidas pela imprensa, pela escola, pela política e pela religião, conclamando a todos, a viver uma vida fora dessa milenar prisão, sutilmente construída pelas crenças disfuncionais, além das perdulárias ideologias e empatias descapacitantes.

Desse ponto em diante, quando os cartazes e propagandas das efemérides se tornarem anátemas, então seguiremos a Luz no final desse túnel em direção à vida, celebrando a nós mesmos, como milagres de fato; nascendo de novo, numa escala de infinitos milagres ruidosamente silentes, oriundos das epístolas nunca antes escritas; já que fora totalmente despida das suas letras condicionantes, após serem desovadas as margens dos sentimentos sublimes do Ipiranga, durante o lancinante, prolongado e agudo grito, seguido de um inspirar profundo ao final, que trouxe enfim, o estrondoso silêncio do vento norte; vento do nascimento de um lado, e da morte, no sentido oposto.

Após caminhar sobre o honrado tapete vermelho das Causas e Efeitos, é notório a percepção de que, o Cantar e o Dançar, na alegria ou na dor, faz com que o indivíduo possa enfim, sacudir as cinzas que camuflam esse mundo feito de toda cor, saindo da lógica fria do empedernido xadrez em preto e branco, para deslizar suavemente sobre as cores do Arco-da-velha, sem gritos nem vela.

É dessa forma que, nesse livro ainda não escrito com palavras, mas, já lançado numa importante data sem comemorações; que a Bela Princesa Preta, dá o seu vibrante beijo de silêncio profundo na boca do alto falante altivo; conseguindo enfim; acudir o príncipe encantado do atroz e entorpecedor látego carrascoso, ao esquivar-se habilidosa e graciosamente, com cabeçadas certeiras, rabos-de-arraia e precisas rasteiras, cegando o afiado fio da penetrante navalha alemã e da perfurante ponta do gládio invasor, transformando os gritos de dor em cantos de Amor. Desde então, essa história de Afrodite, narrando o seu grito de aventura as margens do Ipiranga, ao resgatar o seu amado das trevosas garras da voraz senzala; caiada como se fosse a aconchegante e singela casa da vovó; é repetida nas ladainhas entoadas ao pé do Gunga, do Viola e do Berra-boi, nas rodas regadas a Semba e Maculelê em torno das fogueiras que iluminam as longas noites da alma.

Dessa maneira, silenciosas músicas são entoadas, e majestosas danças são executadas em torno das chamas crepitantes dessa fogueira; fogueiras acesas somente em noites sem luas no inverno da alma perdida de si mesma, até que a chama do silêncio, aqueça essa gélida brisa que adensa o doloso e dolorido grito emitido, que ecoa longamente em torno do cinzento ar que circula o pelourinho em flor, perpetuando o divino sopro da vida.

Destarte, o silêncio sempre traz consigo a verdade completa, que jamais pode ser olvidada; procrastinada talvez; esquecida, nunca. Evitar a tertúlia com o silêncio, ao tentar fazer ouvidos moucos para os segredos contidos nos lábios cerrados de um preto velho sossegado, não é garantia de um eventual sucesso para escapar da incessante luz emitida por sua chama interna; é a vibrante chama brotada a partir do silêncio dialogado que aquece a alma, dando vida a essa autoconsciência que colore a existência de si mesmo, nesse Tudo que é o Todo.

Portanto, somos uma estrela de primeira grandeza, que se encontra encapsulada num veículo, composto majoritariamente por essa melanina, que foi sutilmente cognominada como carbono. Portanto, o invólucro de ébano que oculta a luz no interior dessa estrela, só pode ter a sua porta aberta, quando formos capazes de ouvir a suave campainha do silêncio ativo, mesmo sobre o intenso e ininterrupto batuque desse tambor que repinica em nosso peito, impondo o compasso da vida e o ritmo da nossa existência.

É escutando ativamente o retumbante silêncio que ecoa no batuque desse tobal[1] incrustrado em nosso peito, que enfim, poderemos celebrar as alegrias dos milagres da vida plena, sem o peso da bagagem cármica trazida no alforje de culpas e desculpas; sacola sedutoramente oferecido pelo Black Friday novembrino do Mercado Infame[2] nosso de cada dia, que nos dói hoje, nos cercando com as armadilhas das propagandas de datas comemorativas, ao aponta-las em direção as nossas mentes e corações, como a armas de grosso calibre que verdadeiramente são.

Entre a insulto oferecido como denúncia pelo poder religioso em questão, diante da visão provocadora da fumaça do afrontoso cachimbo do velho ancião; chamado de Preto Velho pela conveniência da pilhéria em qualquer situação; e a fumaça saída dos fumegantes canos incandescentes das armas engatilhadas no peito do Mulato inzoneiro, a sensação dos adrenocromos são negociados nesse infame Mercado de ações de vida e morte, a preço de ocasião, com propagandas e campanhas que seduzem o neófito em meio a essa arrítmica infestação.

Agora, a Primeira Princesa Preta novamente circula o pelourinho contemporâneo, montada em seu intrépido Corcel Negro, enquanto discorrem os discursos políticos em horário gratuito obrigatório, incentivando as políticas públicas com as ameaças rotineiras de sempre, que constituem o cotidiano da Urbe. Essa é só mais uma noite comum no gueto do Gólgota, que antecede o grito fabricado com esmero pelos látegos medievais pós-modernos, a fim de que o verbo novamente se faça em carne viva, transformando-se a seguir, num Frankstein de terno preto e gravata vermelha, remendado com vernáculos gongóricos, bibliografias pedantes e títulos anátemas, até que ele venha a ser, finalmente desencantado, através do beijo do Silêncio profundo, oferecido pela Primaz Princesa Preta, essa guerreira criadora do vórtice constituído por um só coração e duas mentes, ao som do silente batuque, executado por esse tambor, que tempera o diálogo, finalmente estabelecido nas profundezas desse estrondoso Silêncio repousado.



[1] Tambor de guerra.

[2] Denominação da Tráfico de gente; referência a escravidão dos Povos Africanos.