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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

De Palmares a Hollywood

No cardápio da nutrição do Povo negro, constam alimentos como Datenas, Gugus Liberatos, Faustãos, Anas Marias Bragas e aí por diante; sem mencionar as séries, novelas e filmes hollywoodianizados que narram a sina de uma população eurodescendentes residentes da zona sul do Rio de Janeiro.

A imagem fixa desse exuberante cardápio é fornecida e abastecida pela mídia atendendo não só ao infame  mercado tupiniquim, mas também municiando o mercado branco do resto mundo, que vem vislumbrando nesse nosso Brasil varonil a imagem de uma supremacia branca que surfa com suas suntuosas pranchas sobre as ondas que acariciam as areias desde as praias do bairro do Leblon à Barra da Tijuca, ao mesmo tempo em que passa o trator sobre as comunidades da zona sul a zorna norte, transformando o sangue negro no piche que cobre essa estrada que lhes franqueiam privilégios e caprichos seculares locupletados nas  Senzalas e Plantations. Foi dessa forma que o Zumbi de Palmares de ontem se transmutou, travestindo-se e se transformando no zumbi de Hollywood de hoje, que de forma dolorosamente espalhafatosa e carnavalizada se exibe nos programas de talentos pós colonial.

Dessa maneira, nós tecno-quilombolas, nos alimentamos da dor e dos sofrimentos passados e antecipados, pomposamente ofertados por esse cardápio tentadoramente exposto, manipulado e oferecido por Troia, nessa exuberante vitrine que exibe um banquete de saborosas carniças pútridas, servidas sobre um vistoso tapete avermelhado pelas negras hemácias reais vertidas pelos atos eugênicos e genocidas garantidos por esse Estado monorracial gerido por essa elite raivosa; elite essa que o povo negro sempre elegeu e elege como seus representantes perpétuos, mesmo após sentirem-se extremamente mal ao se alimentarem de seu lixo midiático e religioso.

Portanto, nosso povo, viciado nesses alimentos, ainda após o sofrido mal-estar causado pelos mesmos, retornam diuturnamente a esse banquete que é servido em formato de rodízio ad eternum reproduzido pelas máquinas dos Tempos Modernos num processo moto-perpétuo de produção, a fim de degustar essa mesma dor que é regurgitada em forma de perenes reclamações, eternas revoltas e sentimentos sem fim de vinganças contra seu próximo que estiver mais próximo.

Dessa forma, enquanto o colonizador nos educar e nos alimentar, seremos ainda as suas ovelhas passivamente prostradas em templos religiosos e filas de espera; sem soberania, sem vida, só sobrevida; nutridos pela elite e alimentando a insana sanha dessa mesma famigerada elite.

O Zumbi contemporâneo pós escravidão, não planta mais o seu alimento; já que agora é fartamente alimentado pelas drogas da burguesia que lhe fortalece esse seu inconsciente coletivo construído para manter uma relação de dependência, tal como as núpcias de um parasita com seu hospedeiro.

Mudar um cardápio, um hábito, uma dependência, ou sair desse casulo holográfico contemporâneo, seria o mesmo que morrer para um mundo a fim de renascer para outra vida. Mas o medo da morte é um fator religioso, e no Brasil, religião, assim como política, não se discute. Por isso, o medo de transformar o Norte em Sul nos faz continuar essa nossa eterna andança de bar em bar, de religião a religião, tal como crianças assustadas; isso peremptoriamente nos faz, linearmente, negar o novo, enquanto permanecemos perdidos nessa noite escura, sem eira nem beira.

Esse processo de nos alimentar das dores e dos sofrimentos servidos pela mídia, pela religião e pela academia, faz com que o nosso deteriorado corpo-zumbi seja o repasto perfeito para essa elite hiena que se extasia ao assistir esse banquete da morte ao vivo de irmão contra irmão, nesse eterno e fúnebre fratricídio exibido como atração principal num dia de programação normal, já que ninguém se dispõe a mudar o próprio canal, mudando assim, sua realidade total. dessa forma, a nossa sobrevida é mantida ligada aos aparelhos de Tecnologias de Informação que nos faz ser mal informados e desinformados, detentores de uma vaidosa e falsa sensação de liberdade e de poder sobre aquele próximo que está longe do dinástico clube da elite nacional. Assim, antropofagicamente caminha a desumanidade.




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