Desde o homem sapiens sapiens[1] até a antiguidade, a palavra foi usada como fonte de energia criadora do mundo, de realidades e verdades. Eles tinham na escrita, que se dedicava ao registro e capturam fragmentos ocorridos no espaço-tempo cronologizado pelo mercado, apenas uma pálida fotografia do saber e não o saber em si.
Com o terceiro advento da globalização, conseqüência do capetalismo[2], ela traz em seu bojo a enculturação[3] do paradigma da imagem em alta velocidade como determinante histórico do pós-modernismo. Essa nova sociedade imagética transforma gradativa e progressivamente este indivíduo, de forma Dawinistica.
As sinapses, que revitalizam as células cerebrais fazendo com que nasçam novas centenas diariamente, que substituirão as que se degradam, agora nascem em números insuficientes para suprir esse processo. Visto que o trabalhar com virtual e o assistir TV, têm substituído o processo de produção de sinapses, outrora realizadas pelo cérebro.
Isso faz com que os pedagogos possam compreender o motivo pelo qual um educando se gabe de ter a capacidade de teclar, assistir TV e ouvir música no celular simultaneamente, além de encarar o livro como um elemento extraterrestre e a produção textual como uma forma alienígena de comunicação. Mesmo sendo a literatura uma disciplina, de certo modo, exótica; ela não suscita nenhum questionamento, nenhuma indagação nem interesse por parte do educando.
O individualismo e o egoísmo, como moto-perpétuo do capitalismo, reduziram o indivíduo; circunscrito a si mesmo, ele definha seu pensar e sua persona, fragmentando seu todo; ser coletivo e social, e paradoxalmente buscando por referências e pertencimento. Sua personalidade, em pleno labirinto transfigurou-se numa colcha de retalhos; difusa, entremeadas pela ausência de links e conexões. O cérebro, invadido por milhares de imagens velozes, não têm a oportunidade nem possibilidade de formular quaisquer sinapses que seja. Assim os contos, mitos e fábulas passam a fazer parte de um mundo distante e inalcançável, como as conversas ao redor da mesa de jantar com as vovós e os vovôs; com a família. Agora conversamos pelo computador e falamos com a TV que nem ao menos nos vê.
A vez da fala fica com a TV, enquanto a palavra se dilui com a escrita, que perde sua profundidade, entrelinhas e subtexto, deixando a mensagem soçobrar nas bordas da superfície dessa mesma escrita. Assim a história se perde em suas próprias entrelinhas escrita na memória da enculturação, enquanto a história de vida do indivíduo se embaraça em si mesma esquecendo-se de acontecer, de se realizar, de tornar-se real pela palavra criadora.
Fotografamos no virtual nossa realidade, onde um simples vírus possa vir a destruir, onde qualquer haker possa vir a se apropriar. Assim nossa vida vira cena de quinze minutos de fama num protagonismo ausente de autonomia. Nosso heroísmo virtual se torna resiliente na telinha da TV enquanto a letra morta da escrita deleta o poder da palavra do indivíduo que não vê o que gosta, mas gosta do que vê; não chegando jamais ao status de sujeito, emancipado e protagonista da própria história de vida.
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