Nesse caso,
essa poesia está impecavelmente exata. Não porque devamos simploriamente basear
as nossas relações numa ou outra poesia qualquer, mas sim, porque qualquer
relação, como um axioma, deveria ser a própria poesia vivida em si mesma. É
como deixar que a flor ostente o seu olor e exponha a sua beleza naturalmente,
sem que haja qualquer necessidade (egoísta) de colhe-la, tomando-a somente para
si; visto que esse ato contínuo, determinará a morte da sua beleza e esplendor,
extinguindo toda a química estabelecida na física dessa relação.
Essa é uma
situação análoga à de uma criança: ela, a criança, não necessita se esforçar
para ser alegre; pois ela, já é a própria alegria, vivendo absolutamente sem nenhum
medo de ser feliz; sem as adultas bengalas das culpas e desculpas; ela apenas
é. Ou seja, essa criança só aprenderá os pecados da vida quando passar pela sabatina
da religião e da escola, como nós passamos, ao nos tornar produto desse meio
adestrador e manipulador de corações e mentes. Inegavelmente, essa foi a pérfida
forma com que a educação e a religião, sequestraram o nosso subjetivo, ao enclausurar
a nossa criatividade e originalidade, nos obrigando a repetir todos os vorazes
autores-predadores da narrativa dos povos.
Dessa maneira,
nos transformaram em papagaios do futuro, que sempre repete o passado inventado
e narrado como história dominante, nos forçando a entrar num letárgico looping
robótico, sem que a gente se dê conta da condição submissa e subserviente, que sinceramente
acabamos por normatizar, naturalizar e nos tornar multiplicador dessa pérfida
realidade.
Sendo
assim, uma vez inseridos nesse histórico contexto doentio como cobaias
laboratoriais voluntariosas; as nossas relações também adoecem, sem que possamos
conhecer as causas da moléstia. De tal modo que, passamos pela assunção de um
processo de culpa interior, gestando um predador em nosso estômago, que nos
tornaram amargamente discricionais conosco mesmo.
Logo, em
meio a gravidade dessa doença terminal a qual fomos forçosamente acometidos, a
única forma de cura, seria a da remição espontânea, instigada a partir do
momento em que passamos a observar homeopaticamente os nossos medos, em vez de
combate-los, como se estivéssemos defendendo um importante título numa arena de
MMA. Então, atuando deste modo; como testemunhas de nós mesmos, e de nossos
atos em si; em qualquer relação que se revele tempestuosa, teremos a
consciência de que, todas as consequências por nós vivenciadas, nós fomos e
somos a própria causa.
Depois de
vencer com galhardia essa homérica luta hercúlea conosco mesmo, lançaremos uma polinizadora
poesia pelo ar, trovando festivamente sobre o heroico ato de se enfrentar os terríveis
monstros das sombras; monstros estes que foram forjados em nossa própria escuridão,
durante essa incrível jornada relacional do herói de folhetim, que se transtornou
em Senhor do Destino.
Todo esse autêntico
aprendizado da história real, se encontra ocultado no fundo da nossa Memória,
aguardando ansiosamente ser cutucado, e regado pela silente observação de si
mesmo, enquanto um ser que deseja ser o que é. Essa longa jornada para se descobrir
todas as pessoas existentes dentro da mesma pessoa, só pode ser percorrida pela
pessoa que busca a si mesma; pois essa é uma jornada que não termina, até que
essa pessoa reúna todas as pessoas que existe dentro dela numa só.
Portanto,
enquanto o dito-cujo optar pelo duelo contra o seu semelhante, abrigando e
acobertando os seus próprios monstros, ela jamais terá a oportunidade de
iniciar a jornada do herói, a fim de ter a faculdade de escolha do próprio
destino, visto que continuará servindo como entretenimento, sendo joguete dos
mitos e dos arquétipos traçados pela intelectualidade discricionária.
Essa maravilhosa
jornada de Alice é composta de intermináveis oitavas, numa escala de um a dez,
aonde tudo é perfeitamente imperfeito; e em cada oitava percorrida, resgatamos
um de nossos Eus pelo caminho, até chegarmos ao naipe aonde nos tornamos nosso
próprio herói. É nesse ponto que descobrimos que, somos uma estrela de extrema
grandeza, encarnado numa nano célula Cósmica, em meio ao mar universal do enigmático
Omnverso. Em outras palavras, somos uma gota d’agua frente ao interminável
oceano cósmico, como aquele singelo rio, que suavemente deslizou em direção ao
Grande Calunga, quando repentinamente uma de suas pequeninas gotas, que não
acreditava na existência desse tão comentado oceano, e boquiaberta, se deparou com
aquele tremendo e misterioso Mar se fim.
Dessa
maneira, podemos fazer dessa caminhada, uma brilhante aventura entre os verdejantes
vales de um bucólico paraíso, ou podemos arrastar violentamente as margens que
delimitam nosso caminho, como faria um emotivo tsunami, ou um raivoso touro
frente a um ousado toureiro. O fato a ser observado é que, todo caminho se faz
caminhando. Sendo assim, podemos escolher entre caminhar o caminho alheio, ou
fazer o próprio caminho aonde ainda não há caminho. Ou seja, Ser o que se é, ou
aceitar ser aquilo em que fomos transformados, eis a questão.
No final da
jornada, veremos que não existe caminho certo nem errado, percebendo enfim, que
tudo simplesmente se resume a escolhas e consequências: a primeira, nós
dominamos e a segunda nos domina. É nessa nota da oitava que, aquele príncipe
moldado por Maquiavel, se transmuta no Alquimista três vezes grande, vivido por
Toth; é nessa perfeita jornada imperfeita, que se forja o herói da verdade.
Enfim, o silente
oceano, de braços abertos, recebeu em seu regaço aquele minúsculo pingo, que,
finalmente percebeu a sua grandeza, ao ver que, absolutamente tudo o que existia
naquela imensidão, sempre esteve dentro dele. Dessa forma, aquela pequena gota compreendeu
quanto tempo perdeu zombando dos peixinhos que não acreditavam em mundos que
fossem diferentes do seu ambiente aquático, pois não admitiam que algum ser
pudesse ser capaz de respirar fora d’agua.
Foi assim,
que esse inaudito pingo; intrépido herói sem medo; passou a dar as boas-vindas a
todas as gotas recém chegantes, com o coração, a mente e os braços abertos;
enquanto dos seus olhos nasciam águas de regozijos, formando extensos oceanos de
felicidade sobre aquele mar de profunda alegria. Dessa forma, o seu candeeiro pode iluminar as
profundezas abissais nas gotículas do seu próprio ser, revelando o mar de
beleza ocultado pelas sombras ulteriores.
Destarte,
enquanto o ser humano continuar a desconhecer absurdamente o seu admirável mar interior,
perdendo tempo em duvidar daquele que flutua e anda sobre as suas águas, a sua
beleza continuará ocultada por suas sombras abissais. Para isso, é necessário
construir um processo diferente do método de Narciso; um processo que nos possibilite mergulhar em nosso próprio
mar, e jamais num tecnológico lago holográfico, que, como uma sedutora arapuca,
ilusoriamente reflete a nossa imagem pré-fabricada; esta imagem falseada que absorve
e transfere o nosso amor-próprio para o objeto de pulsão de morte.
A jornada
poderá ser longa, até chegar o momento do caminho em que se faça mister andar
sobre as próprias águas. Nessa hora, o medo deverá ser colocado numa embalagem
a prova d’água, existente nos escaninhos do alforje, embutido nessa pesada bagagem
carregada a ser descartada. Após essa caminhada sobre a Terra, sobre o Fogo e a
Água, o cavalheiro ou a Dama, poderá alçar o voo da Liberdade plena, para
observar do alto a longa jornada percorrida.
Assim, a
transformação do herói se dará naturalmente, partindo daquilo que é imposto
como ideal, até aquilo que se revela na plenitude do ser que ele realmente é.
Dessa forma, ele verdadeiramente se conscientizará de que, Liberdade é não ter medo; e nesse ponto, sua vida começará de fato;
quando o medo for abolido e a sua idílica poesia se iniciar em meio ao silêncio repousado, finalmente o
relacionamento entre as partes se harmonizaram, como as estrelas que giram em
torno do Sol galáctico; somando sempre, sem perdas ou ganhos; sendo tudo aquilo
que se deseja ser.

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