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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Brasil: o Movimento Negro e a Reparação



Dia 1º de setembro, 2018,  aconteceu mais um Seminário sobre REPARAÇÃO HISTÓRICA no Brasil Rio de Janeiro, no bairro de Osvaldo Cruz, Quilombo Cultural Urbano AGBARA DUDU/MNU, onde o tema abordado foi a construção do Projeto Político do Povo Negro para a Nação brasileira.

Relembramos o fato do MNU ter assumido tal compromisso no Congresso de 1993, quando o mesmo reconheceu que, como movimento, já se tornara esgotado, e portanto, deveria urgentemente se transformar numa Organização Política, e desse modo, poder dar prosseguimento a elaboração do projeto Político de nação do Povo Negro para o Brasil.

Estando presente o Movimento que promove a Campanha da Reparação no Brasil, a qual eu faço parte, voltamos a propor a legitimação da Organização política; cuja efetivação já vem sendo articulada pelos mesmos coordenadores da Campanha de Reparação aos Descendentes de Povos Escravizados no Brasil, uma vez que não lutamos por igualdade, e sim, por LIBERDADE; a fim de que possamos possibilitar os meios de encaminhar o Projeto Político que vise o compartilhamento da nação, de forma com a mesma seja uma nação pluriétnica e pluriversal, contemplando todos os povos que nela vive.

Tal proposta foi de encontro a visão do Movimento Quilombo Raça e Classe, que em consonância com o MNU, trouxe a sugestão peremptória de que o Povo Negro deveria promover uma grande revolução e se a apropriar dos meios de produção da elite, pois não haveria quaisquer outras soluções viáveis para resolver tal imbróglio.

Desse modo, o Movimento Quilombo Raça e Classe vaticinou que um Projeto Político para a nação ou mesmo a Reparação, jamais teria a possibilidade de serem realizados dentro do regime capitalista, afirmando peremptoriamente que a prioridade seria a derrubada imediata do sistema e que somente dessa maneira haveria a possibilidade de se construir tal Projeto Político de Nação.

Tal afirmação se contrapôs a proposta trazida pelos integrantes do Movimento de Reparação aos Descendentes de Povos Africanos Escravizados no Brasil, que fez uma breve visita a história relembrando que Angola, através do MPLA e a África do Sul, através da ANC, também seguiram por esse mesmo caminho de derrubada do sistema, sem no entanto possuírem um Projeto Político de Nação, o que resultou numa história catastrófica aonde o capitalismo só mudou de nome e o povo continua nas agruras cotidiana de outrora.

Mesmo em face do fato dessa dualidade ter surgido nesse debate, e ter gerado uma complexa contradição, o Fórum Permanente Sobre Reparação e Projeto Político de Nação teve seu prosseguimento paradoxalmente preservado diante dessa conjuntura entrópica, onde as forças antagônicas, de forma maiêutica e diatópica se acomodaram, acirrando o debate onde o conceito trazido de um Estado compartilhado, proposto pelo Movimento da Campanha da Reparação, e a tomada dos meios de produção através de uma grande revolução proposta pelo Quilombo Raça e Classe, fazendo com que fosse exposto essa dicotomia existente entre a ideia de Povo Negro e a de Trabalhador Negro. Ou seja, a cisão entre Raça e Classe se deu; da mesma forma que aconteceu nas Conferências Pan-africanistas pós Paris[1], em 1919.

Desse modo, a visão marxista se contrapôs a visão progressista do Movimento em prol da Reparação: o inflamado discurso a favor de uma Revolução imediata e o processo de Luta pela Reparação estabeleceu essa dicotomia neste Fórum, onde os integrantes do MNU retoricamente "confundiam" o conceito de Reparação com a ideia de Ação Afirmativa.

Certamente a ideia de redefinição da nação, aonde o Poder Nacional e o Poder Estatal devem ser compartilhado com os Povos que habitam a nação, trazido como proposta de Projeto Político de Nação pelo Movimento de Reparação aos Descendentes de Povos Escravizados no Brasil, cujo tema foi abordado e acatado no próprio congresso do MNU em 1993 e no CONNEB de 2007 e de 2013, deixou patente que a militância confundiu Projeto Político com Programa Político.

Eis aqui uma paradoxo de extrema complexidade, visto que, sendo essa é uma causa revolucionária que entra em profunda contradição com esta militância que não é revolucionária; é claramente integracionista; já que, através da visão do Prof. Yedo Ferreira, constatamos que ela tem procurado se integrar ao poder e dessa forma, se integrar a sociedade, e não transformá-la; buscando dessa maneira, a igualdade com o branco, como podemos perceber com a criação do Estatuto da Igualdade Racial.

Destarte, através das Ações Afirmativas, procura-se formar e consolidar uma elite negra que se caracteriza pela forma com que lançam palavras de ordem, sendo violenta com as palavras mas reformista na atitude, segundo a visão do sociólogo branco Luiz Aguiar Costa Pinto.

Neste Fórum foi possível constatar que, usando as palavras do Prof. Yedo, o Movimento Negro se transformou num movimento da elite negra que procura apoiar as Ações Afirmativas para se ampliar como Elite Negra. Portanto, essa construção de um Projeto Político de Nação do Povo Negro para a Nação Brasileira, certamente encontrará sua principal resistência junto ao próprio povo negro. Vencer essa paradoxal etapa se tornou nossa maior luta em prol da Reparação.



[1] Foi nessa Conferência, considerado como o 1º Congresso Pan-africanista, que se iniciou a disputa entre Garvey e Dubois; um progressista e o outro integracionista.


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