Nos passos dados em direção ao
processo de chute ao balde cheio de verdades greco-romana manipuladas, as
grafias incisivas de Nietzsche despindo o despudor do cristianismo e o poder das palavras
de Fanon retirando as máscaras brancas da cara preta disfarçadas do império feito de cartas jogadas com os blefes dos cerimoniais míticos de Tróia, foram
determinantes para vislumbrar o corpo nu do maniqueismo religioso protegido pela
máscara dual e dicotômica que separou o ser de sua humanidade.
Fanon precisou sair da Martinica
para descobrir sua negritude, uma vez que chegando à França, se descobriu como
um negro qualquer vindo da colônia francesa, pois foi exatamente desse modo que os franceses o
trataram. Assim ele descobriu qual o requisito
único para que uma pessoa pudesse ser considerada ser humano. Dessa forma, ele constata que todo negro, no afã
de ser aceito se aliena de si mesmo ao definir essa patologia como
Alienação Colonial, ao perceber a impossibilidade do indivíduo em participar
e se constituir como sujeito de fato de sua própria história. dentro de suas
relações sociais; mesmo tendo consciência dessa alienação e saiba o porquê
dela. Sendo assim, não seria o bastante mudar a visão sobre o mundo
para deixar de ser alienado, mas sim, seria necessário mudar o mundo.
Desse modo, inferimos que a luta
não se resume ao campo das ideias; a luta deve ser prática; pois ele pensa a
alienação de maneira objetiva e subjetiva, visto que o ocidente, afirmando o
ser humano como razão, transferindo a natureza para o campo da emoção, e como
tal, tratando-a como algo a ser dominado e controlado. Os pensadores iluministas, donos da
razão, falavam narcisamente deles mesmos, se definindo como humanos a partir de
sua religião, de seu Estado, tecnologia, etc. Esse padrão imposto pela
violência colonial se faz presente em nosso sistema educacional hoje, que reproduz esse
processo adestrando o ser humano dentro da razão
eurocêntrica.
Dessa forma, para ser humano é preciso ser
branco. Sendo assim, o negro passou a ter a necessidade de se embranquecer de todas
as formas possíveis; no comportamento, roupas, relações afetivas, organização,
linguagem, etc. para poder alcançar a sua humanidade. Assim, a busca pelo outro
é mediada pelo racismo. Mas ao perceber que mesmo assim ele
continua a ser negro, a partir do momento em que não é aceito pelo mundo
branco, mesmo amando muito esse mundo, ele se volta com raiva contra ele, e o amor se transforma em ódio.
O lado positivo é que esse ódio pode
desestabilizar a hegemonia branca; o lado negativo é que nenhuma luta política
se faz através do ódio, visto que tal sentimento impede perceber, nesse processo
dialético, que o outro também tem coisas que nos pertence. Somos todos sujeitos, e a divisão criada
razão/emoção pelo branco é inadmissível: a inversão dos papéis não é a
solução. Portanto não se trata da preservação de uma ou de outra cultura, mas
sim da percepção de uma cultura humanista. Ou seja, trata-se da libertação do ser humano a partir da recontextualização dessa mesma cultura.
Desse balde chutado, esparrama-se pelo caminho o malcheiroso esterco brancalóide; mas pode ser que exista dai a possibilidade de que, em meio a esse fétido esterco, possa vir a brotar uma perfumada flor de lótus, após esse necessário processo de chutar o balde e mandar a merda o que Narciso chama de mono-espelho e a pele preta possa se mostrar limpa da mancha branca que oprime sua humanidade ao retirar essa máscara de merda.

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