Nessa aventura,
a criança é introduzida a um crudelíssimo processo de amadurecimento aonde ela perde
toda a sua essência de ser o que é, na medida em que se embrenha nessa perigosíssima
selva, erigida com as mais pérfidas das armadilhas inumanas.
Na mesma medida
em que o infante vai adquirindo “conhecimento, se intelectualizando através
de uma cultura estabelecida pelos predadores coloniais, ela deixa de protagonizar a
própria história, ingressando num treinamento progressivo, aonde passa a ser
condicionado social e biologicamente pelo resto de sua existência.
No momento
em que, na sua fase infantil, ela cessa o diálogo com o seu amigo
secreto verdadeiro, é o momento
em que este mesmo amigo é substituído pela simbólica figura do papai
Noel, ela então, se torna apta para aceitar a irreal figura de um Deus
humanizado e patenteado pela cultura dominante, que agora passa a ser o seu papai
do céu; e assim, toda a farsa da história impingida pela cultura
dominante se transforma na sua verdade.
Dessa
maneira, os relacionamentos que sustentam a vida adulta, se transformam numa turnê
sobre o ringue da existência, que é justamente, a passarela do bom cidadão. Desse modo, na iniciação
para a vida adulta ela incorpora o discurso do “vencer na vida” como objetivo, internalizando a filosofia do “nós contra eles”, adquirindo títulos,
honrarias, diplomas e certificados, a fim de ser aprovada pelo mundo como bom partido.
É dessa forma,
que a vida adulta passa a ser um filme de suspense, numa louca aventura através
das incertezas, das dúvidas e dos medos que essa reserva selvática proporciona
a cada suspiro de montanha russa.
Portanto, a
sua vida não mais lhe pertence, já que esse indivíduo, agora cidadão, tem uma
história, uma cultura e todos os livros lidos como estruturadores da sua
arquitetônica enquanto ser. Sendo assim, ele desconhece qualquer outra realidade
ou ponto de vista diferente daquela foi fornecida pelos seus adestradores; agora
ela convenceu-se de que é uma pessoa adulta, inteligente e culta, pois consegue
repetir todo o conhecimento e comportamento dos seus captores, com direito a diplomas
e certificados como prova de subjetivo subjugado.
Depois de
toda uma vida vivida sobre o metafórico látego de cada dia, satisfazendo peremptoriamente
a todas as leis leoninas e contratos feneratícios, essa pessoa consegue chegar
até aonde a cultura categoriza como fase da terceira
idade; é nesse ponto que ela decide se vai permanecer domesticada pelos seus
paradoxos de estimação; constituídos pelos dogmas e paradigmas condicionantes
das suas ideologias desviantes, crenças limitantes e empatias descapacitantes; ou se vai
resgatar o seu amigo secreto dos
tempos de infância, que mesmo tendo sido abandonado por ela, continuou integramente
ao seu lado durante toda a aspereza de sua saga.
Agora, como
anciã, ela observa o caminho percorrido e, numa repentina epifania, percebe uma
necessidade sine qua non de resgatar
a sua criança interior, e com ela, o amigo secreto de outrora, que mesmo invisibilizado, cresceu junto com ela.
Com a
criança interior resgatada, ela enfim, reconhece o seu amigo secreto de outrora; agora ela o chama de Anjo de Guarda.
A conversa
de outrora se transforma agora num diálogo interno, a fim de evitar que as
pessoas ao seu redor não mais voltem a rotulá-lo como pessoa esquisita, ou algo similar, como nos tempos de criança.
Agora, como
anciã, aprendeu a se calar e a ouvir, para poder finalmente escutar a epístola
de sua história real, dos tempos em que ela era um ser incondicional, e não o
arremedo de pessoa, inflada pelo ego cultuado por certificados e diplomas
adquiridos sobre o palco da vida aonde a atração principal é o espetáculo no
ringue das relações, enquanto o senso coletivo é posto substituto coadjuvante na fila dos candidatos a figurantes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário