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domingo, 17 de novembro de 2013

PODER: O NOME DO JOGO



Poderes plenos, ilimitados ou absolutos, trazem as devidas condições para que o indivíduo seja posto a prova como sujeito pertencente ao grupo do gênero humano. É uma prova em que na esmagadora maioria das vezes ele sucumbe, visto que tal lugar trás consigo um poderosíssimo vírus, que invariavelmente corromperá as veias da ética, envenenando qualquer senso de humanidade que acaso ainda reste nos recôndito do neófito. A periculosidade de tal vírus é tal, que só poderia ser comparada a devastadora peste bubônica ou a fatalidade da Síndrome Imunológica Adquirida em seus devidos contextos.

Todo e qualquer indivíduo que exerça plenos poderes relativos sobre outrem, está fadado a um retumbante fracasso como sujeito. Visto que normalmente o ser humano não possui a estrutura necessária para gerir a outrem, se não lograr sucesso na administração de si mesmo como sujeito e cidadão; caso fosse possível essa administração satisfatória de si sobre si, não haveria a necessidade da concessão de poderes a grupos de indivíduos destinados a esse fim; pois certamente a sociedade estaria devidamente preparada a exercer sua autogestão, como se verifica até hoje em muitas comunidades africanas, assim como a dos Batwás. 

O indivíduo que detém o poder detém também a frouxidão de caráter, visto ter ele o dom de ignorar toda uma coletividade, ignorando até mesmo o próprio senso coletivo, desde o momento que age unicamente movido pela conveniência. Como se pode facilmente constatar, o maior medo do rico é o de empobrecer, portanto, é notório perceber os motivos pelos quais o poderoso, custando o que custar, faz de tudo para manter seu lugar.

O poder pode ser traduzido como uma Síndrome da Imunidade Ética Adquirida, visto ser um mal de proporções tão devastadoras, que se torna inexorável e irreversível. Constata-se com espantosa facilidade fenomenológica, que os delírios de grandeza faz o neófito afundar em profunda embriaguez, tornando-se um empedernido dependente diatópico. 

Dessa maneira, suas ações só podem se comparar as ações dos enlouquecidos imperadores romanos ou as dos genocidas nazifascistas ao desempenhar suas corriqueiras e abomináveis atrocidades de cada dia, de forma estupidamente sádica e sarcástica. 

Esses impropérios e leviandades cotidianas são aceitos de bom grado pelos subalternizados, uma vez que o regime democrático implica na promessa (quase nunca cumprida) da troca de cadeiras. Mais, que na verdade, transformou-se oficiosamente numa prosaica e
consagrada cerimônia de beija-mãos dos mestres antecessores, que obviamente, sempre responderão alegremente as conveniências exigidas pela manutenção do status quo, formando assim, um seleto grupo social, quase uma impenetrável casta; salvo pelos rituais de iniciação através da SIEA (Síndrome de Imunidade Ética Adquirida).

O poder não suporta o pudor, prezando sempre pela supressão de quaisquer sinais de pressupostos brios existente no ar. O opressor, prima pela estupidez imbecilizante na inflação da dor e do horror, durante o exercício pleno da democratura reinante; considerando-as “mazelas do poder”, como um mal necessário à manutenção da lei e da ordem. Ou seja, um mero efeito colateral. Desse modo, esses exemplos, tornados lugar-comum, não só pelos políticos, mas também pelos religiosos e principalmente pelos militares, são assustadoramente naturais e abundantes para ilustrar esse lastimáveis fatos.
   
 Todo opressor invariavelmente comete crimes contra a humanidade. Ou seja, todo poderoso é também um criminoso, visto que ele necessita exercer seu sadismo natural; o mal necessário; como forma de governo para massacrar opiniões subalternas divergentes. Melancolicamente, esse é o registro que marca nosso momento histórico como pós-moderno: A
plebe se ajoelhando como um asinus ad lyram[1] e por vontade própria escolher a escravidão como caminho, sem ao menos saberem de suas escolhas, se escolheram, quando escolheram ou o que escolheram. Neste vertiginoso processo contemporâneo do jogo de poder, não há tempo para que a história se repita... Nem tempo para o precioso tempo de se dar a chance do erro, para poder acertar..


[1] “Burro diante da Lira”

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Polícia Militar brazilleira: Serial Killing tupiniquim



A polícia militar dos Estados Unidos do Brazill tem a honra de só possuir em seus quadros, com honrosas e raríssimas exceções, empregados padrão especialistas na prática do sadismo. São trabalhadores com larga experiência no ramo de torturas, humilhações e assassinatos em todo o solo tupiniquim, produzindo corriqueiramente mais viúvas e órfãos que qualquer guerra contemporânea.


Desse modo, ela se tornou uma instituição importantíssima para a governabilidade sem culpas nem desculpas, contribuindo com eficácia para a política de criminalização da pobreza e da cor, e principalmente de medidas descabidas e decretos bizarros e estúpidos implementados por esses administradores da coisa pública, além de atender, obviamente, os anseios da classe média nas suas terríveis frustrações resultantes de seus delírios de poder.


Classe média esta, que reúne em si todos os preconceitos possíveis e imagináveis. Preconceitos esses que estruturam e mantém a todo vapor o crime mais perfeito que se tem notícia em toda a humanidade: o crime do racismo.


Desse modo, a polícia militar cumpre com extrema habilidade sua missão de capitão-do-mato, enquanto o poder judiciário gerencia esse grande tumbeiro em que se transformou a sociedade contemporânea. Onde aliás coincidentemente, foi nos tumbeiros, o lugar que o monstro do capitalismo nasceu, mostrando sua sinistra face infernal, tomando sua terrível e atual forma de pomba branca da paz sem voz, voando inocentemente, durante a introdução da democratura no novo mundo, nos créditos iniciais e finais nas telas televisivas, sobre os auspiciosos prolegómenos de Dante. 


Em meio a esse dantesco cenário, podemos inferir e destacar a função ministerial da mídia, atuando na introjeção de valores indolentes, fazendo uso da doce arrogância própria dos proprietários da verdade exclusiva, para impor a única política governamental que deu certo nos Estados Unidos do Brazill; a política da eugenia. Essa política foi institucionalizada e legitimada com total sucesso na academia, na educação, na saúde e na segurança pública, além dos meios jurídicos e políticos. Enfim, em todas as esferas pública e privada (supondo-se que haja uma esfera pública na republica dos bananas).


As estatísticas; obviamente bem camufladas pela TV, TV esta legitimada como órgão oficial gerenciador desse processo criminoso; não fazem jus aos fatos e fotos da violência gratuita, torturas indiscriminadas, humilhações contumazes e assassinatos categóricos prosaicamente produzidos no cotidiano por esses valentes e audazes servidores públicos dessa amada força armada policial dos Estados Unidos do Brazill, que serve exemplarmente a nação e ao bom cidadão de bens: do bem comum.


Fato irônico é esse melancólico contexto, que deveria ser causa de grande comoção social, não causar nenhum constrangimento, estranhamento ou espanto em quem quer que seja. Pelo contrário, ele gera dividendos aos donos da mídia, na medida em que esse processo de desumanização se transformou em atração principal na telinha da TV; sendo os próprios telespectadores protagonistas desse triste espetáculo, pois os mesmos são rotineiramente vilipendiados por essa mesma mídia, que faz da pobreza e do racismo o produto sorumbático de seu rentoso show de comicidade. Assim, a pombinha branca da paz cumpre sua missão, como a polícia dos Estados Unidos do Brazill, mesmo sem saber realmente qual o seu real papel; podemos afirmar que, se cientificamente os pombos são ratos de asas, são bem diferentes da polícia... Que são ratos de armas trazendo a peste negra contemporânea.


Nesse sádico espetáculo de desumanização, o branco desumanizando o bantu, esse crime continua sendo inafiançável e continua sendo crime, além de ser um golpe de mestre contra a humanidade, para quem restou somente a coisificação do ser, a bordo desse tumbeiro urbano, cercado sádicos por todos os lados, somos vigiados e punidos por nossa cor, por  nossoscabelos crespos e por nossa condição social propositalmente desfavorecida.

 Esse é o dantesco espetáculo das raças visto de perto e vivido intensamente pelos descendentes daqueles que tiraram a Europa da idade das trevas, para servir e proteger seus infames negócios: o sequestro e venda da carne negra; da carne mais barata do mercado, mas com a cara força ativa que produziram e ainda produzem toda a riqueza de todos os Estado Unidos de Exceções a preço de muito sangue. Pois é, eles são unidos... A nós, cabe o afromodismo como recompensa pelo bom comportamento, pela ausência de coletivismo e pelo ensurdecedor silêncio que condena o vandalismo do p2 responsabilizando exclusivamente o bloqueio negro... Isso, a gente vê por aqui... A coisa mais linda e mais cheia de graça é ver o policial que humilha, que tortura, mata e não disfarça... Tudo ao vivo e em preto e branco, todo paramentado, mascarado e preparado para reproduzir e vivenciar as noites, com muita emoção, de tribunal nas escuras esquinas da vida, promovendo assim com grande satisfação a contumaz e divina inquisição, estripando com requinte de crueldade qualquer negro que não estiver em frente à televisão; enquanto o preto que no sofá está, em frente a tela total e completo estado de letargia geral, imbecilizado por essa embriaguez, se alivia por não ser ele a bola da vez.


Na manhã seguinte este mesmo preto do sofá, dá um fraterno bom dia ao vizinho polícia, chefe de família, bom pai e marido exemplar que acaba de chegar de seu plantão dioturno, perseguindo os fugidos da escravidão mental contemporânea: vândalos, importunadores de inocentes pombinhas brancas que adornam os patrimônios públicos pelo próprio vândalo, com muito dor, erigido com amor. 


Assim, o filho desse preto do sofá, também para a polícia sonha entrar, sendo herói militar, como o pai do amiguinho, e muito favelado poder matar. Nossos heróis nunca mais morrerão de overdose como outrora, quando fugiam da mórbida realidade para encontrar a virtualidade frente a TV, da vida dos finais felizes para todo o sempre, na terra do Nunca, onde os heróis são brancos, o arco-íris é branco e até o todo-poderoso Deus também é branco; mesmo que contraditoriamente a felicidade teime em ser colorida... Bem, são pequenos detalhes que uma boa bazuca pode resolver... E a polícia militar dos Estados Unidos da Exceção está ai pra isso, A tropa de elite já sabe qual a sua missão... 

Que venham os ferozes moinhos de ventos, que servem de barreira e de moldura aos terríveis, ferozes e coloridos arco-íris dos sonhos de negras e negros sonhadores... A ordem e o progresso deverão ser mantidos a qualquer custo... E Já que o objetivo é servir... Servos da servidão essa é a missão..!! Que a polícia entre em ação; o espetáculo vai começar; sendo assim, todo preto deve a TV ligar para ver um negro apanhar, para na manhã seguinte no seu trabalho poder comentar e a sua história contar, dizendo que seu vizinho é herói militar... Os filhos de nossos filhos também vão se mirar no exemplo de valor que o pai do amiguinho acabou de se transformar... Então corra, que o Filho Da Polícia vem ai...!!



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Todos os dias 20 são negros de novembro...



Em novembro, se bem me lembro, não é mês de mamulengo; mais sim, momento de livramento da cobiça, da maldade na traição do elemento acefálico ariano que torturou, vilipendiou e se locupletou na pavimentada Via Crucis da inquisição, durante as trevas dos idos anos, nas infâmias do comércio de Seres humanos; que agora se metamorfoseou em lugar-comum, no cotidiano subalternizado pelo clássico patrão-branco-urbano.


Novembro, se bem me lembro, vou siempre logo e dizendo, gritando em alto e bom som, que sou membro da humanidade e que não me vendo a nenhum clássico ariano urbano, que a muito vem me roubando para fabricar a riqueza de sua empresa, enquanto sequestra minha força ativa e racistiza a minha postura altiva, dizendo que sua justiça branquiça lhe permite a oitiva, inquisições e alienações de minha pessoa coisificada a toa no branco barco que em vão destoa da morte, rumo ao enevoado, nevado e natalício branco norte, ditando sinistramente minha sorte.


Novembro, se bem me lembro, todo me querendo, negramente eu remendo meu abadá e vou capoeirar, pra nas instâncias da vida me manifestar contra os que me querem de novo sequestrar, me calar e a minha dignidade eliminar.


Novembro, se bem me lembro, são escuros dias que trazem a menarca dos dias próprios, para sem apuros me preparar para no ano seguinte, como negro, de novo abolir e me alforriar da imperativa mordaça branca legislativa, da Euro-Greco-justiça, da impiedosa violência midiática e da peremptória execução pelo poderio militar, militante e limitante do executivo. Mesmo com as tantas arapucas do capitão de negreiro bem protegidas pelas forças do inimigo; mesmo com o capitão-do-mato no meu encalço provocando grandes embaraços; mesmo com todo o silêncio imediato desse branco-povo caricato: todos os dias 20 são negros de novembro...

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Sobre a greve dos Educadores

Conclamo aos que preferem serem filhos da pátria e não filhos da outra, a romperem de vez o silêncio, uma vez que a justiça carioca se mantem cega e o ministério público mudo diante das barbáries perpetradas pela polícia militar do Rio de Janeiro, desobedecendo a ordens do STF, relativas aos Profissionais de Educação; agindo indiscriminadamente de forma excessiva, desnecessária e criminosa, diante de uma população que procura de todas as formas possíveis, exercer seus direitos constitucionais de se manifestarem contrários aos desmandos e caprichos ditados pelos administradores de nosso Estado, colocando-nos consequentemente em Estado de exceção; decretando medidas supressivas de toda a natureza.

Visto que nosso governo nacional faz vista grossa a respeito desse crime em curso; desse atentado aos direitos contra a população brasileira; pois não se trata só do povo carioca, mais de todo o povo brasileiro, uma vez que a questão é nacional, como tem sido notório bastando para isso observar nas ruas, nas casas, ou no campo...

Esse governo, que foi eleito por esse mesmo povo que agora clama por seu impedimento imediato e incondicional, agora ignora a população mostrando sua clara preferência pelo progresso de banqueiros, empreiteiros e agrofazendeiros.

Portanto, já é passada a hora da queda da Bastilha; necessário se faz uma tarja preta nessa indecência, um Bloqueio Negro nas claras intenções criminosas desse desgoverno que pões em risco todo o país. Se assim não for, estamos fadados a ser “cobertos” por Cabral, tornando-nos verdadeiramente nos filhos da outra.

Que nossas denúncias sejam feitas nos tribunais internacionais, já que nossos tribunais diante das atitudes tomadas se declaram como incompetentes para quaisquer resoluções; que façamos tais denúncias além das masmorras da plim plim...


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O mal nosso de cada dia que nos dói hoje


É intrigante e ao mesmo tempo incrível a maneira como incorporamos em nosso dia-a-dia a extrema violência simbólica, assimilando em nosso vernáculo os adjetivos criados pelos opressores, falo das elites, para construir e legitimar o lugar do oprimido. Construindo assim uma sociedade desumanizada onde o indígena é chamado de “índio” e o negro escravizado se transforma em sinônimo de escravo, além de determinar que qualquer comunidade, quer seja africana, indígena ou oriental, seja chamado de tribo.

Essa violência, normatizada e banalizada pelos meios de comunicação, legitima os preconceitos, construindo estereotipias, indo ao extremo do racismo legalizado pela justiça, que eufemisticamente registra essa ocorrência como injúria. Ou seja, um crime leve não passível de punição de acordo com a cor e condição financeira do opressor em questão.

Desse modo, esses estúpidos atos se transformaram em lugar-comum, tão banal como um mendigo catando restos numa lixeira da esquina para não perecer na inanição física e afetiva, sobre os olhares enojados do público sedento por cenas insanas.
Assim, esse público formado por homens de bem e de bens, tal como os brancos nazistas, ou os brancos membros da respeitável Ku Krux Kran. Eram pais amorosos, chefes de família, religiosos e tementes a Deus, que se outorgaram a divina missão de torturar e exterminar quem a eles não se assemelhassem.

As famílias tupiniquins guardam bem o frescor da memória desses nefastos momentos, quando se reúnem ao ar livre se confraternizando num agradável piquenique, tal como faziam os membros da KKK após um linchamento de um negro preto[1]; dai a origem do convescote.

Postos esses valores da branquidade, impostos através da violência, da tortura e de assassinatos categóricos, banhando os continentes de sangue negro numa avalanche de carnificinas encomendadas e financiadas  com o ouro do próprio negro, nas terras tupiniquins esses atos ganharam um requinte de perversidade mais esmerado, quando o branco sinhô, religioso temente a Deus e amoroso pai de família, para se poupar do enfadonho trabalho de ele próprio infligir a dor e o terror, passou essa responsabilidade para os próprios negros, enquanto ele assistia ao espetáculo de camarote. Espetáculo este que se tornou atração pública nas horas de “lazer” da negralhada, é claro, tal como fazemos hoje diante da TV, na humilhação de pretos pobres prestadas pelos noticiários cotidianos.

Foi assim que teve origem a nossa tão estimada força policial, com esses negros incumbidos de perpetrar a dor e o sofrimento aos irmãos que reclamassem por sua humanidade. Negros que caçam negros, que torturam negros, que assassinam negros, em nome de uma comissão e de uma “licença” generosamente concedida por um branco senhor, legitimando-o como tal.

Nossas amadas forças armadas[2] também surgiram de uma cruel situação; os negros “libertos” pela princesa Isabel, eram sequestrados a luz do dia, com a justificativa de vadiagem (eles não tinham “donos” e também não tinham trabalho) voltando assim a condição de escravos da pátria amada Brazill, sofrendo os mesmos maus tratos de outrora.

A exemplo da grandes tropas de elite existentes no brazill, como os Henriques ou a guarda negra, nossos militares também negros (consciência pura) são comandados por meia dúzia de brancos (outra consciência). Desse modo, a ordem social e o progresso das elites são garantidos por essas forças negras, tornando todos felizes e contentes.

Nossos atuais assassinos, uniformizados, com reluzentes escudos e pomposas divisas douradas, bem armados e preparados, a exemplo dos Etíopes que tanto contribuíram na escravização dos irmãos africanos, ostentam com extremo orgulho seu pseudo poder, compensando sua desumanização e sua baixo auto-estima.

A função primeira desses negros e desumanizar seus pares; um exemplo que vem de encontro a essa afirmação é o famoso Mestre Candeia; sambista negro e policial destemido, valente e pragmático. No desempenho de suas funções de policial desconhecia os próprios amigos de roda de samba, chegando ao extremo de prender o  seu próprio irmão.

Porém; toda história tem um porém; num desses atos de valentia exacerbada, acabou levando um tiro, ficando paraplégico. A partir dai, nasceu Candeia, o compositor, voltando assim, a ser humano de novo. Um ser sensível, poeta, compositor e gente como a gente. Esse fato nos faz refletir bastante sobre a condição humana e de ser humano.

Outro tipo de negro que reúne em si as contradições do ser, é o negro evangélico: ele tem como Senhor a figura embranquecida de um Deus imposto como seu, por um a religião que o reduziu a condição de escravizado, roubando todos os seus bens, sua família, suas terras, sua história, sua cultura, sua vida e até seu próprio nome.

O cúmulo irônico dessa saga preta, dentre tantos cúmulos contextuais, foi o fato de que os marinheiros dos navios negreiros, doentes, sem dinheiro e moradia, que eram abandonados por seus capitães para morrer nos portos ingleses, eram cuidados por suas antigas vítimas, as negras e negros. Visto que os marinheiros eram aqueles que executavam as ordens do capitão, quando se tratava de punir com torturas infindas ou martirizar até a morte um negro que clamasse por liberdade a bordo de um Tumbeiro.

Acredito que essas negras e negros eram movidos pelos mandamentos do Ifá[3] ou/e pela filosofia Ubuntu[4] que os suleavam[5] em seu modo de ver e de viver a vida.
Outro fato relevante é o exemplo canção gospel mais cantada e conhecida em todo o mundo: Amazing grace.  O autor da letra é de um certo John Newton, inglês, capitão de navio negreiro, pai de família amoroso, esposo e chefe de família exemplar. Além de torturador e assassino, era temente a Deus. Tanto que se tornou pastor e arrependeu-se de todos os seus pecados já no final da vida.

Foi o capitão de negreiro que mais escreveu, além do prosaico diário de bordo, produzindo mais que todos os seus contemporâneos capitães juntos. Tanto que seus escritos provavelmente serviram de base na câmara dos comuns, por ocasião da abolição do tráfico negreiro no Atlântico.

Quanto ao compositor da canção, era um negro, um Zé ninguém que permanece ainda hoje no anonimato. Nessa canção foi utilizada a escala escrava. Ou seja, a escala pentatônica, própria dos africanos que concebiam tais notas como ritmo melódico. Os louros couberam ao capitão John enquanto ao autor desconhecido coube o ostracismo, próprio do hepistemicídio contemporâneo perpetrado pela branquitude.

Retornando aos atuais capitães-do-mato, não posso deixar de me referir a uma máxima que nos alerta para o fato de que se alguém encara em demasia o abismo, esse vai encará-lo de volta. Sendo assim, quem combate monstros deve tomar o devido cuidado para não se transformar em um. Nossa atual conjuntura está repleta de monstros criados e adestrados pela mídia fascista mundial. Implantando seu constructor social com monstros escuros, negros como a noite; são black blocks, favelados, vândalos, mestres e afins, enviados através de portais de notícias e manchetes sensacionalistas a lá cart.

Desse modo, o aroma de nosso esgoto social exala retroalimentando, com arrogância elegante, esse processo devorador, servindo seu banquete de referências aos monstros sociais que assombram a liberdade. Além de guardar a grande Matrix que impinge nas inocentes mentiras o mal nosso de cada dia que nos dói hoje.




[1] Lei da última gota
[2] Revolta da chibata, em 1910.
[3] 1º - ÒKÀNRÀN: Não fazer mal a ninguém.
2º - ÉJÌ ÒkÒ: Não sentir ódio nem destratar o outro.
3º - ETÁ ÒGÚNDÁ: Não guardar sentimentos vingança.
4º - ÌRÒSÙN: Não fazer armadilhas nem caluniar.
5º – ÒSÉ: Não invejar nada nem ninguém. 
6º - ÒBÀRÀ: Não mentir.
7º - ÒDÍ: Não corromper nem se deixar ser corrompido.
8º - ÈJÌ ONÍLÈ: Usar bem a cabeça neste mundo e respeitar os segredos alheios.
9º - ÒSÁ: Não ser falso com o próximo. 
10º - ÒFÚN: Não roubar, não jurar em falso nem amaldiçoar.
11º - ÒWÓNRÍN: Não matar, não arruinar a vida de outros e ser grato ao bem que nos façam.
12º - ÈJÌLÁ SEBORÁ: Evitar os escândalos e as tragédias. 
13º - ÈJÌ OLÓGBON: Respeitar os Ancestrais. 
14º - ÌKÁ: Não espalhar doenças, a corrupção e a maldade sobre o mundo.
15º - ÒGBEGÚNDÁ: Respeitar aos mais velhos, as crianças, o pai e a mãe.
16º - ÀLÀÁFÍÀ: Ouvindo estes conselhos não sentirá vergonha no dia que tiver que se apresentar perante Olódùmarè (Deus)


[4] “Uma pessoa só é uma pessoa através de outra pessoa”
[5] Boaventura, Santos – Pedagogia das ausências.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

KIBA: Ser e não Ser..!!


http://youtu.be/GVXOU4Ktkhs
A palavra kiba é traduzida do idioma bantu, significando pele. A produção narra a saga de uma mulher negra que vê seu reflexo no espelho e vitrines, a imagem refletida de uma mulher loira, de cabelos liso e longos, e de olhos azuis e seu processo de descobrir a si mesma.

Durante a narrativa, um programa de TV exibe depoimentos de mulheres negras reais falando sobre suas histórias de vida e de seu percurso até chegaram a ocupar o espaço que ocupam, e como fizeram para conseguir a vez e a voz. 

Essas são as mesmas TVs que sempre a acompanham em seu cotidiano, no trabalho, na rua e em casa, revelando, dando voz e espaço, mostrando o lado escondido de quem se encontra eclipsado por realidades formatadas pela cultura hierárquica veiculada pela mídia, como bem assinala Jean Baudrillar, além da inter-relação e da relação consigo mesma, de acordo com Baumam.

A narrativa exibe o modo pelo qual a personagem se deixa influenciar e se transformar, até o ponto em que o filme se revela, mostrando o lado “real” quando sai do espelho e vem para o lado em que o outro personagem está se refletindo: É na verdade uma mulher “branca” que tem toda sua cultura negra, todos seus antepassados e ancestralidade negados por sua cútis culturais, como assinala Franz Fanon.

Agora sim, a história recomeça com ela iniciando sua própria história, se redescobrindo e se reconhecendo, para perceber o sentido do Ser, de Ser ou deixar de Ser; tal como recomenda Michael Foucault; mudando a fonte da verdade.

Roteiro e direção:

Israel de Oliveira é Professor, Educador musical, Artista plástico, produtor, escritor, cronista, roteirista e desenhista.