
Falemos de amor: desse maravilhoso sentimento que move as pessoas e que, assim como sexo, deveria também mover o mundo.
Primeiro, vamos tratar do amor romântico; que é o amor idealizado
por nós, que somos orientados e produzidos pela cultura ocidental. Nesse caso,
analisando com mais perspicácia essa forma comum de se sentir o amor e
de procurar amar, e observando mais detalhadamente o que essa forma de amar
tem resultado e tem provocado em nossa sociedade, chegaremos inevitavelmente a conclusão de que
esse amor não é coisa de Deus, mas sim, do Diabo; pois é um amor que faz
sofrer, leva a depressão, até mesmo ao suicídio e ao homicídio; visto ser um
amor egoísta, centralizador, monopolizador e que visa o total controle do sentir do outro, como se o outro fosse aquele brinquedo dos tempos de infância que, quando não mais satisfazia a vontade ou que não suscitasse mais a curiosidade, era colocado de lado, e assim, buscávamos outros brinquedos para continuar a aventura de crescer.
Este é um amor aprisionado
em si, acorrentado por laços que enforca e mina o relacionamento. Um amor em
que a doação de si requer sempre um retorno; pede paga; compensação; um amor que tem
preço; tornando a relação, que se mantém nesses fundamentos, uma simples troca
de interesses e raramente numa parceria e cumplicidade entre as partes.
Sendo assim, essa forma de amar, acaba por transformar-se numa relação que leva ao sofrimento, aprisionamento e a depressão; é uma
relação que está fadada ao fracasso ou adoecimento da pessoa na sua humanidade,
uma vez que ela se agride, ao mesmo tempo em que cria mecanismo de tolerância a
esta autoagressão, e convive nesse estado patológico sem perceber-se doente;
doente de amor, do amor que mata e pelo qual se mata.
O sentido do amor, que os Povos africanos conceituam
como uma travessia pela vida, admite
a poligenia justamente por não definir como contrato as amarras entre dois seres, mas
sim, a cumplicidade entre os seres. Ou seja, temos a escolha de
atravessar a vida com quem nos faz bem, e o fazer bem não é exclusividade nem
monopólio desta ou daquela pessoa; o que vai estabelecer esse rito é o grau de
cumplicidade e parceria com quem se encontra pelo caminho a ser percorrido; partindo
do princípio de que o Amor é bom, não quer o mal, não é egoísta, nem vaidoso.
Desse modo, a invenção do amor
ideal, recomendado pelo romantismo europeu, mais um produto nefasto da idade média, poderia ser
definido na verdade, como uma maldição diabólica, utopicamente disfarçado de
divino, já que ele provoca a distopia[1]
e o duplipensamento[2]
levando a um viver e conviver heterônimo[3].
Da auto percepção dessa doença
amorosa, até um tratamento
apropriado de acordo com a gravidade romântica adquirida, o processo exige uma revolucionária transformação interna na percepção dessa realidade que nos cerca, além da percepção e definição de si mesmo como criador e criatura dessa mesma realidade. Ou seja, perceber-se como caminhante que faz seu próprio caminho e seu caminhar.
apropriado de acordo com a gravidade romântica adquirida, o processo exige uma revolucionária transformação interna na percepção dessa realidade que nos cerca, além da percepção e definição de si mesmo como criador e criatura dessa mesma realidade. Ou seja, perceber-se como caminhante que faz seu próprio caminho e seu caminhar.
Escolhemos então, fazer essa
travessia pela vida, acompanhados com esta ou aquela pessoa, com estas ou aquelas
pessoas, ou não. Sem as artificialidades românticas das fixas barras de validade dos tons de cinzas numerados, industrializados
e transgênicos europeizados, pois nos tons do amor-travessia
são inclassificáveis as miríades dos tons de todas as cores.
[1] Distopia (dis/ruim, topia/lugar) antônimo
de Utopia (lugar bom).
[2] Do
livro de George Orwell, termo que admite duas crenças opostas ao mesmo tempo,
acreditando que ambas são verdadeiras.
[3]
Heteromia: submissão, obediência, aceitação de leis e regras que não são nossas,
mas que reconhecemos como válidas para orientar nossos valores e consciência
moral; antônimo de autonomia.

Um comentário:
Quero entender as figuras, esse é seu segundo texto sobre amor romântico que para mim sugere ser algo mais da mulher, precisamos pensar que a reconstrução da forma de amar faz parte de toda uma reconstrução do nosso ser diante de uma sociedade que nos expõe a isso o tempo todo. Não sei se estou correta mas esse assunto surge dos brancos querendo defender outros tipos de relação que as vezes nem tem nada haver com amor. Enquanto preta não é nesse amor não romântico branco que quero caminhar, atravessar a vida, se como preta acredito na atuação da ancestralidade nas minhas relações elas ja deixam de ser romântica para ser espiritual. Quer maior exemplo desse amor romântico branco quando se escolhebo parceiro pela aparência ou desejo sexual que ela causa. Tem algo mais ligado ao amor romântico branco que a traição, quebra de pactos, falta de cumplicidade. Então para deixarmos de lado o tal amor romântico homens e mulheres devem se apropriar de sua história e espiritualidade, não vejo como fazer adaptações com o que nos favorece no amor romântico, com a espiritualidade do amor sim africano que cura.
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