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segunda-feira, 12 de junho de 2017

A desobediência epistemológica como principal fundamento do processo Decolonial

Desde que as leucodérmicas Tribos europeias se apropriaram de Timbuktu; no Mali; e destruíram as bibliotecas do Egito, sequestrando, e logo após, compilando os saberes melanodérmicos; meticulosamente, prepararam um vil processo de patentes dos saberes sequestrado. Para esse fim, criaram a academia eurocêntrica; pós Gutemberg; para que esse processo torna-se legítimo; usando a técnica da insistente repetição; técnica a qual eurodescendentes como Skine, Pavlov, Vygotsky, Gramsci, Comte e tantos outros como eles, souberam tirar proveito máximo, ao construir um roteiro de ação para dominar, inspirado na República de Platão, onde foi hierarquizada a razão ante a emoção, criando assim, um modelo de dominados e dominadores, num plano patologicamente doentio e cruel.

O resultado desse Maquiavélico plano foi a legitimação de uma Academia Racista, que consolidada nos tempos modernos[1], ocupando o lugar de fala dos donos da palavra[2], usando assim, o sofrimento alheio advindo do racismo, exatamente como faz a mídia fascista que ressalta, de forma possa banalizar, os preconceitos; agindo como um papa-defuntos frente ao sangue fresco dos deserdados e feridos pela falsa justiça; justiça essa advinda dessa mesma academia, que narra a história sequestrada do outro, enquanto o subalterniza, formando um constructo social onde deixa claro o lugar desse outro, deixando patente essa hierarquia justificada pela ciência criada por sua pseudo sapiência.

Sendo assim, os povos que não são parentes de Narciso, seguem; sem desconfiar; que participam, simultaneamente como figurantes e protagonistas, de um roteiro barato e óbvio, pré-fabricado pelos infames cérebros advindos do fundo da idade das trevas medievais, carregado de intolerâncias, indolência e arrogância divinas; portanto, indiscutíveis. São essas mesmas personas-redatoras da história contada pelo dinheiro, que foram carinhosamente classificadas como Bovinos eruditos por Nietzsche.

Os descendentes dos povos originários que hoje ingressam na Academia das queridas pessoas brancas, paulatina e progressivamente aprendem a repetir, reproduzindo seus pensamentos como homilia. Desse modo, reproduzimos a nossa história contada pelos brancos; pensamos viver nossa cultura recontada pelos brancos; e lemos, como se fora uma bíblia, os nossos livros reescritos e recodificados pelos brancos.

Dessa forma, todo aquele conhecimento que essas caras pessoas brancas[3] não conseguiram ter sobre seu controle, por não ter a possibilidade de registrar e difundir como sendo de sua propriedade; eles relegaram ao plano do exotismo, do folclórico e similar. Ou seja, passou a ser um conhecimento sem valia, e que não deve ser considerado como ciência; como sua ciência. Desse modo, validamos somente aquele conhecimento sequestrado e convenientemente patenteado, compartimentado, fragmentado e recodificado, reconhecendo-o como conhecimento universal e, como uma realidade verdadeira e única, relegando à subalternidade a quaisquer outras formas de Oralituras[4]. Tudo aquilo que aprendíamos com os mais velhos e sua Oralitura, passaram a constar no imaginário popular como algo ultrapassado e desnecessário; apenas histórias de antigos, de velhos, histórias antiquadas, e que não deve ser considerado ou levado em conta ao bom viver.

Portanto, sendo assim, qualquer processo Decolonial, necessariamente deve passar primeiro por um meticuloso processo sabático de desobediência epistemológica total, geral e irrestrita, já que estamos imerso numa matrix onde tudo é virtual, até a nossa inteligência. A digressão e a desconfiança epistemológica deve ser o mote locomotor desse processo sensível e volátil, visto que é um processo que descontrói realidades perenes e agradáveis que consolida a nossa zona de conforto e nosso pseudo bem estar, colocando em cheque esse bom viver, ao desconstruir essa realidade coletiva contrariando toda essa alta cultura. Cultura que alguns leucodérmicos tiveram a ousadia de rotular como inconsciente coletivo[5].

Desse modo, os efeitos desse processo se dão, não só a nível filosófico, mas também no nível psicológico; já que revira toda a história e a cultura de um povo, levando-o a reescrever, na íntegra, o que os livros leucodérmicos registraram em sua linha histórica como nação. Se assim não for, continuaremos a atuar como substitutos e coadjuvantes nesse espetáculo que se desenrola no palco da vida, vivendo esse roteiro infame d’Os Miseráveis[6], nesse carnavalesco papel ad eternun de pierrôs e colombinas, no cumprimento do contrato leonino[7] brancopofágico, com as bênçãos do grande falsário e falsificador Gutemberg, e daqueles que assinam as fantasias e alegorias que desfilam na Avenida Marquês de Sapucaí, nesse Estado onde tudo acaba em Samba.




[1] Referência ao filme homônimo de Charles Chaplim.
[2] Os Dielis africanos, também conhecidos pela alcunha de Griôts (feiticeiros ou servos), como rotulavam os franceses.
[3] Referência ao Filme com o mesmo título.
[4] O conhecimento oral grafado como tal.
[5] Karl Gustav Jung foi um psiquiatra e psicoterapeuta suíço que fundou a psicologia analítica. Jung propôs e desenvolveu os conceitos da personalidade extrovertida e introvertida, arquétipos e o inconsciente coletivo.
[6] Referência a Victor Hugo.
[7] Juridicamente se refere a um contrato que só beneficia a um dos lados envolvidos.

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