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quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

O Humano é Permanente, o Cidadão é Temporário.

Se o passado se resume as memórias e o futuro se resume aos sonhos, então só mesmo o Tempo presente se faz real, de verdade; em todo e qualquer tempo, ele é autêntico. Portanto, podemos considerar as memórias como se fosse equivalente a uma coleção de cinzas depositada numa urna mortuária, e o futuro, como se fossem as incontáveis probabilidades, possibilidades e quimeras, nutrido pelas páginas dos folhetins e das novelas produzidas pelo infame mercado contemporâneo de Tecnologias de Informação e Comunicação.

Dessa maneira, o indivíduo, como ser multidimensional, tem a incrível capacidade de se locomover no tempo, com o intuito, normalmente inconsciente, de se esconder do próprio silêncio, ao refugiar-se no passado e no futuro, procrastinando ou recusando-se a receber o presente que a vida lhe oferta, trazendo a existência à sua porta em todo alvorecer.

Essa fuga de si mesmo, é acurada pelo próprio intelecto, que progressivamente é treinado pelo condicionamento social e biológico naturalizado, que diuturnamente é imposto pelas instituições do Estado Profundo, o Deep State. Portanto, nesse pérfido processo, a inocência da criança dá lugar ao instituto da competição, trazendo o medo da perda, a necessidade de acumulação de bens e a tudo aquilo que se mostrar impermanente nessa aventura do bem viver.

Desse modo, há aqueles que passam a vida sem verdadeiramente viver, uma vez que sobrevivem nas dimensões aonde impera o limbo e o looping, permanecendo restringidas ao passado e ao futuro. Portanto é natural que o terrorismo institucional introjetado no subjetivo desse indivíduo, torne-o “naturalmente” subalternizado, fazendo com que o mesmo se habitue a condição de vitimista e a tudo aquilo que o faz mal, fortalecendo assim, o seu baixo autoestima, destroçando seu amor-próprio.

A invenção do tempo ainda continua sendo a forma mais eficaz para domesticar o animal humano, pois é a maneira efetiva dele ceder o seu centro de poder e a sua força ativa para esse novo senhor contemporâneo que, espertamente, é impessoal, e se oculta atrás de calendários, relógios e relatórios.

Sendo assim, a escravidão mental efetivou a obediência servil do cidadão de bem, amenizando quaisquer resistências, que viesse de fato, ameaçar o establishiment ou o status quo, instituído pela normalidade holográfica dos Tempos Modernos. Nesse caso, podemos considerar o lugar do intelectual, como um diligente instituto substituto da chibata.

Consequentemente, é preciso que o indivíduo domesticado se alimente com pomposos diplomas, certificados descapacitantes e a soberbia da honoris causa, para que o seu ego permaneça intumescido ao fugir do seu agora, caminhando indefinidamente em direção ao mundo dos seus sonhos, tendo a Terra do Nunca como bússola. Se assim não for, caso ele decida seguir o caminho de Don Quixote, adentrando no metafórico Mundo de Alice, ele tornar-se-ia um revolucionário, negando toda a sua arquitetura e arquitetônica de bom cidadão. Ou seja, ele invariavelmente resgataria a sua criança interior, voltando a ser criativo, perscrutador e desbravador de si mesmo, desprovido das críticas e pré-julgamentos intrínsecos ao bom cidadão.

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