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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Retrato em preto e branco da Cidade Maravilhosa


Na maravilhosa e exótica terra tupiniquim, além de araras, tucanos papagaios e das deliciosas mulatas for export, temos a presença da polícia mais eficiente do mundo. Essa eficiência se deve ao fato de que em todas as situações de risco, eu disse todas; num seqüestro com reféns, por exemplo, eles habilmente matam todas as vítimas, prendem os bandidos e depois matam os bandidos resolvendo assim todos os crimes possíveis, imagináveis e inimagináveis.
É tudo muito simples; até que às vezes um cidadão desavisado e mal educado resolve registrar algumas dessas cenas, filmando imagens em celulares e enviando a TV com tendências políticas opositivas a situação, iniciando assim um leve pedido de explicações do ocorrido. Isso às vezes faz com que a fama de eficiência seja um poucochinho arranhada; nada que não se possa resolver eliminando, no sentido próprio da palavra, esses pseudocidadãos metidos com idéias tortas sobre direitos humanos.
Essas situações prosaicas são recorrentes na vida do cidadão de cor; manchetes a cores mostrando on-line um preto que sequestra um ônibus cheio de pretos, vindo um policial preto que metralha todos os pretos, ganhando um bônus de um governador branco por sua eficiência e sua contribuição para nossa ecologia social democrático-tupiniquim.
Mas não confundamos nossa eficiente polícia assassina com os antigos capatazes do Brasil - colônia. Existe uma grande distância entre ambos; os capatazes matavam aos poucos e a nossa polícia mata em massa, por atacado. O fator da distância tem uma influência determinante no contexto; assim como a evolução dos senhores escravocratas, que agora são senhores empresários sem fins assassínicos: isso fica sobre incumbência de seus mandatários: a polícia, a imprensa e o poder judiciário.
Portanto a hipocrisia institucional não é um mero objeto non-sense; mas sim, um assunto extremamente lapidado e ideologicamente tratado por gestores sérios e comprometidos com a real democracia Greco-tupiniquim. Essa democracia que arranca do Negro o que ele trouxe a bordo dos tumbeiros em seu peito e em sua mente. Nossa pós-moderna sociedade escravocrata é extremamente hábil para encarcerar justamente o que constitui a essência das Negras e dos Negros brasileiros: seus corações e mentes.
Portanto, a ecologia social é eficientemente levada a cabo por meios bélicos, judiciários e midiáticos, escravizando assim o corpo, a mente ou ambos. Por meio da dança muitos crioulos dançam pra sobreviver; por meio da música ele canta para não dançar. Dentro desse processo ecológico-social, a matrix digital substitui o pelourinho do objeto-animal de ontem; promotor de comportamentos behavioristas e do darwinismo social iniciado no Século XVIII com os iluministas, pelo objeto-cultural de hoje.
Com a vastíssima evolução da humanidade branca, Negra, amarela, etc. o negro hoje se tornou um produto exótico na academia, transformando-se em objeto de estudo e de ganho, como o escravo de ganho de outrora que trabalhava nas ruas entregando o ganho para o patrão ao final de sua jornada.
Os Negros pensantes, assim como os Negros fujões, continuam praticando o Quilombismo, enfrentando os Jorges Velhos cotidianos. Por isso a cooptação se mostrou uma das armas mais competente, depois da destruição psicológica e do assédio moral, no combate a peste negra de cabelos enrolados.
Após da colonização mental, muitos negros que conseguiram alcançar status social, passaram a negar a existência desse perverso contexto, contribuindo assim para a descentralização do senso coletivo e da circularidade.
O extermínio por meios bélico, social e judicial sistematizado da população melanodérmica virou lugar-comum; uma prosaica e natural pandemia.
O negro tem seu saber folclorizado e sua personalidade carnavalizada, para sobreviver com um restolho de status nesta sociedade de pensamento eurocêntrico.
É notório perceber que qualquer intelectual negro nessa cultura branca, tem seu pensamento solenemente ignorado pelos meios da euro-comunicação. Exemplo disso foi o livro do Haitiano Antony Fermim desconstruindo a tese das raças de Arthur Gobineau; ninguém ouviu falar, ninguém conhece, ninguém sabe, ninguém viu. Mas todos conhecem muito bem o racismo pregado por Gobineau; até mesmo os que  se  declaram não racistas e aqueles não fazem a mínima ideia de quem tenha sido esse tal Gobineau.
Nesse vácuo de hipocrisia, Hipócrates virou pai da medicina, sendo que centenas de anos antes dele, os africanos já realizavam cirurgias e já havia vacinas para toda a população; Euclídes era o nome comum de escravos africanos, e a matemática euclidiana passou a ser de propriedade grega; todos os pré-socráticos iam estudar na África, mais especificamente no Egito, e assim a apropriação da filosofia, da astronomia, matemática, da medicina e tudo mais passaram a ser de propriedade Grega.
Assim como os Dogons ensinavam os conhecimentos analíticos, descritivos, comparativos e ativos; conhecimentos esses seqüestrados pelos sábios árabes e gregos, a educação eurocêntrica ensina em seus livros que Negro é sinônimo de escravo, gosta de samba, funk e futebol; tendo o direito implícito de almoçar em restaurante branco, comprar remédios numa farmácia branca, consumir produtos brancos, além de obedecer a uma lei branca e se submeter a uma justiça branca. Ele só tem tido a possibilidade de embaraçar seus próprios cabelos, para poder embaraçar as constrangedoras opiniões sobre ele, mais não o faz devido ao fato de não possuir sua própria opinião. Não tem opinião porque não tem referências, perdendo assim sua identidade. Sua referência São as propagandas, as novelas e as imagens olimpianas.
No Brasil colônia de outrora, o Negro cantava diante da tortura para mostrar para o Senhor que não se dobrava ao sofrimento; ele tinha no canto uma arma de defesa. Ele também cantava nos funerais, feliz por aquele que partia para um lugar melhor do que aquele em que vivera.
Hoje como forma de defesa; também rimos de nossas desgraças, rimos de nós mesmos, mas rimos devido nossa falta de referências. Assim rimos de nossa exclusão, rimos das frases pejorativas e das piadas sobre negros, rimos do desrespeito a nós mesmos. Perde-se a capacidade de indignação, de reflexão e atuação.
Ao assistir na TV um ônibus lotado de pretos sendo metralhado por policiais pretos, a empolgação toma conta por mais uma atração na tela da televisão, deixando a mente em ebulição, produzindo adrenalina. É natural precisar de adrenalina; ela produz endorfina que deixa nosso corpo num estado agradavelmente satisfeito. Acostumamos-nos naturalmente a isso, assim como acostumamos a natural pobreza cotidiana que se alastra pelos morros e vielas da cidade maravilhosa; a proliferação dos sem tetos e sem terras jogados na sarjeta; tudo isso é tão natural como é a estampa da sociedade branca na direção desse tumbeiro urbano. Assim essa euro-cultura produz o sofisma do simbolismo da paz “branca” em oposição a magia “Negra” a ser seguido hierarquicamente como como mais um indiscutível e sagrado dogma.
Anormal nessa sociedade é ter uma juíza que trabalha para uma justiça branca, agindo de forma justa. Essa postura é uma postura condenável e, portanto passível de punição. Foi por este motivo que a digníssima magistrada Patrícia Acioli da comarca do Município de São Gonçalo, cidade da Baixada fluminense, no estado do Rio de Janeiro, foi devidamente punida por nossa eficiente polícia. Uma mulher de moral agigantada como era a meritíssima, não poderia ser uma agente pública nessa sociedade eurocêntrica. Assim a justiça branca novamente se fez presente.
Portando entoemos o Amezing Grace para esta mulher que honrou a justiça tal como ela deveria ser; transparentemente igualitária e justa. As araras, tucanos e papagaios dessa terra exótica, se calam diante dessa canção negra que se eleva e leva essa paladina ao um posto divinal. Nosso Brasil acaba de assassinar mais uma cidadã. Saudações negras a mais essa ousada brasileira, que faz com que nosso Brasil não seja grafado com “Z”.
Os agentes da lei que metralharam aquele ônibus cheio de pretos, certamente terão a benevolência do habeas corpus da euro-justiça tupiniquim, podendo exercer sua profissão com a habitual “dignidade” de todo dia pelas ruas de Gotan City. E mais uma vez a cidade de Towsville vai poder dormir em paz.
Resgatar o princípio de circularidade presente na cultura africana, significa resgatar a o senso de solidariedade e de coletividade tão combatida pelos gestores públicos na escola e na produção cultural brasileira. não precisamos de heróis, do individualismo nem do egoismo próprios do sistema capitalista, precisamos mesmo é agir e pensar como uma nação e uma nação se identifica por suas crenças, seus objetivos e seus ideais. Enquanto tivermos uma sociedade dividida pelo racismo e pela intolerância, o sistema feudal continuará saudável nas terras tupiniquins. 
Assim como nosso país foi o último a "encobrir" o tráfico de seres humanos no mundo, provavelmente será também seja o último a admitir sua responsabilidade na ação perversa de promover esse lastimável genocídio melanodérmico contemporâneo; no mínimo, primeiro ele vai precisar quebrar, como está quebrado as finanças dos estados norte-americanos e da Europeu. Talvez assim haja uma possibilidade de nosso povo retorna a sua essência, aquela trazida na mente e no coração pelos seus ancestrais; fazendo-nos finalmente lembrar de nossa humanidade e de que somos seres sociáveis. Talvez um dia nossa bestialidade seja sublimada e deixemos de agir como bestas pseudo-humanas. Talvez um dia voltemos ao patamar de gente. 
Quando nossa história omitiu que o grande calunga havia se transformado num grande cemitério humano-dérmico, foi assinada nossa escrota animalidade euro-clássica; certificamos essa condição quando grafamos essa história nos livros didáticos e afins, como uma história de valorosos desbravadores que possibilitaram que o Brasil fosse uma grande nação. Desde então, matar, roubar e estuprar ganhou uma nova dimensão em nosso subconsciente, como um importante desvalor inerente ao euro-super-herói brasileiro.com. Portanto, esse super-herói necessita  arrancar muitas cabeças pra ser considerado e respeitado como alguém. 
Seguindo na mão desse raciocínio; pensávamos no Brasil como uma Grande nação; novidades: o Brasil não chega nem a protótipo de uma pretensa nação. Pensávamos que fossemos cidadão plenos; novidade: somos quiça, vices candidatos a figurantes a pseudocidadãos. 
Prepararam um eficiente Sistema Matrix sócio-político-cultural baseado na cultura-download, de maneira perversamente perfeita. A imagem tornou-se verdade absoluta, tal como as escrituras sagradas. Ela não permite reflexão, ponderações ou dialogia engolindo magicamente o tempo de produção sináptica do indivíduo. 
Portanto é natural que um contrato de TV pública dure 50 anos, com chuvas de dinheiro e benesses aos controladores na manutenção desse lucrativo comércio. Tudo é apresentado de forma inocentemente mentirosa, do jeito que o povo, gado marcado, gosta. Assim nosso sistema de casta é perfeitamente ignorado, assim como nossas faixa de Gaza, o indivíduo negro e indígena, os cidadãos palestinos, etc. Esses apêndices e infortúnios só existem na Índia, na Palestina, nos guetos ou na realidade das telas de TV.
E assim caminha nossa desumanidade...Metrô para zona sul e ônibus lotado de pretos metralhado na zona norte; tudo muito normal numa sociedade bestial, com direito  a corpos sem vida de juízas e de professores espalhados, atrapalhando o ir e vir de deputados e senadores no Hall da presidência da república...!!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Do Hot Black ao soft Blanc



Andar pelo calçadão da praia de Copacabana sempre me provoca profundas e inspiradoras emoções, observando as sinuosidades sensuais das linhas curvas desfilando pelo calçadão da Praia de Copacabana, até me encontrar de volta a solidez da razão ao notar as linhas retas da outeiro do Pão-de-açúcar, que me reportam a geometria dispostas nas construções das grandes pirâmides africanas; percebo então as diversidades de linhas de que a natureza é dotada, delineando histórias e geografias; formando mundos e realidades.   
Essa observação me levou a refletir e viajando da praia de Copa sobre o oceano até chegar a um Porto na Ilha de Gorè[1], no Continente de Ébano; para lembrar a primeira família constituída no mundo; da primeira sociedade, de onde veio a matemática, a medicina, café, sabonete, a arte da navegação, a democracia, o teatro, o princípio da informática, etc.
Foi inevitável deixar de fazer correlação com a formação da família eurocêntrica; constituída por um pai, uma mãe e pelo filho. Uma perfeita trindade; portanto um inquebrantável dogma, uma família em forma de triângulo. Enquanto a família africana tem seu princípio baseado no círculo. Isto é, todos integram a família, fazendo parte dela, desde a tataravó até o primo de terceiro grau.
Ocorreu-me então que é justamente este princípio de circularidade que fundamenta toda a cultura africana, tendo como quesito basilar a oralidade e a corporeidade. Ou seja, a energia[2] criadora presente na palavra é o fator preponderante na construção da própria realidade, que vem interferir no ritmo natural, harmonizando ou desarmonizando a realidade conhecida.
Apesar da existência da escrita, como os adinkras e hieróglifos, o valor da palavra nessa cultura é que carrega todo o potencial criador, sendo considerada dessa forma como um instituto social, juntamente com o próprio corpo que era o portador dessa palavra; Por extensão, o canto e a dança fazem parte desse legado.
Quando a escrita chegou a Europa, os saxões adaptaram-na as necessidades do mercado, iniciando assim o princípio essencial, regente do sistema capital: a competição. Já que o território europeu vivia na idade da pedra. Ou melhor, das trevas, os nobres e clérigos manipularam com astúcia o poder da palavra, aliando-a inteligentemente a escrita: outorgaram-se desse princípio, usando-o para se concederem certificação do manejo da energia da palavra, confeccionando assim os livros sagrados, nos quais segundo, a versão dos detentores do poder da leitura, somente eles teriam o poder de decifrar o idioma do próprio divino, não antes de esquecer-se de registrar tal legitimidade nas linhas desse lucrativo best-seller a fim de oficializar sua credibilidade outorgada: foi o primeiro pulo do gato registrado na história. Esse escritor[3] do divino não parou por ai; ele foi muito mais além, conseguindo subliminar a localização geográfica do jardim do Édem[4], escondendo também nas entrelinhas dessas escrituras, a melanina do primeiro casal habitante do planeta terra. Conseguiu até mudar a nacionalidade de Moisés, o libertador do povo Judeu, nascido na África e casado com uma mulher negra, além de seguidor de todos os preceitos da religião afro. Esse escritor conseguiu registrar que o menino Jesus se escondeu de Herodes lá no Egito; como poderia um menino branco esconder-se logo na África? Isso só seria possível se ele fosse o parente mais próximo de Michael Jackson. Ou seja, esse manipulador da palavra escrita, se apropriou de uma cultura, da cultura negra, para reescrever sua verdade, desautorizando a fonte dessa e verdade, e mais; afirmando ser essa origem uma obra demoníaca, inventando assim uma figura até então inexistente na cultura afro. Assim, de maneira insidiosa, este escritor consegue instaurar, o que é fato corriqueiro na prática dos administradores da T. I. na atualidade, a inversão de valores como prática basilar, determinante nas relações de poder.
Enfim, se na África os Griôts eram os donos da palavra, na Europa os clérigos eram os donos da escrita. Como na cultura saxônica fale o que está escrito, assim como a criação se fez através da palavra, segundo as escrituras; a criação do capitalismo se configurou através da escrita, provocando então a primeira estratificação social da história, patrocinada pela competição desenfreada, promovida na grande inauguração do sistema capital. Assim, com a consolidação do processo de estratificação social, se desenhou a preparação da passagem da idade média para a moderna.  A detenção do poder se limitava a uma minoria de leitores existentes na democracia religiosa medieval saxônica. A escrita tornou-se código de acesso a modernidade, espreitava a porta da civilização européia, como forma unilateral de sustentação das relações de poder.
Essa dicotomia foi a incubadora perfeita na criação das representações sociais estereotipadas e na manutenção dos conceitos e preconceitos geradores de paradigmas e dogmas conferidos pelo processo de enculturação[5] ocidental contemporânea.
Em breves linhas, podemos afirmar que a sociedade moderna se desenvolveu em conseqüência da aliança entre palavra e a escrita. Hoje, nos encontramos numa nova encruzilhada de transformações; mutações essas, proporcionadas pela agudização do processo de glotalização, acirrada pelo capitalismo antropofágico transnacional: a direção dessa mudança reside na força da aliança entre a palavra e a escrita com a Tecnologia da Informação.
Esse advento traz em seu bojo uma incisão profunda, intervindo no processo de enculturação, sendo fator motivador e determinante dessa mudança. Vejamos como se dá o mecanismo desse processo: Sabemos que o ser humano usa uma porcentagem mínima de seu cérebro, e que cotidianamente milhões de células morrem e outros milhões nascem substituindo e repondo a falta das que se extinguiram, num procedimento ascendente/descendente contínuo, de acordo com as etapas de vida do indivíduo. Sabemos também que o processo da produção de sinapses é o que possibilita o renascimento e reposição de novas células. Sendo assim, aferimos a necessidade da memória recorrer a esse expediente para manter-se operante e saudável.
Por outro lado, é patente a percepção de vivermos numa sociedade regida pela imagem e não mais pela palavra, como no mundo antigo. Ou seja, nossas mentes se habituaram a leituras das imagens do cotidiano veiculadas pelas T. I. e registradas na retina e transportada ao encéfalo, mas devido à alta velocidade dessas mesmas imagens, torna-se impraticável ao cérebro, cumprir a função de assimilar todas as nuances apresentadas e contextualizá-las de forma minimamente satisfatória. Sendo assim, a falta dessa contextualização não permite a realizar a devida produção de sinapses, processando tais informações, que deveriam posteriormente se transformar em conhecimento; o que faz com que a memória recrudesça gradativamente, sofrendo contínuas mutações.
Agora o processo cognitivo e epistemológico funcional do cérebro se resume na busca pela resposta certa nas imagens vivas e marcantes veiculadas pela tecnologia da informação, e não mais como outrora, quando o cérebro procurava pela questão, pela pergunta certa em meio a um discurso qualquer, a uma prosaica retórica ou diante de um emaranhado de idéias sofistas.
Assim, instituída a imagem como base social contemporânea, abriu-se uma estrada para uma nova forma de existência, de comportamento e de posturas, modificando o ser social como sujeito pensante e a própria gênese da genética cognitiva humana. Esse processo confirma o individualismo e o egoísmo como instituto essencial e basilar no sustento da existência do capitalismo. É desse modo que o sistema capital orienta os destinos da Polis; destinos determinados pelas imagens subjacentes, postadas pelos detentores das Tecnologias da Informação, assim como os comportamentos, orientados dentro da Cultura Downloads.
Após o advento das grandes navegações explorarem mares bravios, oceanos incógnitos e invadir terras alheias, temos agora que Navegar usando, não mais as velas ao vento para abarcar o desconhecido, mais sim as pastas formatadas no espaço virtual capitaneado pelas Tecnologias da informação. A navegação nesse espaço virtual, a fim de resgatar o princípio ancestral da circularidade, aliado à Tecnologia da Informação, é o caminho que virá proporcionar o equilibrium do ser social no seio dessa nova formatação cultural. Esse processo só pode ser gerido no cultivo do sensus, aplicando passe par tout em torno de todas as cenas veiculadas, circulando o quadro de cada imagem vislumbrada. Só assim seria possível significar a essência do nome “Cam[6]”, traduzido pelos divinos donos da escrita como Negro; resignificando-o como Black.
Na Cultura Download a tríade palavra/escrita/imagem disposta em formato triangular e inserido no centro do círculo, tendo o sujeito como vórtice, traz o homem do triunvirato, registrado pelo artista[7] do renascimento. Este homem se apresenta como um ser em equilibrium, atuante nessa nova sociedade da imagem. Ou seja, como um cidadão em estado pleno.
Esse homem recebe as informações fragmentadas veiculadas pela Cultura Download, contidas nas imagens que são inseridas em altíssimas velocidades na memória, de forma diferente do indivíduo plugado; ele vislumbra que a possibilidade de encontrar realimentação só é possível quando sua memória se vale da escrita para ser credenciada. Ou seja, na produção textual; e sabe que essa produção só pode efetivar-se se sua gênese se der na criatividade gestada pela memória ancestral: Processo esse que se concretiza se for proporcionado pelo princípio da Circularidade, que permite a oxigenação da memória. Oxigenação essa, provocada pelo exercício de produção de sinapses.
Esta é uma prática paradoxal: de reunir as curvas e retas transformando-as em côncavos e convexos; é um aprendizado que possibilita o cidadão Noire deixar de andar na prancha e navegar, para sair da zona virtual, tornando-se um ser real, concretizando-se como sujeito histórico na sociedade que o formatou e estigmatizou como marginal; levando em conta que os dízimos exigidos pela Cultura Download são arrecadados através do exercício passivo da servidão mental voluntariosa; essa é a alternativa da sisa[8] pós-moderna ser renegociada. Provocando assim um equilíbrio relativo na reescrita da história, visto que nessa nova forma de realidade, existe a possibilidade de mudar-se até mesmo o passado; para projetar-se ou modificar futuros.
O expediente de exercitar o questionamento, a fim de se descobrir as perguntas certas, faz do presente um momento atemporal; um lapso no espaço-tempo que se revela como repto às escolhas e tomadas de decisões. Esse exercício, na circularidade ancestral, desenvolve o sensus que provoca a quebra do ritmo hipnótico-indutor da Cultura Download, trazendo o equilibrium ao ser social. Assim as linhas curvas e retas; da geografia, da história e da matemática, serão obras-primas pintadas nas letras poéticas no mapa de reedição da vida.
Assim novamente singraremos outros mares, navegaremos através do oceano virtual, de Angola a Copacabana, da Jamaica a Nova Iguaçu, de Niterói a Jardim Catarina, de Londres a Guaraquicetuba, circulando todas as culturas para concretizar nossa quimera no crepúsculo vespertino de mais uma civilização.


[1] Ilha que servia de entreposto comercial, local onde os Negros seqüestrados eram depositados antes de partir para a América.
[2] Significa Axé na língua yorubá.
[3] São Jerônimo foi o primeiro “tradutor” da bíblia, por esse motivo foi canonizado pelo papa, vivendo o resto de sua vida com um excelente soldo proporcionado pela igreja como agradecimento pelo bom serviço prestado a cúria.
[4] Já que o rio Eufrates se localiza na África, mas precisamente na Etiópia, que é o endereço bíblico do jardim do Édem.
[5] Influência da sociedade sobre o indivíduo.
[6] Que traduzido significa queimado. Se tratando de uma região em que o sol é protagonista... O nome seria tão prosaico como um Silva qualquer o é no Brasil.
[7] Desenho do pintor renascentista Leonardo Da Vinci.
[8] Imposto de 20% cobrado pela coroa sobre cada escravo seqüestrado na África e negociados pelos mercadores no Brasil.



domingo, 5 de junho de 2011

TEMKNHN[1] Do encouraçado Potemkin aos Guarda-vidas Cariocas


temknhN[1]
Há muito tempo nas águas da Guanabara o Dragão do mar apareceu[2]... Se essas letras fossem a composição de um funk carioca, talvez os salva-vidas do estado do Rio de Janeiro aprendessem com os erros de outrora e traçassem uma tática de enfrentamento menos inocente, evitando a companhia de mulheres e crianças, e igualmente contundente.
Graças à eficiência colonial do nosso sistema educacional, eles não nunca souberam que um dia os Heróis dos porta-aviões Minas Gerais, Bahia, Deodoro e São Paulo, foram tachados; assim como o imperador Sergio Cabral os considerou por reivindicar dignidade, como Vândalos[3]. O presidente Nilo Peçanha, único Presidente Negro brasileiro, desdenhou sua petição enquanto Hermes da Fonseca os massacrou com as bênçãos da sociedade escravocrata carioca.
Nossos soldados do fogo, tratados hoje como os escravos de outrora, sem direito aquela tal dignidade humana tão propalada por nossa carta magna, tem como agravante o fato de se julgarem possuidores desse direito, além dos direitos humanos desconhecidos pelo código penal brasileiro; lamentavelmente o pior tipo de escravo é aquele que se julga livre sem sê-lo[4]. O fato mais insidioso é o de seus próprios pares agirem como eficientes capatazes, se revestindo dessa autoridade outorgada por nosso sistema escravagista contemporâneo, provocando pânico entre os familiares dos militares que ali protestavam, resultando num aborto espontâneo em conseqüência dessa infeliz ação realizada pelo Bope. Assim uma vida se perdeu antes mesmo de ter a oportunidade de começar. Não se pode falar em fatalidade, visto que os especialistas do Bope estavam a par daquela situação: foi um assassinato culposo em 2º grau, obviamente sem julgamento e sem réu; apenas vítimas.
Certamente João Cândido e seus companheiros foram ingênuos em acreditarem na decência de seus adversários oligárquicos; mais nos dias de hoje, essa ingenuidade pode ser considerada como uma fenomenal burrice, visto que decência política é uma prosaica fábula pregada por nossa fabulosa constituição fabulista. Ou seja, a hipocrisia é o único fato oficial de fato.
Sérgio Cabral está superando Hermes da Fonseca no quesito insidiosidade aplicada, protegido pela constituição que, igualando a todos, nega a existência da desigualdade; fazendo com que ela exista através de sua própria negação. Portanto, o status de nossa educação precisa manter as Amandas Gurgel imobilizadas, para que nossos bombeiros se reduzam a meros objetos extintores de incêndios e salvadores de incautos nadadores: salvadores da pátria...!!?? só nas novelas eurocêntricas da rede globo.
É notório perceber que a escola que o imperador Sérgio Cabral freqüentou, ministrou-lhe ideologicamente de forma subreptícia o ensino de português e matemática. Esse senhor feudal conta 439 pessoas como algarismos num prosaico quadro estatístico, esquecendo-se das operações básicas e principalmente de compreender as miríades da questão posta; questão essa apresentada não pelos militares, mais por uma sociedade que não se reduz somente a escravocratas nem aos oficiais oligárquicos de outrora. A caneta do imperador não possui a mágica de, numa canetada acompanhada de um carimbaço, resolver esta simples equação complexa.
Volte para a escola Senhor imperador, que nós profissionais da Educação, não nos furtaremos de lhe auxiliar na resolução desse probleminha; também fazemos parte dos 439. Agora vossa excelência talvez possa calcular as probabilidades, sem uso de derivadas, geometria espacial nem da métrica; disso os computadores de sua assessoria já dão conta. Se assim não for, o senhor verá a rima desses três algarismos se impor, não pelo amor, mais pela dor que começou quando aquela criança deixou de viver em conseqüência da bestialidade de um imperador. Não me refiro mais a um governador, mais sim a um matador; matador de criancinhas.


[1] Potemkin; nome do submarino russo onde que se sucedeu um dos mais trágicos levante de marinheiros.
[2] Letra da composição de João Bosco e Aldir Blanc em homenagem ao Almirante Negro João Cândido; canção proibida pela censura democrática brasileira (lembrando que em sua maioria, os censores eram jornalistas).
[3] Um dos muitos Povos que contribuíram para o declínio do império romano.
[4] Goethe; pensador alemão.


sábado, 4 de junho de 2011

Cronos


...Hoje dei um beijo na boca do tempo... Logo pela manhã pus uma cueca verde, coloquei minha calça verde, vesti uma camisa verde... Ao meio dia degustei um delicioso caldo de ervilhas e um chá verdes... À tarde fui visitar minha infância no futuro de uma vida que quase se expirou no meio do nosso presente... Assim... Camuflado de tempo enganei o Deus Cronos entrando na floresta de gentes que partiram... À noite... Fomos pra cama... Sonhamos... Vivemos... Fizemos amor... Morremos... Gozamos... Acordamos... Dei um beijo na boca do Tempo...

domingo, 29 de maio de 2011

A didática pós-moderna e a sistematização do neo-apartheid




Agora qui agenti podemos pegar os peche e tammém os livru; finalmenti nóis podi falá nossa língua di verdade, além da nova ortografia, du purtuguês di Purtugal e da língua formal e informal. A tia qui iscrevel essi livru é mermo çangue bom; ela divia di ganhá o nobréu da paz. Só num intendi purqui’é qui ela qué insiná o qui agenti já sabi...!!!
Passemos agora a linguagem formal; a dominante, certa e “verdadeira” língua do estado brasileiro. Os noticiários fizeram comentários sobre o falecimento de Abdias Nascimento, e o governador do estado do Rio se adiantou a assinar o decreto referente aos 20% de cotas para negros. Assim, pra variar, ele, o governador, conseguiu dividir os holofotes da nota de falecimento fazendo propaganda de sua própria pessoa, tirando proveito da luta de uma vida inteira de mais um negro que lutou em prol da dignidade e dos direitos humanos universais. A reboque desta notícia-propaganda estado também concedeu aos despossuídos o direito de usufruir por um pequeno período de tempo, um espaço público ariano: o bondinho do Pão de Açúcar. A permissão de visitação foi liberada mediante a 50% da taxa cobrada; benefício batizado expetacularmente, com muitas pompas, pelo sugestivo nome de projeto carioquinha. Não é preciso dizer que a felicidade dos despossuídos ficou patente devido ao grande numero de negros e pobres; necessariamente nessa ordem visto a sinonímia dos termos, presentes nesse espaço.
Assim, inteligentemente a argúcia do apartheid só pode ser percebida pela TV, lá no passado distante, no presente da África do Sul. Em nosso país, além da propaganda de inexistência do preconceito lingüístico, não existem quaisquer outros tipo de preconceito; afinal vivemos num paraíso de democracia racial, religiosa, de gênero e correlatos. O fato, passado despercebido, dos indígenas conseguirem a demarcação de seus territórios e a não garantia de autonomia sobre os mesmos é só um mero detalhe sem importância; e o fato dos quilombolas até hoje tentarem uma cota de suas próprias terras, além de uma porcentagem de dignidade, como desejava Abdias, é mais um prosaico detalhe não é caracterizado pela mídia como um fato típico de um país que vive em estado de exceção: Um país onde os poderosos fazem o que bem entendem e os fracos sofrem o que é necessário.
O livro da nova literatura citado no caput desse texto, ilustra com maestria a identidade de nossa pseudodemocracia, pois coloca cada macaco no seu galho, cada qual em seu quadrado nessa sociedade desintegrada e esfacelada pelas oligarquias escudeiras do capitalismo; numa geografia onde o todo sem a parte não é todo, a parte sem o todo não é parte, mas se a parte o faz todo, sendo parte, não se diga que é parte, sendo todo.[1]
Assim é o exercício da cidadania nessa política do neo-apartheid, implantada pelas oligarquias através do estado, que desfigura a nação e a identidade do indivíduo.  Dividir para governar; política tão velha quanto à invenção do capitalismo, que se tornou eficiente por ser um instrumento político largamente utilizado pelo sistema educacional: a hipocrisia. Instrumento esse que vai além dos discursos registrados na mídia; já constam agora renovados nos modernos livros didáticos: é realmente um fato sem precedentes; é a primeira vez que o cinismo é registrado em livro didático sem a necessidade de se passar por inocente.


quinta-feira, 26 de maio de 2011

Caminhos da Memória


Desde o homem sapiens sapiens[1] até a antiguidade, a palavra foi usada como fonte de energia criadora do mundo, de realidades e verdades. Eles tinham na escrita, que se dedicava ao registro e capturam fragmentos ocorridos no espaço-tempo cronologizado pelo mercado, apenas uma pálida fotografia do saber e não o saber em si.
Com o terceiro advento da globalização, conseqüência do capetalismo[2], ela traz em seu bojo a enculturação[3] do paradigma da imagem em alta velocidade como determinante histórico do pós-modernismo. Essa nova sociedade imagética transforma gradativa e progressivamente este indivíduo, de forma Dawinistica.
As sinapses, que revitalizam as células cerebrais fazendo com que nasçam novas centenas diariamente, que substituirão as que se degradam, agora nascem em números insuficientes para suprir esse processo. Visto que o trabalhar com virtual e o assistir TV, têm substituído o processo de produção de sinapses, outrora realizadas pelo cérebro.
Isso faz com que os pedagogos possam compreender o motivo pelo qual um educando se gabe de ter a capacidade de teclar, assistir TV e ouvir música no celular simultaneamente, além de encarar o livro como um elemento extraterrestre e a produção textual como uma forma alienígena de comunicação. Mesmo sendo a literatura uma disciplina, de certo modo, exótica; ela não suscita nenhum questionamento, nenhuma indagação nem interesse por parte do educando.
O individualismo e o egoísmo, como moto-perpétuo do capitalismo, reduziram o indivíduo; circunscrito a si mesmo, ele definha seu pensar e sua persona, fragmentando seu todo; ser coletivo e social, e paradoxalmente buscando por referências e pertencimento. Sua personalidade, em pleno labirinto transfigurou-se numa colcha de retalhos; difusa, entremeadas pela ausência de links e conexões. O cérebro, invadido por milhares de imagens velozes, não têm a oportunidade nem possibilidade de formular quaisquer sinapses que seja. Assim os contos, mitos e fábulas passam a fazer parte de um mundo distante e inalcançável, como as conversas ao redor da mesa de jantar com as vovós e os vovôs; com a família. Agora conversamos pelo computador e falamos com a TV que nem ao menos nos vê.
A vez da fala fica com a TV, enquanto a palavra se dilui com a escrita, que perde sua profundidade, entrelinhas e subtexto, deixando a mensagem soçobrar nas bordas da superfície dessa mesma escrita. Assim a história se perde em suas próprias entrelinhas escrita na memória da enculturação, enquanto a história de vida do indivíduo se embaraça em si mesma esquecendo-se de acontecer, de se realizar, de tornar-se real pela palavra criadora.
Fotografamos no virtual nossa realidade, onde um simples vírus possa vir a destruir, onde qualquer haker possa vir a se apropriar. Assim nossa vida vira cena de quinze minutos de fama num protagonismo ausente de autonomia. Nosso heroísmo virtual se torna resiliente na telinha da TV enquanto a letra morta da escrita deleta o poder da palavra do indivíduo que não vê o que gosta, mas gosta do que vê; não chegando jamais ao status de sujeito, emancipado e protagonista da própria história de vida.



[1] O homem que sabe que sabe.
[2] Grafia do profeta Gentileza.
[3] Influência da sociedade sobre o indivíduo.

terça-feira, 17 de maio de 2011