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sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

O Sonho de Branca de Neve no Onírico Jardim de Eva[1]

Durante o sono do esquecimento, as sombras subterrâneas surgidas da escuridão umbralina eclipsaram a luz da vida, fazendo hibernar a sua essência ao implantar as lembranças de sonhos nunca vividos no cerne dessa mente, que agora, mente permanentemente, sonhando patologias injetadas pela amnésia introjetada, atrofiando assim, as asas da liberdade, ao fazer uso dos saborosos cremes das crenças limitadas.

Foi então que o Anjo da sabedoria, perdendo seu poder sonhando ser bruxa, encontrou uma magnífica árvore[2], decorada com espelhos quadrados, retangulares e pirimídicos, as vésperas de um natal branco; cujos enfeites, refletia os fractais de suas faces, que eram sucessivamente repetidas nas outras árvores que se seguiam pelo jardim afora; e assim, sem poder voar; caminhava em círculo[3] no jardim da existência.

Se alimentava dos frutos daquelas árvores que sempre lhe devolvia o olhar, enquanto ele brincava de circular em volta delas, esquecendo-se da vida; e no outro dia fazia tudo de novo; e no outro, e no outro, e no outro; de novo, novamente e, outra vez, por horas, dias, semanas, meses, anos, séculos, Éons.

De tanto brincar de circular as árvores, foi rodando, rodopiando e se esbarrando inadvertidamente num espelho que, caindo, se quebrou, revelando então, a sua face que se multiplicou a cada pedacinho que no chão ficou. 

Contemplando as suas diversas faces caídas no chão, sorriu, gesticulou, fez caretas durante incontável tempo, quando enfim se entediou, olhou profundamente nas meninas dos seus próprios olhos e, inadvertidamente avistou a cintilante efígie do céu azul, refletido naquele plano cristal que jazia sobre a terra. Então, esse novo olhar o fez acordar para uma realidade existente fora do seu plano.

Voltando então a sua atenção para o centro das pirâmides, quadrados e retângulos que agora, ornamentavam de forma simultânea e superposta, àquela árvore; viu os frutos que o alimentavam refletidos, pendurados e repetidos em cada fragmento suspenso ao infinito, podendo perceber então, que, tudo que estava acima, também estava abaixo.

Foi observando esse cristal, cuja superfície separava ambos os planos, que percebeu o soprar dos ventos produzidos pelas asas do dragão, que enfim, trazia de volta, o fogo da sabedoria ancestral perdida nas sombras do seu imo. Desse modo, os olhos retumbados nos cristais espalhados pela terra refletindo no céu, puderam por um momento, contemplar a sua morada circunscrita ao infinito.

Dessa maneira, tornou-se inevitável o mergulho de cabeça[4] nesse cristalino que refletia a sua própria face, fazendo com que esse anjo acordasse do seu sonambulismo, saindo da crisálida para viver fora do sonho hibernado. Ele enfim, respirou o Ar puro trazido pelas asas do dragão, sendo aquecido pelo fogo da sabedoria flutuando sobre o cristalino que jazia sobre a terra.

Levantando-se enfim, de sua cama, durante essa colossal tempestade que assolava o seu jardim, ele andou sobre as águas do Grande Calunga, atravessou o oceano da sabedoria como uma pequenina gota gigante, unificando-se assim, àquele mar sem fim; enquanto os pássaros entoavam o seu doce trino, flutuando suavemente ao vento, celebrando e dançando ao suave sabor do ritmo marcado pelo som das quedas d’água dessa cachoeira que formava o magnífico arco-íris, refletindo a vastidão azul do seu colorido céu pós tempestade.

 

 



[1] Referência ao bíblico Jardim do Éden num trocadilho com “Jardins”; região luxuosa da elite paulistana.

[2] Referência a Árvore da vida.

[3] Referência à árvore do esquecimento na Ilha de Goré, aonde os escravizados eram obrigados a circular sete vezes a fim de esquecer quem eles eram.

[4] Referência a Narciso para tratar do metafórico mergulho em si mesmo. 

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