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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Da Lei 7.716/89 a lei 11645/08



Gesto nobre é digno de Rei e gesto pobre é coisa de preto. No plebiscito realizado no ano de 1993, para se escolher a forma de governo que os brasileiros desejavam para nosso país, mais de 60% votaram na monarquia. Votaram naqueles aristocratas que dilapidaram o país, que dizimaram um povo além de escravizar outro; transformando os sobreviventes desse genocídio em mortos-vivos.
Que filhos da pátria são esses que vêem na sua mãe (a mãe África) e no estupro de Lucy , genitora dos afro-brasileiros, uma vadia sem lar, reduzindo-a a uma caricatura de Geni . Porque o Brasil precisa decretar uma lei para adestrar uma consciência inexistente; a consciência da alforria, a consciência negra. Porque a vergonha de ser negro, imposta pela representação do preto-pobre-feio-burro-escravo, persiste para além dos livros didáticos, paradidáticos e midiáticos naturalizado pelo senso-comum.
Em nossa sociedade de príncipes e mendigos o preconceito não é crime, uma vez que não pode ser medido nem pesado. Nós, os assalariados, somos filhos dos escravos libertos largados pelas ruas, becos e vielas do Brasil pós-abolição. Incrivelmente tal abolição veio acompanhada, dois meses após especificamente, pela famigerada lei da terra, dando posse da mesma terra aos possuidores de rendas. Obviamente não houve nenhum crime de Racismo ou de Preconceito nessa lei, visto que em nenhum momento se mencionou alguma coisa sobre pessoas de cor; assim como a maioria esmagadora das leis brasileiras, confeccionadas especificamente para criação e manutenção de privilégios de quem já os possuem, além do achincalhamento dos despossuídos; tudo muito natural, aceitável, normal.
Por isso nós, os Negros, somos os marginas, os parias, a ameaça que caminha pelas ruas escuras dessa sociedade que se protege e se exime através do sentimento do preconceito, já que, convenientemente, tal sentimento não passível de criminalização. Portanto, conclui-se que no Brasil as leis venham especificamente para mudar o suficiente para que tudo possa continuar está. Se a mudança de paradigmas se encontra na Educação..., Que se desconfigure a educação. Afinal, é a Educação que muda a pessoa; e são as pessoas que mudam o mundo. Enquanto não se transforma essa escola-tijolo em escola-gente, continuamos a sermos humanos carentes e indecentes, afogados em normas regras, leis, bulas e fórmulas; prova de nosso estrondoso fracasso como seres humanos: Lucy Dingines com seu diploma de Hominídeo, mãe e mulher, que inspiram as Rosas Parker e Luizas Mahim, mostra o caminho do Tronco genealógico do respeito à vida, as diferenças e a si próprio como sujeito construtor da própria realidade. O tronco da mesma árvore em que o escravo circulava nove vezes para esquecer de si, de sua história como homem, passando a condição de coisa, de objeto pertencente a um infame caucasiano.
A educação pública outorgou para si o mesmo papel dessa árvore de outrora; educação eugenista, baseado no preconceito legal, normatizado e naturalizado pelo senso comum.
Luiza Mahim não foi uma princesa burguesa assim como princesa Isabel nunca foi Princesa guerreira para que pudesse libertar alguém de alguma coisa. Esse exemplo ilustra a tendenciosidade sacana da história contada pelos vencedores, donos de terras griladas, de mansões, donos do Brasil, da estatística e da opinião pública. Cuidadosamente esses “senhores” cuidaram para que fossem excluídos dessa mesma história, a participação dos verdadeiros construtores da nação: os negros e os indígenas. Assim como cuidam, através da educação e da religião, para que os mesmos continuem alijados do processo pleno de cidadania.
A Cleópatra hollywoodiana tornou-se branca de olhos azuis, além de cabelos intitulados de “bom”; a Rainha de Sabá assumiu seu branqueamento bíblico-ocidental, assim como Jesus de Nazaré; representado como um típico hippie americano, mesmo tendo nascido numa geografia de Hamas e Talibãns.
Falar de anjos loiros e rainhas brancas seria redundante numa sociedade movida pelo preconceito; afinal isso é tão natural. Somente o negro é antinatural nesse contexto canibal. A antropofagia do respeito é estado de direito, e direito adquirido não se discute, se acata. Nossa justiça se divide em estado de direito para uns, e estado de exceção para outros. O degradé melanínico aliado à condição social, tornou-se atualmente o único documento aceito como passaporte para a alforria.
Assim, quando a monarquia chegar, será possível a cada indivíduo, finalmente oficializar sua condição de Príncipe ou de Mendigo; saberemos então quem são os verdadeiros filhos da Pátria.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Ecologia da moral

Nas bancas de jornal, das esquinas e Avenidas urbanas cosmopolitas, pode-se comprar livros e revistas encadernados e encapados com mentiras inocentes.
Mentiras rosa, mentiras verdes e azuis; floridas, perfumadas e coloridas, a preço módico, com juros extorsivos, achacantes e escorchantes. Lindas mentiras grafadas com letras douradas, apresentadas com face límpida, por mentes brilhantes, no jornal das sete, das oito, das onze e meia e afim.
A maquiagem sorridente do repórter, transbordante de simpatia formatada, se torna verdade absoluta e incorruptível, nós fazendo esquecer totalmente do ônus sem bônus, do “patere legem quam ipse tulisti si” (sofre a lei que tu mesmo elaboraste). A mentira sozinha não assusta, nem causa sequer arranhadura na ética, ela não é nada. Mas a mentira revestida de inocência é quase imbatível, é gigante, é tudo. Tudo que você espera, tudo que você deseja, tudo que você quer, sem meias verdades; uma mentira inteira, sem medo de mostrar a cara. Ela se encontra nas primeiras páginas, estampada na cara do padre, do empresário, do vendedor, do presidente ao camelô. A pudicidade da lei nos impede de despi-la e a hipocrisia da justiça põe sobre as mesmas tarjas pretas, afim de esconder suas partes íntimas, como meio de ocultar sua própria vergonha de ser cega. Mentira encapada com papel de presente, encadernada com cetim e ofertada como premiação máxima aos vencedores de uma corrida com obstáculos virtuais; vencedores diplomados pela mentira constitucionalizada, televisionada, irradiada e impressa na latrina da vida proletária. Deste modo, todos encontram o sentido da vida, nessa inocente emoção que faz valer a pena viver com intensidade sofrida, de realidade torturante, torturada e desvairada. Segundo nossa constituição, não se pode condenar um inocente; isso significa que toda mentira será perdoada. Assim temos o direito de comprar nossa verdade de bolso, nosso dogma portátil, amparados pela grande mentira, pela mentira universal. Nossa verdadeira mentira, nossa moral, nossa certeza se encontra fortemente fundamentada por essa pueril mentira de verdade séria e sincera, que jamais poderá ser questionada.
Nossa verdadeira moral escrita nos pergaminhos da inocência nunca poderá ser destruída, rasgada, nem reciclada – a não ser por nós mesmos – menos ainda olvidada, por quem quer que seja. O antídoto contra o acreditar na inocência dessas verdades mentidas ou em mentiras verdadeiras, enfim, contra “todas as verdades absolutas” está no quaeritur (pergunta-se); assim será possível a reciclagem das capas de cada livro, de cada revista, de cada jornal, nas letras de penhorados jornalistas ou nos sorrisos marotos de hienas de repórteres.
As perguntas encurralam as respostas, caçando com astúcia predadora a virgem mentira, deflorando-a como a uma futura ex-noiva, tornando a revelação dos questionamentos - a verdade - um ato de prazer ou de dor.

1808, o ano que não terminou!!

Diário de bordo da Nau Capitania: um rei indolente e uma rainha louca se põe numa desesperada fuga, arrastando um séqüito de Arlequins e Colombinas, rumo a uma insignificante Colônia sob a linha do equador. Eles foram postos diante de um grande dilema, titubeando num entrevero entre o poder de dois poderosos. Entre a decisão e acomodação, abandonaram a nação e dessa fuga infame e desonrosa, surgia uma encenação: a homenagem por bravura e honra ao mérito pela brochura, como tributo irracional de um povo colonial. Qualquer feito real vira cena emocional p’rum indivíduo funcional, que do fundo da platéia d’uma multidão plebéia, aplaude a vinda da família como uma missão divina.
Assim inaugurou-se a corrupção oficial, extra-oficial e similar à pirataria de além-mar, neste país abençoado por Deus, Alá e Oxalá e pela hipocrisia, pelo cinismo e analfabetismo. Nosso Reino Unido e fudido recebendo sua propina do Porto de Belém, escravizado ao cabresto feudal do capataz real.
Nosso Brasil varonil, nossa pátria que nos pariu, comemora essa falcatrua clara e nua, numa festa bem servil, reforçando a senzala de presente diplomata pro sinhozinho de Brasília e família S.A. 500 anos de Brazill, 200 anos de viramundo, de senzala favelada. A carne mais barata do mercado continua sendo a carne negra; carne moída, sofrida, esfolada e triturada, servida ferida na feira tropical, em meio a festa de Momo e Komo. Viva el Rei!!! Rei desterrado, aterrado, terrificado, amedrontado e acovardado; exemplo e origem do jeitinho brasileiro; patrono do cinismo, fisiologismo e corporativismo de nosso Brasil estrangeiro.
A orquestra do último baile continua viva e ativa, movimentando mais de mil palhaços no salão, provocando tantos risos e tantas alegrias, nessa maravilha de cenário de bundas e peitos mil; viva o Brazill! Viva D. João!! Viva a sacanagem!!!
Nossa família é Real, nosso dinheiro é real, nossa miséria é coisa séria, nossa ética é ilusória, mas nosso castigo é solução. Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós, para que possamos comprar com nosso cartão corporativo, um metro de liberté, um gole de fraternité e o troco de egalité; sambando na Avenida Central ao som daquele enredo nacional: “liberta quae sera tamem”.



Prometeu e capataz


Um ser capaz e eficaz era Capataz, empresário empreendedor, desbravador, explorador; perfeito pai patrão. Prometeu, um mulato exonero, proletário empobrecido e em eterna fase probatória. Marcando continuamente o chão da fábrica com pegadas apressadas num infinito circulo eterno.
Pregos, parafusos, martelos e alicates decoram seus suaves movimentos, acelerados pelo lapidar da ponta do chicote. Vergalhões transpassam fígados e rins alcoolizados, enquanto sua anatomia e empalada pela estupidez diligente do capataz. Cara a cara, Prometeu, de pele ressequida, mãos caloginosas, face enrugada, cabelos desgrenhados e corpo suado, com respiração profunda e ofegante, é obrigado a oferecer a outra face diuturnamente, prostrado perante a poltrona real do papa dos operários, enquanto aguarda seu salário pagando todos os dias por um futuro passado em seu eterno presente. Ele faz, desfaz e refaz, construindo, destruindo e reconstruindo, para poder recomeçar do começo o trabalho terminado. Enquanto Capataz se distrai testando obsessivamente, com desmedida avidez, seus instrumentos de tortura; ele se delicia medindo-os, calculando ângulos e estratégias de uso, vigiando ressentidamente a labuta Prometéica, tendo o vento norte que se projeta entre as pás do moinho, como testemunha de sua vingança. Prometeu se automatiza a cada apito da fábrica, do trem ou do guarda. Já muito cansado, ele esquece seu sonho de ser Narciso quando crescer, para um dia poder descansar nas profundezas do mar, nos braços de Iemanjá; mas ele nasceu do barro negro, das lamas do pântano escuro, e Narciso é anjo loiro. Enquanto sua responsabilidade sem fim é cumprida, Narciso descansa em seu repouso eterno, Visto que seu contrato de trabalho jaz escrito sob sua negra cútis, assinada com o sorriso de seu algoz. Prometeu agora prima pelas premissas; princípio que fundamenta o sabatismo de todos os Janeiros a Dezembros. Mesmo que sua matéria-prima constituinte almeje desesperadamente retornar ao pó original, seu suor sangrado misturado ao líquido lacrimejado, insiste em modelar seu corpo cansado e castrado pelo castigo; posto na prensa da imprensa com moldura em pass par tout. Exposto a gosto refinado d’uma arte pós-contemporânea dramatizada, politicalizada e jurisprudênciada pela força da lei humanizante da besta-fera, que domestica o sujeito adestrando o indivíduo.
Assim o círculo fechado do castigo, resgata o nada imposto ao tudo, alimentando Capataz de coação e de redenção servidas pelo humanismo antropofágico.
No raiar de um novo século, Prometeu virou Zumbi eterno e Capataz um próspero coveiro pós-moderno. Vida longa ao Rei do jazigo de Palmares, que não mata nem morre. Seu canto bantu se mistura ao apito da fábrica e ao toque do berimbau, anunciando um novo dia, após longa noite de trevas. A chuva insiste em resistir ao alvorecer, acinzentando o arco-íris algemado por correntes de promessas. Prometeu de Palmares vaga, conciso de si, vergando compromissos tirados de Narciso, entre labirintos de lápides terminais.

domingo, 24 de agosto de 2008

Manual do imbecil


A principal filosofia de um imbecil é dar demasiada importância às regras em vez da resolução de levar a bom termo uma difícil situação; pois para ele a primeira regra é que a lei deve sempre suplantar a justiça, nunca o contrário. Ele, o imbecil, nunca comete erros, mas sim algumas falhas banalíssimas e corriqueiras. Sempre carrega sua infalível verdade de bolso quando sai à rua, e permanece com ela na cabeceira da cama quando em seu lar. Ele se compraz com a burocracia e tem múltiplos orgasmos quando consegue implementa-la em sua rotina diária. Seu principal inimigo é o desconhecido, aquele que tem uma cútis antagônica, uma religião diferente, ou uma opinião discrepante; também qualquer tipo de inovação ou renovação. Para ele só existe duas maneiras de se executar um trabalho: o modo errado e o seu próprio modo.
Um imbecil de verdade desenvolve constantemente seu dom de ouvir sem escutar, olhar sem ver e tocar sem nada sentir. Seu passatempo predileto é o de redigir e citar clausulas, artigos, regimentos, contratos e afins. As estatísticas são suas armas preferidas, enquanto as ciências exatas o protege; fazendo com que possa citar impunemente as regras de três, geometrizando seu trabalho num quadrado perfeito. Ele se proclama cidadão de primeira, fazendo a festa no seu Excel, com traje a rigor. Nada escapa à sua mente fotográfica; cada detalhe, cada fase é cuidadosamente apreciada, e que se dane os pontos e as vírgulas; que as metáforas e entrelinhas se explodam. Com ele só anda a certeza de que está sempre certo; não existe duplo sentido ou dois caminhos, as linhas não fazem curvas, pois o papo é reto. Pensa que o mundo seria perfeito, se todos fossem seus clones e não imagina como o planeta conseguiu sobreviver sem a imbeciologia; para ele, esta seria a religião perfeita para a salvação do planeta. Como um herói único ele se dispõe a sacrificar-se e redigir a 22º manifesto imbecil definitivo para o bem de todos e felicidade geral da nação. Assim, todos os boçais com um só pensamento, contrato e regimento interno numa única cartilha, finalmente ditariam a ordem e o progresso da verdade definitiva.
A imbecilidade é a única instituição competente e que funciona no mundo inteiro como um perfeito relógio de quartzo, é osso duro de roer, pega um, pega geral; também vai pegar você.
Eles reinam absolutos no reino da burocracia, se deliciando numa eterna orgia, entre papeis, carimbos, ordem de serviços e boletins de ocorrências. Explodem num vergonhoso prazer, ao chegar num clímax decorrente do ato de expelir um cidadão para outra repartição, seção ou situação.
Nessa nação de imbecis, o que mais resta salvo o respeito perdido numa estrada sem volta. Restam apenas fragmentos de pensamentos saudosos de uma vida no aquém; pensamentos de desdém, pelo bem que se tem sem poder fazer a ninguém, pra ninguém; sem perder a carteira oficial de imbecil medieval.

Teoria da informação


Nos balcões da vida a educação é vendida de bar em bar, em farmácia, no açougue, ou no botequim da esquina, nas ruas, ônibus ou metrô; não importando onde, seu preço fixo sempre obedeceu a uma tabela flutuante, seja a mesma virtual ou de mentira. Portanto, poucos sabem quanto custa às próprias custas, pois fazer as contas, somente se gasta as contas do terço rezado entre os dedos tremulados.
Educação de classe, ou de barão, sempre vai a leilão; leilão do saber fazer por que, pra quê, o quê, com quê; ela é a carta magna da alforria, escrita com cifrões.
Quantos preciosos zeros são preciso, para desprender-se dessa prisão preventiva, assinada por um rei Momo, colombina, ou pelos caprichosos de plantão? O balconista emudece ante a questão que embranquece. Carta de alforria loira, perfumada e de olhos azuis, não tem preço; como aquele ingresso no bondinho do pão de açúcar, num dia de verão sem arrastão, nessa cidade corrompida pela perversão; isso tem preço. Nessa cidade de muitos risos e alegria, há muito mais que mil palhaços no salão; nessa cidade cheia de encantos mil, há muitos torturadores e tubarões de plantão, nesse país tropical abençoado por Deus, o senhorio é o Diabo; nosso mulato exonero já dançou inúmeras vezes nesta maravilha de cenário; foi dispensado pelo balconista, pois não possuía a cútis adequada a informação desejada. Mesmo assim nosso balcão de informação encontra-se aberto 24h, basta você acessar nosso leilão de tecnologia, mediante a uma módica quantia, poderá escolher com garantia, um pouco de sabedoria pro seu dia-a-dia; tudo de acordo com seu biótipo, sua classe e etnia. Garantido por lei; lei do mercado, lei da oferta e procura, lei do cão. Garanta já sua informação, ou dance no salão de eterna festa, na maravilha do cenário deste país tropical abençoado por Deus.
Mas aqui nessa cidade que continua linda, analisar as manchetes jornalísticas é no mínimo tragicômico, quando observamos as informações negras passadas pelos empresários que sabotam seus próprios produtos - fixando datas de validades em seus eletro-eletrônicos; a fim de fazer com que o cliente permaneça num eterno retorno, satisfazendo assim a gula do mercado financeiro, que sempre se esmera em criar novos caprichos, necessidades e desejos para a massa. Uma dessas manchetes criminosas, do dia 26 janeiro, dizia que o comandante-geral da policia militar do Rio de Janeiro, havia exonerado o coronel da corregedoria da PMERJ; simplesmente por ele ter afirmado em seu blog, que “um dos motivos da corrupção na polícia são os baixos salários da corporação”. Podemos notar que o coronel esqueceu de olhar a tabela, e observar o preço da verdade. Preço de deputados, senadores, juízes e de policiais é notório; a tabela é clara. Mesmo as verdades mentidas, mentiras verdadeiras, ou verdades virtuais, têm seus preços fixados, mesmo que flutuante, no mercado de ações do poder. Portanto, comprar informações e vender verdades, é crime inafiançável nesta democracia político-demagógica. O mercado não comporta a concorrência dos opostos; os analfabetos que não são capazes de decodificar tais tabelas, são gentilmente convencidos a lavar pratos nos porões das DPOs de nosso Brasil varonil. Esse coronel se contagiou com o vírus do pensar e acabou se empolgando em sua dissertação; cometendo assim um ato de traição aos princípios democráticos da ditadura branca. Sua educação foi comprada a preço pré-fixado pelo conluio, portanto, qualquer deserção dessa impávida cultura, é se condenar ao exílio. Educação e cultura são patrimônios que se deve resguardar a qualquer custo, pois disso depende esse processo mercadológico de ordem e progresso. Um processo simples e sem complicações, sustentado pela mídia e pelo sistema educacional; lugares em que nunca se permite a mentira, mas também jamais se fala a verdade. Pesar, medir, e analisar cada informação e mais que trabalho cidadão, é obrigação; obrigação de quem tem a zelar pela dignidade e respeito próprios. Se assim não for, continuaremos a comprar gato por lebre, e sempre voltar querendo mais; enganar e se enganado acaba virando doença crônica.

Democracia, racismo e educação


Quando um “intelectual” da educação se propõe a redigir um tratado sobre o assunto, ele se encontra no extremo oposto do “profissional da educação” que redige o mesmo tratado. Ao contrário do primeiro, este conta em seu histórico com a experiência, competência e a criatividade transformadora, para compreender cada estagio como situações que se assemelham ao amolengar do um fruto. Ou seja, ele não se embasa somente em pesquisas histórico-bibliográficas e em observações experimentais.
A pesquisa teórica necessita do aval prático, sem tal valia, ela se estagna, circulando em volta de si mesma, sendo só mais uma teoria desenvolvida por um “agente de gabinete”. Portanto, não cabe a teoria o pretenso monopólio da verdade.
Tornou-se uma lástima observar que tais verdades ocupam as principais páginas de nossos livros didáticos, enquanto nosso sistema educacional relega ao terceiro plano a pesquisa e extensão (uma comprova a outra).
A mídia tem sido a grande porta-voz e mantenedora dessa cultura, forjando a necessidade de heróis, desconstruindo o sujeito à medida que transforma cidadãos em indivíduos.
Gilberto Freire foi um grande exemplo do legado deixado portais intelectuais de gabinete - que se apropriam de premissas verdadeiras, para implantar falsas ideologias; ele usa o funesto episódio da tentativa de extermínio do povo negro, para justificar o engodo da democracia racial brasileira.
Se a própria democracia se mostra como o maior engano da história humana, dá pra imaginar o que seja esse arremedo ideológico em relação à questão racial. Pra começar, nossa democracia criou um imenso paradoxo, não permitindo nem admitindo ser alvo de quaisquer questionamentos. Democracia essa ditada por órgãos como a OMC, BIC, OMS, FMI, Monsanto e tantos outros detentores do poder: Ela, a democracia, transformou-se numa ditadura refinada, evoluída; evitando o desgaste da tortura em massa, massificando o indivíduo. Ela se pôs acima do bem e do mal; qualquer fato diferente dela é considerado anátema, é anarquismo, é comunismo, é sem valia. Enfim é qualquer coisa, menos ela mesma: “a democracia”.
O mesmo se dá em relação à questão racial tupiniquim, que também se refinou evoluindo para um perfeito preconceito democrático. Visto que se expandiu para além do excesso de melanina, abarcando também os deficientes, os idosos, os homossexuais, as mulheres, os maconheiros, enfim: toda e qualquer minorias. O detalhe perverso desse processo; é perceber que tudo isso é potencializado pela condição social do indivíduo. O binômio preto-pobre, preto-velho, bicha-preta, mulher-negra, nêga-maluca, etc. Tal binômio é protegido pela guardiã da cultura e dos bons costumes: a mídia. Ela, com extrema habilidade, vêm naturalizando esta condição social brasileira; a pobreza. A pobreza no Brasil tornou-se um fato cultural, como foi a escravidão e continua sendo a matança nos países Africanos, como é encontrar um corpo de um bebê feminino jogado e deixado para falecer na rua, ou no lixo em qualquer parte da China, ou como a institucionalização da tortura a imigrantes nos Estados Unidos.
É natural para nossos Alunos portar um MP3 ou celular, estando os mesmos permanentemente plugados à cultura de massa, sem mencionar a nossa TV aberta de cada dia; um de nossos maiores depósitos de lixo que se tem notícia. A sabatina apregoada pela mídia, de que o indivíduo precisa de um herói, afirmando e confirmando assim a fraqueza do sujeito - tal como a propaganda nazista que repetia a mentira até ela tornar-se verdade; tem sido experimentada com sucesso na terra de Santa Cruz pela mídia mundial.
Lamentavelmente, a maioria de nossos livros didáticos - assim como alguns influentes escritores brasileiros, vem corroborando com esse processo, salvaguardando “democraticamente” em suas páginas, essa mórbida ideologia. Esses formadores de opiniões, como comissários do sistema financeiro mundial, têm a missão distribuir os papeis sociais, classificando-os pelo sistema pós-moderno de casta: através da melanina, do gênero, da religião, das escolhas pessoais, etc.
A ciência, além de conceber a si mesma, inventou a pobreza. Tornando-a cientifica com as benções da ação midiática, financiada pelos donos das pesquisas: a elite, patenteadoras e detentoras das relações de poder.
Portanto, é ao “homem de bens” que nossa democracia deve servir. Por isso foi criada, por Gilberto Freire, a democracia racial; temperada com muita hipocrisia, misturada com demagogia, mantida com engodos, movida por tramóias e aquecida por adulações promovidas pelas relações de poder.
Por isso a escola afirmar ser melhor estudar do que ler; leitura é poder transformador. Melhor saber pronomes, pessoas, objeto diretos e indiretos, além das quatro operações, que na verdade são duas.