A forma violentamente suave de separar
o homem da natureza tem mostrado seus umbrálicos efeitos, aparentemente
irreversíveis. Diuturnamente este homem é despedaçado, esquartejado em mil
fragmentos, enquanto são conferidos a cada um desses pedaços, mil
diferentes faces, contendo em cada uma delas mil verdades produzidas pela
massacrante velocidade que lhe atropela com suas afiadas e certeiras lâminas da mercantil ética volátil, para formatar sua personalidade, tal como as
personalidades costuradas com diversas carnes que formataram a deformação
de Frankstein, e dessa maneira, ele possa servir ao seu sinhô,
mestre e criador do valor financeiro amestrador.
Tornado este mesmo homem um produto
dessas mil verdades, que impiedosamente lhe perpassa o ser, como as agulhas
rombudas de vacinas, ministradas em doses diárias pela mídia manipuladora, e
que lhe anestesia o fundo do ser, tornando-o definitivamente um ser imunizado
contra os efeitos produzidos pelas mórbidas visões das realidades
desumanizadoras; evitando desse modo, causar quaisquer perturbações ou morçus concientae[1] no incauto neófito.
Desse modo, constantemente são criadas
e renovadas devidas tolerâncias às barbáries vulgarizadas pela mídia falada e
escrita, que uma vez introjetadas e assimiladas pelo cidadão de bem,
tais violências são banalizadas pela sociedade contemporânea colonizada formada
por esses cidadãos, passando assim tais atrocidades a fazer parte do cenário da
vida comum, e em comum, de quaisquer deserdados ou feridos pela justiça que
possuam a cor certa ditada e gravada no imaginário social como tal. Ou seja, a
cor negra; tem sido exatamente essa a cor justificada pelo senso comum, para
ocupar o lugar de presa política, jurídica, social e
econômica, diante da relação de poder estabelecida que tem conduzido à vida e a
morte desse ser da cor desumanizada por esta construção social, e servido ao
sistema vigente como política do Estado escravocrata atual.
Da mesma forma que a natureza do escorpião[2], a sociedade tem a sua natureza manufaturada, forjada e planejada,
sendo roteirizada e explicitada em cada reação e cada não ação diante
nesse maquiavélico processo de genocídio de um povo, na prática constante e
contínuo do exercício de vis atrocidades predatórias nunca antes vistas no
humano reino animal. Pois se trata de um extermínio estratégico, cirúrgico,
perverso e com requintes de maldades, numa forma de jogo onde as regras são
extremante peripatéticas e tragicômicas, tal é a simplicidade de implementação;
e é essa mesma simplicidade que as tornam assustadoramente efetivas; são mil
verdades que escondem a Verdade mais óbvia, que é aquela grafada pela lei da
natureza. Natureza esta que a cultura cruelmente arrancou de nossos corações e
mentes usando as ferramentas fáceis das narrativas de promessas divinas e
paradisíacas de felicidade eterna de um futurístico reino fictício.
Dessa forma, com seu canto de sereia, a
serpente do paraíso codificou a natureza em coloridos e atraentes tubos de
ensaios, e as distribuiu como bulas e fórmulas anabolizadas, dando-lhes o
sofisticado nome de ciência da alta cultura. Agora, a missão
do homem, é decodificar essa fórmula tomando o caminho inverso[3], para retornar e resgatar a sua humanidade roubada pelo homem, lobo do
próprio homem, ou se afundar depressivamente em si mesmo, afogando-se ironicamente tal qual Narciso.
[3] Um conto de provável origem árabe, narra à ligação direta entre
Deus e os homens nos primórdios da humanidade, sem que houvesse intermediários
de quaisquer naturezas. Mas devido a não valorização desse processo por parte
dos homens, Deus em assembleia com seus anjos e arcanjos, decidiu retirar esse
dom dos homens. Indagados pelos seres divinos em que lugar esse dom seria
escondido, Deus respondeu que seria num lugar aonde o homem nunca vai; os anjos
em suas ilações os anjos indagavam se esse lugar seria nas profundezas do mar,
nos confins do universo ou nos abismos abissais, etc. Mas Deus simplesmente
respondeu que esconderia dentro do próprio homem.


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