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segunda-feira, 3 de março de 2014

Professores/educadores e a lei 10.639/03: CONTEXTO, PRÁTICAS E DIGRESSÕES.

Havia chegado o grande dia; eram tantos os volumes de coisas a serem feitas naquela repartição desde que a lei instituiu seu funcionamento, que ninguém havia se dado conta de que o dia havia chegado. Era sempre assim naquele lugar confuso e agitado, com a importante missão de registrar e promover as atividades referentes às datas e divulgar a importância das mesmas na organização da Urbi; mais todos gostavam de ali estar e realizando o trabalho confiado, visto que a recompensa era a de poder produzir e o mais importante, receber por isso.

Agora o problema da chefia eleita era resolver essa questão; repentinamente aquele dia havia chegado, e absolutamente ninguém havia se dado conta do calendário que chegou de forma impaciente, trazendo aquela importante data de assalto. Enfim, após pensarem intensamente sobre o problema, resolveram então contratar um profissional e passar a bola para que ele pudesse resolver o imbróglio; assim, com o aval do chefe e o profissional a posto, a solução finalmente é posta: chegou-se a espetacular conclusão óbvia de que seria necessária a contratação de um palestrante que tivesse pleno domínio sobre o assunto em questão; era a única forma possível de encaminhamento; Não vendo outro caminho plausível, o chefe assentiu.

Contratado o ministrante da palestra, um respeitável professor gabaritado para tal, que chegando ao local previsto, no dia previsto e na hora combinada, dirigiu-se ao lugar indicado a procura da organização que não existia, buscando pelo espaço que não havia; desse modo, a chefia que tem solução óbvia para tudo, indicou o único lugar possível para que o evento fosse realizado: o grande e pomposo auditório do hospital Central, que pertencia ao hospício da cidade, justamente na ala destinada a cuidar de dementes, esquizofrênicos e pessoas mentalmente incapazes. 

Sem ter outra opção, o professor dirigiu-se ao local indicado, mais surpreendentemente teve seu ingresso negado pelo curador do espaço em questão, que alegou ser aquele local destinado somente a pessoas com as condições pertinentes e necessárias à sua permanência. Questionado pelo professor sobre as tais condições pertinentes e necessárias, o generoso e gentil curador esclareceu que somente enfermos poderiam ter acesso ao local. Ou seja, para entrar ali, só doente, arrematando bondosamente que tal condição era decididamente irrevogável e inegociável, como previsto na lei em vigor. Sem mais delongas, o professor, num átimo último, solicitou que o curador lhe administrasse um vírus qualquer, afim de que ele pudesse cumprir as exigências pertinentes e necessárias nos termos da lei, e ter finalmente sua entrada franqueada, alegando que viera de muito longe para esse importante advento e que não retornaria sem fazer o que se propusera, custando o que custasse.

O administrador, muito surpreso com tamanho ímpeto, mesmo estranhando bastante tal solicitação, mais por outro lado, para amenizar sua consciência, preferiu pensar que aquele assunto não era de sua conta, logo após verificar que tal solicitação estava dentro da lei e da ordem, aquiesceu às rogativas do mestre. Desse modo, o palestrante infectado contaminou toda a plateia sedenta de saber, que ansiosamente há muito já havia chegado; e finalmente todos puderam ingressar no estabelecimento para ouvir a fala do mestre sobre a importância daquele incrível e tão esperado momento histórico, desde o  advento da lei áurea.

Dessa forma, acometido de uma debilitante doença, assim como toda a sua plateia, ele conduz o fio de sua voz, elucidando a plateia sobre os motivos pelos quais todos os dias 20 eram negros de novembro... Enquanto saudáveis diretores, coordenadores e dirigentes, extremamente ciosos de suas funções, questionavam sobre a validade daquele trabalho aparentemente inútil, após tanto cuidado e preocupação com o processo de preparação, para esse advento de tamanha monta mostrar-se tão desnecessário, chegando de novo a mais uma óbvia conclusão; de ser tudo aquilo uma loucura e um tremendo desperdício com erário público.  

Diante da seriedade exigida pelo assunto, as palavras incompreensíveis do mestre, agora considerado louco, passaram então a serem corrigidas pelos saudáveis dirigentes daquele respeitável hospício urbano. Enfim, após cuidadosa correção e monitoramentos sistemáticos desse ensaio sobre a loucura, foi finalmente possível legitimar a citada Lei; dentro da ordem que norteava o progresso do projeto de normalidade, calçada nos sólidos princípios da justiça e igualdade para todos. 

Desse modo, agora, durante todo o dia 20 de novembro todos devem obedecer às orientações previstas no capítulo do artigo do inciso assinalado no parágrafo do caput desse importantíssimo código, no exercício pleno de uma consciência negra, concorrendo neste dia inteiro para não cometer nenhum ilícito considerado de natureza anormal, contribuindo para a manutenção da lei, da ordem e do progresso; corrigindo dessa maneira uma dívida histórica, além da gravíssima e imperdoável falha do mestre quando ao afirmar que todos os dias são negros de novembro... Sendo assim, dia negro passa a ser anual, durante um dia do mês de Novembro, quando é revogada por 24h a lei de 1850 referentes à ocupação dos espaços públicos ociosos por pessoas de cor, tá gente...!? Contando com a colaboração de todos, não vamos deixar passar esse dia em branco... Enfim, corrigido esse problema, instituímos agora o dia 13 de Maio como exemplo do ideal representativo da República dos Estados Unidos do Brazill... E Deus seja louvado...!!.. Amém...!!????
Ass.: Professor saudável

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O neorracismo e o vento norte que traz a morte...

O Brazil paga, religiosamente até o dia de hoje, salários de deputados e senadores aos eurodescendentes da família imperial portuguesa, enquanto aos afrodescendentes dos impérios africanos dedica o rigor da Lei de terras desde 1850, expulsando sistematicamente moradores negros, só por serem... Negros. além de assassinar em massa povos autóctones em todo o território nacional; tudo dentro da lei e da ordem: lei do cão, lei do silêncio e da chibata.

Enquanto a classe média, descendente de emigrantes italianos, franceses e espanhóis, encontra na mídia colonizadora o seu apoio como pretensa classe social, permanecendo ao largo e torcendo pelos capitães do mato a serviço oligárquico ao mesmo tempo em que fala da simpatia do povo brasileiro que é tão bãozinho, alegre e cordial. tão cordial como o racismo voluntário adotado de forma igualitária, estendendo a todos que sejam dissonante com o padrão dominante.

Portanto, os pseudos-cientistas do mundo inteiro, muito preocupados com esse assunto jurídico importantíssimo, estão de novo as voltas com experiências que possam comprovar o que a "classe" dominante instituiu como lei: a hierarquia das raças. Dessa forma, tentam de novo legitimar o conceito absolutista, propostos pelos pseudos-pensadores iluministas e pela religião que traz de volta o vento norte às portas do povo melanodérmicos de todo o mundo: a aberração conhecida como supremacia branca...

Tendo desse modo,  o neorracismo que hoje grassa de forma inescrupulosa na academia, nos inocentes bancos escolares, na podridão da mídia e na hipocrisia sócio-político-cultural de forma explícita e estúpida, frutos dessa insanidade político-religiosa coisificante, que retira a humanidade da pessoa com melanina acima da tolerância ditada pelos caprichos de um mercador de infâmias sedento e embriagado de mais plenos poderes; a maçã podre do paraíso servida a molho pardo com sangue negro a gosto...

Dessa forma, os assassinatos categóricos acontecem com as bênçãos da igreja, que reza pelo impostor da moral e dos bons costumes que forma e formata a sociedade dos homens de bens. O gueto grita sua voz abafada pela baioneta que corta o ar, cintilando de impunidade a tela da TV, a medida em que enche de orgulho a classe média e a oligarquia reinantes e sedentas de serem alguma coisa, além do insignificante nada absoluto que representam tão bem.

Que venham os novos atos institucionais, decretos secretos, balas e cassetetes, que tentem amansar a raça que não amolece. Que venha o vento norte tupiniquim devastando a seara que há em ti e em mim... Nossa semente há de permanecer deitada por sobre a terra, sobrevivendo, para a seu tempo eclodir e sua história ocultada revelar, fazendo neste seu devido tempo que o tribunal possa se instaurar e o que se perdeu  se resgatar; então há de se ver a anistia Internacional da oligarquia irracional, render-se ao que nunca fica oculto e que sempre há de se mostrar.





terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Passaporte para blitz da Kran

O caso da professora do curso de biblioteconomia da UFF, em Niterói, Rio de Janeiro, que submeteu a turma a uma avaliação, afirmando a inferioridade do negro a partir de um texto intitulado “Provas científicas da inferioridade do negro”, é mais uma tentativa infeliz de fazer o negro passar a vida em branco. Lamentavelmente, a academia a qual ela faz parte, apoiou sua conduta em gênero, número e grau, o é de se esperar dessas atuais Instituições, que a exemplo desta Universidade propaga a branquitude como valor pétreo.

O mais agravante e que estamos falando de um lugar que produz conhecimento, e que agora passa a reproduzir, transmitindo como verdade, as vicissitudes e preconceitos desumanizadores e desumanizantes, legitimando as diferenças, de modo a provocar e confirmar as atuais estratificações sociais. Esta aberração cognitiva, uma vez justificada, sendo apresentado como verdade pela academia, uma vez transformado paradigma, vem corroborar as torturas e os assassinatos categóricos contemporâneos contra a população melanodérmica.

O silêncio da reitoria, a respeito desse melancólico incidente, mostra a cumplicidade e a covardia por parte daqueles que estão diretamente envolvidos no contexto. Lamentavelmente essa naturalização do racismo, que vem sendo motivo de apologia e proselitismo promovidos pela mídia, aponta pela segunda vez, para a formação e eclosão de uma inevitável zona de conflito racial de grandes proporções no Brazill, que possui a segunda maior população negra do mundo depois da Nigéria.

O eco dessa indignação até o presente vem sendo sufocado pela mídia, que vem justificando esse crime evocando o direito a livre expressão; assim como os juízes que julgam tais casos, que são formados por essas mesmas instituições. Desse modo, eles juntam-se aos historiadores que se calam diante do silêncio historiológico da saga do povo negro, silenciando as vozes que clamam, desde sua escravização. Eles eufemisticamente legitimam esse aviltamento, sugerido e legitimado por suas tendenciosas pesquisas, ensinando a nossos filhos que fomos “trazidos da África”.


Conceder carta branca a um Negro como passaporte para que ele passe a vida em branco, é o que acena o quadro branco da educação dos valores oficializados pela branquitude, desde que a hipocrisia tornou-se o principal valor humano possível para se viver nessa sociedade volátil e carente de quaisquer tipos de valores humanos, e de direitos humanos. Desse modo, a arena posta e o mercado do pão e circo a todo vapor, vamos viver juntos nosso inferno cotidiano na terra, aceitando e tomando parte nele para não poder enxergá-lo ou arriscando-se a aprender a reconhecê-lo, buscando uma boa semente em meio ao lodo, e cuidando para que ela floresça e dê frutos, transformando finalmente nosso inferno paraíso a cada semente cuidada.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Azul da Cor do Amar



Numa sociedade onde existe, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma gama de arco-íris para representar e traduzir a diversidade do chamamos de raças, nossos filhos ainda aprendem na escola que a cor rosa representa a cor da pele. Paira no ar o detalhe de uma questão que não quer se calar: pele de quem ou de que esse pueril lápis cor-de-rosa representa..!?? A cor ditada pelo ditador transformou esse simpático lápis num criminoso inquisidor, fazendo dele um eficaz instrumento torturador.

Da infância a adolescência a mulher negra atura uma horda de assombrosos objetos que a tortura, como o perigoso pente e o espelho impertinente, que ameaçam os rebeldes, encaracolados e encrespados por todos os lados. Objetos de crucificação a serviço da branquidão, que ameaçam e coagem incrementes as rainhas do bronze dos reinos melanodérmicos de todo o mundo.

Do atroz lápis cor-de-rosa ao cruel pente fino que lhe penteia, há uma clássica fábrica de importadas maldades requintadas, que impõe a aparência eurocêntrica obrigatória, assimilada na escola de fala emancipatória e prática inquisitória. Desse modo, cabelos e pele pretos de pretas são precipitados no precipício do caldeirão da branquidão, sobre as bênçãos da religião.

Do mesmo modo, o discurso da miscigenação ganha razão no plano dos sentimentos sem lamentos, dos que acreditam na graça de uma única raça: a humana que dessa fala emana. Portanto, os preconceitos são desfeitos, com efeito, alisando-se as mechas, enquanto o mundo fica perfeito despois de pintados com lápis cor-de-rosa sobre o papel pardo embranquecido, sem sequer esperar ser esquecido que a pena preta grafou a áurea lei rosa, determinando a doação de almas brancas às Negras Rainhas que se escondem nas Senzalas pós-modernas, cercadas de objetos abjetos, sobre o comando do terrível e temido general espelho, espelho seu... Que reflete o Rosa de menina e o Azul de menino como matéria de ensino...

Assim, a história escrita na memória é refletida invertida e empedernida ante os negros olhos azuis bronzeados e marejados de uma dor incolor trazida na alma durante a travessia do Meio, o mar azul, numa eterna e cordial festa sem rodeio, onde só o euro-indivíduo se divertia nessa equestre festa a fantasia, montando corcel negro todo dia... Eu também quero um mundo todo Azul; Azul da cor do Amar... Quando esse espelho d’agua refletir na minha íris, ao olhar meu arco-da-chuva cutâneo, todas as cores que o mar ajuizar como igual a todos os únicos...

"Suportar toda aquela dor, literalmente queimar minha carne só para fazer com que meus cabelos ficassem parecendo com os de um branco. Eu me juntava à multidão de homens e mulheres negras que sofreram uma lavagem cerebral tão grande até acreditarem que os negros são inferiores – e os brancos superiores – e que devem até mesmo violar e mutilar os corpos que Deus criou para tentar parecer 'bonitos' pelos padrões dos brancos. Assim como para qualquer mulher negra, digo ao homem negro que se dessem ao cérebro em sua cabeça só a metade da atenção que dão aos seus cabelos, estariam mil vezes mais humanos." (MALCOLM X)



segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Da palavra falada: depois de matar a jiboia, o verbo se fez carne...



Apocatastasis, tese especulado por Orígenes, influenciado obviamente pela filosofia da Terra dos pretos[1]. Aliás, como as maiorias dos pensadores gregos assim o foram; foi convenientemente recusada pela igreja, visto que essa mesma Tese pregava a admissão de todas as almas no paraíso; remete-nos ao princípio do começo de todas as coisas, quando a palavra construtora do mundo, com todo o seu potencial de infinitas possibilidades como também as de destruir, de desconstruir ou de reconstruir, inicia sua função de comunicar esse mesmo mundo.

O narrador da gênese trás o mundo na sua fala, na forma de comunicação que é a narrativa. Apesar da invenção do romance, essa outra conhecida forma de comunicação, expulsar a companhia do narrador, individualizando e isolando o leitor, visto que ele, o romance, já chega com todas as devidas explicações muito bem formatadas. É certo que, mesmo lendo uma narrativa, o leitor estará sempre em companhia do narrador, enquanto o romance como ato solitário, reduz o leitor ao ato passivo análogo uma buena dicha, uma bula ou simplesmente a uma educação sentimental.

Na contemporaneidade a forma mais equivocada, preocupante e agravante de comunicação, tem sido a informação. Sabendo-se que as experiências não são comunicáveis, ela; a informação, nega e impede ao indivíduo a possuir suas próprias vivências. Portanto, o narrador tornou-se um personagem démodé e as comunidades de ouvinte estão progressivamente se extinguindo.

Segundo Walter Beijamim, atualmente não se cultiva o que não se pode abreviar. Para ilustrar sua fala ele cita que “o tédio é o pássaro dos sonhos que choca os ovos da experiência”. Sendo assim, temos presenciado o tempo, essa preciosa partícula de subjetividade preso aos ponteiros dos relógios da modernidade, paradoxalmente circular sobre o próprio eixo, coroando cada ato de uma vida, na medida em que a constitui com o tempo de uma história vivida na ausência das vivências.

As citações nos trazem a reminiscência da riqueza dos provérbios, que nas palavras de Beijamim... ”São ruínas de antigas narrativas nas quais a moral da história abraça um acontecimento como a hera abraça o muro”.

Analisando mais de perto a linguagem, segundo Bakhtim, ela está relacionada ao contexto da fala e a relação falante/ouvindo, se afinando com o momento histórico, sendo ela fundamentada por fatores sociológicos. Essa fala, signo ideológico por natureza, é a ponte entre mim e o outro, dentro de suas variantes, suas variáveis e variedades.

Mas segundo nosso finado Manoel Rui, escritor angolano, a escrita é uma coisa, e o saber é outra. A escrita é a fotografia do saber, mas não o saber em si. O saber é uma luz que existe no homem. A herança de tudo aquilo que nossos ancestrais vieram a conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos transmitiram, assim como o Baobá já existe em potencial em sua semente.

Com a morte da narrativa e a extinção dos ouvintes, precipitado pelas tecnologias de comunicação e informação, o indivíduo vive nos recônditos labirintos da virtualidade, sem contato com sua história e com a realidade circundante. Sua sede de irrealidades se renova a cada nova informação, se retroalimentando do vazio deixado pelos hiatos indolentes nas sublinhas das notícias. Desse modo, o niilismo se apresenta como a única esperança aos fins dos dias que repetidamente se anunciam.

Sendo assim, a herança ancestral noticia seu velório, convocando o novo bom cidadão a participar das solenidades de seu anunciado hepistemicídio. O educador: professor e contador da história, se prostra em respeitoso silêncio ante esse cortejo fúnebre da oralidade, da corporeidade, da ancestralidade, da energia vital e da musicalidade da palavra falada: Último baluarte dos valores da existência, persistência e resistência do texto falado, ouvido e visto, mantenedores da vida vivida e vívida.

A nova forma de linguagem vem desconstruindo a ponte entre o mim e o outro, cortando o fio entre o real e o virtual. Uma vez cortado esse fio, é decretado o óbito do silêncio que fala a língua subjetiva do tempo; Do Tempo vivido de vivências pulsantes, impulsionadas através das veias no corpo do discurso da vida transmitida aos genes dos viventes, nas partículas desse barulhento silêncio onde jaz o final dos tempos: um velho mundo que morre entoando o Amazing grace[2], para dar vez ao novo mundo do controle das subjetividades, que formata realidades, comandando verdades e mentiras num simples toque na tela total do indivíduo expectativo.

Segundo a poesia do poeta conhecido, a partícula da palavra gira onde os corpos deixam espaço; assim, seria necessário um longo caminhar e cantar para aprender sempre uma nova lição... Se as professoras dessem aulas nuas, as de história, por sua vez alunas e alunos também nus, assimilassem o que a história nos roubou, a celebração do corpo e do espírito assim recolocados permitiriam a nossos jovens a experiência dos ferozes Tupinambás...

Apocatastasis, tese especulado por Orígenes, está novamente na berlinda nesse mundo governado pela informação, na medida em que lacra a porta à palavra falada, ouvida e vista, tal como a serpente que, com o dom da palavra, apresenta a tecla Enter como algo Mágico, Poderoso e Salvador, abrindo o maravilhoso, surpreendente e nefasto mundo do Minotauro.

Desse modo, a real realidade é que se metamorfoseia no monstro no labirinto dos sete mares, se apresentando como algo pavoroso ao neófito, instalando a autofobia e a mixofobia como companhia virtual que o protege desse perigoso mundo real, onde tudo é mal, perverso e sem sentido; diferentemente da realidade da informação, onde ações são resolvidas e devidamente formatadas pelo editor. Portanto a vida virtual, como prometera a jiboia, é perfeita, completa e sem maiores surpresas.

A despeito de poder parecer estarmos num planeta extra mundo, quando encontramos esse neófito pelas ruas da cidade falando sozinho, só destoando de um deficiente mental pelos plugues ligado aos ouvidos e a um pequeno aparelho comunicador acoplado em alguma parte do corpo, tal como um doente terminal que tem sua vida sustentada através de aparelhos; este mundo virtual perpassado pelo mundo de realidades tem provocado uma variedade de hecatombes psíquicas, conflitando fantasmas e encarnados na medida em que o médium; Ou seja, o narrador, emudeceu, não por vontade própria, se bem assim o desejasse, mas porque seu código de linguagem não suporta a senha de acesso ao labirinto do novo humano que voluntariamente se desumanizou para satisfazer-se com a adrenalina da aventurosa vertigem. Vertigem essa provocada pelo excesso de informação, aplicado na veia do discurso que sustenta sua nova vida.

Como aquele doente terminal que sai do estado de coma quarenta anos após seu incidente no paraíso, e percebe que sua vida passou pelo ralo das experiências não vividas. Ele então inicializa o processo de arrepender-se por tudo aquilo que deixou de fazer e finalmente, salvando o documento, se converte a palavra, no bom sentido, é claro...!! Voltando a perceber o mundo a sua volta, imprimindo o potencial das possibilidades no cerne da ação e da real transformação. Entendendo assim a importância do fazer, do viver e protagonizar sua própria história inserindo-se efetivamente nela. A redenção do verbo falado, ouvido e visto ressuscita dos mortos em pleno velório da morte anunciada, e o hepistemicídio encontra-se finalmente contido nas barras da equidade.

Promotores da justiça ou informantes da informação..!?? Ser e não Ser..!?? Ser ou não Ser..!?? Quando decidirmos pelo uso ou dos sentidos em todas as suas devidas extensões no lugar das indolentes teclas digitais, discerniremos os mundos e as realidades circundantes, podendo finalmente fazer eclodir safras de narradores e comunidades de ouvintes até nas Vias das virtualidades, retornando assim, ao Apocatastasis. Corpo, alma e espírito recolocados na realidade de sua energia vital circundante e circulante, dentro da musicalidade da palavra que produz, reproduz e traduz toda a beleza da natureza, dos mistérios de ser humano e do Ser humano: ... E o verbo novamente se faz carne...


[1] África
[2] Poesia escrita por John Newton, capitão de navio negreiro por ocasião em que se tornou pastor evangélico e musicado por um escravizado sem nome, sobrenome ou religião; um negro anônimo como qualquer outro negro.




Streap tease tupinambá

A arte de vestir as ideias com palavras, não com as roupas da moda, mas sim, com aquelas que lhe caem bem, é um exercício de precisão permanente da concretividade criativa; tão preciso como toda mulher é uma mãe e toda princesa é uma mulher.

Afinal, pra uma mulher ser mãe, não importa seu estado civil, sua idade ou o fato dela ter ou não parido, basta que ela olhe para uma criança para sentir-se como tal; esse é o requisito primeiro, que prescindi a todos os pré-requisitos padronizados pela cultura ocidental. Portanto, basta ser mulher para sentir-se mãe, similar a todo homem, para que ele seja pai. Ou seja, naturalmente é necessário sentir para ser, como comprovam há todos os instantes, os fatos do cotidiano, a revelar tantos que são sem nada ser.

A monocultura reinante. instituindo e impondo os seus pseudos conceitos e representações como verdade única, olvidando todas e quaisquer diferenças, quando desqualifica o diferente rotulando-o como sendo inferior, quando esse diferente é seu próprio espelho. Portanto, um incômodo a ser removido do caminho.

Deste modo, estou despindo aqui minhas palavras, para poder trajá-las com roupas descaradamente mais íntimas, para desfilar nas passarelas ágrafas da vida preta calada nos porões das desigualdades instituídas pela hipocrisia; modelito oficial do poder instituído.

Minhas Palavras nuas, vestidas somente de Ideias de igualdade, de fraternidade e de liberdade sumárias, adornadas por ideais descarados e sem vergonha de ser, são fatos sem volta, sem freio e sem trava, mesmo que fuzis tentem vociferar o contrário, calando momentaneamente uma voz aqui, enquanto progressivamente outra se levanta ali, nesse desfile sem vergonha de palavras abusadas e provocantes diante da infâmia que assola os corações e mentes carentes, dessa clientela consumidora de poder sem pudor, e sem poder: que pensam que são sem o ser.


Mesmos que tais ideias sejam cobertas por tarjas pretas e embaladas a seguir em sacos pretos, seu odor se fará sentir aos quatro cantos; onde houver olhos de ver e ouvidos que não olvidem; o cheiro da memória nas palavras vestidas de ideias e de ideais exalarão, como o vírus que produz o anticorpo, indecentemente contido desde a primeira letra maiúscula até o ponto final: Decifra-me ou te devoro...!!