É intrigante e ao mesmo tempo
incrível a maneira como incorporamos em nosso dia-a-dia a extrema violência
simbólica, assimilando em nosso vernáculo os adjetivos criados pelos
opressores, falo das elites, para construir e legitimar o lugar do oprimido. Construindo
assim uma sociedade desumanizada onde o indígena é chamado de “índio” e o negro
escravizado se transforma em sinônimo de escravo, além de determinar que
qualquer comunidade, quer seja africana, indígena ou oriental, seja chamado de
tribo.
Essa violência, normatizada e
banalizada pelos meios de comunicação, legitima os preconceitos, construindo
estereotipias, indo ao extremo do racismo legalizado pela justiça, que
eufemisticamente registra essa ocorrência como injúria. Ou seja, um crime leve
não passível de punição de acordo com a cor e condição financeira do opressor
em questão.
Desse modo, esses estúpidos atos se
transformaram em lugar-comum, tão banal como um mendigo catando restos numa
lixeira da esquina para não perecer na inanição física e afetiva, sobre os olhares
enojados do público sedento por cenas insanas.
Assim, esse público formado por
homens de bem e de bens, tal como os brancos nazistas, ou os brancos membros da
respeitável Ku Krux Kran. Eram pais amorosos, chefes de família, religiosos e
tementes a Deus, que se outorgaram a divina missão de torturar e exterminar quem
a eles não se assemelhassem.
As famílias tupiniquins guardam bem
o frescor da memória desses nefastos momentos, quando se reúnem ao ar livre se
confraternizando num agradável piquenique, tal como faziam os membros da KKK
após um linchamento de um negro preto[1];
dai a origem do convescote.
Postos esses valores da branquidade,
impostos através da violência, da tortura e de assassinatos categóricos,
banhando os continentes de sangue negro numa avalanche de carnificinas
encomendadas e financiadas com o ouro do
próprio negro, nas terras tupiniquins esses atos ganharam um requinte de
perversidade mais esmerado, quando o branco sinhô, religioso temente a Deus e amoroso
pai de família, para se poupar do enfadonho trabalho de ele próprio infligir a
dor e o terror, passou essa responsabilidade para os próprios negros, enquanto ele
assistia ao espetáculo de camarote. Espetáculo este que se tornou atração
pública nas horas de “lazer” da negralhada, é claro, tal como fazemos hoje diante da TV, na humilhação de pretos pobres prestadas pelos noticiários cotidianos.
Foi assim que teve origem a nossa
tão estimada força policial, com esses negros incumbidos de perpetrar a dor e o
sofrimento aos irmãos que reclamassem por sua humanidade. Negros que caçam
negros, que torturam negros, que assassinam negros, em nome de uma comissão e
de uma “licença” generosamente concedida por um branco senhor, legitimando-o como tal.
Nossas amadas forças armadas[2] também
surgiram de uma cruel situação; os negros “libertos” pela princesa Isabel, eram
sequestrados a luz do dia, com a justificativa de vadiagem (eles não tinham “donos”
e também não tinham trabalho) voltando assim a condição de escravos da pátria
amada Brazill, sofrendo os mesmos maus tratos de outrora.
A exemplo da grandes tropas de
elite existentes no brazill, como os Henriques ou a guarda negra, nossos
militares também negros (consciência pura) são comandados por meia dúzia de
brancos (outra consciência). Desse modo, a ordem social e o progresso das
elites são garantidos por essas forças negras, tornando todos felizes e
contentes.
Nossos atuais assassinos,
uniformizados, com reluzentes escudos e pomposas divisas douradas, bem armados
e preparados, a exemplo dos Etíopes que tanto contribuíram na escravização dos irmãos africanos, ostentam com extremo orgulho seu pseudo poder,
compensando sua desumanização e sua baixo auto-estima.
A função primeira desses negros e
desumanizar seus pares; um exemplo que vem de encontro a essa afirmação é o
famoso Mestre Candeia; sambista negro e policial destemido, valente e pragmático.
No desempenho de suas funções de policial desconhecia os próprios amigos de
roda de samba, chegando ao extremo de prender o seu próprio irmão.
Porém; toda história tem um porém;
num desses atos de valentia exacerbada, acabou levando um tiro, ficando paraplégico.
A partir dai, nasceu Candeia, o compositor, voltando assim, a ser humano de
novo. Um ser sensível, poeta, compositor e gente como a gente. Esse fato nos
faz refletir bastante sobre a condição humana e de ser humano.
Outro tipo de negro que reúne em si
as contradições do ser, é o negro evangélico: ele tem como Senhor a figura
embranquecida de um Deus imposto como seu, por um a religião que o reduziu a
condição de escravizado, roubando todos os seus bens, sua família, suas terras,
sua história, sua cultura, sua vida e até seu próprio nome.
O cúmulo irônico dessa saga preta, dentre tantos cúmulos contextuais, foi o fato de
que os marinheiros dos navios negreiros, doentes, sem dinheiro e moradia, que
eram abandonados por seus capitães para morrer nos portos ingleses, eram
cuidados por suas antigas vítimas, as negras e negros. Visto que os marinheiros
eram aqueles que executavam as ordens do capitão, quando se tratava de punir
com torturas infindas ou martirizar até a morte um negro que clamasse por
liberdade a bordo de um Tumbeiro.
Acredito que essas negras e negros
eram movidos pelos mandamentos do Ifá[3] ou/e
pela filosofia Ubuntu[4]
que os suleavam[5]
em seu modo de ver e de viver a vida.
Outro fato relevante é o exemplo
canção gospel mais cantada e conhecida em todo o mundo: Amazing grace. O autor da letra é de um certo John Newton, inglês,
capitão de navio negreiro, pai de família amoroso, esposo e chefe de família
exemplar. Além de torturador e assassino, era temente a Deus. Tanto que se
tornou pastor e arrependeu-se de todos os seus pecados já no final da vida.
Foi o capitão de negreiro que mais
escreveu, além do prosaico diário de bordo, produzindo mais que todos os seus
contemporâneos capitães juntos. Tanto que seus escritos provavelmente serviram
de base na câmara dos comuns, por
ocasião da abolição do tráfico negreiro no Atlântico.
Quanto ao compositor da canção, era
um negro, um Zé ninguém que permanece ainda hoje no anonimato. Nessa canção foi
utilizada a escala escrava. Ou seja, a escala pentatônica, própria dos
africanos que concebiam tais notas como ritmo melódico. Os louros couberam ao
capitão John enquanto ao autor desconhecido coube o ostracismo, próprio do
hepistemicídio contemporâneo perpetrado pela branquitude.
Retornando aos atuais capitães-do-mato,
não posso deixar de me referir a uma máxima que nos alerta para o fato de que
se alguém encara em demasia o abismo, esse vai encará-lo de volta. Sendo assim,
quem combate monstros deve tomar o devido cuidado para não se transformar em um.
Nossa atual conjuntura está repleta de monstros criados e adestrados pela mídia
fascista mundial. Implantando seu constructor social com monstros escuros,
negros como a noite; são black blocks, favelados, vândalos, mestres e afins,
enviados através de portais de notícias e manchetes sensacionalistas a lá cart.
Desse modo, o aroma de nosso esgoto
social exala retroalimentando, com arrogância elegante, esse processo
devorador, servindo seu banquete de referências aos monstros sociais que
assombram a liberdade. Além de guardar a grande Matrix que impinge nas inocentes
mentiras o mal nosso de cada dia que nos dói hoje.
[1]
Lei da última gota
[2] Revolta
da chibata, em 1910.
[3] 1º - ÒKÀNRÀN: Não fazer mal a ninguém.
2º - ÉJÌ ÒkÒ: Não sentir ódio nem destratar o outro.
3º - ETÁ ÒGÚNDÁ: Não guardar sentimentos vingança.
4º - ÌRÒSÙN: Não fazer armadilhas nem caluniar.
5º – ÒSÉ: Não invejar nada nem ninguém.
6º - ÒBÀRÀ: Não mentir.
7º - ÒDÍ: Não corromper nem se deixar ser corrompido.
8º - ÈJÌ ONÍLÈ: Usar bem a cabeça neste mundo e respeitar os segredos alheios.
9º - ÒSÁ: Não ser falso com o próximo.
10º - ÒFÚN: Não roubar, não jurar em falso nem amaldiçoar.
11º - ÒWÓNRÍN: Não matar, não arruinar a vida de outros e ser grato ao bem que nos façam.
12º - ÈJÌLÁ SEBORÁ: Evitar os escândalos e as tragédias.
13º - ÈJÌ OLÓGBON: Respeitar os Ancestrais.
14º - ÌKÁ: Não espalhar doenças, a corrupção e a maldade sobre o mundo.
15º - ÒGBEGÚNDÁ: Respeitar aos mais velhos, as crianças, o pai e a mãe.
16º - ÀLÀÁFÍÀ: Ouvindo estes conselhos não sentirá vergonha no dia que tiver que se apresentar perante Olódùmarè (Deus)
2º - ÉJÌ ÒkÒ: Não sentir ódio nem destratar o outro.
3º - ETÁ ÒGÚNDÁ: Não guardar sentimentos vingança.
4º - ÌRÒSÙN: Não fazer armadilhas nem caluniar.
5º – ÒSÉ: Não invejar nada nem ninguém.
6º - ÒBÀRÀ: Não mentir.
7º - ÒDÍ: Não corromper nem se deixar ser corrompido.
8º - ÈJÌ ONÍLÈ: Usar bem a cabeça neste mundo e respeitar os segredos alheios.
9º - ÒSÁ: Não ser falso com o próximo.
10º - ÒFÚN: Não roubar, não jurar em falso nem amaldiçoar.
11º - ÒWÓNRÍN: Não matar, não arruinar a vida de outros e ser grato ao bem que nos façam.
12º - ÈJÌLÁ SEBORÁ: Evitar os escândalos e as tragédias.
13º - ÈJÌ OLÓGBON: Respeitar os Ancestrais.
14º - ÌKÁ: Não espalhar doenças, a corrupção e a maldade sobre o mundo.
15º - ÒGBEGÚNDÁ: Respeitar aos mais velhos, as crianças, o pai e a mãe.
16º - ÀLÀÁFÍÀ: Ouvindo estes conselhos não sentirá vergonha no dia que tiver que se apresentar perante Olódùmarè (Deus)
[4] “Uma
pessoa só é uma pessoa através de outra pessoa”
[5] Boaventura,
Santos – Pedagogia das ausências.



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