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sábado, 11 de dezembro de 2021

A Jornada do Herói e a Síndrome de Estocolmo

A jornada de uma criança que se torna adulta, amadurece e se transforma em ancião, é uma inexplicável saga de paradoxos interligados, num processo aonde os paradigmas e dogmas se transformam nos principais personagens de sua história.

Nessa aventura, a criança é introduzida a um crudelíssimo processo de amadurecimento aonde ela perde toda a sua essência de ser o que é, na medida em que se embrenha nessa perigosíssima selva, erigida com as mais pérfidas das armadilhas inumanas.

Na mesma medida em que o infante vai adquirindo “conhecimento, se intelectualizando através de uma cultura estabelecida pelos predadores coloniais, ela deixa de protagonizar a própria história, ingressando num treinamento progressivo, aonde passa a ser condicionado social e biologicamente pelo resto de sua existência.

No momento em que, na sua fase infantil, ela cessa o diálogo com o seu amigo secreto verdadeiro, é o momento em que este mesmo amigo é substituído pela simbólica figura do papai Noel, ela então, se torna apta para aceitar a irreal figura de um Deus humanizado e patenteado pela cultura dominante, que agora passa a ser o seu papai do céu; e assim, toda a farsa da história impingida pela cultura dominante se transforma na sua verdade.

Dessa maneira, os relacionamentos que sustentam a vida adulta, se transformam numa turnê sobre o ringue da existência, que é justamente, a passarela do bom cidadão. Desse modo, na iniciação para a vida adulta ela incorpora o discurso do “vencer na vida” como objetivo, internalizando a filosofia do “nós contra eles”, adquirindo títulos, honrarias, diplomas e certificados, a fim de ser aprovada pelo mundo como bom partido.

É dessa forma, que a vida adulta passa a ser um filme de suspense, numa louca aventura através das incertezas, das dúvidas e dos medos que essa reserva selvática proporciona a cada suspiro de montanha russa.

Portanto, a sua vida não mais lhe pertence, já que esse indivíduo, agora cidadão, tem uma história, uma cultura e todos os livros lidos como estruturadores da sua arquitetônica enquanto ser. Sendo assim, ele desconhece qualquer outra realidade ou ponto de vista diferente daquela foi fornecida pelos seus adestradores; agora ela convenceu-se de que é uma pessoa adulta, inteligente e culta, pois consegue repetir todo o conhecimento e comportamento dos seus captores, com direito a diplomas e certificados como prova de subjetivo subjugado.

Depois de toda uma vida vivida sobre o metafórico látego de cada dia, satisfazendo peremptoriamente a todas as leis leoninas e contratos feneratícios, essa pessoa consegue chegar até aonde a cultura categoriza como fase da terceira idade; é nesse ponto que ela decide se vai permanecer domesticada pelos seus paradoxos de estimação; constituídos pelos dogmas e paradigmas condicionantes das suas ideologias desviantes, crenças limitantes e empatias descapacitantes; ou se vai resgatar o seu amigo secreto dos tempos de infância, que mesmo tendo sido abandonado por ela, continuou integramente ao seu lado durante toda a aspereza de sua saga.

Agora, como anciã, ela observa o caminho percorrido e, numa repentina epifania, percebe uma necessidade sine qua non de resgatar a sua criança interior, e com ela, o amigo secreto de outrora, que mesmo invisibilizado, cresceu junto com ela.

Com a criança interior resgatada, ela enfim, reconhece o seu amigo secreto de outrora; agora ela o chama de Anjo de Guarda.

A conversa de outrora se transforma agora num diálogo interno, a fim de evitar que as pessoas ao seu redor não mais voltem a rotulá-lo como pessoa esquisita, ou algo similar, como nos tempos de criança.

Agora, como anciã, aprendeu a se calar e a ouvir, para poder finalmente escutar a epístola de sua história real, dos tempos em que ela era um ser incondicional, e não o arremedo de pessoa, inflada pelo ego cultuado por certificados e diplomas adquiridos sobre o palco da vida aonde a atração principal é o espetáculo no ringue das relações, enquanto o senso coletivo é posto substituto coadjuvante na fila dos candidatos a figurantes.

 

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