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domingo, 23 de julho de 2017

Réquiem para o Menino do Rio

Minha terra tem palmeiras onde um negro chorará; escravizados que aqui morrem não sofreram acolá. Nossos morros têm mais pobres, nossas ruas mais horrores, nossos órfãos tem mais ira, nessa vida de impostores...


Se sair a rua à noite só a morte encontra lá; nessa Terra tem palmeiras onde um negro chorará...
Minha terra tem impostores qu’em Siriús n’entrará, se eu sair à rua à noite mais cadáver encontra lá; nessa Terra tem palmeiras onde um negro chorará...

Me permita Deus a morte, pra que eu não volte para lá; pra qu’eu não veja esses horrores quand'Iemanjá me abraçar; pra qu’inda só aviste as palmeiras sem um corpo (negro) pra velar.”

Pois é... Essa é minha terra; Terra que tem o ouro de Mallboro[1]; na zona norte tem a via da morte e a zona sul, não é só mar azul. A zona oeste inconteste; sempre um grande faroeste.

Na Linha Amarela o Comando é Vermelho, e na Linha Vermelha, tem os amigos dos amigos. Enquanto a Linha verde é desmatada todas as noites em que as luzes da favela se confundem com as estrelas no negrume noturno do eclipse lunar e o piscar do giroflex do comando azul que sobe o morro para preto assassinar.

São os reflexos das Balas encravadas nos muros e paredes de barracos que produzem os diamantes cravejados nos anéis das madames e dos brancos burgueses.

Rio sem brio, sem teto e com frio. Padre cacófato em cenas insanas de cismas sinistros. Rio, de braços abertos na blitz bandida civil e militar. Rio jagunço, que desarma o homem comum armando o burguês sem medo da punidade; “penas, Pra que te quero!!!???..."

Rio, braços abertos para o amigo-urso. Rio branco, não da paz, mas da raça racista. Rio, vermelho de raiva e do fogo dos canos dos revólveres; do sangue que corre nas vicinais e principais.

Rio, negro, escravo de si mesmo. Morro palestino, asfalto TELa VIVa; invasão ou ocupação!!!??? Preocupação com a ação da cidadania virtual. Vivo Rio, morte carioca!! Viver sem vida, sem teto e com brio é sina na cena do carioca sem gema, mas... Às claras. Pão...!!?? Nem com açúcar... É pavê só na TV a mesa com fartura de espaço vazio; vazio de vida, de respeito e dignidade.

Mas todos sorriem, pois estão sendo filmados pelo “grande irmão”; por isso mostram seu sorriso vazio, contrastando com sua negra pele e saltitantes olheiras, neste Rio sem rima nem ritmo, mas com muita bossa burguesa e mulata à milanesa. Tá servido!!??

Rio que morre de raiva, a míngua enquanto a mata atlântica dança atropelada na Avenida “Brazil” por caminhões de empreiteiros contratados a peso de ouro pelo prefeito que constrói sua casa de campo na calada da noite, sobre o cedro, casa do mico-leão-dourado.

Nossa casa é o chão de estrelas, chão ocupado pela cannabis sativa, ativa e nativa que desarma o espírito e engatilha a doze na cara do cara careta. Rio 40 graus, bonito, charmoso, bombado e suado, desfilando pelo calçadão, subindo as escadarias do Christ e descendo a lapa de bondinho até o teleférico do Sugar Loaf; e cheio de graça e beleza vai gingando pela Avenida Atlântica, sobre olhares ávidos de espectadores dos big Brothers.

Viva... Rio! Não morra... Ainda!! Nem me mate! Pois Sou oriundo de Angola, uma favela perto da faixa de Gaza, bem longe de Xerém, onde o som dos tambores, cavaquinho, gonguês e agogôs se misturam com o som dos projeteis das PTs, em contraponto aos cantos banto do samba de mesa.

Sou um mulato-pardo-bem-pretinho-quase-negro; enfim, um empretecido, armado de violão pendurado nas costas, cavaquinho nas mãos e da palavra cantada na garganta que viaja entre os fartos lábios; espaço geográfico da antiga cantiga do capão; acompanhado de atabaque, pandeiro e berimbau. Desvio-me do capitão-do-mato; aquele homem classificado pelo editorial do jornal nacional como“embaixador da paz” sem voz; desse jeito, caminho, lutando em busca da igualdade de ser gente, mesmo sendo de cor diferente.

As linhas que delimitam mapas, separando países e mundo, uso para montar meu instrumento e cantar idiomas arcanos e profanos dos arcanjos africanos, no Rio ou em Belém, em Casa Blanca ou em Dresden.

Quanto a mim, crioulo de cara preta, sigo a palo seco pela aridez desse lotado deserto urbano; este meio-ambiente morto e enterrado pelo etnocentrismo antropofágico desumano dos que se consideram seres humanos.

Não preciso estar no mundo da lua para perceber que a terra azul se transformou num mar vermelho, sem trilha, sem rumo, nem retorno para escapar do abismo interior.

Nem as lágrimas dos arrependimentos misturadas às lágrimas dos crocodilos conseguem fazer cessar o brotar de vidas secas, regadas pela sede de viver fora desse jardim de fosseis urbanos.

Nesse Oásis de pensamentos jurássicos, extinguiu toda a sana da chama terna da vida coletiva da pequenez da cidade grande. Agora a aridez das emoções faz brotar espinhos nos músculos anabolizados de Cupido ariano, fazendo os yuppies saírem das cavernas pútridas da modernidade virtual para a crueldade do mundo real, desmascarados e completamente nus.

“Foi o Rio que passou na minha vida, e meu coração se deixou levar...” E assim mais um cogumelo atômico é servido à Via Láctea, nossa Via de mão dupla transversal.

Hiroshima é aqui, Nagasaki é ali, quanto ao Haiti... Não sei, morri... Sentindo o baque d’uma bala perdida na geografia de minhas costas, enquanto olhava um carro alegórico atravessando a Sapucaí!!!   Eu me acabava e a guerra começava... booommm!!!

Descobri tarde demais que, as antenas das Tvs irradiam pensamentos que são     captados pelo bom cidadão, transmitidos em forma de risos de plásticos e diversão, eram antenas protegidas pelo mesmo divino redentor de pedra que abençoa as infindáveis filas de crioulos e crioulas perfilados, em ordem unida, a espera de uma chance de igualdade desigual. 

O cristo de pedra com coração de lava incandescente, de costas para a periferia, e de frente para os indecentes, que escraviza nossas vontades com seu nome, sempre observara, impassível, a crueza e o desvalor da vida vendida e iluminada por sua negra sombra de redentor. 

Através das ditas antenas, podem-se ouvir o soar dos sinos e o rufar dos tambores anunciando a aproximação de novos tumbeiros que continuamente adentram a Baía de todos os santos da Guanabara.

Antenas que choram lágrimas de crocodilos extintos do Rio de Fevereiro, revelando sob as águas de Março, os submersos túmulos dos amores-próprios.  Assim se revela a favela da cor da tia Ciata, que arrebata Onze Praças morro acima, e depois de gentrificada, é derrubada de seu Castelo morro abaixo.

Morro alto que vira asfalto negro, com cabelos de piche, pisado, e maltratado pela estupidez racional do animal que reside na inconsciência da besta humana.
O cristo incrustado na pedra comemora o natal de todos os dias, medindo de mãos abertas, a bofetada pesada explodida na face crioula escancarada, desdentada e escachada; aparecendo na foto do cartão postal, o natal tropical numa pose fetal, ilustrando  a campanha a favor do preto aborto social.

Assim, a liberdade negra é condenada à prisão preventiva sem perdão presidencial, enquanto a felicidade preta é apreendida no corredor da morte; ambas, a liberdade e a felicidade, agonizam na fila de espera aguardando a esperança ariana vestida de branco, enfrentar o anjo negro da morte, a fim de transformar noites de pranto em dias de santo...

Tudo isso aconteceu num 21 de março, o dia de todos os dias em que fui parido do ventre de um navio negreiro, sobre uma fria e úmida tumba chamada Atlântico, tendo a imensidão do vazio e o gélido vento, além dos afiados dentes dos tubarões brancos como testemunhas, sob o reconfortar dos céus que cobria o frio de minha profunda solidão.

O compasso do batuque das águas nas paredes sólidas do tumbeiro, foi o ritmo que acompanhou meu ritual de chegada ao mundo novo. Aportei, Sem família, sem irmão e sem amor; só com a carícia do toque gélido do horror de um interminável suplício de um recomeço num deserto repleto de infinito vazio: Foi à viagem mais longa do mundo.

Despido de tudo, principalmente de minha dignidade, só restou o barulho do compasso no balanço das ondas que batia no casco do escuro porão do navio negreiro: útero branco do novo mundo.

Como qualquer recém-nascido: o choro. Minhas lágrimas de corpo presente em meu próprio funeral, que salgaram os oceanos do mundo.

Depois, pude perceber que eram lágrimas de milhões de milhares de olhos negros, ajuntados e misturados no branco útero do umbigo da madrasta de olhos azuis do novo mundo novo, em seu processo pavoroso do forçado aborto na contramão da vida rendida.

Desde então, após me numerarem, me marcando como gado, me deram um novo nome, uma nova religião explícito num rótulo ardente na pele da testa e do peito.

Deslocaram-me numerosas vezes, de zoológicos para vitrines, de vitrines para zoológicos e vice-versa, antes de chegar ao meu túmulo final em meio ao canavial; fotografaram-me; me classificaram e me deram um número de identificação. Enfim, fui devidamente catalogado como parte da fauna do novo mundo; reprogramaram-me e me enquadraram; cultivaram-me para produzir e reproduzir rendimentos e frutos aos proprietários de minha alma; agora donos da minha força ativa que fora devidamente sequestrada, legalizada e legitimada.

Desde então, foi instituído um dia de comemoração, para que esse episódio servisse de representação e referência da minha história como objeto que anda e que fala, para que não esquecêssemos jamais o que nos tornaram e o que nos tornamos; desse modo, começamos a comemorar essa princesa branca, mantendo viva a memória de nossa morte, a dívida da vida a qual o ventre do navio negreiro nos legou.

Como cristãos novos agradecemos essa nova vida nascida morta no compasso da queda d'água de nossos negros olhos que salgaram os oceanos do mundo, transformando as profundezas abissais numa imensa cova coletiva, na medida em que se instituíam privilégios, que alimentava a arrogância e a indolência da violência e do suplício fortuito, fazendo da morte, da tortura e da humilhação, a base do infame mercado legalizado gerador de regalias, de frugalidades e de frivolidades da supremacia branca estabelecida; em suma; o ganha-pão honesto que conferia status e poder ao homem de bens.

Foi com essa reflexão que hoje cedo mergulhei nas águas do mar que banham os limites da cidade em que habito, após olhar indefinidamente para o infinito, no azimute, procurando enxergar ao longe algum sinal das cercanias do meu quintal ancestral.

As lágrimas retornaram aos olhos, marejando as vistas cansadas de vida e das citadas comemorações. Então me banhei na água do mesmo sal que corroeu os ossos das peles negras de meus irmãos; sal que agora temperavam o banquete comemorativo de vida e morte no gourmet promovido pelo infame mercado da carne preta nesse eterno Black Friday; foi quando lembrei que esse único dia do ano, nos foi generosamente concedido e reservado internacionalmente, para brindar a eliminação do racismo no novo mundo...

Nesse momento, me dei conta de que estávamos no mundo novo e que meu antigo mundo havia se perdido na via crucies do trajeto transatlântico da branca pirataria legalizada. Desse modo; enquanto mergulhava; os tubarões brancos do oceano do mundo me mostravam seus ameaçadores dentes afiados.

Retornei célere, sem conseguir vislumbrar um tico do meu antigo quintal, enquanto os tubarões brancos terrestres calorosamente me recepcionaram com um amplo sorriso de crocodilo. Imediatamente entendi os motivos dos dias de comemorações contra essa tal da discriminação.

Olhei saudosamente de soslaio para o além-mar, retornando de imediato o olhar para aquele caloroso sorriso; sem nada dizer, apenas pensei: - Branquinho é FODA...!! Ele comemora o dia da eliminação da discriminação racial ou eliminação da raça...!? Me perguntei enquanto caminhava  naquela vasta faixa de areia em direção ao pelourinho de cada dia que nos dói hoje. Naquele momento, aquela questão era só um mero detalhe de uma questão a ser definida e decidida entre os tubarões brancos ocidentais...

Hoje, que morri matando o branco homicida que habitava em minha mente ensandecida, tenho a certeza de que o cinismo hipócrita da arrogante branquitude, que é exposto diuturnamente nas ações genocidas do Estado, já está em plena sucumbência, e suas promissórias vencidas devem ser resgatadas; agora que adquiri a consciência de que sou porque somos[2], derreto as grades desse cativeiro no estrangeiro dessa minha terra estranha...
Minha Terra tem palmeiras, onde eu canto ao Orixá...Requiem aeternam dona eis, Domine[1]



[1] Marca famosa de cigarro nos anos 80 em que a propaganda se passava no velho Oeste americano.
[2] - Ubuntu
 [1] “Senhor, concede-me o eterno descanso”

Lupi mutati lúpus ouir menten[1]: A alta Cultura como arma branca de destruição em massa.

A forma violentamente suave de separar o homem da natureza tem mostrado seus umbrálicos efeitos, aparentemente irreversíveis. Diuturnamente este homem é despedaçado, esquartejado em mil fragmentos, enquanto são conferidos a cada um desses pedaços, mil diferentes faces, contendo em cada uma delas mil verdades produzidas pela massacrante velocidade que lhe atropela com suas afiadas e certeiras lâminas da mercantil ética volátil, para formatar sua personalidade, tal como as personalidades costuradas com diversas carnes que formataram a deformação de Frankstein, e dessa maneira, ele possa servir ao seu sinhô, mestre e criador do valor financeiro amestrador.

Tornado este mesmo homem um produto dessas mil verdades, que impiedosamente lhe perpassa o ser, como as agulhas rombudas de vacinas, ministradas em doses diárias pela mídia manipuladora, e que lhe anestesia o fundo do ser, tornando-o definitivamente um ser imunizado contra os efeitos produzidos pelas mórbidas visões das realidades desumanizadoras; evitando desse modo, causar quaisquer perturbações ou morçus concientae[1] no incauto neófito.

Desse modo, constantemente são criadas e renovadas devidas tolerâncias às barbáries vulgarizadas pela mídia falada e escrita, que uma vez introjetadas e assimiladas pelo cidadão de bem, tais violências são banalizadas pela sociedade contemporânea colonizada formada por esses cidadãos, passando assim tais atrocidades a fazer parte do cenário da vida comum, e em comum, de quaisquer deserdados ou feridos pela justiça que possuam a cor certa ditada e gravada no imaginário social como tal. Ou seja, a cor negra; tem sido exatamente essa a cor justificada pelo senso comum, para ocupar o lugar de presa política, jurídica, social e econômica, diante da relação de poder estabelecida que tem conduzido à vida e a morte desse ser da cor desumanizada por esta construção social, e servido ao sistema vigente como política do Estado escravocrata atual.

Da mesma forma que a natureza do escorpião[2], a sociedade tem a sua natureza manufaturada, forjada e planejada, sendo roteirizada e explicitada em cada reação e cada não ação diante nesse maquiavélico processo de genocídio de um povo, na prática constante e contínuo do exercício de vis atrocidades predatórias nunca antes vistas no humano reino animal. Pois se trata de um extermínio estratégico, cirúrgico, perverso e com requintes de maldades, numa forma de jogo onde as regras são extremante peripatéticas e tragicômicas, tal é a simplicidade de implementação; e é essa mesma simplicidade que as tornam assustadoramente efetivas; são mil verdades que escondem a Verdade mais óbvia, que é aquela grafada pela lei da natureza. Natureza esta que a cultura cruelmente arrancou de nossos corações e mentes usando as ferramentas fáceis das narrativas de promessas divinas e paradisíacas de felicidade eterna de um futurístico reino fictício.
 
Dessa forma, com seu canto de sereia, a serpente do paraíso codificou a natureza em coloridos e atraentes tubos de ensaios, e as distribuiu como bulas e fórmulas anabolizadas, dando-lhes o sofisticado nome de ciência da alta cultura. Agora, a missão do homem, é decodificar essa fórmula tomando o caminho inverso[3], para retornar e resgatar a sua humanidade roubada pelo homem, lobo do próprio homem, ou se afundar depressivamente em si mesmo, afogando-se ironicamente tal qual Narciso.



[1] “O lobo troca de pele o homem de mente” 
[1]  Remorso de consciência.
[2] Alusão a fábula “O escorpião e a rã”.
[3] Um conto de provável origem árabe, narra à ligação direta entre Deus e os homens nos primórdios da humanidade, sem que houvesse intermediários de quaisquer naturezas. Mas devido a não valorização desse processo por parte dos homens, Deus em assembleia com seus anjos e arcanjos, decidiu retirar esse dom dos homens. Indagados pelos seres divinos em que lugar esse dom seria escondido, Deus respondeu que seria num lugar aonde o homem nunca vai; os anjos em suas ilações os anjos indagavam se esse lugar seria nas profundezas do mar, nos confins do universo ou nos abismos abissais, etc. Mas Deus simplesmente respondeu que esconderia dentro do próprio homem.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Ecce Homo

Os elos, forjados pelas representações, entrelaçando-se entre si durante um vulgar ritual de acasalamento, vão compondo as fortes correntes que seguram com uma firmeza raivosa os paradigmas formatadores de nossa realidade objetiva, após o perverso e mórbido processo de cativar nosso subjetivo; processo este que habilmente nos prende a teia conjuntural da mega estrutura mundial do servilismo absoluto, para saciar a voracidade da patriarcal viúva branca ocidental.

Uma vez tendo assimilado e aceito essa realidade posta, e imposta por esse ente empresarial regulador do Estado; o cidadão é devidamente dominado através do controle econômico e social, legitimando-se dessa forma, como pseudo-cidadão, com direitos relativos e deveres absolutos nos termos da força de lei.

Falo como um cidadão desobediente epistemológico, resultado da síntese entre Nietzsche e Fanon, que não se dobrou a inculcação do medo que produz e controla os imbecis, domesticando-os, como se adestra a quaisquer animais. Visto que, essas vítimas do assimilacionismo eurocentrado após desumanizadas por esse vil processo, transformam-se num não ser.

Essa aberração em que o negro se transformou, com a aceitação de sua imagem pintada por bovinos eruditos e por gangues de cínicos leucodérmicos, uma vez envolto pelo pass-par-toute das categorias do senso e do contrassenso, que não permite que ele possa distinguir ambas as categorias, impede qualquer possibilidade de negação dessa imagem fabricada, impedindo-o de transcender-se num novo recomeço. Caímos, dessa forma, na armadilha da contradição; num círculo vicioso onde um branco tenta ser negro e o negro tenta embranquecer, num processo de duplo narcisismo; desdenhando assim, o universalismo da condição humana e de ser humano.

A forma maiêutica e diatópica de colocar as coisas, materialmente, em seus devidos lugares, seria o caminho para a desalienação. Visto que o negro costuma tomar diversas posições frente ao mundo dos brancos; essa assunção deve ser em massa. Deixando assim então, de usar o uniforme tecido por séculos de estupidez que impôs ao negro um desvio existencial, fazendo da alma negra uma mera construção do homem branco.

Ao analisar mais de perto esse homem; o Ser humano em si; percebemos que ele é um ser intuitivo e criativo, sem ser um Ser pensante; pois deixou de perceber que faz parte da natureza, uma vez que em contato com ela, passou a codifica-la, com o intuito de poder controla-la; criando, desse modo, o que ele classificou como cultura. Sendo assim, a cultura passou a ser um processo que afastou o homem da natureza, apartando-se de si mesmo nesse taxionômico exercício de codificação e representações.

Agora, perdido em si mesmo, ele se procura. Mas para isso ele necessita decodificar e decodificar-se para tornar possível a sua desalienação. Ou seja, ele precisa tornar-se um ser pensante; e o primeiro passo para isso, é sua reaproximação com a natureza; com sua natureza; abolindo, dessa maneira, tudo que ele mesmo se impôs como cultura de controle e de egolatria do homem-produto, com barras de valores e tempo de validade.


https://www.facebook.com/PoderNegro4P/videos/1249935398449554/

Panorama do Brazil Brasileiro

O Estado Brazilleiro é um Estado Negreiro, ancorado no Porto Maravilha da Terra do Nunca, de portas abertas para o campo de colheitas de tâmaras e pimentas que não são do Reino. Nossa pátria é uma madrasta raivosa; é a pátria que nos pariu durante uma tentativa frustrada de euro aborto, provocado nos porões seus úteros apodrecidos.

Um Estado composto por Ministros-traficantes, senadores e deputados-escravocratas, militares que organizam e gerenciam o tráfico de entorpecentes e toda a estrutura do submundo, contando com a prestimosa anuência do indolente poder judiciário, que lubrifica a máquina estatal, para seu total funcionamento arrogantemente corrompido, enquanto a mídia ordena aos cidadãos às atitudes a serem tomadas em face a tal Estado, ditando sua relação para o progresso desse perfeito sistema biocida, onde pastores protestantes são traficantes de armas e ministros católicos se dedicam a pedofilia.

A televisão habilmente passa a visão em tela plana, monopolizando a educação mental de cada cidadão, enquanto subliminarmente dita as devidas atitudes aos servos escravizados; propriedade do sistema; fabricando o cidadão padrão, o cidadão de bem como sinônimo de cidadão de bens. Deste modo, temos a cultura de uma Nação Zumbi que robotiza o cidadão, domesticando e adestrando-o como fiel servidor do Rei Nu.

As tâmaras e as pimentas serão servidas nesse picante Banquete de Momo, regado a sangue, suor, lágrimas e ranger de dentes brancos de pele preta, com sabores de pólvora das trincheiras que içam bandeiras negras tendo ao fundo o alegre som do samba réquiem, em pleno merdi-gras[1].
Ianques de todo o mundo, sejam bem vindos ao solo desse Brazill estrangeiro e sirvam-se a vontade do Maná dessa terra que tudo dá.



[1] quarta-feira de cinzas

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Negro Drama[1]

Era uma vez “UM BRANCO de alma NEGRA[2]” e um preto EMBRANQUECIDO[3] manufaturados pelos desejos eurocêntricos, ambos a bordo de um navio chamado Amazing Grace,[4] vindo direto do Porto social da Teoria da evolução[5] com destino a Terra do Nunca[6]. Em outras palavras, vamos descrever um breve passeio turístico ao planeta Terra, em companhia de Elvis Presley[7] e Michael Jackson[8].

Foi neste fúnebre passeio, num belo dia de sol e azul do mar profundo, que percebemos com estupor, que a única e exclusiva habilidade verificada na práxis da supremacia branca é definitivamente a inegável capacidade de sempre apresentar o velho como uma moderna e novíssima novidade. Explico: este processo é similar ao que a elite exercita quando usam suas empresas para lavar o dinheiro sujo por eles produzido no processo endêmico de corrupção ativa. Dessa mesma forma, ella, a euro-elite, faz uso da academia para legitimar o conhecimento sequestrado dos antigos e dos mais velhos; conhecidos como ancestrais; recodificando-os e reapresentando esses saberes envoltos  em uma vistosa capa protegida com o verniz do arrogante cinismo acadêmico. Ou seja, uma indolente capa de livro[9] grego[10] de conteúdo embranquecido, estabelecendo dessa maneira, o famigerado capitalismo cognitivo.  

Da viagem marítima, nesse perverso contexto, voltamos então a realidade cotidiana popular tupiniquim, e notoriamente; um vez passada a visão de um olhar que vê enxergando; perceberemos que, em nossas escola-presídio, construídas  especificamente para educar os filhos do 13 de maio e não os descendentes de Rousseau[2]; os professores que lecionam tem a obrigação de se transformarem em perigosos  traficantes de conhecimento[11], com a pena, em caso contrário, de se tornarem, fiéis servos desse perverso sistema inquisitório. Sistema este, que fora definitivamente implantado durante a criação da República[12] tupiniquim ,fundada pelos eurodescendentes de escravistas e mercadores desse infame comércio; república ironicamente batizada e classificada como democracia; inaugurando assim, a pauta dos "conceitos acadêmicos" e as definições egocentralizadas tupiniquescas.

Dessa maneira, as mais absurdas e prosaicas contradições se transformaram nos mais fétidos estercos para alimentar as tradições eurocêntricas a nível mundial; encontrando no Brazill, um solo fértil e promissor. Florescendo vorazmente, como uma cultura de bactéria definitivamente nocivas.  A partir dai, nosso país, enquanto democracia para inglês ver, passou a prezar pela tradição de ter nas cópias, o seu original favorito. Nossa constituição[13] é um exemplo perfeito desse lamentável episódio; uma das pouquíssimas constituições conhecidas no mundo que não provém do Povo, e não se destina ao povo.

Foi na viagem sem fim, nesse barco negreiro repleto de contradições vindas do estrangeiro, que Michael Jackson, quando embarcado, se tornou branco por inteiro; mas continuando escravizado pelo dinheiro do sistema escravocrata que exaustivamente lhe repetia Goebbels[14] como poesia do dia-a-dia, no moto-perpétuo de um poema que vem continuamente sendo declamando e proclamando que no Brazil as questões problemáticas sempre foram de cunho social e nunca racial; levando dessa forma, qualquer neguinha e neguinho a endeusar Marx e Engels, enquanto a academia epistemicida[15] lhes acorrentavam e torturavam, matando o sujeito que em si existia, supliciando o indivíduo em vida.

A principal frustração de Elvis Presley foi  a de não conseguir embarcar nesse navio, que é negreiro, tendo John Newton como capitão desse vil cruzeiro; visto que não pode conhecer seu interior por inteiro, e nunca soube de onde vinha essa intensa paixão, corrente em sua veia, que misteriosamente não acorrentou sua vez e sua voz na dança preta pela vida branca, em um mundo onde só o tipo de vida e da pessoa branca importa, na eterna travessia desse macabro  cruzeiro[16] turístico em direção a Capital do Umbral imperial.

A forçada mescla mestiça, amálgama dos ossos brancos triturados junto com a carne mais barata do planeta, depois de retirados os sorrisos negros do rosto preto, e os abraços pretos do peito negro, separando assim, corações e mentes, razão e emoção; num violento processo hierárquico implantado pela lei daquele cão que foi transformado em lobo; tendo paradoxalmente esse selvagem lupus sendo domesticado pelo terror sem precedentes, presente no contemporâneo mundo ausente de homeostasis [17].

Assim se fez esse Novo Mundo, assim se construíram heróis e assim, o imaginário manufaturado se fez real. Então como lidar com essa Terra do Nunca ao contrário...? Esse mundo da Preta Alice de contos de Fadas de Terror e valores democráticos invertidos? Esse velho e caquético Peter Pan com Alzheimer no último estágio de vida? Essa ferrenha Utopia de walking dead e essa síndrome de Estocolmo, tudo junto e misturado...!!?? 

Talvez se elaboramos um lindo comercial  estrelado Michael Jackson sendo servido com uma dose dupla de Johnny Walker por Elvis Presley, tendo como cenário o negreiro de Johnn Newton, tocando Amazing Grace como fundo musical; talvez possamos refletir sobre nossas prosaicas contradições construídas pelos símbolos representativos cotidianos. Mas isso vai depender se as miríades dos tons do fundo desse comercial tiverem todas as diversidades dos 50 tons de preto ou ser for meramente branco total. Então, o filme, vai finalmente poder começar... Luz....Câmera.... Ação....!!!





[1] Título de um poema do grupo de Rap “Racionais Mc’s”

[2] Frase pronunciada por White people para se referir a uma pessoa branca que vive da cultura negra.

[3] Referência ao preto formado pela academia e que defende a ideologia eurocêntrica como sendo parte de sua história.

[4] O nome do autor da letra da música “amazing grace” consta como sendo John Newton; um capitão de navio negreiro que escreveu mais que qualquer outro capitão da época; ele era evangélico, se tornou pastor e, segundo consta, no final da vida ele se arrependeu das indizíveis maldades praticadas contra os negros que ele traficou por muito tempo através do oceano. 

O autor da música pode se saber pela escala usada em sua composição; a chamada “escala escrava”. Isto é, a escala pentatônica, que era usada pelos africanos. Nesse caso, qualquer escravizado, vítima de Newton, poderia ter sido o autor da música em questão.

[5] 900 anos antes do nascimento de Darwin, um Africano já escrevia a Teoria da Evolução. Abu Uthman Amr bin Bahr al-Fukaymi al-Basri, mais conhecido como Al-Jahiz, foi um renomado escritor e teólogo da Africa Oriental que vivia em Bagda.
Em suas anotações, Al-Jahiz descreveu três formas de evolução: Luta pela Existência, Transformação das Espécies em Outras Espécies e Fatores do Meio Ambiente.De acordo com o The Guardian, Al-Jahiz certa vez escreveu: “Os animais lutam por existência, e por recursos, para evitar serem comidos e para se reproduzirem. ”
Ele explicou: “Fatores do meio ambiente influenciam organismos para que desenvolvam novas características, para garantir a sobrevivência, transformando-os, portanto, em novas espécies. Animais que sobrevivem para reproduzir podem transmitir suas características à sua prole”.

[6] Essa terra a que me refiro é o Novo Mundo; terra onde o livro intitulado “Vinte e quatro dias de açoite”, conhecemos a história do alufá (chefe religioso muçulmano negro do noroeste da África) Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, que, ao chefiar uma revolta, é condenado a receber 1.200 chibatadas, divididas em cinquenta por dia. É um homem forte, altivo e que, após a surra de cada dia, reza em linguagem erudita e religiosa. Ele desmaia, mas acorda, resiste. Outros escravos  juntam dinheiro mais do que suficiente para pagar a dívida, mas o juiz não acata. Eles, então, assistem ao martírio.

[7] Elvis Presley comprava suas roupas em lojas de negro, ouvia música de negro e qualquer empresário que viesse a sua casa tinha que passar pelo ritual de ouvir uma coletânea de gospel para poder iniciar quaisquer negociações ou fechar contratos com o “rei do rock”.

[8] Michel Jackson fez um contrato matrimonial com a filha de Elvis Presley, e deste contrato, surgiram um casal de híbridos; seus filhos. 

[9] Referência ao Faceboock.

[10] O livro intitulado “O legado roubado” narra a maneira como os gregos sequestraram o conhecimento Egípcio.

[11] O projeto “escola sem partido” criminaliza o professor que ousar contextualizar a conjuntura histórica nacional.

[12] A instauração da República no Brazil se deu através de um golpe militar; até então a democracia brasileira tem se constituída de sucessivos golpes, a exemplo de toda a América Latina.

[13] A constituição brazilleira de 1988 é uma cópia das constituições da Espanha, Alemanha, Portugal, França e parte da carta da Virgínia. 

[1] Ministro da propaganda nazista Joseph e Goebbels ficou marcado pelo seu ódio a judeus e comunistas, sua admiração pela figura de Hitler e seu fanatismo.

[15] É o processo de se apropriar do conhecimento alheio ao mesmo tempo em que mata o conhecimento do outro; juridicamente falando, poderia ser tipificado como um latrocínio do saber alheio.

[16] Referência ao barqueiro que atravessa o rio da morte levando o espírito de um falecido para além da vida.

[17] Equilíbrio entre corpo, espírito e mente.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

A desobediência epistemológica como principal fundamento do processo Decolonial

Desde que as leucodérmicas Tribos europeias se apropriaram de Timbuktu; no Mali; e destruíram as bibliotecas do Egito, sequestrando, e logo após, compilando os saberes melanodérmicos; meticulosamente, prepararam um vil processo de patentes dos saberes sequestrado. Para esse fim, criaram a academia eurocêntrica; pós Gutemberg; para que esse processo torna-se legítimo; usando a técnica da insistente repetição; técnica a qual eurodescendentes como Skine, Pavlov, Vygotsky, Gramsci, Comte e tantos outros como eles, souberam tirar proveito máximo, ao construir um roteiro de ação para dominar, inspirado na República de Platão, onde foi hierarquizada a razão ante a emoção, criando assim, um modelo de dominados e dominadores, num plano patologicamente doentio e cruel.

O resultado desse Maquiavélico plano foi a legitimação de uma Academia Racista, que consolidada nos tempos modernos[1], ocupando o lugar de fala dos donos da palavra[2], usando assim, o sofrimento alheio advindo do racismo, exatamente como faz a mídia fascista que ressalta, de forma possa banalizar, os preconceitos; agindo como um papa-defuntos frente ao sangue fresco dos deserdados e feridos pela falsa justiça; justiça essa advinda dessa mesma academia, que narra a história sequestrada do outro, enquanto o subalterniza, formando um constructo social onde deixa claro o lugar desse outro, deixando patente essa hierarquia justificada pela ciência criada por sua pseudo sapiência.

Sendo assim, os povos que não são parentes de Narciso, seguem; sem desconfiar; que participam, simultaneamente como figurantes e protagonistas, de um roteiro barato e óbvio, pré-fabricado pelos infames cérebros advindos do fundo da idade das trevas medievais, carregado de intolerâncias, indolência e arrogância divinas; portanto, indiscutíveis. São essas mesmas personas-redatoras da história contada pelo dinheiro, que foram carinhosamente classificadas como Bovinos eruditos por Nietzsche.

Os descendentes dos povos originários que hoje ingressam na Academia das queridas pessoas brancas, paulatina e progressivamente aprendem a repetir, reproduzindo seus pensamentos como homilia. Desse modo, reproduzimos a nossa história contada pelos brancos; pensamos viver nossa cultura recontada pelos brancos; e lemos, como se fora uma bíblia, os nossos livros reescritos e recodificados pelos brancos.

Dessa forma, todo aquele conhecimento que essas caras pessoas brancas[3] não conseguiram ter sobre seu controle, por não ter a possibilidade de registrar e difundir como sendo de sua propriedade; eles relegaram ao plano do exotismo, do folclórico e similar. Ou seja, passou a ser um conhecimento sem valia, e que não deve ser considerado como ciência; como sua ciência. Desse modo, validamos somente aquele conhecimento sequestrado e convenientemente patenteado, compartimentado, fragmentado e recodificado, reconhecendo-o como conhecimento universal e, como uma realidade verdadeira e única, relegando à subalternidade a quaisquer outras formas de Oralituras[4]. Tudo aquilo que aprendíamos com os mais velhos e sua Oralitura, passaram a constar no imaginário popular como algo ultrapassado e desnecessário; apenas histórias de antigos, de velhos, histórias antiquadas, e que não deve ser considerado ou levado em conta ao bom viver.

Portanto, sendo assim, qualquer processo Decolonial, necessariamente deve passar primeiro por um meticuloso processo sabático de desobediência epistemológica total, geral e irrestrita, já que estamos imerso numa matrix onde tudo é virtual, até a nossa inteligência. A digressão e a desconfiança epistemológica deve ser o mote locomotor desse processo sensível e volátil, visto que é um processo que descontrói realidades perenes e agradáveis que consolida a nossa zona de conforto e nosso pseudo bem estar, colocando em cheque esse bom viver, ao desconstruir essa realidade coletiva contrariando toda essa alta cultura. Cultura que alguns leucodérmicos tiveram a ousadia de rotular como inconsciente coletivo[5].

Desse modo, os efeitos desse processo se dão, não só a nível filosófico, mas também no nível psicológico; já que revira toda a história e a cultura de um povo, levando-o a reescrever, na íntegra, o que os livros leucodérmicos registraram em sua linha histórica como nação. Se assim não for, continuaremos a atuar como substitutos e coadjuvantes nesse espetáculo que se desenrola no palco da vida, vivendo esse roteiro infame d’Os Miseráveis[6], nesse carnavalesco papel ad eternun de pierrôs e colombinas, no cumprimento do contrato leonino[7] brancopofágico, com as bênçãos do grande falsário e falsificador Gutemberg, e daqueles que assinam as fantasias e alegorias que desfilam na Avenida Marquês de Sapucaí, nesse Estado onde tudo acaba em Samba.




[1] Referência ao filme homônimo de Charles Chaplim.
[2] Os Dielis africanos, também conhecidos pela alcunha de Griôts (feiticeiros ou servos), como rotulavam os franceses.
[3] Referência ao Filme com o mesmo título.
[4] O conhecimento oral grafado como tal.
[5] Karl Gustav Jung foi um psiquiatra e psicoterapeuta suíço que fundou a psicologia analítica. Jung propôs e desenvolveu os conceitos da personalidade extrovertida e introvertida, arquétipos e o inconsciente coletivo.
[6] Referência a Victor Hugo.
[7] Juridicamente se refere a um contrato que só beneficia a um dos lados envolvidos.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A beligerante saga brancopofágica no mundo melanodérmico com sua dialogia ideológica de interseccionalidade leucodérmica

Quando os lusitanos invadiram o Pindorama, assassinado, estuprando e pilhando desordenadamente os povos autóctones, elles orgulhosamente se outorgaram o título de civilizados e as suas vítimas a alcunha de selvícolas, definindo inequivocamente os papéis de ambos nesse contexto, para que suas futuras e presentes barbáries de cada dia fossem legitimadas e constasse na história como conquistas heroicas e audazes descobrimentos. Foi desse modo que transformaram a si mesmos em grandes heróis da história ao mesmo tempo em que coisificavam suas incautas vítimas, usando para isso a providencial concessão da igreja, que cedeu o aval divino do próprio Deus em pessoa, testificando-os como mandatários do divino amor esquizofrênico conferido pelo velho testamento[1]; inaugurando, dessa maneira, a máxima “quem ama, mata[2]”.

Após conferirem a si mesmo o majestoso título de heróis e, por conseguinte, reivindicar a propriedade do mundo como seu quintal, iniciaram a perseguição àqueles que não fossem parentes de Narciso. Sendo assim, as próximas vítimas na lista da bula papal; esse representante branco do Deus branco na terra; após a frugal e estúpida carnificina indígena, foram os Povos originários; os Africanos. Afinal, esses seres riquíssimos e tremendamente abastados, com seus poderosos reinos e terras sem fim, que apresentavam como se fora um altivo escudo, uma reluzente pele melaninosa, e que não possuíam nem de longe a alvura da desprotegida pele da insuficiente raça branca, nem seus deficientes olhos azuis e ou seus sebosos cabelos escorregadios, nem sequer vinham das profundezas da tenebrosa idade das trevas, obviamente não poderiam jamais passar incólumes. Portanto, deveriam ser combatidos, abatidos e escravizados, servindo como objetos expostos num grandes supermercados onde quaisquer brancos pudessem escolher e se servir ao bel prazer, de todas as formas e maneiras possíveis e impossíveis, pensáveis e impensáveis, como uma interminável orgia grega, uma eterna festa de Baco.

Desse modo, fazendo uso de Armas de Terror, os sinistros bárbaros eurocêntricos colocaram seu mórbido plano em curso, com a anuência de todos aqueles que possuíam peles ineficientes, olhos deficientes, de cabelos sebosos, vindos da idade das trevas e tementes a Deus. O resultado foi uma magnífica carnificina decorrente desse maligno plano, tendo como consequência, além de milhares de mortes, milhões de escravizados[3]. Com os povos autóctones dizimados, os sobreviventes que restaram dos povos originários; os negros; foram dolorosamente coagidos através de indizíveis torturas a produzir as riquezas para essa população de peles ineficientes, olhos deficientes, de cabelos sebosos, vindos da idade das trevas e tementes a Deus, reduzidos assim, a meros seres escravizados e coisificados, dando continuidade a essa saga de horrores perpétuos impetrados pelas caras pessoas brancas, cujas caras aparecem sempre estampadas, como heróis e heroínas, ao final das intrincadas tramas de cada epopeia brancopófaga, nas narrativas de mundo sustentada pela história, pela cultura e pela mídia vigente.

Dessa maneira, transformando esse país chamado Brazil numa imensa catacumba indígena e num cativeiro eterno dedicado exclusivamente ao povo negro, chamaram esse maravilhoso sistema de República; obviamente inspirado em Platão; República cuja principal função era legalizar toda e qualquer barbárie contra quaisquer que não possuíssem pele ineficiente, olhos deficientes e cabelos sebosos, vindos da idade das trevas e tementes a Deus. Destarte, no caderno de leis republicanas, a política da eugenia se fez presente, como a missão divina de um Estado laico sanguinário, “conquistador” e paternalmente ameaçador; após deflagrar as leis do Ventre livre, sexagenário, áurea, lei de terras, lei de vadiagem, súmula 70, auto de resistência, e por ai vai. Absolutamente todas essas leis, foram confeccionadas para manter a submissão e a subalternidade do elemento padrão, que é o rótulo dado pela pelos capitães-do-mato; agora conhecido como Policial Militar; as pessoas da cor de noite sem lua, quando encontradas e abordadas em vias públicas, que são tratadas como potenciais meliantes, e assim, sumariamente julgadas por esses agentes estatais, prosaicos lacaios da Casagrande.

As terras, outrora pertencentes aos povos autóctones, foram ocupadas e sequestradas pelo Estado, agora legalizado como ladrão oficial, único e soberano, portador do monopólio de todos e quaisquer crimes em solo tupiniquim. Dessa maneira, a perversa lei de terras, de 1850, impediu peremptoriamente que os pretos pudessem ter acesso a ela, mesmo sendo essa mesma terra um bem natural. Ou seja, até os dias de hoje, o estado, como usurpador legalizado, generosamente pratica o abominável processo de vender um pedaço de terra a uma família preta, que mesmo tendo essa família pago por esta pequena porção de terra, vai ter que continuar pagando ao Estado brancopófago por esse pequeno terreno enquanto viver, assim como seus descendentes.

Sendo assim, podemos conceituar o Estado como um tenebroso ente invisível branco, comparando-o a um insaciável vampiro que, como voraz e insaciável sanguessuga, sobrevive através de realizações de fastigiosos banquetes onde são consumidos a carne e o sangue do negro a revelia. 
Paralelo a esse circo dos horrores, o Estado cultiva seus gados de forma ardilosa, quando faz uso da academia, selecionando pretinhas e pretinhos, treinando-os para usá-los a fim de dominar seus próprios pares negros; estes são conhecidos como pretos da casa ou negros de sapatos. 

Desse modo, esse mórbido plano é travestido e revestido com a indiscutível imagem de importância ímpar, pois além de dar legitimidade a mais uma barbárie, ao usar o artifício acadêmico de rotular essas estúpidas ações;  o mais novo revestimento colocado na pauta da moda acadêmica, agora é chamado pomposamente de interseccionalidade; ela é apresentada como uma grande novidade e atração especial a ser discutida e debatida. A grosso modo, poderíamos definir esse conceito de interseccionalidade como uma hábil descrição do processo de criação, atuação e inserção de um vírus eurocêntrico inserido numa comunidade melanodérmica e a apreciação de sua devastadora contaminação, que de forma espetacular, dizimam valores e conceitos melanodérmicos, atuando como uma espécie de zumbi hollywoodiano, inicia sua ação de leucordemização do mundo negro.

Eufemisticamente Karl Max chamava esse processo de Dialogia, e outros, como Vygotsky, chamava de Zona proximal de Aprendizagem. Ou seja, ele descrevia as influências mútuas que sofrem ambos os mundos; nesse caso, os mundos negro e branco. Só que adicionado o verniz da interseccionalidade preconizado nesse mesmo princípio, observaremos que este vem com os créditos de 50 tons de maldade como pacote; embutidas e camufladas em papel de presente de grego; agindo de forma cruelmente capciosa, subliminar e manipuladoras. Ou seja, é a descrição do momento em que o mundo leucodérmico inicia seu processo de sugar a cultura negra; de todas as formas e maneiras possíveis; e o mundo melanodérmico agoniza, definhando a olhos vistos, seja diante do extermínio físico, psicológico ou epistemológico. 

Isso quer dizer que os termos legitimados pela academia[4], manipulam inescrupulosamente seus usuários, quando cria e estimula uma libidinosa relação antropofágica, uma vez que banaliza a infâmia de forma extrema e despudorada, nos levando a criar tolerância a tanta violência gratuita contra quaisquer pessoas negra, na medida em que a vemos no cotidiano essa violência como algo normalizado, exposto num lugar comum, passando enfim, a ter o status de mais um mero espetáculo de cada dia que nos dói hoje; é exatamente disso que a academia eurocêntrica vive: do espetáculo da pobreza e do sofrimento melanodérmico.

Para transformar esse espetáculo numa atração epistêmica, a academia maquiavelicamente os revestiu de nomes sugestivos e pomposos. Desse modo, tais ações são definidas ou conceituadas, e subliminarmente chamadas de lutas de classe, Ações Afirmativas, cotas, minorias e maiorias, e afins. Esse expediente, além de criar otimismo e esperança nos corações e mentes de pretas e pretos, deixa a sensação de um devir de pertencimento a algo, dentro desse pernicioso e imperceptível processo acadêmico de destruição total da coletividade melanodérmica, reforçando dessa maneira, o individualismo, até a medula; tendo como fundamental ponto de partida, a estupidez do insano princípio da meritocracia; um dos golpes de mestre criado pelo capitalismo nesses finais dos tempos.

Desse modo, temos dois mundos dentro do mundo; um virtual, onde vivem os pretos-pobres, pobres-quase-pretos e pretos-quase-branco. Nesse mundo aparente, de falsa independência e falsa abolição, até os direitos são virtuais assim como a própria inteligência; visto que, uma vez aceito esse mundo, os que nele habitam, sinceramente acreditam fazer parte do mundo branco, onde os direitos são transformados privilégios e onde a ética tem a mesma importância e função de um comercial televisivo sobre papel higiênico.

O necessário e imprescindível processo decolonial desse escabroso contexto, só será possível quando houver o questionamento total das instituições que sustenta essa realidade. Fora disso, tudo mais é anátema, já que esse exercício tem seu fundamento na desobediência; primeiramente epistemológica; uma vez iniciado esse processo, tudo mais é consequência desse caminho de magias, a ser percorrido numa trilha onde todos os nossos conceitos e paradigmas invariavelmente serão reformulados, reajustados e equalizados a cada passo, em todas as verdades, a cada olhar, ação, posturas e práticas cotidianas.

Dessa forma, corajosamente nos lançaremos aos braços das dúvidas, num abraço fundamental, ante as certezas postas e impostas progressiva e paulatinamente, nas quais, através dos princípios de falsas premissas, fomos induzidos a adotar a verdade manufaturada como verdade doméstica, transformando a nós, os subalternizados pré-fabricados, em sustentadores desse mundo fictício, quando o aceitamos como real e agimos segundo suas leis; a lei do cão, a lei da mordaça e a lei do silêncio; um mundo onde a justiça inexiste e onde nós fomos treinados e adestrados a criar tolerância a sua inexistência, e gradativamente nos habituando com sua ausência.

A manutenção do estado de coisa desse mundo é nada mais, nada menos, do que o mero cumprimento de um contrato assinado, de concordância entre oprimido e opressor, num claro conluio de existência patologicamente esquizoide. Nossa necessidade de cura[5] é urgente e inadiável, pois vencido esse contrato feneratício, o que restará será a soma esquartejada da imagem do umbral em preto e branco, onde o sangue que que adorna esse retrato bicolor não terá dono, pois será a mescla de uma massa de contínuos acontecimentos e impensáveis sofrimentos. O sangue que hoje jorra, da caneta do doutor (feitor) ao ensurdecedor chicote-de-fogo do capitão-do-mato contemporâneo, são laços de compromissos patológicos entre gênero, raça e classe, que tem seu estado de arte determinado exclusivamente pela cor da pele. 

Foi assim se formou o nó trançado no tecido de fina estampa do Negro Drama, traçado durante o decurso das animalescas tramas leucodérmicas, dos púlpitos até os tribunais do capital. Agora existe um só caminho nessa trilha dialogicamente interseccional: Humanizemo-nos ou pereçamos todos juntos, nesse infinito círculo das possibilidades castradas pelos caprichos racistas dessa população de pele ineficiente, olhos deficientes, cabelos sebosos, vindos das profundezas da idade das trevas e tementes a Deus.


[1] Desde seu lançamento em 1895, o quadro "A Redenção de Cam", do artista espanhol Modesto Brocos, tem provocado a crítica de arte a um debate que não necessariamente se fia à questão formal, mas antes se volta ao assunto que marcou a concepção da tela : a ideia de embranquecimento racial. A imagem é um retrato de família marcado pelas distintas gradações de cor na pele das personagens - do marrom escuro ("negro") da avó, ao "branco" do neto e de seu pai, passando pela mãe, morena, cuja tez adquire na tela um tom dourado. Em consonância, o grande interesse despertado pela pintura, que recebeu a medalha de ouro naquela Exposição Geral de Belas Artes, parece atado ao tema das uniões interraciais no Brasil e, em especial, à sua transformação em emblema dos debates sobre o futuro de um país marcado pela forte presença de uma população que não se define nem como negra, nem como branca, e pelos impasses que a chamada mestiçagem trazia para uma nação que se pretendia, no futuro, branca, num momento de auge do pensamento racialista na esfera pública. Um episódio tem sido particularmente apontado como um marco na recepção da tela, qual seja, o fato de João Batista de Lacerda, diretor do Museu Nacional, tê-la incorporado à comunicação que apresentou ao I Congresso Universal das Raças, em Londres, em 1911. O quadro tornava-se, nas mãos do cientista, uma evidência de sua tese, segundo a qual, por efeito da evolução e da entrada de imigrantes europeus, levaria três gerações ou um século para que o país se tornasse evidentemente branco.

[2] A máxima usada e aceita juridicamente pelo machismo durante muito tempo.