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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Os Valores Civilizatórios Africanos e o Corpo Como Território Multidimensional


Qual seria a relação entre as grades de Alcatraz, da Ilha Grande ou Carandiru; grades estas que presenciaram incontáveis fugas cinematográficas, trazendo em suas barras muitas memórias e inúmeras histórias; para as grades que cercam as praças públicas das cidades grandes brasileira, impedindo o acesso dos sem teto, dos mendigos e dos vadios...!?

Entre os lados de dentro e fora dessas grades que prendem a liberdade e ameaçam o ir e vir dos que se acham livres, vemos o ato de sedução de poder; poder este concedido pela astúcia ao neófito cidadão que almeja o faixa de cidadão de bem e os louros dos aplausos que os fazem sentirem-se amados, mesmo que odiados pela elite que o alimenta com os ódios e os rancores a seus próprios pares.

Assim como essas grades que impedem a muitos de sair e outros tantos de entrar, transformando-a num elemento sem significado, mesmo que significante; é nesse caso, um elemento relativo tornado relevante conforme o contexto em que essa mesma grade é inserida. Sendo assim, quem impede de entrar ou de sair, não é a grade, mas sim, a assinatura de uma pessoa que se outorgou de poderes de prender e de libertar ao bel prazer.

Esse corpo que sofre essa ação, devido os valores elaborados e formulados pela história; história essa que, em última instância se revela como um tratado de mentiras, visto que a mesma é contada pelo dinheiro, constituam os valores civilizatórios europoides que sempre serviram exclusivamente aos próprios europeus, visto que, qualquer território que não houvesse arianos, sempre foram, e são passíveis de invasões, butins, escravizações e pilhagens.

O corpo, como marca racial, tremula como uma flâmula pirata, hora inspirando medo e terror, hora inspirando um sentimento de exotismo e de mistério, resultado dessa história dominante e de sua memória reinante, que fez da Cultura, um complexo bonde de diversos trens, que trazem toda a bagagem da civilização humana; resultando disso um paradoxo; fazendo com que amemos a cultura negra e odiemos o negro.

Esse exótico corpo-capoeira que ginga, samba e jongueia, desde o Lundu ao Tambor de Crioula, em qualquer praça, esquina ou ladeira, mesmo após ter sido transformado em grades que retém e contém a si mesmo, é o mesmo odiado corpo que constrói a mansão do doutor que se diz patrão; é o mesmo corpo que cozinha, que lava e passa a roupa da madame infame que conta cada objeto de valor, toda vez que esse corpo deixa arrumada e perfumada a Casagrande e volta para a fétida favela, cansada e com dor.

Esse Corpo-cultura, Corpo-história, Corpo-cosmológico, foi dividido em três, mas sempre foi um, pois despedaçado pela violência colonial, teve sua unicidade fragmentada, adoecendo com as doenças produzidas pelas masmorras invisíveis desse moderno neo-cativeiro, que eliminando as grades, aprisionou o mental e o psicológico, controlando a memória subjetiva e afetiva do indivíduo.

Dessa forma, o controle do corpo-discurso se transformou num outdoor-móvel que adentra aos territórios proibidos, assim como faziam os grafiteiros das gangues do Bronx ao pintar os trens do metrô que passavam pelos territórios das gangues inimigas exibindo desafiadoramente as suas marcas. Só que a violência colonial transformou esse corpo-discurso num vírus carregado de valores de Troia.

O Corpo-história, Corpo-cultura e Corpo-Memória uma vez despedaçado pela brutal força colonial e pela sedutora força neocolonial, perdeu a sua unicidade Racional-Emotiva, deixando dessa forma, de ser uma vestimenta da alma, para ser um objeto de marketing e fonte de renda para os controladores desse corpo estranho, que fora adulterado. A emoção cedeu assento especial a razão, criando um mercado de consumação mínima, e se transformando num produto com barras de validade e rótulos taxionômicos, geradores de estereótipos, que tornaram esses corpos matáveis e descartáveis, de acordo com esse neo-mercado infame, que seduz com as divinas promessas de um infindável banquete de maná virtual.

Esse corpo perdeu sua unidade ao reservar o coração-emoção para o mundo dos contos folclóricos preservando a mente-razão submetida a sedutora lógica da cidadania virtual vendida diuturnamente pelos telejornais matinais, da mesma forma que as grades da Praça principal impedem o acesso ao chafariz, com a água sagrada da fonte dos desejos, a todos os descamisados e pés-descalço, fazendo com que as grades e as correntes virtuais aprisionem a liberdade de pensamento e do livre pensar.

A alma, uma vez retirada desse corpo, foi transformado num boneco de ventríloquo, e condenada, da mesma forma que a alma do boneco Vodu, que a carrega aonde quer que vá. Os corpos do lado de cá e os corpos do lado de lá dessas grades significantes e significadas, se diferem pela quantificidade da alma que as mesmas carregam; processo esse que completam a trindade do indivíduo como sujeito e como ser humano, com sua cultura, sua história e sua memória.

Essa pessoa, com suas várias pessoas internas, só poderá fazer a sua história de forma literal, deixando de ser refém dessa uma história virtual, e consequentemente se libertando desse presídio democrático social, quando se permitir sair dessa caixa preparada pela ciência oficial e conhecer a verdade que o libertará. Só desse ponto em diante, a sua história ela poderá contar sem nenhum ponto aumentar...

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