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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

O Tempo na Filosofia Africana.

A Ancestralidade é o livre Arbítrio Instituindo que todo os Pais serão filhos e todos Filhos serão Pais; assim, você é seu próprio Ancestral no Círculo da vida nesse Eterno Agora; esse agora que se fragmentou ao se perder na Razão iluminista do pensamento oriundo no Inconsciente Coletivo. Esse mesmo inconsciente Coletivo que dita, aprisiona e escraviza nossos desejos e nossos quereres em sua lógica adestradora distópica.

Dessa maneira, definimos as coisas olhando a partir desse espelho que foi erigido no processo desse princípio de razoabilidade que categoriza e classifica a fim de proporcionar a falsa sensação de controle, escondendo assim, as coisas como elas realmente são.

Dessa forma, intelectualizamos o nosso olhar, o nosso pensar, o nosso falar e escutar, nos transformando, de forma inconsciente, num boneco de ventríloquo; e tal como um Eco, repetimos as teorias, hipóteses e opiniões oriundas dessa fonte disciplinadora oficial em que se transformou a lógica da ciência, da religião e da política ideológica escravocrata.

Os paradigmas e dogmas nascidos dessa fonte que nos prende em sua lógica, nos tornando cativos dessa prisão sem grades, presos aos elos formados por estereótipos e estigmas com os quais classificamos o outro, vendo-o através da filosofia de Narciso que se reflete na imagem dessa Cinderela que suscita em nós, a síndrome de Estocolmo.

Dessa maneira, somos adestrados durante gerações, presos a essa corrente que nos envolve, perpetuando e ampliando o cativeiro, que mantém na Senzala atemporal, tanto o pai quanto o filho, assim como o avô e o neto e assim por diante, até que percebamos que o futuro não vem do passado. Essa é a concepção de Tempo circular trazida pela filosofia africana, que peremptoriamente se contrapõe a filosofia instituída por Aristóteles e seus seguidores.

Pois, na filosofia do Ébano, o Tempo existe dentro do princípio da sincronicidade e da sintropia. Ou seja, esse Tempo não é linear. Sendo assim, ele dispensa o relógio que atende a lógica oligárquica regente desse monorracial Estado dos Tempos Modernos.

Dessa maneira, é primordial e necessário como primeiro passo, perceber essa cruenta conjuntura, para que possamos finalmente, iniciar o processo de nos desapegar dos paradigmas e dogmas provenientes das efemérides desse calendário gregoriano que nos acorrenta; para enfim; sermos capazes de criar estratégias consequentes, a fim de empreender a ousada fuga que nos proporcionará  a verdadeira liberdade ao abrir enfim, as portas dessa prisão sem grades na qual nos encontramos voluntariamente cativos.

Esse Tempo primordial não se localiza no passado e nem num possível futuro; esse Tempo é o Agora; pois ele não espera, assim como a autêntica Justiça, ele, esse Tempo é Ação e nunca Reação. O fato de nos localizarmos, de forma maiêutica e diatópica,  nesse Tempo real; fará com que as barreiras erguidas por nós mesmo, se desfaça como um castelo de areia, desencadeando dessa maneira, um processo de efeito dominó num efeito borboleta onde não haverá quaisquer pontos de volta ou forma de se deter tal processo, uma vez que ele se inicie. Dessa forma, a sabedoria ancestral substituirá o conhecimento atual, e então, voltaremos a ser como nossos pais, que serão nossos filhos, nesse Tempo sem tempo.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Como Ler João e Maria com Maestria...


Bailar na eterna Ciranda desse Permanente agora entre o Sol e a Lua com a qual o Universo carinhosamente nos brinda a cada dia, nesse abraço repleto de afetuosos afagos das Estrelas guias iluminado pelo Fraterno Sorriso Ascenso de Vênus num mavioso beijo Azul profundo, vibrando num bailado de Corpo e Alma que alimenta o Espírito daquele que é Um entre os bilhões dos uns que formam essa brilhante Mônada que se exibe no Palco do espetáculo da Vida; só assim seria possível chegar perto da tênue ideia que sacia nossa fome humana da definição do Agora; esse momento fractal aonde tudo existe e acontece em todas as suas possibilidades, potencialidades e probabilidades.

As simbólicas  e metafísicas migalhas de pão deixadas no caminho pelos irmãos João e Maria, nada mais são que o agora de todo os seus passados e futuros que existem simultaneamente em suas mentes; nessa mesma mente que definitivamente, de acordo com o livre arbítrio, lhes mentem ao fazer uso indiscriminado de justificativas e desculpas, a fim de dar vida a esse Ego que lhes escravizam e lhes vendem como escravo a  esse senhor chamado Medo que diuturnamente se apresentam em seu caminho, da mesma forma como a chama se apresenta no voar da mariposa.

Dessas justificativas e desculpas nasceram as regras, as leis, os tratados, as ciências e as religiões que reproduzem as devidas bengalas de ocasião para tratar com seu irmão; esse irmão que era seu Um, mas  se tornou o seu outro ao iniciar um combate consigo mesmo ao competir com seu próprio irmão, ou sua própria irmã Maria, que também poderia ser João; ou o João que poderia ser Maria; a Maria-João e o João-Maria; João e Maria.

Dessa maneira, sob o céu infinito de um azul profundo, na dualidade emanada das fractais pontas gêmeas da chibata escravagista, nasceram a Maria Preta e o João-Ninguém; os interventores definitivos do tribunal aonde se desfazem os sorrisos e os afagos fraternos que regem  e regam a terra como fertilizantes dos caminhos e dos trilhos dessa ferina viagem humana, tendo como condutor o ego que nos impede de perceber a dança dos astros e das estrelas ao nosso redor; dança esta que constituí esse átomo que se anima e sempre se transforma a cada olhar.

Desfazer esse tribunal olhando em outra direção, é o passo primordial para o retorno ao caminho perdido indicado pelas migalhas que pontuam o mapa celeste, no brilho das estrelas cadentes e candentes que dançam no vazio do Ser de cada Maria e de cada João.

Dessa maneira, fazendo uso do discernimento. Ou seja, sem medo de errar, de falhar ou de ser feliz, deixemos de lado as bulas, as leis e os tratados das regras gramaticais jurídicas da palavra escrita ao reler nossa história oral que foi grafada sobre a luz incandescente da melodia trazida pelo Sol Maior, a fim de ascender essa escrita que foi  apagada pelo medo criado em torno do círculo da vida; iluminando assim, o caminho que conduz ao salão principal do baile debutante do amor incondicional. É dessa forma que finalmente retornaremos ao Nosso Lar, recuperando assim, a nossa perdida criança interior...


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Dicas de Etiquetas Corporais

Nossos corpos hirtos carregam o peso de inumeráveis etiquetas com a funcionalidade de uma âncora que fundeia um velho navio; essas etiquetas são aqueles mesmos adesivos adquiridos no interior dos incontáveis escaninhos existentes nas prateleiras da cultura de massa; essa mesma cultura que dá forma e majestade ao inconsciente coletivo.


São esses os adesivos que nos categorizam, classificando cada parte desse nosso corpo abarrotado de memórias, preenchendo desde cada ventrículo até o jeito de se olhar e de se ver, de se ouvir e se escutar. Essas memórias que se superpõem tal como placas tectônicas, estão fixadas ao corpo mental do indivíduo, e inevitavelmente sempre entram num turbulento processo sísmico todas as vezes em que esse indivíduo decidir dar espaço a quaisquer outras ideias ou a novas memórias que diferem da programação desse inconsciente coletivo. E é justamente esse complexo e tumultuoso processo de quebra paradigmas que abala profundamente o sujeito, provocando nele intensa dor.

Portanto, o fato de darmos ouvidos a nossa mente; que é formatada pelo ego construído justamente pelas categorias-padrão fornecida pelo inconsciente coletivo; automaticamente faz com que sejamos governados pelo inconsciente, já que é essa mente que racionaliza, justifica e governa, ditando dessa maneira, cada uma de nossas ações e omissões que constantemente nos arrastam para conflitos diretos ou indiretos com o outro e consigo mesmo.

Um ser consciente nunca carrega etiquetas; portanto, ele não julga, e menos ainda, julga a si mesmo. Dessa forma, executamos um gigante passo quando nos deixamos guiar pela consciência, e isso só é possível depois de extrair cada etiqueta que até então, vinham servindo como elos sustentadores dessa pesada âncora presa ao peito, cingindo os sentidos que nos definem enquanto sujeito.

Sim, esse inesperado ato de nos despir dessas etiquetas, fará com que sejamos considerados totalmente insanos por todos os alienados que sobrevivem entre os muros desse profícuo manicômio social; esse mesmo hospício que tem como objetivo único a produção em série de doenças distintas, e como função única, a cultura dos cuidados referentes as essas mesmas enfermidades que, num círculo vicioso, se desdobram em novas moléstias, a fim de eternizar sua vampírica função; e este artifício lhe confere numerosos títulos e honrarias, oficializando o modus operandi dessa perspicácia, racionalidade e coerência num processo a ser reproduzido ad eternum. Dessa forma, todas as sociedades-manicômios possuem as suas academias de plantão, para que possam justificá-la e se justificar se retroalimentando com autoelogios.

Os cidadãos que formam esse corpo social, ao longo de sua vida, têm o seu interior mumificado pelo instituto da família, ciência e religião através da técnica de inserção de etiquetas sociais que irão defini-lo ao definir sua cultura, sua história, sua religião, seu Deus, etc.

Dessa maneira, esse corpo social servil, vai trabalhar por essa sociedade holograficamente definida por meia dúzia de ditadores plutocráticos que administram o Estado. Esses escravocratas argentaristas são os mesmos que financiam a redação de leis, definindo o conceito da justiça social que governam os corpos acometidos pela síndrome de Estocolmo.

Enquanto o ser não se despir de si, retirando todas as etiquetas que lhe definiram enquanto indivíduo e abolindo definitivamente o medo das tarjas pretas da censura que lhe cobrem as vergonhas pré-fabricadas nesse corpo-tabu, ele permanecerá na condição de escravizado mental, servindo de repasto para os serial-killers, com suas energias e vibrações da própria alma oriundas no intramuros desse hospício social. Para iniciar esse processo de libertação, é necessário ter acesso a consciência corporal; é preciso ouvir o corpo que é preciso, e não esse corpo mental impreciso que se encontra submerso nas etiquetas que o define como um rótulo afixado num produto qualquer na vitrine desse mercado infame.

Tomar consciência das dimensões desse corpo; do seu interior cheio desse vazio pleno de si mesmo; é tomar consciência de si. A cada etiqueta adesiva retirada dos corpos estendidos no chão desse show business, corpos cobertos por lonas pretas como manequins expostos na vitrine virtual dessa mente holográfica, a dor aguda revelará a estética oculta nesse corpo que reluz com sua própria luz num processo onde, só conhecendo a verdade, se conhece o poder da liberdade. Que haja luz...


quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

O Movimento Ying/yang como Processo no Xadrez do Jogo da Capoeira

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Falar da vivência da Capoeira em seu tríplice aspecto: esporte, dança e luta; é falar da Capoeira como Arte Marcial integral; sendo assim, é necessário conhecer o seu constructo, seus caminhos e a sua história como uma luta de defesa de oprimidos contra opressores.

É imprescindível, portanto, ter em mente que, a Capoeira nasceu no Rio de Janeiro, chegando a Bahia através do tráfico interno de escravizados e se espalhando, dessa forma, pelo resto do país no Final do século XVIII.

No século XIX, no Rio antigo, centro do Brasil colônia, enquanto os aristocratas reinavam com suas frivolidades nos cômodos de seus palácios, as ruas da capital tinham dono; e os donos das ruas eram os Capoeiras e as Tias; negras e negros. Não havia polícia ou força militar que ousasse parar os Capoeiras, que decidiam os rumos da nação, deliberando quem poderia concorrer às eleições, cargos públicos e similares; eram eles que faziam a divisão da cidade e quem deveria ocupar qual espaço. Mas, infelizmente deram com os burros n’água ao se deixaram cooptar pelos ventos da república, se voltando dessa forma, contra o governo do império. Ironicamente foi justamente a república, a responsável pela proscrição dos capoeiristas.

No Rio de Janeiro, berço da Capoeira; ela, a Capoeira, sempre foi uma só. Foi a partir de seu banimento que a elite decidiu, como condição para seu retorno, a sua militarização no lugar da malandragem ancestral, para que a Ordem e o Progresso pudessem imperar e a república não se visse ameaçada pelos perigosos Capoeiras de outrora. Essa mudança de princípios foi a missão de Manoel do Reis Machado, o Mestre Bimba. Dessa forma, a Capoeira regional foi formatada a partir da Bahia, que de 1932 em diante, ganhou a alcunha de capital da capoeira.

Foi aqui, no Rio de Janeiro, na região mais conhecida como N’gola Janga, ou Pequena África, que a Capoeira se tornou mãe de toda cultura negra diaspórica, pois foi nas rodas de capoeira que as etnias bantu finalmente se encontraram e disseminavam cada uma as suas culturas, encontrando assim, nesse espaço, com as culturas das outras diversas etnias bantus que, durante as suas histórias, nunca haviam se encontrado dessa maneira em nenhum momento.

Dessa forma, as rodas de Capoeira, eram na verdade, o verdadeiro caldeirão de bruxarias e feitiços que deram origem a novas culturas jamais vista no Brasil, na África ou europa¹. Na verdade, o que houve aqui no Brasil, foi a pura alquimia humana surgida de um amálgama das profundezas escura das maldades oficiais europeia que, através da profunda dor infringida a esse povo preto, iniciou a gestação do processo, com sofrimento extremo, o parto onde nasceu a branca luz africana proscrita das cavernas do próprio Platão.

Portanto, a capoeira regional, como condição de ser aceita por esta sociedade europeizada, eugênica e gentrificada, necessitava se adequar aos novos donos do poder, adotando e trazendo em seu bojo, o princípio basilar da racionalidade e do masculinismo próprios da alta cultura, caiada pela Ordem e Progresso. Dessa maneira, as academias aprovadas pela nova república seguiram o mesmo ritmo dos quarteis enquanto realizava e promovia a limpeza afro de seu quadro negro.

A partir desse momento, a capoeira Regional, ou capoeira da Bahia, passou a ser a capoeira oficial brasileira, e por esse motivo, nessa região do Brasil ficou bem clara a linha divisória entre esse estilo regional higienizado e a proscrita Capoeira de Angola ancestral.

Dessa forma, hoje a Capoeira pode ser treinada enquanto esporte, enquanto luta ou praticada enquanto dança. Ou seja, ela se fragmentou para poder sobreviver ao sistema opressor da colonização moderna. Dessa forma, uma simples ginga ou chutes quaisquer desferido na Capoeira ancestral, significava rebeldia e desobediência; era um gesto político, uma bandeira pirata; resumindo, quaisquer golpes ou ginga na capoeira ancestral carregava consigo todas as histórias dos muitos povos, que, juntos, nesse “jogo”, passou a ser UM só Povo.

Hoje, um chute, é só mais um CHUTE; desse jeito, um chute atualmente pode ser desferido para competir com o outro, e simultaneamente defender as cores da meritocracia que é carregada nas cordas e cordéis que seguram o abadá no corpo acrobata; dessa forma, um chute hoje é essencialmente carregado pela força do ego inflado do chutador, que executam seus incríveis saltos como qualquer ginasta olímpico em busca de medalhas.

Quando falamos de artes marciais, metaforicamente estamos falando da luta do pequeno Davi contra os gigantes emocionais criados pelos pensamentos racionalizados no egocentrismo nosso de cada dia de eterno agora. Portanto, a finalidade do jogo de Capoeira jamais poderia ser a de mensurar os melhores jogadores, o mais ágil, o mais forte ou algo similar; mas sim, seria uma forma dialógica de se refazer o diálogo da história entre quem domina e quem é dominado, até que seja dirimida as hierarquias opressivas e opressoras vigentes nas relações; relações estas que se resumiram a meras relações de poder. Ou seja, a Capoeira ancestral é um diálogo, e esse diálogo é um jogo de perguntas e respostas através de enigmas e charadas, onde esses labirintos de questões postas que vão falar, dizendo a partir das cações movimentadas pelo corpo, as respostas a partir da pergunta certa.

Desse modo, quaisquer movimentos vão além do próprio movimento; pois esses movimentos são ações; são movimentos-perguntas e movimentos-respostas construtores de realidades fractais dentro de um xadrez de subjetividades sincrônicas e anacrônicas, maiêuticas e diatópicas, sintrópicas e entrópicas.

O corpo preto, foi aprisionado em si mesmo, depois de ser acondicionado em seu cativeiro mental, portanto ele não estranha o  movimento estático desse cativeiro holográfico ao cultivar seus tabus de cada dia que dói nesse agora que é sempre; nesse processo, ele se abstém do movimento em sua plenitude; movimento que se expande abrangendo todas as suas extensões, transpondo o corpo físico, indo além do corpo emocional e mental, para encontrar seu corpo etérico num movimento único fractal, que abarca a todas as dimensões do tempo e do espaço. Por esse motivo, o jogo da Capoeira, assim como todas as danças africanas, é circular. Ou melhor, são espirais que se lançam num crescente ao infinito, formando um vórtice de energia, vibração e frequência.

Sendo assim, em última instância, a Capoeira, que é uma só, propõe, não o tradicional ataque e a defesa com todo seu belicismo trazido pelo racionalismo europeu; mas sim, um delicioso jogo de perguntas e respostas em forma de movimentos que trazem infinitas probabilidades de realizações, para que qualquer situação se equilibre em sua forma energética, vibracional e frequencial.


[1] Jean-Jacques Rousseau (1712 - 1778): "Os negros são incapazes de pensar de qualquer maneira reflexiva. Seu envolvimento nas artes é, portanto, uma atividade irrefletida que é a antítese do intelecto."

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

De Preto Para Preto...



https://www.youtube.com/watch?v=aLYIMJCrOyw&feature=youtu.be 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

O Tempo Presente como Presente do Tempo desse Agora que é Sempre

Há momentos que se tornam imprescindível fazer-se a obrigatória leitura do livro da natureza, para que possamos receber as lições de cada dia no presente do agora.  Dessa maneira, perceberemos nos prolegómenos apresentado por quaisquer árvores encontradas no caminho, a necessidade de se buscar pela nossa consciência como único guia, já que estas mesmas árvores estão sempre a afirmar, reafirmar e confirmar que só é possível crescer holisticamente. Ou seja, ela, a árvore, não cresce só para cima, em direção ao sol, mas também para baixo, já que suas raízes precisam buscar as profundezas de Gaia a fim de também alimentar-se para além da fotossíntese; só assim o seu crescimento acontece. Dessa forma, ela nos ensina a importância de não só ver o que está exterior, mas também o que está no interior, afirmando que nem tudo é o que aparenta ser, inferindo dessa maneira que, o que está dentro é também está fora e vice-versa; e o que está em cima, também está em baixo. Dessa maneira é possível perceber que não vemos as coisas como elas são, mas sim, como nós somos.

Só será possível assimilar plenamente essa lição quando peremptoriamente cognizarmos que somos um com a natureza, já que somos parte de um todo, parte de uma mônada. Apesar dos nossos ouvidos serem constituídos por um consciente coletivo que os colocam na condição de moucos ou momentaneamente deficientes fazendo com que ouçamos sem que haja uma escuta, da mesma forma como Gaia se movimenta, a natureza está em permanente dialogia com as suas partes. É dessa maneira que os capítulos da vida podem seguir como o fluxo da água, flutuar na leveza do ar ou se aterrar nas profundezas dos inexplicáveis mistérios de Gaia.

Dessa forma, podemos afirmar que, quem não se detém para ler a natureza, certamente também não terá o que escrever sobre si mesmo, já que a inspiração fugirá de seu coração; e cada ser, tem como missão primeira, escrever o seu próprio livro da vida. Esse livro poderia ser uma epopeia repleta de poesias, um épico ou contos variados de variedades variantes. Poderia até mesmo ser um best seller ou uma obra-prima, desde que seja uma escrita junta realizada de forma conjunta.

Cada uma das folhas de papel que compõe esse livro da vida, tem sua gênese no fogo do sacrifício vivido por uma árvore, que nos revela, num generoso ato último que, o sentido da vida está justamente em reconhecer a morte como sua xifópaga. É dessa maneira que a natureza transforma, ao se transformar nesse ascendente redemoinho de ciclos fractais, como uma cascata que jorra de sua nascente, formando assim, aquele perene rio que nunca está pronto.

A exemplo das imponentes e plácidas montanhas que se elevam no azimute, devemos ser a testemunha de cada um de nossos pensamentos, sentimentos ou emoções de cada agora, a fim de alçar voo sobre quaisquer reações a cada ação praticada ou ainda por se praticar, para que esse livro não seja um mero palimpsesto subscrito por uma refazenda cultural.

Desse modo, nosso diálogo com a natureza deve sempre se dar através da estrondosa voz do silêncio, pois este a única voz que preenche qualquer vazio, para que possamos enfim, poder receber o presente que o Tempo nos oferta em cada agora na escola da vida.



quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

De Palmares a Hollywood

No cardápio da nutrição do Povo negro, constam alimentos como Datenas, Gugus Liberatos, Faustãos, Anas Marias Bragas e aí por diante; sem mencionar as séries, novelas e filmes hollywoodianizados que narram a sina de uma população eurodescendentes residentes da zona sul do Rio de Janeiro.

A imagem fixa desse exuberante cardápio é fornecida e abastecida pela mídia atendendo não só ao infame  mercado tupiniquim, mas também municiando o mercado branco do resto mundo, que vem vislumbrando nesse nosso Brasil varonil a imagem de uma supremacia branca que surfa com suas suntuosas pranchas sobre as ondas que acariciam as areias desde as praias do bairro do Leblon à Barra da Tijuca, ao mesmo tempo em que passa o trator sobre as comunidades da zona sul a zorna norte, transformando o sangue negro no piche que cobre essa estrada que lhes franqueiam privilégios e caprichos seculares locupletados nas  Senzalas e Plantations. Foi dessa forma que o Zumbi de Palmares de ontem se transmutou, travestindo-se e se transformando no zumbi de Hollywood de hoje, que de forma dolorosamente espalhafatosa e carnavalizada se exibe nos programas de talentos pós colonial.

Dessa maneira, nós tecno-quilombolas, nos alimentamos da dor e dos sofrimentos passados e antecipados, pomposamente ofertados por esse cardápio tentadoramente exposto, manipulado e oferecido por Troia, nessa exuberante vitrine que exibe um banquete de saborosas carniças pútridas, servidas sobre um vistoso tapete avermelhado pelas negras hemácias reais vertidas pelos atos eugênicos e genocidas garantidos por esse Estado monorracial gerido por essa elite raivosa; elite essa que o povo negro sempre elegeu e elege como seus representantes perpétuos, mesmo após sentirem-se extremamente mal ao se alimentarem de seu lixo midiático e religioso.

Portanto, nosso povo, viciado nesses alimentos, ainda após o sofrido mal-estar causado pelos mesmos, retornam diuturnamente a esse banquete que é servido em formato de rodízio ad eternum reproduzido pelas máquinas dos Tempos Modernos num processo moto-perpétuo de produção, a fim de degustar essa mesma dor que é regurgitada em forma de perenes reclamações, eternas revoltas e sentimentos sem fim de vinganças contra seu próximo que estiver mais próximo.

Dessa forma, enquanto o colonizador nos educar e nos alimentar, seremos ainda as suas ovelhas passivamente prostradas em templos religiosos e filas de espera; sem soberania, sem vida, só sobrevida; nutridos pela elite e alimentando a insana sanha dessa mesma famigerada elite.

O Zumbi contemporâneo pós escravidão, não planta mais o seu alimento; já que agora é fartamente alimentado pelas drogas da burguesia que lhe fortalece esse seu inconsciente coletivo construído para manter uma relação de dependência, tal como as núpcias de um parasita com seu hospedeiro.

Mudar um cardápio, um hábito, uma dependência, ou sair desse casulo holográfico contemporâneo, seria o mesmo que morrer para um mundo a fim de renascer para outra vida. Mas o medo da morte é um fator religioso, e no Brasil, religião, assim como política, não se discute. Por isso, o medo de transformar o Norte em Sul nos faz continuar essa nossa eterna andança de bar em bar, de religião a religião, tal como crianças assustadas; isso peremptoriamente nos faz, linearmente, negar o novo, enquanto permanecemos perdidos nessa noite escura, sem eira nem beira.

Esse processo de nos alimentar das dores e dos sofrimentos servidos pela mídia, pela religião e pela academia, faz com que o nosso deteriorado corpo-zumbi seja o repasto perfeito para essa elite hiena que se extasia ao assistir esse banquete da morte ao vivo de irmão contra irmão, nesse eterno e fúnebre fratricídio exibido como atração principal num dia de programação normal, já que ninguém se dispõe a mudar o próprio canal, mudando assim, sua realidade total. dessa forma, a nossa sobrevida é mantida ligada aos aparelhos de Tecnologias de Informação que nos faz ser mal informados e desinformados, detentores de uma vaidosa e falsa sensação de liberdade e de poder sobre aquele próximo que está longe do dinástico clube da elite nacional. Assim, antropofagicamente caminha a desumanidade.