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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Sobre os princípios da Filosofia e da Pedagogia na Universidade Pan-africana no Brasil

Foi durante o voo que o homem inventou a gaiola. Como resultado dessa intrépida aventura, essa gaiola se transformou, não somente em seu lugar de pouso, mas também em seu lugar de conforto, de fuga e de refúgio. Ou seja, no lugar aonde inexiste o processo de trabalhar as responsabilidades do fazer humano. 

Dessa forma, suas asas se atrofiaram e ele acabou por esquecer-se de que as possuía. Tais asas se encontram hoje limitadas ao DNA de sua memória corporal linear, e constituindo quanticamente sua inconsciência atemporal ilimitada; E essa inconsciência atemporal e ilimitada, foi aprisionada pela linearidade da consciência, que uma vez suprema, se tornou totalitária e absoluta na condução de seu destino, estabelecendo as condições e critérios de definição e discernimento de lucidez. 

As asas da liberdade, hoje inconsciente de si mesma, jaz dormente, esquecida e desdenhada, dando forma as Artes desenhada na geometria dos grafites nos poemas que compõem as letras das canções de liberdade; canções estas que revelam através da dança, a redenção que os corpos na física de seus movimentos celebram, dando asas as quimeras formadoras do folclore dessa comunidade humana, que, de forma pejorativa, se transformou matematicamente, ao se dividir em Tribos, quando escolheram seguir os critérios racionalizados e racializados, estabelecidos pela “lucidez” que, de forma hierárquica, apartou a emotividade da racionalidade.

Dessa maneira, após ter sido invisibilizadas as grades da razão que tecem as linhas da arquitetônica[1] dessa realidade única como uma alternativa sacralizada a ser seguida pelo povo desse lugar, que escolheu cortar as asas da imaginação de sua multidimensionalidade, aprisionando Corpo e Mente, passamos então a cultivar no conforto dessa gaiola, o indizível medo de se afogar no eterno e perene oceano de liberdade e da vida; transformando assim, o começo em fim. Ou seja, de forma totalmente contraditória a razão estabeleceu que o sentido da vida fosse definido pelo medo da morte; dessa forma, o começo passou a ser fim.

Desde então, o medo de deixar essa gaiola se transformou em mote ao ser subsidiado pelas diversas denominações religiosas e doutrinas das mais variadas expertises, além de dar origem a um nicho de mercado, que habilmente trabalham para criar fórmulas e especialidades que trazem significativos lucros aos profissionais e mestres do ramo do bom viver.

Essa indústria do medo, gerada pela personificação da figura da morte como fim de tudo, induzido através da razão, tem sido a base de todos os seus extorsivos lucros, gerando abusivas riquezas para esse mercado infame, que é dirigido e gerenciado por pequenos grupos especialistas em racionalizar e manipular as emoções humana.

Dessa maneira, a alternativa de podar as asas da imaginação explicitamente tem se mostrando através da proibição das Artes nas escolas, quando pedagogicamente essa arte se resume, de forma velada, ao mero processo mecânico de colorir, cortar, colar e afixar nas frias paredes do ambiente escolar, as figuras prontas, a fim de decorar esse espaço ilustrando a nossa infante fome de vida e de liberdade negadas pelo medo cultivado através dos livros didáticos e das Tecnologias de Informação e Comunicação, que calcificam a liberdade do pensar. Sem mencionar as disciplinas compartimentadas, divididas nos escaninhos acadêmicos dos conhecimentos pesados e medidos em sua superfície e profundidade, classificadas segundo seu código de barras de validade transformados em certificados e diplomas que estabelecem, controlam e quantificam o subjetivo do indivíduo.

Portanto, hoje com o nascimento da Lei número 10.639/2003, que busca cumprir a necessidade de formação de uma Universidade Pan-africana, cujo processo foi paradoxalmente gestado num ovo gerado nesse mesmo ninho engaiolado, atendendo ao repto de desafiar nossos medos; medos esses que habilmente tem sido cultivados dentro dessas sedutoras caixinhas construídas pela ciência oficial; convidamos os malungos para dar início a esse novo tempo, suspendendo essa caixa de conhecimentos prontos, deixando de ser Gregor Samsa[2] para se tornar Santos Dumont, a fim de ensaiarmos para a inauguração dos voos mais longos, do voo de liberdade, sem repetir os erros de Ícaro; ouvindo a voz dos ancestrais presentes no indivíduo desde o DNA ao inconsciente coletivo. Dessa forma, declaramos que o Medo, como disciplina obrigatória, optativa ou eletiva, invariavelmente se extingui ao cruzar-se o portal dessa Nova Timbuktu antiga, onde reza a frase similia similibus curantur[3].





[1] Relação do Eu com o outro.
[2] Personagem de Kafka – metamorfose.
[3] Os semelhantes curam-se pelos semelhantes

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