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quarta-feira, 13 de março de 2013

Disposições gerais acerca do latrocínio cognitivo contemporâneo



A causa-mortis do indivíduo na sociedade contemporânea é determinada pelo grau de sua carência cognitiva; carência consequente da antropofagia praticada pelos integrantes da classe do conhecimento, que promove e defende o capitalismo cognitivo.
A construção dessa conjuntura tétrica, tem suas bases fincadas principalmente no hepistemicídio melanodérmico; processo que se inicia com o sequestro e apropriação da produção cognitiva de sociedades ágrafas e de escritas, como as do Egito, Gana, Timbuctu e de povos autóctones, partindo do polêmico princípio de que os fins justificam os meios.
Portanto é natural que as universidades de pensamento eurocêntrico tendo como função primaz, licenciar e legitimar pensadores e doutores; tragam marcados em suas certificações, as manchas do sangue e do suor desses povos. Em contrapartida, essas mesmas nações sistematicamente roubadas e racistizadas, como forma de reconhecimento, recebem o rótulo de atrasados e selvagens que vivem em tribos e guetos.
A desqualificação contumaz a integrantes desses povos é lugar comum nas grandes metrópoles. O hepistemicídio melanodérmico e autóctone tornou-se uma prática inerente à permanência dessa conjuntura, onde o capitalismo cognitivo é o lugar em que gira a engrenagem da cultura que dosa, domestica e controla a autodeterminação do indivíduo.
Portanto, é onde se originam e são sustentadas as relações de poder; eliminando intelectualmente o indivíduo para manter-se a ordem no progresso capital. Usa-se do pretexto a beleza do cadáver como expediente para que o capitalismo não seja sepultado, substituindo-o assim, em seu esquife, pela ética e pelo bom-senso no velório final da sinapse humana.
Deste modo, as belas mentiras, camufladas de inocência, mantêm os mortos-vivos como atração principal na telinha da TV, alimentando cotidianamente os pseudoscidadão com generosas doses de carências cognitivas, através do vírus das falsas informações.
Assim, o homo eligens, aquele que escolhe, tem sua cabeça cortada no ritual de acefalia, realizado cotidianamente e com extrema maestria, pela mídia mandatária da elite financeira. São assassinatos naturais, com causa-mortis oficiais formatadas em gabinetes de políticos pelos empresários das elites financeiras de origem escravocrata, com as bênçãos da igreja fascista e o brinde final festejado com as taças da hipocrisia da classe média nacional; é assim que o show deve continuar... tá lá uma vontade estendida no chão... Lá se vai mais um cidadão boodstrap... Tem sua mente fiel que lhe mente satisfazendo suas vontades e fantasias; desviando assim seu olhar e evitando a desconcertante visão  do seu inferno público e seu demônio particular... Plim, plim...




segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Cidade Negra


Rio de Janeiro, foi e continua sendo o maior porto do infame mercado em todo o mundo. No processo do sequestro, conhecido academicamente como diáspora, de africanos e sua consequente escravização, durante o século XVIII, foi uma cidade toda negra com um punhado de brancos decidindo a sorte de milhares de não-branco, para atender caprichos e vicissitudes de um bando da elite européia e norte-americana. Qualquer viajante que chegasse ao Rio nessa ocasião, teria certeza absoluta de que haveria de ter desembarcado num dos 58 países do continente africano.

Todo esse contingente não-branco foi removido pelos governos, mandatários da elites financeira, e expurgados para rincões inóspitos, sendo que esse vil processo de expurgo continua ininterrupto. Antes, normatizados na forma da lei através da força policial; hoje, além da força policial, através da força das finanças representadas no poder da mídia.

A profecia do embranquecimento da república que se daria em 100 anos, segundo "respeitados" pensadores, intelectuais e cientistas brazilleiros de outrora, não se realizou dentro do prazo previsto, apesar da apelação através do grande auxílio oferecido e destinados a imigrantes alemães, italianos, franceses e todos os não-negros que desejassem terras, salários e as benesses do governo brazilleiro. 


Apesar dos poderosos esforços da elite para implementar o biocídio melanodérmico , a Negritude não se extinguiu como desejado. Portanto hoje, essa mesma elite apela para extinção propriamente dita, literal, através do extermínio do corpo e também da memória, usando a milícia e a mídia; polícia e TV: enquanto a mídia convence sem deixar marcas aparentes, a polícia passa a régua também sem deixar marcas muito visíveis ou provas extremamente incriminadoras; assim coloca-se a ordem no progresso da República dos Estados Unidos do Brazill.

Embranquecendo a história e a TV fazendo com que qualquer negro venha enlouquecer, pensando que está no lugar errado e com a cor errada, a polícia tem seu trabalho facilitado, visto que a massa negra nunca vai se incomodar com aquela pessoa de cor sendo exterminado a seu lado. O nível de loucura negra é tanta, que ele não mas possui a habilidade de estranhar, chegando até mesmo a rir das piadas contadas usadas perversamente para desqualifica-lo, pondo-o no lugar subalternizado, sendo imobilizado social e intelectualmente por todo esse contexto desestabilizador da consciência humana que oficializa o hepistemicídio melanodérmico.




A mulher e o homem de cor, perdem sua humanidade para si mesmo, a partir do momento que a perdem para os não-negros. Portanto, são naturalmente colocados, recolocados e alocados como objetos, de acordo com os caprichos de um grupelho feudal, no lugar e nos momentos convenientes ao infame comércio de gente, visto que sua humanidade não mais lhes pertencem, mas pertence a elite dominante, como sempre pertenceu. 

As tétricas experiências com habitantes de comunidades desfavorecidas são exemplos escandalosamente recorrentes, visto que são realizados a luz das câmeras, do sol e da lua, para qualquer ser pensante feudal pervertido que se delicie com a tortura de outrem, como outrora, possa atingir orgasmos múltiplos. Não conheço nenhum outro programa de reality show mais rentável que esse, que misturando sexo e violência como espetáculo em seu extremo. Disney fez isso nos Estados Unidos das Américas e a Warner Bros está fazendo isso aqui nos Estados Unidos do Brazill.


... Apesar de você, amanhã há de ter outro X e Malcons, outros e outras Panteras e Kahindes... Apesar do cativeiro ter sido transformado numa redoma de vidro trazendo a ilusão de liberdade, sem no entanto nos levar a atinar sobre as ofertas oferecidas que permanecerem, como uma mosca dentro do pote, envoltas nessa redoma invisível, não permitindo o acesso e uso dessa mesma liberdade, sem que possamos entender e perceber a existência dessa barreira: ... Mas ... Amanhã há de ser outro dia, um dia tão escuro como aquela noite que circula o vai e vem na Capoeira.


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Mercado Negro



Está noite eu tive um sonho: sonhei que vi populações inteiras armazenadas em lugares destinados a mercadorias; todos estavam embalados numa espécie de sacos plásticos transparentes em duplas, trios e famílias quase inteiras e famílias em pedaços,  com preços afixados, códigos de barras e data de validade, além de um seletor onde se podia verificar, através de uma espécie de canal, ouvindo seus diálogos e discursos, a composição e o conteúdo pretendidos.


Assim, uma pequena parte dos que se encontravam desempacotados, os responsáveis pelos acondicionamentos e os compradores, passavam longo tempo escolhendo suas mercadorias, produtos-gentes, de acordo com suas especificidades, para recolocá-los nos devidos lugares em suas empresas ou residências, atendendo a suas necessidades e a seus caprichos.

Esse ritual era cuidadosamente realizado pelos atores que compunha esse sinistro episódio, parecendo que dele dependia sua escolha acertada ou equivocada. Assim, tudo era verificado minuciosamente; dos diálogos e discursos visto e ouvido, às diversidades dos tons e coloridos das epidermes apresentadas desses produtos-gentes. Era um momento tão especial, que muitas das vezes os desempacotados só se dirigiam aos mercados para degustar tal ritual somente, e nada mais, elegendo datas e mega eventos comemorativos com tal objetivo.


Eram inúmeros e distintos tais mercados e eventos, chegando a ter centenas de espaços especializados em tipos diferentes de pacotes em exposição produtos-gentes. Mercados que estudavam novas formas de acondicionamento, dividindo por gentes de ofícios e de discursos por grau de passividade e servilismo, habilidades e desempenho físico, etc. Assim, tais mercadorias eram mais facilmente negociadas nessas casas especializadas ou não, dependendo da destinação pretendida pelos desempacotados.


Tais pacotes de gentes, ficavam pendurados por ganchos em exposição permanentes, até a extinção do princípio ativo do conteúdo acondicionado, quando enfim, eram descartados rapidamente em seguida, pelas maneiras mais diversas e vil que se possa imaginar. Muitas das vezes, populações inteiras de produtos-gentes sofreram com processos de descartes sumários, de acordo com a conveniência do mercado, beneficiando assim, uma nova carga viva mais promissora aos rendimentos do monopólio do mercado de gentes. 

Ao final do dia, assim que pude, consegui fechar meus olhos e finalmente caí em sono profundo, indo dormir para acordar na única realidade escondida de meus pesadelos diurnos, frente aos shoppings de cada dia que nos dão hoje. assim, nem toda gritaria, corre-corre e agressões promovidas pelas "autoridades" em perseguição aos tabaréus, mercadorias-gente expurgadas do mercado (os sem-valia), conseguiram me impedir de dormir eternamente em meu berço esplêndido, ao som do mar e a luz do sol profundo, desse momento de descidas cotidianas a umbralidade humana; até que nasça o dia seguinte para me acordar outra vez na labuta, nesta imensa loja de departamentos em que a pós-modernidade transformou  nossa Afro "euro-civilização".


sábado, 9 de fevereiro de 2013

Espelho social: Prisão de segurança máxima.


Segundo uma antiga máxima, o mundo é um espelho que reflete tudo aquilo que a ele é emitido. Todavia, existe um porém; nosso prosaico diáfano sofreu uma grande transformação após os trágicos e surreais adventos de Narciso e Branca de Neve respectivamente.

Nessa transformação sua magia atingiu o grau máximo, processo esse conhecido como globalização. Ela potencializou o misterioso espelho, tornando-o on-line, após abrir seus portais, ligando assim dois mundos, separados somente por um vidro translúcido. A observadora, agora espectadora, pôde por à descoberto e alcançável ao olhar, tudo o que antes era distante e misterioso.


A espectadora on-line é observada pelo diáfano que lhe seduz simetricamente, de maneira inversa, induzindo seus movimentos e indumentárias, ditando suas necessidades e seus desejos. A capacidade de dobradura do ser é invariavelmente perdida, assim como sua condição resiliênte.
Agora ela não é mais aquela que se adapta às circunstâncias, tornou-se uma presa dela. Sendo assim, as situações por mais esdrúxulas e absurdas que sejam ou pareçam ser, como quaisquer atos de violências ou de manipulações contra ela, por exemplo, tornaram-se passíveis de assimilação e aceitação tácitas.



A espectadora do espelho reduz-se a condição de passividade ativa permanentemente, sendo seus movimentos minuciosamente monitorados e administrados pelo sistema on-line difusores de diáfanos, transformando essa mesma espectadora em mero objeto de experimentações; cobaias para testes para novos produtos cosméticos ou farmacêuticos, com promessas de uma imagem perfeita, adaptando-a a realidade prescrita pela simetria on-line. 

Assim, a felicidade do espécime humano escravizado, é reproduzida domesticando-se sua vontade a partir do momento em que suas necessidades passam a ser ditadas pelo espelho seu. Sua história, sua cultura e sua origem ganham novos contornos e versões, retroalimentando a simetria a partir do momento que solidifica a dependência da espectadora à sua bela imagem refletida. 

O desenvolvimento da forma nesse olhar, mostra com certo alívio, que os repugnantes grilhões de outrora, hoje são perfumados, coloridos e com sabores artificiais diversos e sem conter glúten. Além de extremamente atrativos, conta com longa data de validade, vindo com código de barras para afirmar sua originalidade. 


Atrelada à imagem concedida on-line pelos diáfanos pós-modernos, a espectadora não se dá conta dessa grade invisível que formata a prisão que a separa do real com o virtual, sendo imersa nos sentimentos de liberdade e avassaladoras paixões, exibidas como processo retro alimentador de ambos: espelho e espectadora. Passam então a coexistirem, real e virtual, num mesmo espaço. 

Agora essa espectadora tornou-se uma pessoa inexistente num mundo que não existe. Seu lar é uma prisão sem grades nem muros, com pompas e circunstâncias; sua imobilização física e psicológica é fato; é uma prisioneira, sem desejo de fuga em seu cativante mundo, visto de dentro de seu tumbeiro. Só mil vontades poderia remover a letargia, para romper os labirintos de verdades e promessas, fazendo assim perceber que toda princesa é uma mulher. Afinal, o mundo é o que nele se reflete.









sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Necrópole: a cidade maravilha...!!



Hoje fui visitar a casa de meus antepassados; atravessei as águas da Guanabara, desembarcando na grande Necrópole carioca. Quando observei, com um leve sorriso e um suspiro de alívio, pude ver que os comerciantes da Praça XV não vendiam mais gentes, como outrora, mas sim objetos; Cheguei mais perto para estar certo, e poder constatar se minha certeza era verdadeira.
Afinal, foram mais de dez milhões de negros sequestrados nas Áfricas e trazidos para as Américas, e seis milhões vieram para o Brasil, sendo que 60% desses seis milhões ficaram aqui no sudeste; notadamente os da linhagem dos povos bantos. Chamo essa cidade de Necrópole porque 30 mil vidas foram ceifadas nessas chegadas e jogadas pelas valas, vielas e lixeiras espalhadas pela cidade, nestes quatro séculos do infame comércio que foi a escravização dos negros africanos.
Lembrei-me então de meus antepassados materno indígenas, massacrados por Estácio e Men de Sá; outro vergonhoso e irresponsável silêncio da historiografia branca tupiniquim.
Procurei por minha casa, construída por meus ancestrais negros nas terras de minha mãe indígena invadidas pelos brancos, caminhando pela Rua da Harmonia (Pedro Ernesto) entre as curvas estreitas da Gamboa, Rua esta, em que o Capoeirista Prata Preta, o José Horácio, enfrentou o exército de Pereira Passos, em 1904; aquele prefeitinho que botou abaixo a casa de cada negro, expulsando a todos da cidade. Isso foi no passado, porque hoje isso não acontece mais, né!??
 O curioso é que no ano seguinte, em 1905, esse mesmo prefeitinho construiu uma mansão no Cais do Valongo, local onde os não-brancos, os bossais, eram postos à venda para servirem a degradante função de escravizado. Ou seja, objeto que anda fala e respira.
Após visitar as lápides desterradas da Rua da Harmonia, passando pelo Valongo, procurei pelos becos e vielas da Conceição, subindo os degraus da Pedra do Sal, caminhando pela Rua jogo de bola, cheguei até o cume da Santa. Lá em cima, pude me encontrar num pequeno círculo em frente à Conceição, onde se podia ver uma breve  amostra do solo original: eram as pedras pé-de-moleques que jaziam como amostra, como corpos de ébano, após o bota abaixo promovido pelo atual prefeitinho, a fim de construir o porto maravilha do rio de Janeiro, como um grande monumento a branquitude; porto este de propriedade do megaempresário Eike Batista.
Imediatamente, me veio à mente a cena de um filme chamado “Contatos imediatos do 3ª grau”, em que o personagem repetia angustiado esta frase: ...My home...! My home...!! My home...!!! Olhei ao redor e não vi nenhum capoeirista. Mas eu sou capoeirista, sou negro... Go home...!??
Ali estava um pedaço de minha casa, de minha família, de minha memória, de minha história, cercada e prensada por paralelepípedos made in Eike Batista por todos os lados.
Após observar os pedaços de meu lar naquele pequeno círculo, olhei para as casa que se encontravam ao redor e vi que continuavam as mesmas, mas agora eram casa-grande, casa-branca, as casas dos descendentes dos não-pretos.
Então, desci pela Rua do Aljube, caminhando e cantando em memória dos ancestrais, até chegar ao Paço, onde encontrei uma idosa negra pedindo esmola; era uma preta velha baiana muito humilde, dizendo que logo que tivesse dinheiro iria voltar para sua terra, pois não aguentava mais tanto sofrimento.
Tirei dez reais do bolso e lhe dei com gosto; ela, muito agradecida, disse que agora iria poder almoçar, pois não aguentava mais de tanta fome... Depois desse ocorrido, senti que o que fiz, não havia sido o suficiente, que poderia ter feito mais... Mesmo não possuindo o que o dono do Porto Maravilha possui.
Esse episódio foi um acontecimento tão inesperadamente veloz, em meio as minhas histórias e lembranças perdidas na cidade negra, que não atentei para o fato de que foi a parte mais importante da saga, dessa minha caminhada pelas memórias nessa cidade tumbeiro; a necrópole mais linda, mais cheia de graça, a epopeia das negras e negros, dos quase-negros e quase-brancos;  que é essa cidade europeia do Rio de Janeiro.
Quando o porto estiver pronto, a preta velha certamente será barrada na porta, a caminho de sua São Salvador e estaremos todos pisando, não só nos corpos de ébanos trucidados que jazem no subsolo dessa Necrópole, mas colocando o peso extra de um monumento à indignidade e a soberbia. Peso de um grupo feudal especializado em rapina de bens patrimoniais e espirituais de Estados e Nações. Peso carregado por cada cidadã e cidadão tupiniquim em suas labutas diária, enquanto megaempresários desfrutam de seus latifúndios legalizados e com firma reconhecida pela generosa justiça greco-tupiniquim dessa cidade tumbeiro escandalosamente maravilhosa.

A preta velha perdeu sua casa e sua família, mas não sua dignidade e suas referências, pois sua memória vive, mesmo desterrada, assim como estou circunscrito fora do círculo de pedras pés-de- moleques no cume do Morro da Conceição. Ambos, eu e ela, alijados de cor e exilados na dor, caminhamos em direção contrária pelo Centro, na cidade embalada pelos ruídos do trânsito, sirenes e alarme, entre os  gritos de vendedores ambulantes. Desviando-nos de transeuntes apressados após mais um dia de trabalho, partimos como notas azuis de uma canção fúnebre, no cortejo de um velório de uma morte anunciada.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Espelho, espelho seu...!! Existe preto mais branco do que eu...!??


Durante as condições de vida que os brancos submetiam aos não-brancos, no período da grande infâmia, como era conhecida a escravização; com toda a sorte de perversidades, de maneira vil, degradante e extremamente indigna; era natural a qualquer ser humano, o afloramento do instinto da autopreservação. Desse modo o escravizado assassinar seu algoz, era algo concreto e prosaico de ocorrer durante o lento trucidar de sua pseudo-vida.

Por isso, seus carrascos, obviamente brancos, quando não, a mando de algum branco; estavam  sempre tomando medidas preventivas quando na presença de um não-branco, com toda sorte de caprichos vis que o mercado lhe reservara como "direito".

Com a evolução do comércio, capitaneada pela revolução industrial, essa "reserva de direito" transformou-se em racismo desvairado, indiscriminado e inconsequente, que conhecemos hoje pelo nome de "mal-entendido", "brincadeirinha entre amigos" ou "...Eu tenho amigos negros também, portanto não posso ser racista...!!".

Com a modernidade, a TV começou então a formatar programas de humor, usando o negro como uma burlesca referência. O negro riu da brincadeirinha, os brancos riram mais ainda e o programa pegou.  Hoje temos um comércio vergonhosamente  lucrativo, onde se faz uso dessa figura que, outrora servia como objeto que andava e falava. Mas os intelectuais do riso da TV mostraram que fazem  diferença: a diferença é que hoje ele, o não-branco, não é mais objeto que anda e fala; ele também ri e faz rir. 

Como o não-branco, o quase-branco e o branco-negro até hoje não tiveram a oportunidade de lerem livros, de saber de sua história e de sua cultura, como os brancos sempre tiveram,   perderam suas referências e agora desconhecem os motivos da existência do racismo e de suas implicações. Portanto, não sabem de onde vem essa mágoa descabida dos brancos, em relação aos não-brancos, chegando a ponte de duvidar de tanto rancor no coração daqueles que o condenam por não ser branco. Além de não saberem, porque são motivos de piadas tão afetivas.



Lamentavelmente, a assinatura da famigerada lei áurea, assim como a ineficácia de qualquer lei redigida pela elite que tudo sabe, só fez do não-branco uma figura arquetípica, onde é depositado todo o ódio inconsciente advindo dessa "reserva de direito" concedida e reconhecido pelo código de leis ágrafas do social. Lei essa, como dito, redigida pela elite financeira, assim como continua perpetuamente a redigi-las na atualidade.  

Mas nossa terra tem Palmeiras, Corinthians e fluminense. Além da Mangueira, Portela e Vai-vai... Nossas vidas mais rancores, samba e futebol.  
Nossos negros, pós-modernos, de muitas cores e sem caderno, hoje não mais se enxergam não. 
Se sair a rua hoje, só Colombinas encontro lá, pois minha terra tem crioulas qu'invisíveis ainda estão a ficar. Só apararecendo na tela da TV que eu ligar.
Só sentimos essa mágoa, que é pro bem nos lembrar, que essa vida invisível, é fruto das leituras roubadas, pelas mãos do látego encravado, no coração da negralhada.

Portanto, o eterno combate as cotas ou a qualquer elemento que venha a atentar contra essa lei da "reserva de direito", é fruto da falta de leitura ou de um benefício provido pela dita lei ao indivíduo em questão, seja ele branco, não-branco, quase-branco ou branco-negro. Enfim, esse processo acaba sendo um fator de busca desse indivíduo a si mesmo, saindo de sua não-história para tornar-se sujeito de sua própria história. 




domingo, 20 de janeiro de 2013

Teoria da informação II


No burburinho do dia-a-dia, adentrando nos inúmeros estabelecimentos comerciais da urbi, observamos sobre os balcões da vida, que a educação é vendida de bar em bar, farmácias, shoppings, além das ruas, ônibus ou metrô; não importando onde, seu preço fixo sempre obedece a uma tabela flutuante.

Mas agora, devido à escola paralela, capitaneada pelo feudalismo tecnológico, tudo se tornou virtual. Ou seja, de mentira. Portanto, poucos sabem quanto custa às próprias custas, o saber de si, pois quanto maior o conhecimento, menor é a compreensão da própria existência. A carta magna da alforria, assinada com cifrões, fez a realidade do povo melanodérmico se resumir a números estatísticos.

Quantos preciosos zeros são preciso, para desprender-se desse pelourinho virtual,  tornado real pelos telespectadores, depois de assinada pelos reis Momo (deus da alegria) e komo (deus do caos) da mídia? O balconista emudece ante a questão que embranquece.

Para a população subalternizada, que assim automaticamente se autoclassificam para assegurar o espetáculo de sofrimento veiculado pela mídia, adquirir a Carta de alforria loira, perfumada e de olhos azuis, tem um preço; é como aquele ingresso no bondinho do pão de açúcar, num dia de verão sem arrastão, nessa cidade corrompida pela perversão, mostradas nos espetáculos de televisão; isso não tem preço. Espetáculos de dor e sofrimento, recorrentes nessa cidade de muitos risos e alegria, há muito mais do que mil palhaços no salão; nessa cidade cheia de encantos mil de ilusão, nesse país tropical abençoado por Deus, onde se promoveu como senhorio o Diabo virtual, digitalizado pela mídia e remasterizado pela religião.

Nosso mulato exonero, já dançou inúmeras vezes nesta maravilha de cenário, foi dispensado pelo balconista, pois não possuía a cútis adequada a informação desejada. Mesmo assim nosso balcão de informação encontra-se aberto 24h, nem é preciso que seja acessado, já que ele é onipresente em cada tela que te vê; e você nem pressente que faz parte de um big “Brother” a céu aberto e em tempo real, patrocinado por nosso telecapitalismo nas favelas da capital. Mediante a uma módica quantia, poderá escolher com garantia, um pouco de sabedoria pro seu dia-a-dia; tudo de acordo com seu biótipo, sua classe e etnia; autenticando sua superficialidade outorgada pela realidade virtual.

Criando assim, seu próprio clone, garantido por lei; lei do mercado, lei da oferta e procura, lei do cão, sendo mais um figurante dessa realidade virtual. Sua interatividade é Garantia de imersão total, nessa rede onde você não é espectador e nem ator; você estará fora de cena, é obsceno.  A  própria informação é o vírus que garante desde já, a sua dança no salão da eterna festa virtual, na maravilha do cenário deste país tropical abençoado por Deus.


Mas aqui nessa cidade que continua linda, analisar as manchetes jornalísticas, tornou-se uma tarefa, no mínimo tragicômica, quando observamos essas informações sendo passadas como vírus, satisfazendo assim, a gula do mercado financeiro, que sempre se esmera em criar novos e manter antigos caprichos. Constatamos que a virtualidade extermina sem nenhum pesar, a realidade; por conseguinte, também a imaginação e a criatividade. Fazendo da política e da ética, conceitos desprovidos de todo seu sentido.

As verdades mentidas, que são mentiras camufladas de inocência. Ou seja, verdades virtuais; têm seus preços fixados, mesmo que flutuante, no mercado de ações do poder; O veredicto é um só, uma vez lançado, ele nunca será desmentido. Sendo Portanto, credível, nunca virá a ser falso mesmo sendo desmentido.

Afinal, o mercado não comporta a concorrência dos opostos; já que a vontade política só opera através da mídia, os analfabetos de todos os tipos: os que são alijados da educação, os funcionais, são totalmente imersos nessa realidade virtual, numa relação umbilical, de liberdade simulada, onde as referências desaparecem de forma bem sutil atrás de cada imagem, efeitos especiais, textos recheados de superficialidades, redundâncias, pleonasmos e hipérboles. 



E aqueles que se recusam a tal imersão e decodificam as tabelas estatísticas, identificando seu código de barras e a si mesmo como ser não-social, são gentilmente convencidos a lavar pratos nos porões das DPOs e DOI-codi de nosso Brasil varonil, desaparecendo misteriosamente, de forma paleolítica, logo em seguida. Como em tempo real não existem provas de nada e nossa inteligência é artificial, embarcamos nessa alucinação coletiva, como já assinalava Baudrillar.

Educação e cultura, no discurso midiático, são patrimônios que se deve resguardar a qualquer custo, já que disso depende esse processo mercadológico de ordem e progresso. Um processo simples e sem complicações, sustentado pela mídia, pela religião (que são una) e pelo sistema educacional; lugares estes em que nunca se permite a mentira, mas também jamais se fala a verdade. 

Assim, nossa lixeira de informação se afina com a lixeira da história; História essa, contada pela elite, que nos intoxicam com suas convenientes verdades, marcando seus gados, amarrados ao pelourinho digital do telecapetalismo.