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quinta-feira, 19 de agosto de 2021

I mólè kó ní tàn ti kò bá fi dúdú bo’ra - “A luz não brilhará sem primeiro se cobrir de escuridão”

Era uma vez uma pedra, que fora jogada de muito longe; muito longe mesmo. Atravessando, como um poderoso raio, o espaço tempo de éons, e partindo-se em mil pedaços no impacto contra o solo Gaiano.

Essa pedra; que era na verdade, um diamante bruto; foi transformada em mil seixos de carbono no baque virado do solo aquecido pelo sol maior. Aonde caiu, ficou; estagnada num movimento estático recorrente, vivenciando o looping da eterna continuação de sua chegada, com repetidas e incontáveis pedradas desnecessárias contra o generoso colo de Gaia; nessa detenção paradoxal, além de ficar completamente submersa pelo limo, criou em baixo de si, uma escuridão inarredável, que se estendeu para dentro do seu endurecido ser.

Dessa maneira, no espaço ao seu torno, o Tempo circundou fora de si; e ambos; Tempo e Espaço; ramificando-se, como os galhos de um milenar Baobá, fez dormir a consciência ao acordar o pensamento como sua primeira forma de autodefesa autocentrada.

Dessa forma, cada pedra, ao relacionar-se com os seus próprios Espaços/Tempo, progressivamente foram sofrendo mutações que as fizeram transmutar-se, ao serem submetidas a lapidação pelos elementos das estações de cada sítio em que permaneceram; até que viessem as tempestades, que lhes retiravam todo limo, trocando-as de espaços, aparando as suas arestas e potencializando essa lapidação através dos Tempos.

Durante esse pedregoso processo, muitas dessas pedras, fizeram de lustrosos e requintados sapatos, o seu confortável casulo; enquanto outras pedras preferiram ser acariciadas pelas mãos daqueles que possuíam os pés descalços e se antagonizavam com as diversas outras belicosas pedras transformadas em surpreendentes armas; outras ainda, decidiram ornamentar com alegrias incontidas todos os portais de Gaia, compondo harmonicamente as runas do tempo, demarcadoras do caminho de volta para casa; transformando-se assim, em diamantes plenamente lapidados pelo Tempo circundante nesse espaço intenso de Tempo real.

Quando cada pedra, a seu turno, descobrir que, a sua opacidade é somente um aspecto da sua própria luz interior, trajada pela escuridão exterior, percebendo finalmente, a importância de a luz ter que, antes de brilhar, se vestir de escuridão; compreenderá que, mesmo na condição de pedra opaca, ela é a própria Luz abstrusa em si mesma. Ou seja, é ela quem é a doadora, e também a recebedora do presente oferecido. Sendo assim, é no momento do agora, em nosso hoje, que recebemos a pedrada por nós desferida ontem.

Essa preciosa percepção só pode ser alcançada na experiência de se viver cada agora de nosso hoje, quando então, o pensamento se torna um complemento, e não mais o ator principal, protagonizando e conduzindo o Tempo e o espaço em torno de si mesmo; visto que, quem possuí o tempo é dono do pensamento, sem se deixar levar ou ser domado por esse assassino da realidade em que se tornou o pensamento, tornando-se assim, um senciente autoconsciente.

Portanto, podemos inferir que, a pedra, como uma metáfora de peso, igual a uma criança, ela é integralmente neutra, isenta do maniqueísmo, dualidade ou dicotomia, já que é o espaço e o Tempo que a transforma, na qualidade de criadora e criatura, em sua própria artesã. Esse princípio, só pode ser cognizado, a partir e através da autoconsciência. Ou seja, sem as justificativas e defesas estabelecidas pelo ego, que depende desses artifícios, para sobreviver de forma apolínea.

Por certo, o ego é o principal gestor de nossa escuridão, que jaz por debaixo e por dentro da nossa pedra coronária em estado bruto, exposta na vitrine da joalheria universal. O tempo e o vento, que move a tempestade desse inverno que burila a alma do Homem-Pedra, trazem consigo os Cavaleiros da Revelação com os quais pelejamos, nessa épica jornada do herói.

Enquanto as pedras continuarem a serem lançadas sobre pretextos e justificativas germinadas e cultivadas pelo ego, continuaremos a ser apedrejados hoje, pelas mesmas pedras que arremessamos ontem; já que somos a causa de, absolutamente, todas as consequências vividas em cada momento da nossa existência.

Que a partir desse Agora, não atire mais a primeira pedra quem jamais apedrejou; ou talvez sim.... Já que, somente dessa forma, descobriremos que as pedras nunca foram jogadas; elas é que se atiram, tendo a si mesma como alvo, nesse sítio multidimensional que é o Tempo quântico, simultaneamente absoluto e relativo quando o observado é o próprio observador. Dessa maneira, perceberemos que, a despeito das formas e cores diversas, somos tod@s pedras preciosas; somos um somente; e é justamente nessa percepção única, que passamos a compor essa imensurável joia universal, de inestimável valor, que brilha no firmamento ancestral, nas escuras noites da nossa existência, fulgurando na fronte da inominável Fonte Criativa.


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