
Hoje ao meio-dia, um corpo preto caiu no gueto atravessado por uma bala de canhão, enquanto um corpo branco caia numa fila de Banco em outra situação; o primeiro provocou um estrondoso silêncio no dito momento, o segundo, um movimento escroto e um alvoroço, acompanhado de choro e vela, filme e novela, com um enredo em torno de um corpo que não da favela.
O corpo preto, como de costume, primeiro agoniza e chora, e sua morte não vem na hora, demora. O corpo branco, com infarto fulminante causado por imenso banquete e infinita droga; era fumante; pra ele rola o socorro da hora, mas o cabra branco pra cidade dos pés juntos vai sem demora, sem juros nem mora.
O negro forte, praticante de esporte; corria atrás da sorte; é atendido por um branco do norte, chamado de doutor, que abre seu ventre sem o menor pudor, terminando sua agonia com bastante dor, para mostrar que ali, era senhor.
Tá lá mais um corpo estendido no chão. A notícia que sai no jornal, diz que o negro era um reles marginal, mesmo sem haver crime, etecetera e tal. Não tem velório para cara de pau, diz o delegado da sucursal, a vala é o seu lugar comum, e esse povo já devia se acostumar, e até ensaiar um pouco antes de se aposentar.
O deputado chora pelo branco morto naquela hora, a dona de casa se entristece quando a Tv diz pra ela: “não esquece, o banqueiro se foi minha senhora”, ela derrama lágrimas de emoção diante daquela histérica comoção ordenada pelo Grande Irmão.
Extra, extra... Mais uma notícia de última hora, já são 20 milhões de mortos no congo belga sem somar os da Somália; mas a dona de casa tá passando flanela na Tela para ver melhor a sua novela e não tem tempo para lamentar, até porque nem mesmo conhecia alguém que morasse pelos lados de lá.
Os corpos pretos se ajuntam na esquina da vida, amontoados e enviesados sem emoção ou remoção, numa TV sem comoção, para poder não aborrecer os transeuntes com mais um corpo preto colhido pelo rabecão que atravanca o progresso da ida ao trabalho escravo de cada dia que nos dói hoje. Tá lá mais um corpo estendido no chão enquanto as donas de casa ligam a televisão, a caça de uma nova emoção... Tá lá mais um corpo estendido no chão... Enquanto o jantar é servido com sopa, farinha e feijão... Tá lá mais um corpo estendido no chão... Enquanto a vovó conta uma história para o menino preto dormir com seu irmão... Tá lá mais um corpo estendido no Chão... Enquanto sonhos e fantasias povoam o sono do Povo que vive acompanhado em sua solidão... Tá lá mais um corpo entendido no chão... Enquanto o café da manhã é servido a uma sociedade míope de um mundo sem visão... Tá lá mais um corpo estendido no chão... Enquanto mais um corpo é estendido no chão... Tá lá mais um corpo estendido no chão diante das câmeras de TVs que propaga só a ilusão, a fim de esconder as verdades dessa grave situação onde com corpos pretos são objetos reproduzidos para vender, alugar, emprestar e doar, privilegiando uns poucos seres que se dizem humanos, e que festejam todos os dias do ano o seu carro novo, o terno e a gravata de seda, e se dizem de esquerda, candidatando-se para resolver os problemas dos corpos estendidos no chão...
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