Rompendo o silêncio histórico do povo melaninoso, protagonizando o outro ponto de vista de uma outra história que se evita ser contada, afrocentrizando o olhar paradigmático sobre a cultura oficialmente formatada, patenteada e legítimada como única.
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Prometeu e capataz
Um ser capaz e eficaz era Capataz, empresário empreendedor, desbravador, explorador; perfeito pai patrão. Prometeu, um mulato exonero, proletário empobrecido e em eterna fase probatória. Marcando continuamente o chão da fábrica com pegadas apressadas num infinito circulo eterno.
Pregos, parafusos, martelos e alicates decoram seus suaves movimentos, acelerados pelo lapidar da ponta do chicote. Vergalhões transpassam fígados e rins alcoolizados, enquanto sua anatomia e empalada pela estupidez diligente do capataz. Cara a cara, Prometeu, de pele ressequida, mãos caloginosas, face enrugada, cabelos desgrenhados e corpo suado, com respiração profunda e ofegante, é obrigado a oferecer a outra face diuturnamente, prostrado perante a poltrona real do papa dos operários, enquanto aguarda seu salário pagando todos os dias por um futuro passado em seu eterno presente. Ele faz, desfaz e refaz, construindo, destruindo e reconstruindo, para poder recomeçar do começo o trabalho terminado. Enquanto Capataz se distrai testando obsessivamente, com desmedida avidez, seus instrumentos de tortura; ele se delicia medindo-os, calculando ângulos e estratégias de uso, vigiando ressentidamente a labuta Prometéica, tendo o vento norte que se projeta entre as pás do moinho, como testemunha de sua vingança. Prometeu se automatiza a cada apito da fábrica, do trem ou do guarda. Já muito cansado, ele esquece seu sonho de ser Narciso quando crescer, para um dia poder descansar nas profundezas do mar, nos braços de Iemanjá; mas ele nasceu do barro negro, das lamas do pântano escuro, e Narciso é anjo loiro. Enquanto sua responsabilidade sem fim é cumprida, Narciso descansa em seu repouso eterno, Visto que seu contrato de trabalho jaz escrito sob sua negra cútis, assinada com o sorriso de seu algoz. Prometeu agora prima pelas premissas; princípio que fundamenta o sabatismo de todos os Janeiros a Dezembros. Mesmo que sua matéria-prima constituinte almeje desesperadamente retornar ao pó original, seu suor sangrado misturado ao líquido lacrimejado, insiste em modelar seu corpo cansado e castrado pelo castigo; posto na prensa da imprensa com moldura em pass par tout. Exposto a gosto refinado d’uma arte pós-contemporânea dramatizada, politicalizada e jurisprudênciada pela força da lei humanizante da besta-fera, que domestica o sujeito adestrando o indivíduo.
Assim o círculo fechado do castigo, resgata o nada imposto ao tudo, alimentando Capataz de coação e de redenção servidas pelo humanismo antropofágico.
No raiar de um novo século, Prometeu virou Zumbi eterno e Capataz um próspero coveiro pós-moderno. Vida longa ao Rei do jazigo de Palmares, que não mata nem morre. Seu canto bantu se mistura ao apito da fábrica e ao toque do berimbau, anunciando um novo dia, após longa noite de trevas. A chuva insiste em resistir ao alvorecer, acinzentando o arco-íris algemado por correntes de promessas. Prometeu de Palmares vaga, conciso de si, vergando compromissos tirados de Narciso, entre labirintos de lápides terminais.
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