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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

O Movimento Ying/yang como Processo no Xadrez do Jogo da Capoeira

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Falar da vivência da Capoeira em seu tríplice aspecto: esporte, dança e luta; é falar da Capoeira como Arte Marcial integral; sendo assim, é necessário conhecer o seu constructo, seus caminhos e a sua história como uma luta de defesa de oprimidos contra opressores.

É imprescindível, portanto, ter em mente que, a Capoeira nasceu no Rio de Janeiro, chegando a Bahia através do tráfico interno de escravizados e se espalhando, dessa forma, pelo resto do país no Final do século XVIII.

No século XIX, no Rio antigo, centro do Brasil colônia, enquanto os aristocratas reinavam com suas frivolidades nos cômodos de seus palácios, as ruas da capital tinham dono; e os donos das ruas eram os Capoeiras e as Tias; negras e negros. Não havia polícia ou força militar que ousasse parar os Capoeiras, que decidiam os rumos da nação, deliberando quem poderia concorrer às eleições, cargos públicos e similares; eram eles que faziam a divisão da cidade e quem deveria ocupar qual espaço. Mas, infelizmente deram com os burros n’água ao se deixaram cooptar pelos ventos da república, se voltando dessa forma, contra o governo do império. Ironicamente foi justamente a república, a responsável pela proscrição dos capoeiristas.

No Rio de Janeiro, berço da Capoeira; ela, a Capoeira, sempre foi uma só. Foi a partir de seu banimento que a elite decidiu, como condição para seu retorno, a sua militarização no lugar da malandragem ancestral, para que a Ordem e o Progresso pudessem imperar e a república não se visse ameaçada pelos perigosos Capoeiras de outrora. Essa mudança de princípios foi a missão de Manoel do Reis Machado, o Mestre Bimba. Dessa forma, a Capoeira regional foi formatada a partir da Bahia, que de 1932 em diante, ganhou a alcunha de capital da capoeira.

Foi aqui, no Rio de Janeiro, na região mais conhecida como N’gola Janga, ou Pequena África, que a Capoeira se tornou mãe de toda cultura negra diaspórica, pois foi nas rodas de capoeira que as etnias bantu finalmente se encontraram e disseminavam cada uma as suas culturas, encontrando assim, nesse espaço, com as culturas das outras diversas etnias bantus que, durante as suas histórias, nunca haviam se encontrado dessa maneira em nenhum momento.

Dessa forma, as rodas de Capoeira, eram na verdade, o verdadeiro caldeirão de bruxarias e feitiços que deram origem a novas culturas jamais vista no Brasil, na África ou europa¹. Na verdade, o que houve aqui no Brasil, foi a pura alquimia humana surgida de um amálgama das profundezas escura das maldades oficiais europeia que, através da profunda dor infringida a esse povo preto, iniciou a gestação do processo, com sofrimento extremo, o parto onde nasceu a branca luz africana proscrita das cavernas do próprio Platão.

Portanto, a capoeira regional, como condição de ser aceita por esta sociedade europeizada, eugênica e gentrificada, necessitava se adequar aos novos donos do poder, adotando e trazendo em seu bojo, o princípio basilar da racionalidade e do masculinismo próprios da alta cultura, caiada pela Ordem e Progresso. Dessa maneira, as academias aprovadas pela nova república seguiram o mesmo ritmo dos quarteis enquanto realizava e promovia a limpeza afro de seu quadro negro.

A partir desse momento, a capoeira Regional, ou capoeira da Bahia, passou a ser a capoeira oficial brasileira, e por esse motivo, nessa região do Brasil ficou bem clara a linha divisória entre esse estilo regional higienizado e a proscrita Capoeira de Angola ancestral.

Dessa forma, hoje a Capoeira pode ser treinada enquanto esporte, enquanto luta ou praticada enquanto dança. Ou seja, ela se fragmentou para poder sobreviver ao sistema opressor da colonização moderna. Dessa forma, uma simples ginga ou chutes quaisquer desferido na Capoeira ancestral, significava rebeldia e desobediência; era um gesto político, uma bandeira pirata; resumindo, quaisquer golpes ou ginga na capoeira ancestral carregava consigo todas as histórias dos muitos povos, que, juntos, nesse “jogo”, passou a ser UM só Povo.

Hoje, um chute, é só mais um CHUTE; desse jeito, um chute atualmente pode ser desferido para competir com o outro, e simultaneamente defender as cores da meritocracia que é carregada nas cordas e cordéis que seguram o abadá no corpo acrobata; dessa forma, um chute hoje é essencialmente carregado pela força do ego inflado do chutador, que executam seus incríveis saltos como qualquer ginasta olímpico em busca de medalhas.

Quando falamos de artes marciais, metaforicamente estamos falando da luta do pequeno Davi contra os gigantes emocionais criados pelos pensamentos racionalizados no egocentrismo nosso de cada dia de eterno agora. Portanto, a finalidade do jogo de Capoeira jamais poderia ser a de mensurar os melhores jogadores, o mais ágil, o mais forte ou algo similar; mas sim, seria uma forma dialógica de se refazer o diálogo da história entre quem domina e quem é dominado, até que seja dirimida as hierarquias opressivas e opressoras vigentes nas relações; relações estas que se resumiram a meras relações de poder. Ou seja, a Capoeira ancestral é um diálogo, e esse diálogo é um jogo de perguntas e respostas através de enigmas e charadas, onde esses labirintos de questões postas que vão falar, dizendo a partir das cações movimentadas pelo corpo, as respostas a partir da pergunta certa.

Desse modo, quaisquer movimentos vão além do próprio movimento; pois esses movimentos são ações; são movimentos-perguntas e movimentos-respostas construtores de realidades fractais dentro de um xadrez de subjetividades sincrônicas e anacrônicas, maiêuticas e diatópicas, sintrópicas e entrópicas.

O corpo preto, foi aprisionado em si mesmo, depois de ser acondicionado em seu cativeiro mental, portanto ele não estranha o  movimento estático desse cativeiro holográfico ao cultivar seus tabus de cada dia que dói nesse agora que é sempre; nesse processo, ele se abstém do movimento em sua plenitude; movimento que se expande abrangendo todas as suas extensões, transpondo o corpo físico, indo além do corpo emocional e mental, para encontrar seu corpo etérico num movimento único fractal, que abarca a todas as dimensões do tempo e do espaço. Por esse motivo, o jogo da Capoeira, assim como todas as danças africanas, é circular. Ou melhor, são espirais que se lançam num crescente ao infinito, formando um vórtice de energia, vibração e frequência.

Sendo assim, em última instância, a Capoeira, que é uma só, propõe, não o tradicional ataque e a defesa com todo seu belicismo trazido pelo racionalismo europeu; mas sim, um delicioso jogo de perguntas e respostas em forma de movimentos que trazem infinitas probabilidades de realizações, para que qualquer situação se equilibre em sua forma energética, vibracional e frequencial.


[1] Jean-Jacques Rousseau (1712 - 1778): "Os negros são incapazes de pensar de qualquer maneira reflexiva. Seu envolvimento nas artes é, portanto, uma atividade irrefletida que é a antítese do intelecto."

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