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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Necrópole: a cidade maravilha...!!



Hoje fui visitar a casa de meus antepassados; atravessei as águas da Guanabara, desembarcando na grande Necrópole carioca. Quando observei, com um leve sorriso e um suspiro de alívio, pude ver que os comerciantes da Praça XV não vendiam mais gentes, como outrora, mas sim objetos; Cheguei mais perto para estar certo, e poder constatar se minha certeza era verdadeira.
Afinal, foram mais de dez milhões de negros sequestrados nas Áfricas e trazidos para as Américas, e seis milhões vieram para o Brasil, sendo que 60% desses seis milhões ficaram aqui no sudeste; notadamente os da linhagem dos povos bantos. Chamo essa cidade de Necrópole porque 30 mil vidas foram ceifadas nessas chegadas e jogadas pelas valas, vielas e lixeiras espalhadas pela cidade, nestes quatro séculos do infame comércio que foi a escravização dos negros africanos.
Lembrei-me então de meus antepassados materno indígenas, massacrados por Estácio e Men de Sá; outro vergonhoso e irresponsável silêncio da historiografia branca tupiniquim.
Procurei por minha casa, construída por meus ancestrais negros nas terras de minha mãe indígena invadidas pelos brancos, caminhando pela Rua da Harmonia (Pedro Ernesto) entre as curvas estreitas da Gamboa, Rua esta, em que o Capoeirista Prata Preta, o José Horácio, enfrentou o exército de Pereira Passos, em 1904; aquele prefeitinho que botou abaixo a casa de cada negro, expulsando a todos da cidade. Isso foi no passado, porque hoje isso não acontece mais, né!??
 O curioso é que no ano seguinte, em 1905, esse mesmo prefeitinho construiu uma mansão no Cais do Valongo, local onde os não-brancos, os bossais, eram postos à venda para servirem a degradante função de escravizado. Ou seja, objeto que anda fala e respira.
Após visitar as lápides desterradas da Rua da Harmonia, passando pelo Valongo, procurei pelos becos e vielas da Conceição, subindo os degraus da Pedra do Sal, caminhando pela Rua jogo de bola, cheguei até o cume da Santa. Lá em cima, pude me encontrar num pequeno círculo em frente à Conceição, onde se podia ver uma breve  amostra do solo original: eram as pedras pé-de-moleques que jaziam como amostra, como corpos de ébano, após o bota abaixo promovido pelo atual prefeitinho, a fim de construir o porto maravilha do rio de Janeiro, como um grande monumento a branquitude; porto este de propriedade do megaempresário Eike Batista.
Imediatamente, me veio à mente a cena de um filme chamado “Contatos imediatos do 3ª grau”, em que o personagem repetia angustiado esta frase: ...My home...! My home...!! My home...!!! Olhei ao redor e não vi nenhum capoeirista. Mas eu sou capoeirista, sou negro... Go home...!??
Ali estava um pedaço de minha casa, de minha família, de minha memória, de minha história, cercada e prensada por paralelepípedos made in Eike Batista por todos os lados.
Após observar os pedaços de meu lar naquele pequeno círculo, olhei para as casa que se encontravam ao redor e vi que continuavam as mesmas, mas agora eram casa-grande, casa-branca, as casas dos descendentes dos não-pretos.
Então, desci pela Rua do Aljube, caminhando e cantando em memória dos ancestrais, até chegar ao Paço, onde encontrei uma idosa negra pedindo esmola; era uma preta velha baiana muito humilde, dizendo que logo que tivesse dinheiro iria voltar para sua terra, pois não aguentava mais tanto sofrimento.
Tirei dez reais do bolso e lhe dei com gosto; ela, muito agradecida, disse que agora iria poder almoçar, pois não aguentava mais de tanta fome... Depois desse ocorrido, senti que o que fiz, não havia sido o suficiente, que poderia ter feito mais... Mesmo não possuindo o que o dono do Porto Maravilha possui.
Esse episódio foi um acontecimento tão inesperadamente veloz, em meio as minhas histórias e lembranças perdidas na cidade negra, que não atentei para o fato de que foi a parte mais importante da saga, dessa minha caminhada pelas memórias nessa cidade tumbeiro; a necrópole mais linda, mais cheia de graça, a epopeia das negras e negros, dos quase-negros e quase-brancos;  que é essa cidade europeia do Rio de Janeiro.
Quando o porto estiver pronto, a preta velha certamente será barrada na porta, a caminho de sua São Salvador e estaremos todos pisando, não só nos corpos de ébanos trucidados que jazem no subsolo dessa Necrópole, mas colocando o peso extra de um monumento à indignidade e a soberbia. Peso de um grupo feudal especializado em rapina de bens patrimoniais e espirituais de Estados e Nações. Peso carregado por cada cidadã e cidadão tupiniquim em suas labutas diária, enquanto megaempresários desfrutam de seus latifúndios legalizados e com firma reconhecida pela generosa justiça greco-tupiniquim dessa cidade tumbeiro escandalosamente maravilhosa.

A preta velha perdeu sua casa e sua família, mas não sua dignidade e suas referências, pois sua memória vive, mesmo desterrada, assim como estou circunscrito fora do círculo de pedras pés-de- moleques no cume do Morro da Conceição. Ambos, eu e ela, alijados de cor e exilados na dor, caminhamos em direção contrária pelo Centro, na cidade embalada pelos ruídos do trânsito, sirenes e alarme, entre os  gritos de vendedores ambulantes. Desviando-nos de transeuntes apressados após mais um dia de trabalho, partimos como notas azuis de uma canção fúnebre, no cortejo de um velório de uma morte anunciada.


Um comentário:

Alencarnovomundo disse...

Lamentável,vergonhoso e repugnante...Deus é fiel,sua justiça perdura para sempre!...Aqueles que tanto mal fizeram aos nossos irmãos negros,caso não arrependeram-se de tal...com certeza pagam o preço de seus malfazejos preconceituosos e discriminadores...castigo interminável...O Sofrimento deles é eterno!