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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Da palavra falada: depois de matar a jiboia, o verbo se fez carne...



Apocatastasis, tese especulado por Orígenes, influenciado obviamente pela filosofia da Terra dos pretos[1]. Aliás, como as maiorias dos pensadores gregos assim o foram; foi convenientemente recusada pela igreja, visto que essa mesma Tese pregava a admissão de todas as almas no paraíso; remete-nos ao princípio do começo de todas as coisas, quando a palavra construtora do mundo, com todo o seu potencial de infinitas possibilidades como também as de destruir, de desconstruir ou de reconstruir, inicia sua função de comunicar esse mesmo mundo.

O narrador da gênese trás o mundo na sua fala, na forma de comunicação que é a narrativa. Apesar da invenção do romance, essa outra conhecida forma de comunicação, expulsar a companhia do narrador, individualizando e isolando o leitor, visto que ele, o romance, já chega com todas as devidas explicações muito bem formatadas. É certo que, mesmo lendo uma narrativa, o leitor estará sempre em companhia do narrador, enquanto o romance como ato solitário, reduz o leitor ao ato passivo análogo uma buena dicha, uma bula ou simplesmente a uma educação sentimental.

Na contemporaneidade a forma mais equivocada, preocupante e agravante de comunicação, tem sido a informação. Sabendo-se que as experiências não são comunicáveis, ela; a informação, nega e impede ao indivíduo a possuir suas próprias vivências. Portanto, o narrador tornou-se um personagem démodé e as comunidades de ouvinte estão progressivamente se extinguindo.

Segundo Walter Beijamim, atualmente não se cultiva o que não se pode abreviar. Para ilustrar sua fala ele cita que “o tédio é o pássaro dos sonhos que choca os ovos da experiência”. Sendo assim, temos presenciado o tempo, essa preciosa partícula de subjetividade preso aos ponteiros dos relógios da modernidade, paradoxalmente circular sobre o próprio eixo, coroando cada ato de uma vida, na medida em que a constitui com o tempo de uma história vivida na ausência das vivências.

As citações nos trazem a reminiscência da riqueza dos provérbios, que nas palavras de Beijamim... ”São ruínas de antigas narrativas nas quais a moral da história abraça um acontecimento como a hera abraça o muro”.

Analisando mais de perto a linguagem, segundo Bakhtim, ela está relacionada ao contexto da fala e a relação falante/ouvindo, se afinando com o momento histórico, sendo ela fundamentada por fatores sociológicos. Essa fala, signo ideológico por natureza, é a ponte entre mim e o outro, dentro de suas variantes, suas variáveis e variedades.

Mas segundo nosso finado Manoel Rui, escritor angolano, a escrita é uma coisa, e o saber é outra. A escrita é a fotografia do saber, mas não o saber em si. O saber é uma luz que existe no homem. A herança de tudo aquilo que nossos ancestrais vieram a conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos transmitiram, assim como o Baobá já existe em potencial em sua semente.

Com a morte da narrativa e a extinção dos ouvintes, precipitado pelas tecnologias de comunicação e informação, o indivíduo vive nos recônditos labirintos da virtualidade, sem contato com sua história e com a realidade circundante. Sua sede de irrealidades se renova a cada nova informação, se retroalimentando do vazio deixado pelos hiatos indolentes nas sublinhas das notícias. Desse modo, o niilismo se apresenta como a única esperança aos fins dos dias que repetidamente se anunciam.

Sendo assim, a herança ancestral noticia seu velório, convocando o novo bom cidadão a participar das solenidades de seu anunciado hepistemicídio. O educador: professor e contador da história, se prostra em respeitoso silêncio ante esse cortejo fúnebre da oralidade, da corporeidade, da ancestralidade, da energia vital e da musicalidade da palavra falada: Último baluarte dos valores da existência, persistência e resistência do texto falado, ouvido e visto, mantenedores da vida vivida e vívida.

A nova forma de linguagem vem desconstruindo a ponte entre o mim e o outro, cortando o fio entre o real e o virtual. Uma vez cortado esse fio, é decretado o óbito do silêncio que fala a língua subjetiva do tempo; Do Tempo vivido de vivências pulsantes, impulsionadas através das veias no corpo do discurso da vida transmitida aos genes dos viventes, nas partículas desse barulhento silêncio onde jaz o final dos tempos: um velho mundo que morre entoando o Amazing grace[2], para dar vez ao novo mundo do controle das subjetividades, que formata realidades, comandando verdades e mentiras num simples toque na tela total do indivíduo expectativo.

Segundo a poesia do poeta conhecido, a partícula da palavra gira onde os corpos deixam espaço; assim, seria necessário um longo caminhar e cantar para aprender sempre uma nova lição... Se as professoras dessem aulas nuas, as de história, por sua vez alunas e alunos também nus, assimilassem o que a história nos roubou, a celebração do corpo e do espírito assim recolocados permitiriam a nossos jovens a experiência dos ferozes Tupinambás...

Apocatastasis, tese especulado por Orígenes, está novamente na berlinda nesse mundo governado pela informação, na medida em que lacra a porta à palavra falada, ouvida e vista, tal como a serpente que, com o dom da palavra, apresenta a tecla Enter como algo Mágico, Poderoso e Salvador, abrindo o maravilhoso, surpreendente e nefasto mundo do Minotauro.

Desse modo, a real realidade é que se metamorfoseia no monstro no labirinto dos sete mares, se apresentando como algo pavoroso ao neófito, instalando a autofobia e a mixofobia como companhia virtual que o protege desse perigoso mundo real, onde tudo é mal, perverso e sem sentido; diferentemente da realidade da informação, onde ações são resolvidas e devidamente formatadas pelo editor. Portanto a vida virtual, como prometera a jiboia, é perfeita, completa e sem maiores surpresas.

A despeito de poder parecer estarmos num planeta extra mundo, quando encontramos esse neófito pelas ruas da cidade falando sozinho, só destoando de um deficiente mental pelos plugues ligado aos ouvidos e a um pequeno aparelho comunicador acoplado em alguma parte do corpo, tal como um doente terminal que tem sua vida sustentada através de aparelhos; este mundo virtual perpassado pelo mundo de realidades tem provocado uma variedade de hecatombes psíquicas, conflitando fantasmas e encarnados na medida em que o médium; Ou seja, o narrador, emudeceu, não por vontade própria, se bem assim o desejasse, mas porque seu código de linguagem não suporta a senha de acesso ao labirinto do novo humano que voluntariamente se desumanizou para satisfazer-se com a adrenalina da aventurosa vertigem. Vertigem essa provocada pelo excesso de informação, aplicado na veia do discurso que sustenta sua nova vida.

Como aquele doente terminal que sai do estado de coma quarenta anos após seu incidente no paraíso, e percebe que sua vida passou pelo ralo das experiências não vividas. Ele então inicializa o processo de arrepender-se por tudo aquilo que deixou de fazer e finalmente, salvando o documento, se converte a palavra, no bom sentido, é claro...!! Voltando a perceber o mundo a sua volta, imprimindo o potencial das possibilidades no cerne da ação e da real transformação. Entendendo assim a importância do fazer, do viver e protagonizar sua própria história inserindo-se efetivamente nela. A redenção do verbo falado, ouvido e visto ressuscita dos mortos em pleno velório da morte anunciada, e o hepistemicídio encontra-se finalmente contido nas barras da equidade.

Promotores da justiça ou informantes da informação..!?? Ser e não Ser..!?? Ser ou não Ser..!?? Quando decidirmos pelo uso ou dos sentidos em todas as suas devidas extensões no lugar das indolentes teclas digitais, discerniremos os mundos e as realidades circundantes, podendo finalmente fazer eclodir safras de narradores e comunidades de ouvintes até nas Vias das virtualidades, retornando assim, ao Apocatastasis. Corpo, alma e espírito recolocados na realidade de sua energia vital circundante e circulante, dentro da musicalidade da palavra que produz, reproduz e traduz toda a beleza da natureza, dos mistérios de ser humano e do Ser humano: ... E o verbo novamente se faz carne...


[1] África
[2] Poesia escrita por John Newton, capitão de navio negreiro por ocasião em que se tornou pastor evangélico e musicado por um escravizado sem nome, sobrenome ou religião; um negro anônimo como qualquer outro negro.




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