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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Quando a Vida é Mais do que Um Filme em Preto e branco

Ainda bem que a vida não é um filme hollywoodiano com final feliz, pois se assim fosse, ela sempre teria final no final. Ou seja, acabou o filme, acabou a vida e tudo mais vai perdendo seu brilho e seu sentido, visto que seria um eterno mais do mesmo. Sendo assim, o que importa não seria o astro vivenciar todas as peripécias e perigos e no final encontrar a vitória, já que ela, a vitória, é tão certa nos finais felizes como o sol e se põe todos os dias e nasce em todas as manhãs. Poderíamos dizer que esta é uma paráfrase do poeta falando sobre a utopia; dizendo que ela, a utopia, não foi feita para ser alcançada, mas sim, para ser cotidianamente perseguida nos levando sempre em direção ao azimute.

Diferente dessa definição relativa a utopia, o filme sempre acaba, e no final, procuramos por outro filme e mais outros filmes; mas os filmes sempre vão acabar e nós vamos sempre procurar por outros filmes; por isso a vida nunca será um filme; Pois se assim fosse, a vida perderia sentido de ser vida. Então o que procuramos não é somente um final feliz, como diria o comovedor filme intitulado “a procura da felicidade”, com final feliz obviamente; visto que procuramos a felicidade não como um final, mas como um meio. Ou seja, um estado de ser e de viver permanentes.

Desse modo, temos duas escolhas: podemos viver buscando a felicidade ou ser feliz. E como qualquer criança, podemos brincar de ser feliz ou viver numa eterna busca da felicidade. Ou seja, viver o filme ou buscar pelo filme de nossa vida. Isso talvez evitasse que tomássemos atitudes insanas, como a de tentar adiantar as cenas da vida que a gente prefere não viver, e passar por esses episódios com o semblante leve de quem conhece o sensacional final desse espetáculo chamado de vida. Dessa maneira, podemos fazer um contrato conosco mesmo, de ter sempre recomeços felizes em vez de Finais Felizes.

De qualquer forma, qualquer final pode ser encarado como recomeço, se contiver a felicidade sem precisar ter motivos. Afinal, é esse sentimento que faz com que a vida tenha seu sentido de vida; já que a vida é o composto de uma endorfina quântica refinada produzida pela ausência do medo de ser feliz.

Transformemos nossas vidas, de um filme preto e branco, para um filme colorido, diverso e includente de outras vidas que se somam e se convertam, com seus mais de 70 tons de pretos, sobre esse planeta azul; tons tão valiosos como a cor do ouro que dorme sobre o solo verde no final do Arco-da-velha que produz e reproduz vidas variadas, variantes e vibrantes em suas sete cores. O espetáculo da vida é nosso, sem pão nem circo para quem protagoniza a si mesmo.

Por isso a vida exige que tenhamos Objetivo como primeiro e último item, para que ela possa ter sentido. Primeiro e último item porque o objetivo em si só não basta, pois no caminho em direção a esse objetivo necessitamos agir de uma forma Fluída, sem a rigidez militar da disciplina espartana, visto que a Flexibilidade vem a seguir como outro item precioso dessa busca, para que tenhamos a certeza de que os tropeços e obstáculos são problemas temporários. Isto é, o problema nunca foi realmente o problema, mas sim, a forma como se lida com tais problemas para que ele deixe de ser problema. Portanto, a Aceitação e a Adaptação a quaisquer momentos desconfortantes, farão com que as nossas forças não sejam minadas pelos dias nublados durante a rota traçada em direção ao objetivo.

Dito isso, devemos ter a percepção de que a vida, sendo feita de tempo, não há razão para se Perder Tempo com questões desgastantes e desnecessárias que não venham somar as possibilidades de se atingir o objetivo previsto; fato este que nos leva a necessidade de ter um Propósito nessa saga em busca do objetivo. Esse caminho ficará bem mais leve e agradável a partir do momento em que deixarmos cair a petulante máscara de juiz de todas as coisas, julgando a tudo e a todos, perdendo tempo e se perdendo no objetivo de vida traçado.

Portanto, a Simplicidade e a Prática aliada ao discurso, são condições sine qua non para que possamos absorver o que há de útil e descartar o que não vem a somar nessa caminhada. Certamente será necessário eliminar o sinistro monstro do Ego, que na verdade nada mais é do que aquilo que mascara o medo travado em nosso peito que nos espreita a todo o momento da vida. Dessa maneira, poderemos enfim protagonizar a nossa história de vida sem medo de ser feliz.

Assim chegaremos ao que Fanon se referia em seu livro Pele Branca Máscara Negra, que decididamente não se tratava da questão referente à Cultura Negra ou quiçá de uma suposta cultura branca; mas sim, tratava da possibilidade de se chegar a uma Cultura Humanista.

Portanto, os pontos destacados acima, como objetivo primeiro e último que condiciona a jornada humana, nada mais é do que a direção apontada para a iniciação na trilha da filosofia Ubuntu, que vem na contramão da nefasta filosofia eurocêntrica dicotomizante de verdades, quando  esta se especializa em fragmentar as mesmas verdades através do maniqueismo instituído por seus mitos fundantes, que transforma a cada Pessoa numa personagem de novela de época ao ditar seus hábitos e atitudes.

São esses mitos fundantes que vestem a humanidade, e que transforma a vida num burlesco baile a fantasia com suas desnecessárias máscaras de ocasião, numa eterna festa que sempre acaba no vazio de uma noite escura, aonde se desenrolam as cenas sinistras da saga de uma vida passada num filme em preto e branco. Quando se chega enfim, ao final do filme, já não é mais possível retomar as partes perdidas no tempo da insensatez na entropia desse tempo vivido sem propósito e objetivo. Ou seja, desprovido de sentido.


Enfim, perceberemos que tais cenas eram dirigidas por terceiros, que ditavam convenientemente as nossas atitudes e decisões em proveito próprio, ao rever o filme de nossa vida passado durante o último suspiro da passagem. Então saberemos que a vida não é um filme, mas sim, uma história; uma história que deveria ser vivida, cantada, contada e recontada de diferentes formas e vozes diversas, sendo revelada como o arco-celeste no pós-tempestade.

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