Está noite eu tive um sonho: sonhei que vi populações inteiras armazenadas em lugares destinados a mercadorias; todos estavam embalados numa espécie de sacos plásticos transparentes em duplas, trios e famílias quase inteiras e famílias em pedaços, com preços afixados, códigos de barras e data de validade, além de um seletor onde se podia verificar, através de uma espécie de canal, ouvindo seus diálogos e discursos, a composição e o conteúdo pretendidos.
Assim, uma pequena parte dos que se encontravam desempacotados, os responsáveis pelos acondicionamentos e os compradores, passavam longo tempo escolhendo suas mercadorias, produtos-gentes, de acordo com suas especificidades, para recolocá-los nos devidos lugares em suas empresas ou residências, atendendo a suas necessidades e a seus caprichos.
Esse ritual era cuidadosamente realizado pelos atores que compunha esse sinistro episódio, parecendo que dele dependia sua escolha acertada ou equivocada. Assim, tudo era verificado minuciosamente; dos diálogos e discursos visto e ouvido, às diversidades dos tons e coloridos das epidermes apresentadas desses produtos-gentes. Era um momento tão especial, que muitas das vezes os desempacotados só se dirigiam aos mercados para degustar tal ritual somente, e nada mais, elegendo datas e mega eventos comemorativos com tal objetivo.
Eram inúmeros e distintos tais mercados e eventos, chegando a ter centenas de espaços especializados em tipos diferentes de pacotes em exposição produtos-gentes. Mercados que estudavam novas formas de acondicionamento, dividindo por gentes de ofícios e de discursos por grau de passividade e servilismo, habilidades e desempenho físico, etc. Assim, tais mercadorias eram mais facilmente negociadas nessas casas especializadas ou não, dependendo da destinação pretendida pelos desempacotados.
Tais pacotes de gentes, ficavam pendurados por ganchos em exposição permanentes, até a extinção do princípio ativo do conteúdo acondicionado, quando enfim, eram descartados rapidamente em seguida, pelas maneiras mais diversas e vil que se possa imaginar. Muitas das vezes, populações inteiras de produtos-gentes sofreram com processos de descartes sumários, de acordo com a conveniência do mercado, beneficiando assim, uma nova carga viva mais promissora aos rendimentos do monopólio do mercado de gentes.
Ao final do dia, assim que pude, consegui fechar meus olhos e finalmente caí em sono profundo, indo dormir para acordar na única realidade escondida de meus pesadelos diurnos, frente aos shoppings de cada dia que nos dão hoje. assim, nem toda gritaria, corre-corre e agressões promovidas pelas "autoridades" em perseguição aos tabaréus, mercadorias-gente expurgadas do mercado (os sem-valia), conseguiram me impedir de dormir eternamente em meu berço esplêndido, ao som do mar e a luz do sol profundo, desse momento de descidas cotidianas a umbralidade humana; até que nasça o dia seguinte para me acordar outra vez na labuta, nesta imensa loja de departamentos em que a pós-modernidade transformou nossa Afro "euro-civilização".




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