Quando os
lusitanos invadiram o Pindorama, assassinado, estuprando e pilhando
desordenadamente os povos autóctones, elles orgulhosamente se outorgaram o título de civilizados e as suas vítimas a alcunha
de selvícolas, definindo
inequivocamente os papéis de ambos nesse contexto, para que suas futuras e presentes barbáries de
cada dia fossem legitimadas e constasse na história como conquistas heroicas e audazes descobrimentos.
Foi desse modo que transformaram a si mesmos em grandes heróis da história ao
mesmo tempo em que coisificavam suas incautas vítimas, usando para isso a providencial concessão da igreja, que cedeu o aval
divino do próprio Deus em pessoa, testificando-os como mandatários do divino
amor esquizofrênico conferido pelo velho testamento[1];
inaugurando, dessa maneira, a máxima “quem
ama, mata[2]”.
Após conferirem
a si mesmo o majestoso título de heróis e, por conseguinte, reivindicar a
propriedade do mundo como seu quintal, iniciaram a perseguição àqueles que não fossem parentes
de Narciso. Sendo assim, as próximas
vítimas na lista da bula papal; esse representante branco do Deus branco na terra;
após a frugal e estúpida carnificina indígena, foram os Povos originários; os Africanos.
Afinal, esses seres riquíssimos e tremendamente abastados, com seus poderosos reinos e terras sem
fim, que apresentavam como se fora um altivo escudo, uma reluzente pele
melaninosa, e que não possuíam nem de longe a alvura da desprotegida pele da insuficiente
raça branca, nem seus deficientes olhos azuis e ou seus sebosos cabelos escorregadios,
nem sequer vinham das profundezas da tenebrosa idade das trevas, obviamente não
poderiam jamais passar incólumes. Portanto, deveriam ser combatidos, abatidos e
escravizados, servindo como objetos expostos num grandes supermercados onde quaisquer brancos pudessem escolher e se servir ao bel prazer, de todas as formas e
maneiras possíveis e impossíveis, pensáveis e impensáveis, como uma interminável orgia grega, uma eterna festa de Baco.
Desse modo,
fazendo uso de Armas de Terror, os sinistros bárbaros eurocêntricos
colocaram seu mórbido plano em curso, com a anuência de todos aqueles que
possuíam peles ineficientes, olhos deficientes, de cabelos sebosos, vindos da
idade das trevas e tementes a Deus. O resultado foi uma magnífica carnificina decorrente desse
maligno plano, tendo como consequência, além de milhares de mortes, milhões de escravizados[3].
Com os povos autóctones dizimados, os sobreviventes que restaram dos povos
originários; os negros; foram dolorosamente coagidos através de indizíveis
torturas a produzir as riquezas para essa população de peles ineficientes,
olhos deficientes, de cabelos sebosos, vindos da idade das trevas e tementes a
Deus, reduzidos assim, a meros seres escravizados e coisificados, dando continuidade a essa
saga de horrores perpétuos impetrados pelas caras pessoas brancas, cujas
caras aparecem sempre estampadas, como heróis e heroínas, ao final das intrincadas tramas de cada
epopeia brancopófaga, nas narrativas de mundo sustentada pela história, pela cultura
e pela mídia vigente.
Dessa
maneira, transformando esse país chamado Brazil numa imensa catacumba indígena e num cativeiro eterno dedicado exclusivamente ao povo negro, chamaram esse maravilhoso sistema de República; obviamente inspirado em
Platão; República cuja principal função era legalizar toda e qualquer barbárie contra quaisquer que
não possuíssem pele ineficiente, olhos deficientes e cabelos sebosos, vindos da
idade das trevas e tementes a Deus. Destarte, no caderno de leis republicanas,
a política da eugenia se fez presente, como a missão divina de um Estado laico
sanguinário, “conquistador” e paternalmente ameaçador; após deflagrar as leis
do Ventre livre, sexagenário, áurea, lei de terras, lei de vadiagem, súmula 70,
auto de resistência, e por ai vai. Absolutamente todas essas leis, foram confeccionadas
para manter a submissão e a subalternidade do elemento padrão, que é o
rótulo dado pela pelos capitães-do-mato; agora conhecido como Policial Militar; as pessoas da
cor de noite sem lua, quando encontradas e abordadas em vias públicas, que são tratadas como potenciais meliantes, e assim, sumariamente julgadas por esses agentes estatais, prosaicos lacaios da Casagrande.
As terras,
outrora pertencentes aos povos autóctones, foram ocupadas e sequestradas pelo
Estado, agora legalizado como ladrão oficial, único e soberano, portador do
monopólio de todos e quaisquer crimes em solo tupiniquim. Dessa maneira, a perversa
lei de terras, de 1850, impediu
peremptoriamente que os pretos pudessem ter acesso a ela, mesmo sendo essa
mesma terra um bem natural. Ou seja, até os dias de hoje, o estado, como usurpador
legalizado, generosamente pratica o abominável processo de vender um pedaço de
terra a uma família preta, que mesmo tendo essa família pago por esta pequena
porção de terra, vai ter que continuar pagando ao Estado brancopófago por esse pequeno terreno enquanto viver, assim
como seus descendentes.
Sendo
assim, podemos conceituar o Estado como um tenebroso ente invisível branco, comparando-o
a um insaciável vampiro que, como voraz e insaciável sanguessuga, sobrevive
através de realizações de fastigiosos banquetes onde são consumidos a carne e o
sangue do negro a revelia.
Paralelo a
esse circo dos horrores, o Estado cultiva seus gados de forma ardilosa, quando faz
uso da academia, selecionando pretinhas e pretinhos, treinando-os para usá-los a fim de dominar seus próprios pares negros; estes são conhecidos como
pretos da casa ou negros de sapatos.
Desse modo, esse mórbido plano é
travestido e revestido com a indiscutível imagem de importância ímpar, pois além de dar legitimidade a mais uma barbárie, ao usar o artifício acadêmico de rotular essas estúpidas ações; o mais novo revestimento colocado na pauta da moda acadêmica, agora é chamado pomposamente de interseccionalidade; ela é apresentada como uma grande novidade e atração especial a ser discutida e debatida. A grosso modo, poderíamos
definir esse conceito de interseccionalidade como uma hábil descrição do processo de criação, atuação e inserção de um vírus
eurocêntrico inserido numa comunidade melanodérmica e a apreciação de sua devastadora contaminação, que de forma espetacular, dizimam valores e conceitos melanodérmicos, atuando como uma espécie de zumbi hollywoodiano, inicia sua ação de leucordemização do mundo negro.
Eufemisticamente
Karl Max chamava esse processo de Dialogia, e outros, como Vygotsky, chamava de Zona proximal de Aprendizagem. Ou seja, ele descrevia as influências mútuas que sofrem ambos os mundos; nesse
caso, os mundos negro e branco. Só que adicionado o verniz da
interseccionalidade preconizado nesse mesmo princípio, observaremos que este vem
com os créditos de 50 tons de maldade como pacote; embutidas e camufladas em papel de presente de grego; agindo de forma cruelmente capciosa, subliminar e manipuladoras.
Ou seja, é a descrição do momento em que o mundo leucodérmico inicia seu
processo de sugar a cultura negra; de todas as formas e maneiras possíveis; e o
mundo melanodérmico agoniza, definhando a olhos vistos, seja diante do extermínio
físico, psicológico ou epistemológico.
Isso quer dizer que os termos legitimados
pela academia[4],
manipulam inescrupulosamente seus usuários, quando cria e estimula uma libidinosa
relação antropofágica, uma vez que banaliza a infâmia de forma extrema e
despudorada, nos levando a criar tolerância a tanta violência gratuita contra
quaisquer pessoas negra, na medida em que a vemos no cotidiano essa violência
como algo normalizado, exposto num lugar comum, passando enfim, a ter o status
de mais um mero espetáculo de cada dia que nos dói hoje; é exatamente disso que
a academia eurocêntrica vive: do espetáculo da pobreza e do sofrimento
melanodérmico.
Para
transformar esse espetáculo numa atração epistêmica, a academia
maquiavelicamente os revestiu de nomes sugestivos e pomposos. Desse modo, tais
ações são definidas ou conceituadas, e subliminarmente chamadas de lutas de classe, Ações
Afirmativas, cotas, minorias e maiorias, e afins. Esse expediente, além de
criar otimismo e esperança nos corações e mentes de pretas e pretos, deixa a
sensação de um devir de pertencimento a algo, dentro desse pernicioso e imperceptível processo acadêmico
de destruição total da coletividade
melanodérmica, reforçando dessa maneira, o individualismo, até a medula;
tendo como fundamental ponto de partida, a estupidez do insano princípio da
meritocracia; um dos golpes de mestre criado pelo capitalismo nesses finais dos
tempos.
Desse modo,
temos dois mundos dentro do mundo; um virtual, onde vivem os pretos-pobres,
pobres-quase-pretos e pretos-quase-branco. Nesse mundo aparente, de falsa
independência e falsa abolição, até os direitos são virtuais assim como a própria
inteligência; visto que, uma vez aceito esse mundo, os que nele habitam,
sinceramente acreditam fazer parte do mundo branco, onde os direitos são transformados
privilégios e onde a ética tem a mesma importância e função de um comercial
televisivo sobre papel higiênico.
O necessário
e imprescindível processo decolonial desse escabroso contexto, só será possível
quando houver o questionamento total das instituições que sustenta essa realidade. Fora disso, tudo mais é anátema, já que esse exercício tem seu fundamento na desobediência; primeiramente epistemológica; uma vez iniciado esse processo, tudo mais é
consequência desse caminho de magias, a ser percorrido numa trilha onde todos
os nossos conceitos e paradigmas invariavelmente serão reformulados,
reajustados e equalizados a cada passo, em todas as verdades, a cada olhar,
ação, posturas e práticas cotidianas.
Dessa
forma, corajosamente nos lançaremos aos braços das dúvidas, num abraço
fundamental, ante as certezas postas e impostas progressiva e paulatinamente, nas
quais, através dos princípios de falsas premissas, fomos induzidos a adotar a
verdade manufaturada como verdade doméstica, transformando a nós, os
subalternizados pré-fabricados, em sustentadores desse mundo fictício, quando o aceitamos como
real e agimos segundo suas leis; a lei do cão, a lei da mordaça e a lei do
silêncio; um mundo onde a justiça inexiste e onde nós fomos treinados e adestrados a
criar tolerância a sua inexistência, e gradativamente nos habituando com sua ausência.
A
manutenção do estado de coisa desse mundo é nada mais, nada menos, do que o mero cumprimento de um contrato assinado, de concordância entre oprimido e opressor,
num claro conluio de existência patologicamente esquizoide. Nossa necessidade de cura[5] é
urgente e inadiável, pois vencido esse contrato feneratício, o que restará será a soma esquartejada da imagem do umbral em preto e branco, onde o sangue que que adorna esse retrato bicolor não terá dono,
pois será a mescla de uma massa de contínuos acontecimentos e impensáveis sofrimentos. O
sangue que hoje jorra, da caneta do doutor (feitor) ao ensurdecedor chicote-de-fogo do
capitão-do-mato contemporâneo, são laços de compromissos patológicos entre
gênero, raça e classe, que tem seu estado de arte determinado exclusivamente
pela cor da pele.
Foi assim se formou o nó trançado no tecido de fina estampa do Negro Drama, traçado durante o
decurso das animalescas tramas leucodérmicas, dos púlpitos até os tribunais do capital. Agora existe um só caminho
nessa trilha dialogicamente interseccional: Humanizemo-nos ou pereçamos todos
juntos, nesse infinito círculo das possibilidades castradas pelos caprichos
racistas dessa população de pele ineficiente, olhos deficientes, cabelos
sebosos, vindos das profundezas da idade das trevas e tementes a Deus.
[1]
Desde seu lançamento em 1895, o quadro "A Redenção de Cam", do
artista espanhol Modesto Brocos, tem provocado a crítica de arte a um debate
que não necessariamente se fia à questão formal, mas antes se volta ao assunto
que marcou a concepção da tela : a ideia de embranquecimento racial. A imagem é
um retrato de família marcado pelas distintas gradações de cor na pele das
personagens - do marrom escuro ("negro") da avó, ao
"branco" do neto e de seu pai, passando pela mãe, morena, cuja tez
adquire na tela um tom dourado. Em consonância, o grande interesse despertado
pela pintura, que recebeu a medalha de ouro naquela Exposição Geral de Belas
Artes, parece atado ao tema das uniões interraciais no Brasil e, em especial, à
sua transformação em emblema dos debates sobre o futuro de um país marcado pela
forte presença de uma população que não se define nem como negra, nem como
branca, e pelos impasses que a chamada mestiçagem trazia para uma nação que se
pretendia, no futuro, branca, num momento de auge do pensamento racialista na
esfera pública. Um episódio tem sido particularmente apontado como um marco na
recepção da tela, qual seja, o fato de João Batista de Lacerda, diretor do
Museu Nacional, tê-la incorporado à comunicação que apresentou ao I Congresso
Universal das Raças, em Londres, em 1911. O quadro tornava-se, nas mãos do
cientista, uma evidência de sua tese, segundo a qual, por efeito da evolução e
da entrada de imigrantes europeus, levaria três gerações ou um século para que
o país se tornasse evidentemente branco.
[2] A
máxima usada e aceita juridicamente pelo machismo durante muito tempo.

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