Segundo
uma antiga máxima, o mundo é um espelho que reflete tudo aquilo que a ele é
emitido. Todavia, existe um porém; nosso prosaico diáfano sofreu uma grande
transformação após os trágicos e surreais adventos de Narciso e Branca de Neve
respectivamente.
Nessa
transformação sua magia atingiu o grau máximo, processo esse conhecido como
globalização. Ela potencializou o misterioso espelho, tornando-o on-line, após
abrir seus portais, ligando assim dois mundos, separados somente por um vidro
translúcido. A observadora, agora espectadora, pôde por à descoberto e
alcançável ao olhar, tudo o que antes era distante e misterioso.
A
espectadora on-line é observada pelo diáfano que lhe seduz simetricamente, de maneira
inversa, induzindo seus movimentos e indumentárias, ditando suas necessidades e
seus desejos. A capacidade de dobradura do ser é invariavelmente perdida, assim
como sua condição resiliênte.
Agora
ela não é mais aquela que se adapta às circunstâncias, tornou-se uma presa
dela. Sendo assim, as situações por mais esdrúxulas e absurdas que sejam ou
pareçam ser, como quaisquer atos de violências ou de manipulações contra ela,
por exemplo, tornaram-se passíveis de assimilação e aceitação tácitas.
A
espectadora do espelho reduz-se a condição de passividade ativa
permanentemente, sendo seus movimentos minuciosamente monitorados e
administrados pelo sistema on-line difusores de diáfanos, transformando essa
mesma espectadora em mero objeto de experimentações; cobaias para testes para
novos produtos cosméticos ou farmacêuticos, com promessas de uma imagem
perfeita, adaptando-a a realidade prescrita pela simetria on-line.
Assim,
a felicidade do espécime humano escravizado, é reproduzida domesticando-se sua
vontade a partir do momento em que suas necessidades passam a ser ditadas pelo
espelho seu. Sua história, sua cultura e sua origem ganham novos contornos e
versões, retroalimentando a simetria a partir do momento que solidifica a
dependência da espectadora à sua bela imagem refletida.
O desenvolvimento da forma nesse olhar, mostra com certo alívio, que os repugnantes grilhões de outrora, hoje são perfumados, coloridos e com sabores artificiais diversos e sem conter glúten. Além de extremamente atrativos, conta com longa data de validade, vindo com código de barras para afirmar sua originalidade.
Atrelada
à imagem concedida on-line pelos diáfanos pós-modernos, a espectadora não se dá
conta dessa grade invisível que formata a prisão que a separa do real com o
virtual, sendo imersa nos sentimentos de liberdade e avassaladoras paixões,
exibidas como processo retro alimentador de ambos: espelho e espectadora. Passam
então a coexistirem, real e virtual, num mesmo espaço.
Agora essa espectadora tornou-se uma pessoa inexistente num mundo que não existe. Seu lar é uma prisão sem grades nem muros, com pompas e circunstâncias; sua imobilização física e psicológica é fato; é uma prisioneira, sem desejo de fuga em seu cativante mundo, visto de dentro de seu tumbeiro. Só mil vontades poderia remover a letargia, para romper os labirintos de verdades e promessas, fazendo assim perceber que toda princesa é uma mulher. Afinal, o mundo é o que nele se reflete.

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