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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

De Pai Africano a Marginal Suburbano.

O ÚNICO DIREITO DO HOMEM como pai e gerador, é a obrigação de pagar a P.A[1]. Isso pelo simples motivo desse pai tratar-se de um homem preto, que foi devidamente subalternizado econômica e socialmente, condição esta trazida pela criminalização da pobreza e pela política oficializada a partir do violento apartheid tupiniquim. Ou seja, ele é culturalmente desprovido social e racialmente; fato este que ocorre com uma insignificante parcela de diferentes etnias.

Esse fato que foi culturalmente banalizado depois de mitificado, como aquele mesmo fato da mulher ser mãe que vem eclipsar a realidade dela ter as mesmas atitudes que esse pai supostamente teria, visto que tratamos aqui de seres humanos. Mas bem sabemos que a realidade de que o discurso do somos todos humanos só se encaixa bem, e é culturalmente melhor aceito, quando se trata da questão racial. Ou seja, quando um negro reivindica a sua negritude frente a um brancalóide qualquer; sendo ele um negro consciente de si e de sua negritude, torna-se dessa  maneira, um chato, visto que a sua percepção do apartheid moderno deixa de ser ocultado pelos discursos manipuladores do cotidiano brancopofágico que continuamente lhe açoita a alma.

Esse direito a não ter direito estipulado pelo homem-evangélico-branco-cis, mais do que legitimar a instituição das hierarquias raciais e de gênero, além de instituir, também estimula a disputa entre os gêneros, ao passo que vai alimentando as outras instituições sagradas dessa competição entre esses mesmos gêneros, em que se tornaram os famigerados institutos sócio-político-cultural do patriarcalismo e do feminismo.

Um dos mecanismos usados para controle e subalternização do homem negro por essa pseudo justiça, chama-se guarda compartilhada, que aparentemente funciona de forma perfeita quando se trata de atender a casais eurocentrados. Visto que neste caso, a demanda é imediatamente solucionada e atendida em todos os seus conformes.

É notório o fato de que vivemos numa conjuntura de criminalização do pobre e da pobreza a partir da formatação de uma sociedade dirigida por People White inescrupulosas que vivem dos lucros de juros e moras produzidos a partir de factoides econômicos criados por banqueiros, imposto por economistas e legitimado pela mídia.

Quem está fora dessa ciranda financeira torna-se refém econômico, jurídico e social. Ou seja, a população que compõe a massa preta brasileira, tornou-se uma massa de manobra servil e dócil nessa caótica conjuntura pós-abolição que transformou liberdade em produto. Sendo assim, a liberdade como princípio humano básico, como um dos produtos do Capitalismo Racial, fez da própria  justiça um produto mercadológico, da mesma forma que a Liberdade, a Fraternidade e a Igualdade eram vendidas ao mundo pela propaganda do imperialismo francês, enquanto os mesmos, em paralelo, legitimavam o infame comércio, o tráfico negreiro, como principal fonte de lucros que os tiraram, como população White, de sua idade Black.

Sendo assim, os juristas White que formataram e praticam a justiça com base em seus hediondos caprichos e em causa própria, indolentemente adornadas com ironias e arrogâncias, assim como seus antepassados nomeavam os navios negreiros; e hoje eles nomeiam as operações-espetáculos da Polícia Federal com a mesma jocosidade e zombaria habitual, enquanto fazem uso dessa massa negra como peças de um jogo divertido onde a arrogância provinda de hierarquias obtusas e abusos despropositados, para confirmar e legitimar a todo o momento, provando e comprovando o poder de controle sobre essa disforme massa desinformada, mal informada e pseudo informada.

Desse modo, o direito a não ter direito é o que resta para um pai preto, produto cultural, reproduzido nesse jogo de Reis, Rainhas e peões que lutam entre si e consigo mesmo, a partir de regras leoninas e feneratícias estipuladas pelos White People que assistem impassíveis ao ranger de dentes e ao verter das lágrimas de sangue que jorram na arena desse circo chamado White Societ.

Esse cenário dantesco é uma paródia burlesca da idade média, numa conjuntura onde o Estado, em uníssono com a religião, representava a nobreza usando os militares para massacrar a população e brincar de deus em nome do próprio deus. 

Quem sempre esteve e continua no extremo da lança desse robótico soldado, esse capitão-do-mato que tortura, humilha e mata, é o homem negro e tudo mais que representar ou lembrar seu domínio como ser fundador da geração humana sobre o planeta terra.

Dos tiros na cara preta das estátuas egípcias dado por Napoleão, as centenas de milhares de corpos pretos sem vida estendidos pelo chão, as P.A. se tornaram um refinado instrumento de tortura que corrói lentamente de dentro para fora o coração, fazendo da vida um exercitar repetido da ação de se jogar uma pá de cal diuturnamente nos sentimentos assassinados a cada dia que o sol se põe, para renascer sua morte em vida na manhã seguinte, e assim, sucessivamente, desde Sísifu[2] a Osíris[3]. Esta é a sina do preto pai que planteia a si próprio em sua casa-túmulo dessa cidade-cemitério sobre o escárnio de um juiz White e a sanha do ódio seletivo culturalmente estabelecido pela mídia ao determinar o  preto como um marginal perfeito.





[1] Preceitua de forma mais explícita, o artigo 1695 do Código Civil: "São devidos os alimentos quando quem os pretende não tem bens suficientes, nem pode prover, pelo seu trabalho, à própria mantença, e aquele, de quem se reclamam, pode fornecê-los, sem desfalque do necessário ao seu sustento".

[2] Era um mestre da malícia e dos truques, segundo a mitologia grega, era o mais esperto e bem sucedido ladrão da Grécia foi também considerado um dos maiores ofensores dos Deuses, quando despertou a fúria de Zeus que enviou Tânatos para leva-lo para o reino subterrâneo, mas Sísifo o enganou, aprisionando a morte, driblando o futuro e impedindo que morresse quem quer que fosse, arrumando assim, uma grande confusão com Hades, o deus da morte; e com Ares, o deus da guerra. Depois de enganar a morte pela segunda vez e morrer de velhice, chegando a eternidade conduzido por Hermes, foi condenado a levar uma pedra de mármore até o cume de uma montanha quando quase chegando ao topo, a pedra rolava até o ponto de partida montanha abaixo.

[3] Filho de Geb, Deusa da terra, e Nut, Deus do céu; Osíris é o Deus da mitologia egípcia, esposo de Ísis, Deusa-mãe do amor e da magia, que gerou a Hórus Deus do céu, formando assim, uma Tríade. Representado pelo Sol, Osíris era o responsável pelo julgamento dos mortos; no Tribunal de Osíris, era pesado o coração dos morto para ver se merecia uma vida além. Após ser morto por seu irmão Seth, passou a ser representado pela lua em seu eterno percurso de morte e ressurreição.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Você sabe o que é REPARAÇÃO...?

REPARAÇÃO foi um conceito criado ao final da guerra dos 30 anos, numa Conferência realizada para procurar promover o ressarcimento do vencedor desse histórico conflito bélico,. Ela foi então concedida para cobrir os danos causados por tal guerra. Desse modo, a REPARAÇÃO foi a maneira pela qual a parte prejudicada por uma contenda bélica exigia como pagamento para recuperar os prejuízos aferidos. Era conhecida como Reparação de guerra.

Poderíamos ilustrar essa situação com mais precisão tendo como exemplo a 1ª grande guerra, quando findo o conflito, os países que deflagraram esses lastimável episódio, foram obrigados a indenizar os países vencedores e os “povos” prejudicados por tais ferozes combates. Mas como haveria de ser, os países responsáveis por tal guerra quebraram após esse pagamento, e desse modo, foi acordado que a Reparação dali por diante não seria mais exclusivamente monetária.

Dessa maneira, na 2ª grande guerra, a Alemanha, Japão, Itália em outros países do Eixo, arcaram com essas REPARAÇÕES, principalmente no que diz respeito ao povo judeu, que decidiram que queriam ter um Estado só deles como forma de Reparação. E assim foi feito, os Norte-americanos resolveram que as terras dos Palestinos confiscadas (roubadas) e doadas como propriedade ao Povo judeu. Por isso, os judeus e EUA são aliados convenientes e estrategicamente eternos. 

Aqui no Brasil, as vitimas da tortura impingida pelos militares durante o golpe de 1964, foram ressarcidos, mas não foram Reparados. Ou seja, existem diferenças categóricas entre Reparação e Indenização. Na Reparação, aquele a ser Reparado decide a forma, de que maneira e como deve ser Reparado pelo Estado Criminoso; diferente daquele que é indenizado, visto que quem decide como e de que forma se dará essa indenização é o Estado criminoso.

Podemos citar também, dando exemplo da forma perversa de agir dos Estados criminosos, o caso dos senhores escravocratas europeus que invadiram o Brasil, que exigiram (e ganharam) indenizações do Estado brasileiro, pelo simples fato de não poderem mais cometer o crime de escravização dos negros sequestrados no continente africano por conta da (falsa) Abolição da Escravatura; O Estado indenizou os escravocratas, fato este que foi registrado numa cláusula que acompanhava a lei-do-ventre-livre, recebendo até a década de 30 quando o governo Getúlio Vargas suspendeu esse pagamento indenizatório as famílias tradicionais que receberiam até hoje, caso não houvesse tal interrupção.

Este ocorrido, surpreendente por sua inversão de valores, como se deu neste caso; visto que a REPARAÇÃO se deu de forma contrária e contraditória, exatamente como o exemplo do Haiti; pois nesse caso, foi o vencedor que reparou o perdedor e não o contrário, o perdedor reparando o vencedor como reza no princípio da Reparação. Desse modo, os algozes é que foram indenizados pelos crimes que cometeram. Ou seja, mesmo perdendo eles ganharam. Aqui no Brasil, por exemplo, foi suis generis: as vítimas desses mesmos crimes transferiram esse legado aos seus descendentes, em forma de pobreza e estigmas racistas, como uma fúnebre herança dos crimes dessa escravização. 

Desde então, o Estado tem garantido a permanência desse dolo através de criação de leis como a de 1850; conhecida Lei da terra que impedia aos africanos e seus descendentes, de terem qualquer possibilidade ou condição legal de acesso a terra. Sem mencionar lei da vadiagem, que permitia, em última instância, que a elite branca aprisionasse e reescravizasse o negro que não tivesse ocupação estipulada como legal pelo Estado, como fazia a marinha do brazill sequestrando os negros sem trabalho ou sem teto para servir literalmente em seus quadros, dai o episódio do Almirante negro[1]. A recente lei do boi, que garantia a Educação gratuita aos filhos do Agronegócio como as cotas brancalóides para os filhos do judiciário que ocorre atualmente, assim como os imigrantes europeus vieram voluntariamente estimulados pelas cotas para brancos oferecidas pelo Estado brasileiro.

Deste modo então, o estigma ao negro se estendeu também a toda a cultura negra, como o samba, a capoeira, a religião e quaisquer manifestações do povo negro, que foram proibidas e desqualificadas, na medida em que o próprio negro foi sendo desumanizado e coisificado através da política da limpeza étnica conhecida como eugenia; política cujo princípio já constou na própria constituição brasileira como hoje consta o ensino religioso como única disciplina obrigatória em nossa atual constituição aprovada em 1988, confeccionada pela elite brasileira representada pelo estado Nacional.

Dessa maneira, nós negros nunca conseguimos nos integrar a sociedade brasileira como cidadãos de fato e de direitos, mesmo sendo o único povo existente no país atualmente, após a ocorrência infame do genocídio dos povos indígenas e a presença maciça dos imigrantes europeus, na tentativa inócua de formar um povo brasileiro branco; formando assim, uma população de imigrantes europeus que hoje comanda a economia de nosso país; enquanto nos fomos alijados de nossa humanidade, invisibilizados e socialmente silenciados.

Os países do mundo em sua maioria, com exceção de EUA e Israel, reconheceram, através da Conferência de Durbam, em 2001, na África do Sul, organizada pela ONU; Organização das Nações Unidas; como responsável pelos crimes de escravidão dos Povos Africanos em seu solo; fato este que o Brazil esconde de seu povo e se silencia diante das resoluções emanadas desse tratado internacional confirmado em Durbam, e mesmo estando de acordo com tais resoluções aprovadas que tipificaram como crimes da história a Escravidão dos Povos Africanos, o Tráfico Negreiro Transatlântico e a Colonização em África e América Latina. Sendo tais crimes imprescritível e inafiançável.

Dessa forma, a REPARAÇÃO é o único caminho para se negociar com esse Estado uni-étnico, de forma que seja possível promover-se minimamente a justiça, para que tal dolo possa vir a Reparar o que ainda é Reparável; pois além de tratar de um crime imprescritível, trata-se também de um Crime Continuado, já que até hoje sofremos todas as consequências provocadas por esse crime; pois é notório que a herança da escravidão para Negros e para brancos está explícita de maneira explícita e clara quando se olha para o morro e para o asfalto, em face a violenta dicotomia social e jurídica estabelecida e banalizada que reserva tratamentos diferenciados dirigido a ambos. Estamos aqui exigindo, além da justiça, através desse processo de Reparação, a nossa história, nossa memória e nossa própria humanidade de volta. REPARAÇÃO JÁ...!!!


[1] Como ficou conhecido o marinheiro João Cândido ao comandar a Revolta da Chibata no Rio de Janeiro.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Brazill: República Federativa do Holocausto Negro

A amputação de nossa história se deu com o sequestro de nossos tataravôs, no continente hoje chamado de África. Essa violência, como um nefasto crime que abalou para sempre toda a humanidade enquanto humanidade, é conhecida de forma eufêmica nos livros didáticos, como TRÁFICO NEGREIRO; também chamado de MERCADO INFAME.

Após esse violento sequestro, fomos torturados, humilhados e jogados num porão fedido de um Navio fantasma, rumo norte, em direção ao inferno branco povoado por santos eurocêntricos que prometia o sofrimento eterno para aquele que fosse portador de uma pele da cor das noites sem lua...

Fomos então depositados atrás de grades ferro, acorrentados e ensanguentados, depois postos em jaulas, inaugurando assim os primeiros zoológicos humanos do planeta, de toda a galáxia e do universo conhecido em todo seu esplendor. Assim enviezadamente imponderados, nos tornaram seres exóticos para sermos exibidos, vendidos, trocados, negociados ou dado de presente e destinado a esse futuro do presente ausente...

Hoje estamos aqui como construtores de uma nação rica e forte, que foi transformada em cárcere, em calabouço; nação transformada na câmara de tortura no holocausto continuado de um povo, nesse genocídio que se iniciou a mais de 500 anos, e que nas escolas é ensinado para nossos filhos como se fosse o capítulo de uma página virada dessa história que se passa em nosso presente; por isso, essa história adulterada e infame supostamente se refere a um povo esquecido, um povo vindo de florestas, um povo que habitava em tribos, sem civilização, um povo historicamente inferior...

Hoje vivemos aqui, exilados no país que nós construímos com nossas próprias mãos; vivemos nos Territórios de Exceção, em campos de concentração, vigiados pelo Estado e seus agentes; esse mesmo Estado que também diz nos representar dizendo que somos livres para continuar cativos ou para continuar sermos escravizados pelos descendentes de nossos sequestradores; Esse Estado nos diz que somos livres para continuar a produzir as riquezas dessas infames famílias chamadas de tradicionais, que sempre usurparam toda a riqueza por nós produzida...
A primeira noite eles vieram e roubaram uma flor de nosso jardim e nós não dissemos nada; a segunda noite eles voltaram, pisaram nas nossas floras e mataram nosso cão e nós novamente não dissemos nada; até que um dia, o mais frágil deles invadiu a nossa casa e roubou a nossa luz, e percebendo o nosso medo, roubou a voz de nossas gargantas. Hoje, mesmo que quiséssemos, já não podemos dizer mais nada...

Por isso eu conto e canto essa história silenciada nos sinistros porões dessa humanidade desumana que desfila na passarela de nossa preta cultura, soltando esse grito que arde no peito; que é o grito de uma raça nobre, é grito de uma raça guerreira, é grito da raça negra, é grito de capoeira...REPARAÇÃO JÁ...!!

Esse grito é para que possamos ver e rever o lamentável episódio do apartheid, não como um fato passado, mas poder observá-lo de modo que possamos recontextualizar-lo, enxergando não somente como um fato dessa página virada de uma história mal contada, mas sim, como um grotesco erro que jamais deva vir a ser repetido na história da humanidade, nesse momento tão caro onde a Colonização Mental tem afetado perversamente a humanidade no mais recôndito do seu ser, sem que enxerguemos os seus nefastos efeitos, que chegam envoltos em vistosos papeis de presente capciosamente concedido pelos habitantes de Troia com seu capitalismo brancopofágico que leva a sua liberdade cativa, surda e cega aos povos do mundo, impondo um saber roubado, adulterado e cheio de adornos em forma de gongóricos códigos. 


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Pele Negra, Máscara Branca

Nos passos dados em direção ao processo de chute ao balde cheio de verdades greco-romana manipuladas, as grafias incisivas de Nietzsche despindo o despudor do cristianismo e o poder das palavras de Fanon retirando as máscaras brancas da cara preta disfarçadas do império feito de cartas jogadas com os blefes dos cerimoniais míticos de Tróia, foram determinantes para vislumbrar o corpo nu do maniqueismo religioso protegido pela máscara dual e dicotômica que separou o ser de sua humanidade.

Fanon precisou sair da Martinica para descobrir sua negritude, uma vez que chegando à França, se descobriu como um negro qualquer vindo da colônia francesa, pois foi exatamente desse modo que os franceses o trataram. Assim ele descobriu qual o requisito único para que uma pessoa pudesse ser considerada ser humano. Dessa forma, ele constata que todo negro, no afã de ser aceito se aliena de si mesmo ao definir essa patologia como Alienação Colonial, ao perceber a impossibilidade do indivíduo em participar e se constituir como sujeito de fato de sua própria história. dentro de suas relações sociais; mesmo tendo consciência dessa alienação e saiba o porquê dela. Sendo assim, não seria o bastante mudar a visão sobre o mundo para deixar de ser alienado, mas sim, seria necessário mudar o mundo.

Desse modo, inferimos que a luta não se resume ao campo das ideias; a luta deve ser prática; pois ele pensa a alienação de maneira objetiva e subjetiva, visto que o ocidente, afirmando o ser humano como razão, transferindo a natureza para o campo da emoção, e como tal, tratando-a como algo a ser dominado e controlado. Os pensadores iluministas, donos da razão, falavam narcisamente deles mesmos, se definindo como humanos a partir de sua religião, de seu Estado, tecnologia, etc. Esse padrão imposto pela violência colonial se faz presente em nosso sistema educacional hoje, que reproduz esse processo adestrando o ser humano dentro da razão eurocêntrica.

Dessa forma, para ser humano é preciso ser branco. Sendo assim, o negro passou a ter a necessidade de se embranquecer de todas as formas possíveis; no comportamento, roupas, relações afetivas, organização, linguagem, etc. para poder alcançar a sua humanidade. Assim, a busca pelo outro é mediada pelo racismo. Mas ao perceber que mesmo assim ele continua a ser negro, a partir do momento em que não é aceito pelo mundo branco, mesmo amando muito esse mundo, ele se volta com raiva contra ele, e o amor se transforma em ódio.

O lado positivo é que esse ódio pode desestabilizar a hegemonia branca; o lado negativo é que nenhuma luta política se faz através do ódio, visto que tal sentimento impede perceber, nesse processo dialético, que o outro também tem coisas que nos pertence. Somos todos sujeitos, e a divisão criada razão/emoção pelo branco é inadmissível: a inversão dos papéis não é a solução. Portanto não se trata da preservação de uma ou de outra cultura, mas sim da percepção de uma cultura humanista. Ou seja, trata-se da libertação do ser humano a partir da recontextualização dessa mesma cultura.

Desse balde chutado, esparrama-se pelo caminho o malcheiroso esterco brancalóide; mas pode ser que exista dai a possibilidade de que, em meio a esse fétido esterco, possa vir a brotar uma perfumada flor de lótus, após esse necessário processo de chutar o balde e mandar a merda o que Narciso chama de mono-espelho e a pele preta possa se mostrar limpa da mancha branca que oprime sua humanidade ao retirar essa máscara de merda.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Movimento de Reparação aos Descendentes de Povos Africanos Escravizados no Brasil

O Projeto de Lei sobre a Revitalização da Pequena África Para a Preservação da Memória da Presença do Africano escravizado na Cidade do Rio de Janeiro, organizado pelo Movimento Pela Reparação aos Povos Negro e Indígenas, realizado no dia 25 de Novembro no Prédio da Ação e Cidadania, construído pelo Engenheiro Negro André Rebouças, das 10:00 as 16:00; a R. Barão de Tefé, nº 75 – Pça Mauá, foi iniciado com uma breve introdução sobre o tema proferida pelo Prof. Yêdo Ferreira, após o intermediador André Constantine, tendo como relator o Prof. Rael Preto da Silva, ter aberto o evento apresentado as Instituições presentes e abrindo com a fala da vice-cônsul de Angola que se somou as falas subsequentes.

Prof. Yêdo Ferreira abordou sobre o Território da Pequena África, falou sobre os escravizados sequestrados em Angola, como um evento que deu origem a referência daquela área como Ngola Janga (Pequena África), aonde a elite, com repulsa aos mesmos, não coabitava a mesma área; não deixando de citar também os ex-escravizados mulçumanos e a Revolta dos Malês na cidade do Rio de Janeiro, fato que não é comentado nos livros de história, que sucedeu a Revolta do Malês em Salvador; ressaltando que os revoltosos do RJ foram deportados para Benin e Marrocos, fato que deu origem aos festejos do Senhor do Bomfim nesses citados países africanos. Apresentando assim, a Pequena África como Território Histórico dos Descendentes desses Povos Escravizados no Brasil e o Projeto de Revitalização da referida área.

A Sª Anabelle de Souza, vice-cônsul de Angola, agradecendo pela ocasião, comentou sobre o processo de escravização que aqui trouxe os angolanos, e o subsequente crime da colonização de Angola e países africanos pelos infames portugueses, abordando os pontos em comum entre Angola e Brasil.

André Constantine fez uma analogia entre os Territórios de Exceção, as favelas, palafitas e alagados, e o Território Histórico, ressaltando a diferença entre senzala e Quilombo, apresentando o Estado nacional como responsável por esse crime e o mesmo Estado como um instrumento usado pela elite eurodescendente para a continuação do crime da escravidão iniciado há 5017 anos. Apresentou o anteprojeto para a Pequena África e os pontos de discussão a serem tratados, tais como a criação de uma Subprefeitura para administrar à área, a criação de uma Comissão mista de acompanhamento e fiscalização do Processo, as possibilidades e viabilidade financeira do Projeto e destinação da área como um Memorial Vivo da Diáspora, a fim de vivenciar a nossa cultura; abordando também as diferenças entre Reparação e Ações Afirmativas e a possibilidade legítima de emancipação que uma e outra poderiam promover, afirmando que uma realiza esse intento para totalidade de nosso povo e a outra cuida somente de uma pequena porcentagem privilegiada de negros e fakes. Comentou sobre as etapas desse Processo, que deve seguir inicialmente  para o STF, em caso remoto de manutenção da legalidade do citado crime da história pelo STF, o Processo segue para a OEA e possivelmente até a ONU, caso a OEA confirme a legalização do crime de escravidão legalizado inicialmente pelo STF.

Anastácio Jalobe anuncia a presença de outras instituições da citada área e fala sobre o Projeto de Lei de iniciativa Popular (PLIP)

Prof. Yêdo Ferreira retoma a palavra e fala sobre o conceito de Reparação e sua trajetória histórica advinda da Reparação de guerra, fazendo referência ao Estado de Israel como forma de Reparação exigida pelo povo judaico; aborda a Conferência de Durban, em 2001, que tipificou os crimes do tráfico de negreiro transatlântico, a escravidão e a colonização, e seus correlatos, como Crimes da História, determinando que os mesmos, como crimes contra a humanidade, são imprescritíveis; além de qualificar como crimes de ódio, o racismo, a xenofobia, a discriminação e segregação racial, apresentando o Direito Coletivo como algo muito recente e pouco conhecido no Brasil.
A leitura e apresentação do Projeto de Lei sobre a Revitalização da Pequena África Para a Preservação da Memória da Presença do Africano escravizado na Cidade do Rio de Janeiro, organizado pelo Movimento Pela Reparação aos Povos Negro e Indígena, foi feita pelo Prof. Rael Preto da Silva, iniciando assim, o debate sobre citado Projeto.

A Profª Geny Guimarães trouxe a proposta, que foi aceita, de mudança do nome “Marco Zero” para “Ponto Inicial”, alegando que o conceito de Marco Zero aplicado ao Território Histórico se refere ao lugar do começo dessa história e não meramente a um ponto inicial de referência a uma delimitação de um perímetro.

Rubens Confete fez uma detalhada abordagem histórica sobre a área do Caís do Valongo e as personalidades negras protagonista da história do local, falando dos 30 mil negros que ali habitavam, dos bantos e iorubas aos Malês e Ashantis, além da religião de matriz africana dali oriunda.
Destacamos a presença de alguns Movimentos como o Centro Cultural Pequena África, os Filhos de Gandhi, o Corpo jurídico de Mulheres da OAB, além do Movimento pela Reparação.
Após a demarcação do Território em questão, foi acordada para dia 09 de dezembro a próxima reunião para definir-se e formar a Comissão Mista Permanente de Acompanhamento de Revitalização da Pequena África, que será composta por 25 membros, a ser realizada no Instituto Palmares de Direitos Humanos (IPDH), localizado no Bairro da Lapa, a Rua Mem de Sá, 39, no horário das 11:00 as 15:00,No Centro do Rio de Janeiro.