Dia 1º de setembro, 2018,
aconteceu mais um Seminário sobre REPARAÇÃO HISTÓRICA no Brasil Rio de Janeiro,
no bairro de Osvaldo Cruz, Quilombo Cultural Urbano AGBARA DUDU/MNU, onde o
tema abordado foi a construção do Projeto Político do Povo Negro para a Nação
brasileira.
Relembramos o fato do MNU ter assumido
tal compromisso no Congresso de 1993, quando o mesmo reconheceu que, como
movimento, já se tornara esgotado, e portanto, deveria urgentemente se
transformar numa Organização Política, e desse modo, poder dar prosseguimento a
elaboração do projeto Político de nação do Povo Negro para o Brasil.
Estando presente o Movimento que
promove a Campanha da Reparação no Brasil, a qual eu faço parte, voltamos a
propor a legitimação da Organização política; cuja efetivação já vem sendo
articulada pelos mesmos coordenadores da Campanha de Reparação aos
Descendentes de Povos Escravizados no Brasil, uma vez que não lutamos por
igualdade, e sim, por LIBERDADE; a fim de que possamos possibilitar os meios de
encaminhar o Projeto Político que vise o compartilhamento da nação, de forma
com a mesma seja uma nação pluriétnica e pluriversal, contemplando todos os
povos que nela vive.
Tal proposta foi de encontro a visão do
Movimento Quilombo Raça e Classe, que em consonância com o MNU,
trouxe a sugestão peremptória de que o Povo Negro deveria promover uma grande
revolução e se a apropriar dos meios de produção da elite, pois não haveria
quaisquer outras soluções viáveis para resolver tal imbróglio.
Desse modo, o Movimento Quilombo Raça e
Classe vaticinou que um Projeto Político para a nação ou mesmo a Reparação,
jamais teria a possibilidade de serem realizados dentro do regime capitalista,
afirmando peremptoriamente que a prioridade seria a derrubada imediata do
sistema e que somente dessa maneira haveria a possibilidade de se construir tal
Projeto Político de Nação.
Tal afirmação se contrapôs a proposta
trazida pelos integrantes do Movimento de Reparação aos
Descendentes de Povos Africanos Escravizados no Brasil, que fez uma breve
visita a história relembrando que Angola, através do MPLA e a
África do Sul, através da ANC, também seguiram por esse mesmo
caminho de derrubada do sistema, sem no entanto possuírem um Projeto Político
de Nação, o que resultou numa história catastrófica aonde o capitalismo só
mudou de nome e o povo continua nas agruras cotidiana de outrora.
Mesmo em face do fato dessa dualidade
ter surgido nesse debate, e ter gerado uma complexa contradição, o Fórum
Permanente Sobre Reparação e Projeto Político de Nação teve seu
prosseguimento paradoxalmente preservado diante dessa conjuntura entrópica,
onde as forças antagônicas, de forma maiêutica e diatópica se acomodaram,
acirrando o debate onde o conceito trazido de um Estado compartilhado, proposto
pelo Movimento da Campanha da Reparação, e a tomada dos meios de produção
através de uma grande revolução proposta pelo Quilombo Raça e Classe, fazendo
com que fosse exposto essa dicotomia existente entre a ideia de Povo
Negro e a de Trabalhador Negro. Ou seja, a cisão entre
Raça e Classe se deu; da mesma forma que aconteceu nas Conferências Pan-africanistas
pós Paris[1],
em 1919.
Desse modo, a visão marxista se
contrapôs a visão progressista do Movimento em prol da Reparação: o inflamado
discurso a favor de uma Revolução imediata e o processo de Luta pela Reparação
estabeleceu essa dicotomia neste Fórum, onde os integrantes do MNU
retoricamente "confundiam" o conceito de Reparação com
a ideia de Ação Afirmativa.
Certamente a ideia de redefinição da
nação, aonde o Poder Nacional e o Poder Estatal devem ser compartilhado com os
Povos que habitam a nação, trazido como proposta de Projeto Político de Nação
pelo Movimento de Reparação aos Descendentes de Povos Escravizados no Brasil,
cujo tema foi abordado e acatado no próprio congresso do MNU em 1993 e no CONNEB de
2007 e de 2013, deixou patente que a militância confundiu Projeto Político com
Programa Político.
Eis aqui uma paradoxo de extrema
complexidade, visto que, sendo essa é uma causa revolucionária que entra em
profunda contradição com esta militância que não é revolucionária; é claramente integracionista;
já que, através da visão do Prof. Yedo Ferreira, constatamos que ela tem
procurado se integrar ao poder e dessa forma, se integrar a sociedade, e não
transformá-la; buscando dessa maneira, a igualdade com o branco, como podemos
perceber com a criação do Estatuto da Igualdade Racial.
Destarte, através das Ações
Afirmativas, procura-se formar e consolidar uma elite negra que se caracteriza
pela forma com que lançam palavras de ordem, sendo violenta com as palavras mas
reformista na atitude, segundo a visão do sociólogo branco Luiz Aguiar Costa
Pinto.
Neste Fórum foi possível constatar que,
usando as palavras do Prof. Yedo, o Movimento Negro se transformou num
movimento da elite negra que procura apoiar as Ações Afirmativas para se
ampliar como Elite Negra. Portanto, essa construção de um Projeto Político de
Nação do Povo Negro para a Nação Brasileira, certamente encontrará sua
principal resistência junto ao próprio povo negro. Vencer essa
paradoxal etapa se tornou nossa maior luta em prol da Reparação.
[1] Foi nessa Conferência, considerado como o 1º
Congresso Pan-africanista, que se iniciou a disputa entre Garvey e Dubois; um
progressista e o outro integracionista.

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