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quarta-feira, 7 de junho de 2017

A beligerante saga brancopofágica no mundo melanodérmico com sua dialogia ideológica de interseccionalidade leucodérmica

Quando os lusitanos invadiram o Pindorama, assassinado, estuprando e pilhando desordenadamente os povos autóctones, elles orgulhosamente se outorgaram o título de civilizados e as suas vítimas a alcunha de selvícolas, definindo inequivocamente os papéis de ambos nesse contexto, para que suas futuras e presentes barbáries de cada dia fossem legitimadas e constasse na história como conquistas heroicas e audazes descobrimentos. Foi desse modo que transformaram a si mesmos em grandes heróis da história ao mesmo tempo em que coisificavam suas incautas vítimas, usando para isso a providencial concessão da igreja, que cedeu o aval divino do próprio Deus em pessoa, testificando-os como mandatários do divino amor esquizofrênico conferido pelo velho testamento[1]; inaugurando, dessa maneira, a máxima “quem ama, mata[2]”.

Após conferirem a si mesmo o majestoso título de heróis e, por conseguinte, reivindicar a propriedade do mundo como seu quintal, iniciaram a perseguição àqueles que não fossem parentes de Narciso. Sendo assim, as próximas vítimas na lista da bula papal; esse representante branco do Deus branco na terra; após a frugal e estúpida carnificina indígena, foram os Povos originários; os Africanos. Afinal, esses seres riquíssimos e tremendamente abastados, com seus poderosos reinos e terras sem fim, que apresentavam como se fora um altivo escudo, uma reluzente pele melaninosa, e que não possuíam nem de longe a alvura da desprotegida pele da insuficiente raça branca, nem seus deficientes olhos azuis e ou seus sebosos cabelos escorregadios, nem sequer vinham das profundezas da tenebrosa idade das trevas, obviamente não poderiam jamais passar incólumes. Portanto, deveriam ser combatidos, abatidos e escravizados, servindo como objetos expostos num grandes supermercados onde quaisquer brancos pudessem escolher e se servir ao bel prazer, de todas as formas e maneiras possíveis e impossíveis, pensáveis e impensáveis, como uma interminável orgia grega, uma eterna festa de Baco.

Desse modo, fazendo uso de Armas de Terror, os sinistros bárbaros eurocêntricos colocaram seu mórbido plano em curso, com a anuência de todos aqueles que possuíam peles ineficientes, olhos deficientes, de cabelos sebosos, vindos da idade das trevas e tementes a Deus. O resultado foi uma magnífica carnificina decorrente desse maligno plano, tendo como consequência, além de milhares de mortes, milhões de escravizados[3]. Com os povos autóctones dizimados, os sobreviventes que restaram dos povos originários; os negros; foram dolorosamente coagidos através de indizíveis torturas a produzir as riquezas para essa população de peles ineficientes, olhos deficientes, de cabelos sebosos, vindos da idade das trevas e tementes a Deus, reduzidos assim, a meros seres escravizados e coisificados, dando continuidade a essa saga de horrores perpétuos impetrados pelas caras pessoas brancas, cujas caras aparecem sempre estampadas, como heróis e heroínas, ao final das intrincadas tramas de cada epopeia brancopófaga, nas narrativas de mundo sustentada pela história, pela cultura e pela mídia vigente.

Dessa maneira, transformando esse país chamado Brazil numa imensa catacumba indígena e num cativeiro eterno dedicado exclusivamente ao povo negro, chamaram esse maravilhoso sistema de República; obviamente inspirado em Platão; República cuja principal função era legalizar toda e qualquer barbárie contra quaisquer que não possuíssem pele ineficiente, olhos deficientes e cabelos sebosos, vindos da idade das trevas e tementes a Deus. Destarte, no caderno de leis republicanas, a política da eugenia se fez presente, como a missão divina de um Estado laico sanguinário, “conquistador” e paternalmente ameaçador; após deflagrar as leis do Ventre livre, sexagenário, áurea, lei de terras, lei de vadiagem, súmula 70, auto de resistência, e por ai vai. Absolutamente todas essas leis, foram confeccionadas para manter a submissão e a subalternidade do elemento padrão, que é o rótulo dado pela pelos capitães-do-mato; agora conhecido como Policial Militar; as pessoas da cor de noite sem lua, quando encontradas e abordadas em vias públicas, que são tratadas como potenciais meliantes, e assim, sumariamente julgadas por esses agentes estatais, prosaicos lacaios da Casagrande.

As terras, outrora pertencentes aos povos autóctones, foram ocupadas e sequestradas pelo Estado, agora legalizado como ladrão oficial, único e soberano, portador do monopólio de todos e quaisquer crimes em solo tupiniquim. Dessa maneira, a perversa lei de terras, de 1850, impediu peremptoriamente que os pretos pudessem ter acesso a ela, mesmo sendo essa mesma terra um bem natural. Ou seja, até os dias de hoje, o estado, como usurpador legalizado, generosamente pratica o abominável processo de vender um pedaço de terra a uma família preta, que mesmo tendo essa família pago por esta pequena porção de terra, vai ter que continuar pagando ao Estado brancopófago por esse pequeno terreno enquanto viver, assim como seus descendentes.

Sendo assim, podemos conceituar o Estado como um tenebroso ente invisível branco, comparando-o a um insaciável vampiro que, como voraz e insaciável sanguessuga, sobrevive através de realizações de fastigiosos banquetes onde são consumidos a carne e o sangue do negro a revelia. 
Paralelo a esse circo dos horrores, o Estado cultiva seus gados de forma ardilosa, quando faz uso da academia, selecionando pretinhas e pretinhos, treinando-os para usá-los a fim de dominar seus próprios pares negros; estes são conhecidos como pretos da casa ou negros de sapatos

Desse modo, esse mórbido plano é travestido e revestido com a indiscutível imagem de importância ímpar, pois além de dar legitimidade a mais uma barbárie, ao usar o artifício acadêmico de rotular essas estúpidas ações;  o mais novo revestimento colocado na pauta da moda acadêmica, agora é chamado pomposamente de interseccionalidade; ela é apresentada como uma grande novidade e atração especial a ser discutida e debatida. A grosso modo, poderíamos definir esse conceito de interseccionalidade como uma hábil descrição do processo de criação, atuação e inserção de um vírus eurocêntrico inserido numa comunidade melanodérmica e a apreciação de sua devastadora contaminação, que de forma espetacular, dizimam valores e conceitos melanodérmicos, atuando como uma espécie de zumbi hollywoodiano, inicia sua ação de leucordemização do mundo negro.

Eufemisticamente Karl Max chamava esse processo de Dialogia, e outros, como Vygotsky, chamava de Zona proximal de Aprendizagem. Ou seja, ele descrevia as influências mútuas que sofrem ambos os mundos; nesse caso, os mundos negro e branco. Só que adicionado o verniz da interseccionalidade preconizado nesse mesmo princípio, observaremos que este vem com os créditos de 50 tons de maldade como pacote; embutidas e camufladas em papel de presente de grego; agindo de forma cruelmente capciosa, subliminar e manipuladoras. Ou seja, é a descrição do momento em que o mundo leucodérmico inicia seu processo de sugar a cultura negra; de todas as formas e maneiras possíveis; e o mundo melanodérmico agoniza, definhando a olhos vistos, seja diante do extermínio físico, psicológico ou epistemológico. 

Isso quer dizer que os termos legitimados pela academia[4], manipulam inescrupulosamente seus usuários, quando cria e estimula uma libidinosa relação antropofágica, uma vez que banaliza a infâmia de forma extrema e despudorada, nos levando a criar tolerância a tanta violência gratuita contra quaisquer pessoas negra, na medida em que a vemos no cotidiano essa violência como algo normalizado, exposto num lugar comum, passando enfim, a ter o status de mais um mero espetáculo de cada dia que nos dói hoje; é exatamente disso que a academia eurocêntrica vive: do espetáculo da pobreza e do sofrimento melanodérmico.

Para transformar esse espetáculo numa atração epistêmica, a academia maquiavelicamente os revestiu de nomes sugestivos e pomposos. Desse modo, tais ações são definidas ou conceituadas, e subliminarmente chamadas de lutas de classe, Ações Afirmativas, cotas, minorias e maiorias, e afins. Esse expediente, além de criar otimismo e esperança nos corações e mentes de pretas e pretos, deixa a sensação de um devir de pertencimento a algo, dentro desse pernicioso e imperceptível processo acadêmico de destruição total da coletividade melanodérmica, reforçando dessa maneira, o individualismo, até a medula; tendo como fundamental ponto de partida, a estupidez do insano princípio da meritocracia; um dos golpes de mestre criado pelo capitalismo nesses finais dos tempos.

Desse modo, temos dois mundos dentro do mundo; um virtual, onde vivem os pretos-pobres, pobres-quase-pretos e pretos-quase-branco. Nesse mundo aparente, de falsa independência e falsa abolição, até os direitos são virtuais assim como a própria inteligência; visto que, uma vez aceito esse mundo, os que nele habitam, sinceramente acreditam fazer parte do mundo branco, onde os direitos são transformados privilégios e onde a ética tem a mesma importância e função de um comercial televisivo sobre papel higiênico.

O necessário e imprescindível processo decolonial desse escabroso contexto, só será possível quando houver o questionamento total das instituições que sustenta essa realidade. Fora disso, tudo mais é anátema, já que esse exercício tem seu fundamento na desobediência; primeiramente epistemológica; uma vez iniciado esse processo, tudo mais é consequência desse caminho de magias, a ser percorrido numa trilha onde todos os nossos conceitos e paradigmas invariavelmente serão reformulados, reajustados e equalizados a cada passo, em todas as verdades, a cada olhar, ação, posturas e práticas cotidianas.

Dessa forma, corajosamente nos lançaremos aos braços das dúvidas, num abraço fundamental, ante as certezas postas e impostas progressiva e paulatinamente, nas quais, através dos princípios de falsas premissas, fomos induzidos a adotar a verdade manufaturada como verdade doméstica, transformando a nós, os subalternizados pré-fabricados, em sustentadores desse mundo fictício, quando o aceitamos como real e agimos segundo suas leis; a lei do cão, a lei da mordaça e a lei do silêncio; um mundo onde a justiça inexiste e onde nós fomos treinados e adestrados a criar tolerância a sua inexistência, e gradativamente nos habituando com sua ausência.

A manutenção do estado de coisa desse mundo é nada mais, nada menos, do que o mero cumprimento de um contrato assinado, de concordância entre oprimido e opressor, num claro conluio de existência patologicamente esquizoide. Nossa necessidade de cura[5] é urgente e inadiável, pois vencido esse contrato feneratício, o que restará será a soma esquartejada da imagem do umbral em preto e branco, onde o sangue que que adorna esse retrato bicolor não terá dono, pois será a mescla de uma massa de contínuos acontecimentos e impensáveis sofrimentos. O sangue que hoje jorra, da caneta do doutor (feitor) ao ensurdecedor chicote-de-fogo do capitão-do-mato contemporâneo, são laços de compromissos patológicos entre gênero, raça e classe, que tem seu estado de arte determinado exclusivamente pela cor da pele. 

Foi assim se formou o nó trançado no tecido de fina estampa do Negro Drama, traçado durante o decurso das animalescas tramas leucodérmicas, dos púlpitos até os tribunais do capital. Agora existe um só caminho nessa trilha dialogicamente interseccional: Humanizemo-nos ou pereçamos todos juntos, nesse infinito círculo das possibilidades castradas pelos caprichos racistas dessa população de pele ineficiente, olhos deficientes, cabelos sebosos, vindos das profundezas da idade das trevas e tementes a Deus.


[1] Desde seu lançamento em 1895, o quadro "A Redenção de Cam", do artista espanhol Modesto Brocos, tem provocado a crítica de arte a um debate que não necessariamente se fia à questão formal, mas antes se volta ao assunto que marcou a concepção da tela : a ideia de embranquecimento racial. A imagem é um retrato de família marcado pelas distintas gradações de cor na pele das personagens - do marrom escuro ("negro") da avó, ao "branco" do neto e de seu pai, passando pela mãe, morena, cuja tez adquire na tela um tom dourado. Em consonância, o grande interesse despertado pela pintura, que recebeu a medalha de ouro naquela Exposição Geral de Belas Artes, parece atado ao tema das uniões interraciais no Brasil e, em especial, à sua transformação em emblema dos debates sobre o futuro de um país marcado pela forte presença de uma população que não se define nem como negra, nem como branca, e pelos impasses que a chamada mestiçagem trazia para uma nação que se pretendia, no futuro, branca, num momento de auge do pensamento racialista na esfera pública. Um episódio tem sido particularmente apontado como um marco na recepção da tela, qual seja, o fato de João Batista de Lacerda, diretor do Museu Nacional, tê-la incorporado à comunicação que apresentou ao I Congresso Universal das Raças, em Londres, em 1911. O quadro tornava-se, nas mãos do cientista, uma evidência de sua tese, segundo a qual, por efeito da evolução e da entrada de imigrantes europeus, levaria três gerações ou um século para que o país se tornasse evidentemente branco.

[2] A máxima usada e aceita juridicamente pelo machismo durante muito tempo.

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