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quinta-feira, 16 de junho de 2011

Do Hot Black ao soft Blanc



Andar pelo calçadão da praia de Copacabana sempre me provoca profundas e inspiradoras emoções, observando as sinuosidades sensuais das linhas curvas desfilando pelo calçadão da Praia de Copacabana, até me encontrar de volta a solidez da razão ao notar as linhas retas da outeiro do Pão-de-açúcar, que me reportam a geometria dispostas nas construções das grandes pirâmides africanas; percebo então as diversidades de linhas de que a natureza é dotada, delineando histórias e geografias; formando mundos e realidades.   
Essa observação me levou a refletir e viajando da praia de Copa sobre o oceano até chegar a um Porto na Ilha de Gorè[1], no Continente de Ébano; para lembrar a primeira família constituída no mundo; da primeira sociedade, de onde veio a matemática, a medicina, café, sabonete, a arte da navegação, a democracia, o teatro, o princípio da informática, etc.
Foi inevitável deixar de fazer correlação com a formação da família eurocêntrica; constituída por um pai, uma mãe e pelo filho. Uma perfeita trindade; portanto um inquebrantável dogma, uma família em forma de triângulo. Enquanto a família africana tem seu princípio baseado no círculo. Isto é, todos integram a família, fazendo parte dela, desde a tataravó até o primo de terceiro grau.
Ocorreu-me então que é justamente este princípio de circularidade que fundamenta toda a cultura africana, tendo como quesito basilar a oralidade e a corporeidade. Ou seja, a energia[2] criadora presente na palavra é o fator preponderante na construção da própria realidade, que vem interferir no ritmo natural, harmonizando ou desarmonizando a realidade conhecida.
Apesar da existência da escrita, como os adinkras e hieróglifos, o valor da palavra nessa cultura é que carrega todo o potencial criador, sendo considerada dessa forma como um instituto social, juntamente com o próprio corpo que era o portador dessa palavra; Por extensão, o canto e a dança fazem parte desse legado.
Quando a escrita chegou a Europa, os saxões adaptaram-na as necessidades do mercado, iniciando assim o princípio essencial, regente do sistema capital: a competição. Já que o território europeu vivia na idade da pedra. Ou melhor, das trevas, os nobres e clérigos manipularam com astúcia o poder da palavra, aliando-a inteligentemente a escrita: outorgaram-se desse princípio, usando-o para se concederem certificação do manejo da energia da palavra, confeccionando assim os livros sagrados, nos quais segundo, a versão dos detentores do poder da leitura, somente eles teriam o poder de decifrar o idioma do próprio divino, não antes de esquecer-se de registrar tal legitimidade nas linhas desse lucrativo best-seller a fim de oficializar sua credibilidade outorgada: foi o primeiro pulo do gato registrado na história. Esse escritor[3] do divino não parou por ai; ele foi muito mais além, conseguindo subliminar a localização geográfica do jardim do Édem[4], escondendo também nas entrelinhas dessas escrituras, a melanina do primeiro casal habitante do planeta terra. Conseguiu até mudar a nacionalidade de Moisés, o libertador do povo Judeu, nascido na África e casado com uma mulher negra, além de seguidor de todos os preceitos da religião afro. Esse escritor conseguiu registrar que o menino Jesus se escondeu de Herodes lá no Egito; como poderia um menino branco esconder-se logo na África? Isso só seria possível se ele fosse o parente mais próximo de Michael Jackson. Ou seja, esse manipulador da palavra escrita, se apropriou de uma cultura, da cultura negra, para reescrever sua verdade, desautorizando a fonte dessa e verdade, e mais; afirmando ser essa origem uma obra demoníaca, inventando assim uma figura até então inexistente na cultura afro. Assim, de maneira insidiosa, este escritor consegue instaurar, o que é fato corriqueiro na prática dos administradores da T. I. na atualidade, a inversão de valores como prática basilar, determinante nas relações de poder.
Enfim, se na África os Griôts eram os donos da palavra, na Europa os clérigos eram os donos da escrita. Como na cultura saxônica fale o que está escrito, assim como a criação se fez através da palavra, segundo as escrituras; a criação do capitalismo se configurou através da escrita, provocando então a primeira estratificação social da história, patrocinada pela competição desenfreada, promovida na grande inauguração do sistema capital. Assim, com a consolidação do processo de estratificação social, se desenhou a preparação da passagem da idade média para a moderna.  A detenção do poder se limitava a uma minoria de leitores existentes na democracia religiosa medieval saxônica. A escrita tornou-se código de acesso a modernidade, espreitava a porta da civilização européia, como forma unilateral de sustentação das relações de poder.
Essa dicotomia foi a incubadora perfeita na criação das representações sociais estereotipadas e na manutenção dos conceitos e preconceitos geradores de paradigmas e dogmas conferidos pelo processo de enculturação[5] ocidental contemporânea.
Em breves linhas, podemos afirmar que a sociedade moderna se desenvolveu em conseqüência da aliança entre palavra e a escrita. Hoje, nos encontramos numa nova encruzilhada de transformações; mutações essas, proporcionadas pela agudização do processo de glotalização, acirrada pelo capitalismo antropofágico transnacional: a direção dessa mudança reside na força da aliança entre a palavra e a escrita com a Tecnologia da Informação.
Esse advento traz em seu bojo uma incisão profunda, intervindo no processo de enculturação, sendo fator motivador e determinante dessa mudança. Vejamos como se dá o mecanismo desse processo: Sabemos que o ser humano usa uma porcentagem mínima de seu cérebro, e que cotidianamente milhões de células morrem e outros milhões nascem substituindo e repondo a falta das que se extinguiram, num procedimento ascendente/descendente contínuo, de acordo com as etapas de vida do indivíduo. Sabemos também que o processo da produção de sinapses é o que possibilita o renascimento e reposição de novas células. Sendo assim, aferimos a necessidade da memória recorrer a esse expediente para manter-se operante e saudável.
Por outro lado, é patente a percepção de vivermos numa sociedade regida pela imagem e não mais pela palavra, como no mundo antigo. Ou seja, nossas mentes se habituaram a leituras das imagens do cotidiano veiculadas pelas T. I. e registradas na retina e transportada ao encéfalo, mas devido à alta velocidade dessas mesmas imagens, torna-se impraticável ao cérebro, cumprir a função de assimilar todas as nuances apresentadas e contextualizá-las de forma minimamente satisfatória. Sendo assim, a falta dessa contextualização não permite a realizar a devida produção de sinapses, processando tais informações, que deveriam posteriormente se transformar em conhecimento; o que faz com que a memória recrudesça gradativamente, sofrendo contínuas mutações.
Agora o processo cognitivo e epistemológico funcional do cérebro se resume na busca pela resposta certa nas imagens vivas e marcantes veiculadas pela tecnologia da informação, e não mais como outrora, quando o cérebro procurava pela questão, pela pergunta certa em meio a um discurso qualquer, a uma prosaica retórica ou diante de um emaranhado de idéias sofistas.
Assim, instituída a imagem como base social contemporânea, abriu-se uma estrada para uma nova forma de existência, de comportamento e de posturas, modificando o ser social como sujeito pensante e a própria gênese da genética cognitiva humana. Esse processo confirma o individualismo e o egoísmo como instituto essencial e basilar no sustento da existência do capitalismo. É desse modo que o sistema capital orienta os destinos da Polis; destinos determinados pelas imagens subjacentes, postadas pelos detentores das Tecnologias da Informação, assim como os comportamentos, orientados dentro da Cultura Downloads.
Após o advento das grandes navegações explorarem mares bravios, oceanos incógnitos e invadir terras alheias, temos agora que Navegar usando, não mais as velas ao vento para abarcar o desconhecido, mais sim as pastas formatadas no espaço virtual capitaneado pelas Tecnologias da informação. A navegação nesse espaço virtual, a fim de resgatar o princípio ancestral da circularidade, aliado à Tecnologia da Informação, é o caminho que virá proporcionar o equilibrium do ser social no seio dessa nova formatação cultural. Esse processo só pode ser gerido no cultivo do sensus, aplicando passe par tout em torno de todas as cenas veiculadas, circulando o quadro de cada imagem vislumbrada. Só assim seria possível significar a essência do nome “Cam[6]”, traduzido pelos divinos donos da escrita como Negro; resignificando-o como Black.
Na Cultura Download a tríade palavra/escrita/imagem disposta em formato triangular e inserido no centro do círculo, tendo o sujeito como vórtice, traz o homem do triunvirato, registrado pelo artista[7] do renascimento. Este homem se apresenta como um ser em equilibrium, atuante nessa nova sociedade da imagem. Ou seja, como um cidadão em estado pleno.
Esse homem recebe as informações fragmentadas veiculadas pela Cultura Download, contidas nas imagens que são inseridas em altíssimas velocidades na memória, de forma diferente do indivíduo plugado; ele vislumbra que a possibilidade de encontrar realimentação só é possível quando sua memória se vale da escrita para ser credenciada. Ou seja, na produção textual; e sabe que essa produção só pode efetivar-se se sua gênese se der na criatividade gestada pela memória ancestral: Processo esse que se concretiza se for proporcionado pelo princípio da Circularidade, que permite a oxigenação da memória. Oxigenação essa, provocada pelo exercício de produção de sinapses.
Esta é uma prática paradoxal: de reunir as curvas e retas transformando-as em côncavos e convexos; é um aprendizado que possibilita o cidadão Noire deixar de andar na prancha e navegar, para sair da zona virtual, tornando-se um ser real, concretizando-se como sujeito histórico na sociedade que o formatou e estigmatizou como marginal; levando em conta que os dízimos exigidos pela Cultura Download são arrecadados através do exercício passivo da servidão mental voluntariosa; essa é a alternativa da sisa[8] pós-moderna ser renegociada. Provocando assim um equilíbrio relativo na reescrita da história, visto que nessa nova forma de realidade, existe a possibilidade de mudar-se até mesmo o passado; para projetar-se ou modificar futuros.
O expediente de exercitar o questionamento, a fim de se descobrir as perguntas certas, faz do presente um momento atemporal; um lapso no espaço-tempo que se revela como repto às escolhas e tomadas de decisões. Esse exercício, na circularidade ancestral, desenvolve o sensus que provoca a quebra do ritmo hipnótico-indutor da Cultura Download, trazendo o equilibrium ao ser social. Assim as linhas curvas e retas; da geografia, da história e da matemática, serão obras-primas pintadas nas letras poéticas no mapa de reedição da vida.
Assim novamente singraremos outros mares, navegaremos através do oceano virtual, de Angola a Copacabana, da Jamaica a Nova Iguaçu, de Niterói a Jardim Catarina, de Londres a Guaraquicetuba, circulando todas as culturas para concretizar nossa quimera no crepúsculo vespertino de mais uma civilização.


[1] Ilha que servia de entreposto comercial, local onde os Negros seqüestrados eram depositados antes de partir para a América.
[2] Significa Axé na língua yorubá.
[3] São Jerônimo foi o primeiro “tradutor” da bíblia, por esse motivo foi canonizado pelo papa, vivendo o resto de sua vida com um excelente soldo proporcionado pela igreja como agradecimento pelo bom serviço prestado a cúria.
[4] Já que o rio Eufrates se localiza na África, mas precisamente na Etiópia, que é o endereço bíblico do jardim do Édem.
[5] Influência da sociedade sobre o indivíduo.
[6] Que traduzido significa queimado. Se tratando de uma região em que o sol é protagonista... O nome seria tão prosaico como um Silva qualquer o é no Brasil.
[7] Desenho do pintor renascentista Leonardo Da Vinci.
[8] Imposto de 20% cobrado pela coroa sobre cada escravo seqüestrado na África e negociados pelos mercadores no Brasil.



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