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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Quando a Vida é Mais do que Um Filme em Preto e branco

Ainda bem que a vida não é um filme hollywoodiano com final feliz, pois se assim fosse, ela sempre teria final no final. Ou seja, acabou o filme, acabou a vida e tudo mais vai perdendo seu brilho e seu sentido, visto que seria um eterno mais do mesmo. Sendo assim, o que importa não seria o astro vivenciar todas as peripécias e perigos e no final encontrar a vitória, já que ela, a vitória, é tão certa nos finais felizes como o sol e se põe todos os dias e nasce em todas as manhãs. Poderíamos dizer que esta é uma paráfrase do poeta falando sobre a utopia; dizendo que ela, a utopia, não foi feita para ser alcançada, mas sim, para ser cotidianamente perseguida nos levando sempre em direção ao azimute.

Diferente dessa definição relativa a utopia, o filme sempre acaba, e no final, procuramos por outro filme e mais outros filmes; mas os filmes sempre vão acabar e nós vamos sempre procurar por outros filmes; por isso a vida nunca será um filme; Pois se assim fosse, a vida perderia sentido de ser vida. Então o que procuramos não é somente um final feliz, como diria o comovedor filme intitulado “a procura da felicidade”, com final feliz obviamente; visto que procuramos a felicidade não como um final, mas como um meio. Ou seja, um estado de ser e de viver permanentes.

Desse modo, temos duas escolhas: podemos viver buscando a felicidade ou ser feliz. E como qualquer criança, podemos brincar de ser feliz ou viver numa eterna busca da felicidade. Ou seja, viver o filme ou buscar pelo filme de nossa vida. Isso talvez evitasse que tomássemos atitudes insanas, como a de tentar adiantar as cenas da vida que a gente prefere não viver, e passar por esses episódios com o semblante leve de quem conhece o sensacional final desse espetáculo chamado de vida. Dessa maneira, podemos fazer um contrato conosco mesmo, de ter sempre recomeços felizes em vez de Finais Felizes.

De qualquer forma, qualquer final pode ser encarado como recomeço, se contiver a felicidade sem precisar ter motivos. Afinal, é esse sentimento que faz com que a vida tenha seu sentido de vida; já que a vida é o composto de uma endorfina quântica refinada produzida pela ausência do medo de ser feliz.

Transformemos nossas vidas, de um filme preto e branco, para um filme colorido, diverso e includente de outras vidas que se somam e se convertam, com seus mais de 70 tons de pretos, sobre esse planeta azul; tons tão valiosos como a cor do ouro que dorme sobre o solo verde no final do Arco-da-velha que produz e reproduz vidas variadas, variantes e vibrantes em suas sete cores. O espetáculo da vida é nosso, sem pão nem circo para quem protagoniza a si mesmo.

Por isso a vida exige que tenhamos Objetivo como primeiro e último item, para que ela possa ter sentido. Primeiro e último item porque o objetivo em si só não basta, pois no caminho em direção a esse objetivo necessitamos agir de uma forma Fluída, sem a rigidez militar da disciplina espartana, visto que a Flexibilidade vem a seguir como outro item precioso dessa busca, para que tenhamos a certeza de que os tropeços e obstáculos são problemas temporários. Isto é, o problema nunca foi realmente o problema, mas sim, a forma como se lida com tais problemas para que ele deixe de ser problema. Portanto, a Aceitação e a Adaptação a quaisquer momentos desconfortantes, farão com que as nossas forças não sejam minadas pelos dias nublados durante a rota traçada em direção ao objetivo.

Dito isso, devemos ter a percepção de que a vida, sendo feita de tempo, não há razão para se Perder Tempo com questões desgastantes e desnecessárias que não venham somar as possibilidades de se atingir o objetivo previsto; fato este que nos leva a necessidade de ter um Propósito nessa saga em busca do objetivo. Esse caminho ficará bem mais leve e agradável a partir do momento em que deixarmos cair a petulante máscara de juiz de todas as coisas, julgando a tudo e a todos, perdendo tempo e se perdendo no objetivo de vida traçado.

Portanto, a Simplicidade e a Prática aliada ao discurso, são condições sine qua non para que possamos absorver o que há de útil e descartar o que não vem a somar nessa caminhada. Certamente será necessário eliminar o sinistro monstro do Ego, que na verdade nada mais é do que aquilo que mascara o medo travado em nosso peito que nos espreita a todo o momento da vida. Dessa maneira, poderemos enfim protagonizar a nossa história de vida sem medo de ser feliz.

Assim chegaremos ao que Fanon se referia em seu livro Pele Branca Máscara Negra, que decididamente não se tratava da questão referente à Cultura Negra ou quiçá de uma suposta cultura branca; mas sim, tratava da possibilidade de se chegar a uma Cultura Humanista.

Portanto, os pontos destacados acima, como objetivo primeiro e último que condiciona a jornada humana, nada mais é do que a direção apontada para a iniciação na trilha da filosofia Ubuntu, que vem na contramão da nefasta filosofia eurocêntrica dicotomizante de verdades, quando  esta se especializa em fragmentar as mesmas verdades através do maniqueismo instituído por seus mitos fundantes, que transforma a cada Pessoa numa personagem de novela de época ao ditar seus hábitos e atitudes.

São esses mitos fundantes que vestem a humanidade, e que transforma a vida num burlesco baile a fantasia com suas desnecessárias máscaras de ocasião, numa eterna festa que sempre acaba no vazio de uma noite escura, aonde se desenrolam as cenas sinistras da saga de uma vida passada num filme em preto e branco. Quando se chega enfim, ao final do filme, já não é mais possível retomar as partes perdidas no tempo da insensatez na entropia desse tempo vivido sem propósito e objetivo. Ou seja, desprovido de sentido.


Enfim, perceberemos que tais cenas eram dirigidas por terceiros, que ditavam convenientemente as nossas atitudes e decisões em proveito próprio, ao rever o filme de nossa vida passado durante o último suspiro da passagem. Então saberemos que a vida não é um filme, mas sim, uma história; uma história que deveria ser vivida, cantada, contada e recontada de diferentes formas e vozes diversas, sendo revelada como o arco-celeste no pós-tempestade.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

De Pai Africano a Marginal Suburbano.

O ÚNICO DIREITO DO HOMEM como pai e gerador, é a obrigação de pagar a P.A[1]. Isso pelo simples motivo desse pai tratar-se de um homem preto, que foi devidamente subalternizado econômica e socialmente, condição esta trazida pela criminalização da pobreza e pela política oficializada a partir do violento apartheid tupiniquim. Ou seja, ele é culturalmente desprovido social e racialmente; fato este que ocorre com uma insignificante parcela de diferentes etnias.

Esse fato que foi culturalmente banalizado depois de mitificado, como aquele mesmo fato da mulher ser mãe que vem eclipsar a realidade dela ter as mesmas atitudes que esse pai supostamente teria, visto que tratamos aqui de seres humanos. Mas bem sabemos que a realidade de que o discurso do somos todos humanos só se encaixa bem, e é culturalmente melhor aceito, quando se trata da questão racial. Ou seja, quando um negro reivindica a sua negritude frente a um brancalóide qualquer; sendo ele um negro consciente de si e de sua negritude, torna-se dessa  maneira, um chato, visto que a sua percepção do apartheid moderno deixa de ser ocultado pelos discursos manipuladores do cotidiano brancopofágico que continuamente lhe açoita a alma.

Esse direito a não ter direito estipulado pelo homem-evangélico-branco-cis, mais do que legitimar a instituição das hierarquias raciais e de gênero, além de instituir, também estimula a disputa entre os gêneros, ao passo que vai alimentando as outras instituições sagradas dessa competição entre esses mesmos gêneros, em que se tornaram os famigerados institutos sócio-político-cultural do patriarcalismo e do feminismo.

Um dos mecanismos usados para controle e subalternização do homem negro por essa pseudo justiça, chama-se guarda compartilhada, que aparentemente funciona de forma perfeita quando se trata de atender a casais eurocentrados. Visto que neste caso, a demanda é imediatamente solucionada e atendida em todos os seus conformes.

É notório o fato de que vivemos numa conjuntura de criminalização do pobre e da pobreza a partir da formatação de uma sociedade dirigida por People White inescrupulosas que vivem dos lucros de juros e moras produzidos a partir de factoides econômicos criados por banqueiros, imposto por economistas e legitimado pela mídia.

Quem está fora dessa ciranda financeira torna-se refém econômico, jurídico e social. Ou seja, a população que compõe a massa preta brasileira, tornou-se uma massa de manobra servil e dócil nessa caótica conjuntura pós-abolição que transformou liberdade em produto. Sendo assim, a liberdade como princípio humano básico, como um dos produtos do Capitalismo Racial, fez da própria  justiça um produto mercadológico, da mesma forma que a Liberdade, a Fraternidade e a Igualdade eram vendidas ao mundo pela propaganda do imperialismo francês, enquanto os mesmos, em paralelo, legitimavam o infame comércio, o tráfico negreiro, como principal fonte de lucros que os tiraram, como população White, de sua idade Black.

Sendo assim, os juristas White que formataram e praticam a justiça com base em seus hediondos caprichos e em causa própria, indolentemente adornadas com ironias e arrogâncias, assim como seus antepassados nomeavam os navios negreiros; e hoje eles nomeiam as operações-espetáculos da Polícia Federal com a mesma jocosidade e zombaria habitual, enquanto fazem uso dessa massa negra como peças de um jogo divertido onde a arrogância provinda de hierarquias obtusas e abusos despropositados, para confirmar e legitimar a todo o momento, provando e comprovando o poder de controle sobre essa disforme massa desinformada, mal informada e pseudo informada.

Desse modo, o direito a não ter direito é o que resta para um pai preto, produto cultural, reproduzido nesse jogo de Reis, Rainhas e peões que lutam entre si e consigo mesmo, a partir de regras leoninas e feneratícias estipuladas pelos White People que assistem impassíveis ao ranger de dentes e ao verter das lágrimas de sangue que jorram na arena desse circo chamado White Societ.

Esse cenário dantesco é uma paródia burlesca da idade média, numa conjuntura onde o Estado, em uníssono com a religião, representava a nobreza usando os militares para massacrar a população e brincar de deus em nome do próprio deus. 

Quem sempre esteve e continua no extremo da lança desse robótico soldado, esse capitão-do-mato que tortura, humilha e mata, é o homem negro e tudo mais que representar ou lembrar seu domínio como ser fundador da geração humana sobre o planeta terra.

Dos tiros na cara preta das estátuas egípcias dado por Napoleão, as centenas de milhares de corpos pretos sem vida estendidos pelo chão, as P.A. se tornaram um refinado instrumento de tortura que corrói lentamente de dentro para fora o coração, fazendo da vida um exercitar repetido da ação de se jogar uma pá de cal diuturnamente nos sentimentos assassinados a cada dia que o sol se põe, para renascer sua morte em vida na manhã seguinte, e assim, sucessivamente, desde Sísifu[2] a Osíris[3]. Esta é a sina do preto pai que planteia a si próprio em sua casa-túmulo dessa cidade-cemitério sobre o escárnio de um juiz White e a sanha do ódio seletivo culturalmente estabelecido pela mídia ao determinar o  preto como um marginal perfeito.





[1] Preceitua de forma mais explícita, o artigo 1695 do Código Civil: "São devidos os alimentos quando quem os pretende não tem bens suficientes, nem pode prover, pelo seu trabalho, à própria mantença, e aquele, de quem se reclamam, pode fornecê-los, sem desfalque do necessário ao seu sustento".

[2] Era um mestre da malícia e dos truques, segundo a mitologia grega, era o mais esperto e bem sucedido ladrão da Grécia foi também considerado um dos maiores ofensores dos Deuses, quando despertou a fúria de Zeus que enviou Tânatos para leva-lo para o reino subterrâneo, mas Sísifo o enganou, aprisionando a morte, driblando o futuro e impedindo que morresse quem quer que fosse, arrumando assim, uma grande confusão com Hades, o deus da morte; e com Ares, o deus da guerra. Depois de enganar a morte pela segunda vez e morrer de velhice, chegando a eternidade conduzido por Hermes, foi condenado a levar uma pedra de mármore até o cume de uma montanha quando quase chegando ao topo, a pedra rolava até o ponto de partida montanha abaixo.

[3] Filho de Geb, Deusa da terra, e Nut, Deus do céu; Osíris é o Deus da mitologia egípcia, esposo de Ísis, Deusa-mãe do amor e da magia, que gerou a Hórus Deus do céu, formando assim, uma Tríade. Representado pelo Sol, Osíris era o responsável pelo julgamento dos mortos; no Tribunal de Osíris, era pesado o coração dos morto para ver se merecia uma vida além. Após ser morto por seu irmão Seth, passou a ser representado pela lua em seu eterno percurso de morte e ressurreição.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Você sabe o que é REPARAÇÃO...?

REPARAÇÃO foi um conceito criado ao final da guerra dos 30 anos, numa Conferência realizada para procurar promover o ressarcimento do vencedor desse histórico conflito bélico,. Ela foi então concedida para cobrir os danos causados por tal guerra. Desse modo, a REPARAÇÃO foi a maneira pela qual a parte prejudicada por uma contenda bélica exigia como pagamento para recuperar os prejuízos aferidos. Era conhecida como Reparação de guerra.

Poderíamos ilustrar essa situação com mais precisão tendo como exemplo a 1ª grande guerra, quando findo o conflito, os países que deflagraram esses lastimável episódio, foram obrigados a indenizar os países vencedores e os “povos” prejudicados por tais ferozes combates. Mas como haveria de ser, os países responsáveis por tal guerra quebraram após esse pagamento, e desse modo, foi acordado que a Reparação dali por diante não seria mais exclusivamente monetária.

Dessa maneira, na 2ª grande guerra, a Alemanha, Japão, Itália em outros países do Eixo, arcaram com essas REPARAÇÕES, principalmente no que diz respeito ao povo judeu, que decidiram que queriam ter um Estado só deles como forma de Reparação. E assim foi feito, os Norte-americanos resolveram que as terras dos Palestinos confiscadas (roubadas) e doadas como propriedade ao Povo judeu. Por isso, os judeus e EUA são aliados convenientes e estrategicamente eternos. 

Aqui no Brasil, as vitimas da tortura impingida pelos militares durante o golpe de 1964, foram ressarcidos, mas não foram Reparados. Ou seja, existem diferenças categóricas entre Reparação e Indenização. Na Reparação, aquele a ser Reparado decide a forma, de que maneira e como deve ser Reparado pelo Estado Criminoso; diferente daquele que é indenizado, visto que quem decide como e de que forma se dará essa indenização é o Estado criminoso.

Podemos citar também, dando exemplo da forma perversa de agir dos Estados criminosos, o caso dos senhores escravocratas europeus que invadiram o Brasil, que exigiram (e ganharam) indenizações do Estado brasileiro, pelo simples fato de não poderem mais cometer o crime de escravização dos negros sequestrados no continente africano por conta da (falsa) Abolição da Escravatura; O Estado indenizou os escravocratas, fato este que foi registrado numa cláusula que acompanhava a lei-do-ventre-livre, recebendo até a década de 30 quando o governo Getúlio Vargas suspendeu esse pagamento indenizatório as famílias tradicionais que receberiam até hoje, caso não houvesse tal interrupção.

Este ocorrido, surpreendente por sua inversão de valores, como se deu neste caso; visto que a REPARAÇÃO se deu de forma contrária e contraditória, exatamente como o exemplo do Haiti; pois nesse caso, foi o vencedor que reparou o perdedor e não o contrário, o perdedor reparando o vencedor como reza no princípio da Reparação. Desse modo, os algozes é que foram indenizados pelos crimes que cometeram. Ou seja, mesmo perdendo eles ganharam. Aqui no Brasil, por exemplo, foi suis generis: as vítimas desses mesmos crimes transferiram esse legado aos seus descendentes, em forma de pobreza e estigmas racistas, como uma fúnebre herança dos crimes dessa escravização. 

Desde então, o Estado tem garantido a permanência desse dolo através de criação de leis como a de 1850; conhecida Lei da terra que impedia aos africanos e seus descendentes, de terem qualquer possibilidade ou condição legal de acesso a terra. Sem mencionar lei da vadiagem, que permitia, em última instância, que a elite branca aprisionasse e reescravizasse o negro que não tivesse ocupação estipulada como legal pelo Estado, como fazia a marinha do brazill sequestrando os negros sem trabalho ou sem teto para servir literalmente em seus quadros, dai o episódio do Almirante negro[1]. A recente lei do boi, que garantia a Educação gratuita aos filhos do Agronegócio como as cotas brancalóides para os filhos do judiciário que ocorre atualmente, assim como os imigrantes europeus vieram voluntariamente estimulados pelas cotas para brancos oferecidas pelo Estado brasileiro.

Deste modo então, o estigma ao negro se estendeu também a toda a cultura negra, como o samba, a capoeira, a religião e quaisquer manifestações do povo negro, que foram proibidas e desqualificadas, na medida em que o próprio negro foi sendo desumanizado e coisificado através da política da limpeza étnica conhecida como eugenia; política cujo princípio já constou na própria constituição brasileira como hoje consta o ensino religioso como única disciplina obrigatória em nossa atual constituição aprovada em 1988, confeccionada pela elite brasileira representada pelo estado Nacional.

Dessa maneira, nós negros nunca conseguimos nos integrar a sociedade brasileira como cidadãos de fato e de direitos, mesmo sendo o único povo existente no país atualmente, após a ocorrência infame do genocídio dos povos indígenas e a presença maciça dos imigrantes europeus, na tentativa inócua de formar um povo brasileiro branco; formando assim, uma população de imigrantes europeus que hoje comanda a economia de nosso país; enquanto nos fomos alijados de nossa humanidade, invisibilizados e socialmente silenciados.

Os países do mundo em sua maioria, com exceção de EUA e Israel, reconheceram, através da Conferência de Durbam, em 2001, na África do Sul, organizada pela ONU; Organização das Nações Unidas; como responsável pelos crimes de escravidão dos Povos Africanos em seu solo; fato este que o Brazil esconde de seu povo e se silencia diante das resoluções emanadas desse tratado internacional confirmado em Durbam, e mesmo estando de acordo com tais resoluções aprovadas que tipificaram como crimes da história a Escravidão dos Povos Africanos, o Tráfico Negreiro Transatlântico e a Colonização em África e América Latina. Sendo tais crimes imprescritível e inafiançável.

Dessa forma, a REPARAÇÃO é o único caminho para se negociar com esse Estado uni-étnico, de forma que seja possível promover-se minimamente a justiça, para que tal dolo possa vir a Reparar o que ainda é Reparável; pois além de tratar de um crime imprescritível, trata-se também de um Crime Continuado, já que até hoje sofremos todas as consequências provocadas por esse crime; pois é notório que a herança da escravidão para Negros e para brancos está explícita de maneira explícita e clara quando se olha para o morro e para o asfalto, em face a violenta dicotomia social e jurídica estabelecida e banalizada que reserva tratamentos diferenciados dirigido a ambos. Estamos aqui exigindo, além da justiça, através desse processo de Reparação, a nossa história, nossa memória e nossa própria humanidade de volta. REPARAÇÃO JÁ...!!!


[1] Como ficou conhecido o marinheiro João Cândido ao comandar a Revolta da Chibata no Rio de Janeiro.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Brazill: República Federativa do Holocausto Negro

A amputação de nossa história se deu com o sequestro de nossos tataravôs, no continente hoje chamado de África. Essa violência, como um nefasto crime que abalou para sempre toda a humanidade enquanto humanidade, é conhecida de forma eufêmica nos livros didáticos, como TRÁFICO NEGREIRO; também chamado de MERCADO INFAME.

Após esse violento sequestro, fomos torturados, humilhados e jogados num porão fedido de um Navio fantasma, rumo norte, em direção ao inferno branco povoado por santos eurocêntricos que prometia o sofrimento eterno para aquele que fosse portador de uma pele da cor das noites sem lua...

Fomos então depositados atrás de grades ferro, acorrentados e ensanguentados, depois postos em jaulas, inaugurando assim os primeiros zoológicos humanos do planeta, de toda a galáxia e do universo conhecido em todo seu esplendor. Assim enviezadamente imponderados, nos tornaram seres exóticos para sermos exibidos, vendidos, trocados, negociados ou dado de presente e destinado a esse futuro do presente ausente...

Hoje estamos aqui como construtores de uma nação rica e forte, que foi transformada em cárcere, em calabouço; nação transformada na câmara de tortura no holocausto continuado de um povo, nesse genocídio que se iniciou a mais de 500 anos, e que nas escolas é ensinado para nossos filhos como se fosse o capítulo de uma página virada dessa história que se passa em nosso presente; por isso, essa história adulterada e infame supostamente se refere a um povo esquecido, um povo vindo de florestas, um povo que habitava em tribos, sem civilização, um povo historicamente inferior...

Hoje vivemos aqui, exilados no país que nós construímos com nossas próprias mãos; vivemos nos Territórios de Exceção, em campos de concentração, vigiados pelo Estado e seus agentes; esse mesmo Estado que também diz nos representar dizendo que somos livres para continuar cativos ou para continuar sermos escravizados pelos descendentes de nossos sequestradores; Esse Estado nos diz que somos livres para continuar a produzir as riquezas dessas infames famílias chamadas de tradicionais, que sempre usurparam toda a riqueza por nós produzida...
A primeira noite eles vieram e roubaram uma flor de nosso jardim e nós não dissemos nada; a segunda noite eles voltaram, pisaram nas nossas floras e mataram nosso cão e nós novamente não dissemos nada; até que um dia, o mais frágil deles invadiu a nossa casa e roubou a nossa luz, e percebendo o nosso medo, roubou a voz de nossas gargantas. Hoje, mesmo que quiséssemos, já não podemos dizer mais nada...

Por isso eu conto e canto essa história silenciada nos sinistros porões dessa humanidade desumana que desfila na passarela de nossa preta cultura, soltando esse grito que arde no peito; que é o grito de uma raça nobre, é grito de uma raça guerreira, é grito da raça negra, é grito de capoeira...REPARAÇÃO JÁ...!!

Esse grito é para que possamos ver e rever o lamentável episódio do apartheid, não como um fato passado, mas poder observá-lo de modo que possamos recontextualizar-lo, enxergando não somente como um fato dessa página virada de uma história mal contada, mas sim, como um grotesco erro que jamais deva vir a ser repetido na história da humanidade, nesse momento tão caro onde a Colonização Mental tem afetado perversamente a humanidade no mais recôndito do seu ser, sem que enxerguemos os seus nefastos efeitos, que chegam envoltos em vistosos papeis de presente capciosamente concedido pelos habitantes de Troia com seu capitalismo brancopofágico que leva a sua liberdade cativa, surda e cega aos povos do mundo, impondo um saber roubado, adulterado e cheio de adornos em forma de gongóricos códigos. 


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Pele Negra, Máscara Branca

Nos passos dados em direção ao processo de chute ao balde cheio de verdades greco-romana manipuladas, as grafias incisivas de Nietzsche despindo o despudor do cristianismo e o poder das palavras de Fanon retirando as máscaras brancas da cara preta disfarçadas do império feito de cartas jogadas com os blefes dos cerimoniais míticos de Tróia, foram determinantes para vislumbrar o corpo nu do maniqueismo religioso protegido pela máscara dual e dicotômica que separou o ser de sua humanidade.

Fanon precisou sair da Martinica para descobrir sua negritude, uma vez que chegando à França, se descobriu como um negro qualquer vindo da colônia francesa, pois foi exatamente desse modo que os franceses o trataram. Assim ele descobriu qual o requisito único para que uma pessoa pudesse ser considerada ser humano. Dessa forma, ele constata que todo negro, no afã de ser aceito se aliena de si mesmo ao definir essa patologia como Alienação Colonial, ao perceber a impossibilidade do indivíduo em participar e se constituir como sujeito de fato de sua própria história. dentro de suas relações sociais; mesmo tendo consciência dessa alienação e saiba o porquê dela. Sendo assim, não seria o bastante mudar a visão sobre o mundo para deixar de ser alienado, mas sim, seria necessário mudar o mundo.

Desse modo, inferimos que a luta não se resume ao campo das ideias; a luta deve ser prática; pois ele pensa a alienação de maneira objetiva e subjetiva, visto que o ocidente, afirmando o ser humano como razão, transferindo a natureza para o campo da emoção, e como tal, tratando-a como algo a ser dominado e controlado. Os pensadores iluministas, donos da razão, falavam narcisamente deles mesmos, se definindo como humanos a partir de sua religião, de seu Estado, tecnologia, etc. Esse padrão imposto pela violência colonial se faz presente em nosso sistema educacional hoje, que reproduz esse processo adestrando o ser humano dentro da razão eurocêntrica.

Dessa forma, para ser humano é preciso ser branco. Sendo assim, o negro passou a ter a necessidade de se embranquecer de todas as formas possíveis; no comportamento, roupas, relações afetivas, organização, linguagem, etc. para poder alcançar a sua humanidade. Assim, a busca pelo outro é mediada pelo racismo. Mas ao perceber que mesmo assim ele continua a ser negro, a partir do momento em que não é aceito pelo mundo branco, mesmo amando muito esse mundo, ele se volta com raiva contra ele, e o amor se transforma em ódio.

O lado positivo é que esse ódio pode desestabilizar a hegemonia branca; o lado negativo é que nenhuma luta política se faz através do ódio, visto que tal sentimento impede perceber, nesse processo dialético, que o outro também tem coisas que nos pertence. Somos todos sujeitos, e a divisão criada razão/emoção pelo branco é inadmissível: a inversão dos papéis não é a solução. Portanto não se trata da preservação de uma ou de outra cultura, mas sim da percepção de uma cultura humanista. Ou seja, trata-se da libertação do ser humano a partir da recontextualização dessa mesma cultura.

Desse balde chutado, esparrama-se pelo caminho o malcheiroso esterco brancalóide; mas pode ser que exista dai a possibilidade de que, em meio a esse fétido esterco, possa vir a brotar uma perfumada flor de lótus, após esse necessário processo de chutar o balde e mandar a merda o que Narciso chama de mono-espelho e a pele preta possa se mostrar limpa da mancha branca que oprime sua humanidade ao retirar essa máscara de merda.