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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O mal nosso de cada dia que nos dói hoje


É intrigante e ao mesmo tempo incrível a maneira como incorporamos em nosso dia-a-dia a extrema violência simbólica, assimilando em nosso vernáculo os adjetivos criados pelos opressores, falo das elites, para construir e legitimar o lugar do oprimido. Construindo assim uma sociedade desumanizada onde o indígena é chamado de “índio” e o negro escravizado se transforma em sinônimo de escravo, além de determinar que qualquer comunidade, quer seja africana, indígena ou oriental, seja chamado de tribo.

Essa violência, normatizada e banalizada pelos meios de comunicação, legitima os preconceitos, construindo estereotipias, indo ao extremo do racismo legalizado pela justiça, que eufemisticamente registra essa ocorrência como injúria. Ou seja, um crime leve não passível de punição de acordo com a cor e condição financeira do opressor em questão.

Desse modo, esses estúpidos atos se transformaram em lugar-comum, tão banal como um mendigo catando restos numa lixeira da esquina para não perecer na inanição física e afetiva, sobre os olhares enojados do público sedento por cenas insanas.
Assim, esse público formado por homens de bem e de bens, tal como os brancos nazistas, ou os brancos membros da respeitável Ku Krux Kran. Eram pais amorosos, chefes de família, religiosos e tementes a Deus, que se outorgaram a divina missão de torturar e exterminar quem a eles não se assemelhassem.

As famílias tupiniquins guardam bem o frescor da memória desses nefastos momentos, quando se reúnem ao ar livre se confraternizando num agradável piquenique, tal como faziam os membros da KKK após um linchamento de um negro preto[1]; dai a origem do convescote.

Postos esses valores da branquidade, impostos através da violência, da tortura e de assassinatos categóricos, banhando os continentes de sangue negro numa avalanche de carnificinas encomendadas e financiadas  com o ouro do próprio negro, nas terras tupiniquins esses atos ganharam um requinte de perversidade mais esmerado, quando o branco sinhô, religioso temente a Deus e amoroso pai de família, para se poupar do enfadonho trabalho de ele próprio infligir a dor e o terror, passou essa responsabilidade para os próprios negros, enquanto ele assistia ao espetáculo de camarote. Espetáculo este que se tornou atração pública nas horas de “lazer” da negralhada, é claro, tal como fazemos hoje diante da TV, na humilhação de pretos pobres prestadas pelos noticiários cotidianos.

Foi assim que teve origem a nossa tão estimada força policial, com esses negros incumbidos de perpetrar a dor e o sofrimento aos irmãos que reclamassem por sua humanidade. Negros que caçam negros, que torturam negros, que assassinam negros, em nome de uma comissão e de uma “licença” generosamente concedida por um branco senhor, legitimando-o como tal.

Nossas amadas forças armadas[2] também surgiram de uma cruel situação; os negros “libertos” pela princesa Isabel, eram sequestrados a luz do dia, com a justificativa de vadiagem (eles não tinham “donos” e também não tinham trabalho) voltando assim a condição de escravos da pátria amada Brazill, sofrendo os mesmos maus tratos de outrora.

A exemplo da grandes tropas de elite existentes no brazill, como os Henriques ou a guarda negra, nossos militares também negros (consciência pura) são comandados por meia dúzia de brancos (outra consciência). Desse modo, a ordem social e o progresso das elites são garantidos por essas forças negras, tornando todos felizes e contentes.

Nossos atuais assassinos, uniformizados, com reluzentes escudos e pomposas divisas douradas, bem armados e preparados, a exemplo dos Etíopes que tanto contribuíram na escravização dos irmãos africanos, ostentam com extremo orgulho seu pseudo poder, compensando sua desumanização e sua baixo auto-estima.

A função primeira desses negros e desumanizar seus pares; um exemplo que vem de encontro a essa afirmação é o famoso Mestre Candeia; sambista negro e policial destemido, valente e pragmático. No desempenho de suas funções de policial desconhecia os próprios amigos de roda de samba, chegando ao extremo de prender o  seu próprio irmão.

Porém; toda história tem um porém; num desses atos de valentia exacerbada, acabou levando um tiro, ficando paraplégico. A partir dai, nasceu Candeia, o compositor, voltando assim, a ser humano de novo. Um ser sensível, poeta, compositor e gente como a gente. Esse fato nos faz refletir bastante sobre a condição humana e de ser humano.

Outro tipo de negro que reúne em si as contradições do ser, é o negro evangélico: ele tem como Senhor a figura embranquecida de um Deus imposto como seu, por um a religião que o reduziu a condição de escravizado, roubando todos os seus bens, sua família, suas terras, sua história, sua cultura, sua vida e até seu próprio nome.

O cúmulo irônico dessa saga preta, dentre tantos cúmulos contextuais, foi o fato de que os marinheiros dos navios negreiros, doentes, sem dinheiro e moradia, que eram abandonados por seus capitães para morrer nos portos ingleses, eram cuidados por suas antigas vítimas, as negras e negros. Visto que os marinheiros eram aqueles que executavam as ordens do capitão, quando se tratava de punir com torturas infindas ou martirizar até a morte um negro que clamasse por liberdade a bordo de um Tumbeiro.

Acredito que essas negras e negros eram movidos pelos mandamentos do Ifá[3] ou/e pela filosofia Ubuntu[4] que os suleavam[5] em seu modo de ver e de viver a vida.
Outro fato relevante é o exemplo canção gospel mais cantada e conhecida em todo o mundo: Amazing grace.  O autor da letra é de um certo John Newton, inglês, capitão de navio negreiro, pai de família amoroso, esposo e chefe de família exemplar. Além de torturador e assassino, era temente a Deus. Tanto que se tornou pastor e arrependeu-se de todos os seus pecados já no final da vida.

Foi o capitão de negreiro que mais escreveu, além do prosaico diário de bordo, produzindo mais que todos os seus contemporâneos capitães juntos. Tanto que seus escritos provavelmente serviram de base na câmara dos comuns, por ocasião da abolição do tráfico negreiro no Atlântico.

Quanto ao compositor da canção, era um negro, um Zé ninguém que permanece ainda hoje no anonimato. Nessa canção foi utilizada a escala escrava. Ou seja, a escala pentatônica, própria dos africanos que concebiam tais notas como ritmo melódico. Os louros couberam ao capitão John enquanto ao autor desconhecido coube o ostracismo, próprio do hepistemicídio contemporâneo perpetrado pela branquitude.

Retornando aos atuais capitães-do-mato, não posso deixar de me referir a uma máxima que nos alerta para o fato de que se alguém encara em demasia o abismo, esse vai encará-lo de volta. Sendo assim, quem combate monstros deve tomar o devido cuidado para não se transformar em um. Nossa atual conjuntura está repleta de monstros criados e adestrados pela mídia fascista mundial. Implantando seu constructor social com monstros escuros, negros como a noite; são black blocks, favelados, vândalos, mestres e afins, enviados através de portais de notícias e manchetes sensacionalistas a lá cart.

Desse modo, o aroma de nosso esgoto social exala retroalimentando, com arrogância elegante, esse processo devorador, servindo seu banquete de referências aos monstros sociais que assombram a liberdade. Além de guardar a grande Matrix que impinge nas inocentes mentiras o mal nosso de cada dia que nos dói hoje.




[1] Lei da última gota
[2] Revolta da chibata, em 1910.
[3] 1º - ÒKÀNRÀN: Não fazer mal a ninguém.
2º - ÉJÌ ÒkÒ: Não sentir ódio nem destratar o outro.
3º - ETÁ ÒGÚNDÁ: Não guardar sentimentos vingança.
4º - ÌRÒSÙN: Não fazer armadilhas nem caluniar.
5º – ÒSÉ: Não invejar nada nem ninguém. 
6º - ÒBÀRÀ: Não mentir.
7º - ÒDÍ: Não corromper nem se deixar ser corrompido.
8º - ÈJÌ ONÍLÈ: Usar bem a cabeça neste mundo e respeitar os segredos alheios.
9º - ÒSÁ: Não ser falso com o próximo. 
10º - ÒFÚN: Não roubar, não jurar em falso nem amaldiçoar.
11º - ÒWÓNRÍN: Não matar, não arruinar a vida de outros e ser grato ao bem que nos façam.
12º - ÈJÌLÁ SEBORÁ: Evitar os escândalos e as tragédias. 
13º - ÈJÌ OLÓGBON: Respeitar os Ancestrais. 
14º - ÌKÁ: Não espalhar doenças, a corrupção e a maldade sobre o mundo.
15º - ÒGBEGÚNDÁ: Respeitar aos mais velhos, as crianças, o pai e a mãe.
16º - ÀLÀÁFÍÀ: Ouvindo estes conselhos não sentirá vergonha no dia que tiver que se apresentar perante Olódùmarè (Deus)


[4] “Uma pessoa só é uma pessoa através de outra pessoa”
[5] Boaventura, Santos – Pedagogia das ausências.

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