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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Era uma vez...Chapeuzinho Preto...

Minha Casa não é Grande, nem mesmo branca ela é; Pois meu lar é CasaPreta e não é uma casebre qualquer; Lá o diabo não traja vermelho, nem se engana uma mulher; Esse demônio de Black Power não veste Prada, nem um modelito qualquer, pois parente do Lobo primo ele também o é; Aquele lobo que enxerga longe, olha onde quer e ouve sem mesmo estar de pé, que Conheceu a Chapeuzinho e fez dela uma linda mulher; Essa mulher de vermelho que hoje até o diabo quer. 

A CasaPreta é a Casa da Vovó, e o caminho pra chegar lá você escolhe qual quiser, já que o caçador da White House tá sempre de orelha em pé, se dizendo bandeirante, caçando negras travestidas como ele quer; de capuz vermelho, de vestido ou de boné, deliciosa tal qual cheiro de café. CasaPreta, café, Black Power e Mulher, incendiando a White House com caçador, capataz e Sinhô, num festivo churrasco de racismo a molho pardo, ao som do canto triste de um branco bardo: Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou...

Chapeuzinhos, Lobos, Vovós e caçadores; personagens desenhadas para povoar as mentes com uma narrativa sutil, emotiva e predadora, escritas por mãos brancas impostoras. As mesmas mãos que aqueceram o inferno desenhando de um Ser de luz que pregou a autonomia dos esquecidos pela hierarquia homicida.

O desenhista, narrador da White House, nunca saiu do conforto da casa-grande, já que o grande irmão é o dono da contação que produz toda a emoção controlando a luz, a câmera e a ação. Dessa forma, a nossa Ação passiva se conforma com a imponência do Super-herói que introjeta, assimila e acomoda a moda sangrenta do chicote fashion, enquanto neguinho que esmola, rola na vala comum por não possuir a cor do menino de sangue azul.

A menina preta vende a sua bouceta, por não ter mais como sustentar sua vida imperfeita da cor de ébano e cheia de treta. Sua casa, com Tv e novela, não tem tramela para deter os vermes[1] que vem pela ruela, atirando em sombras pretas, de cabelos enroscados de indivíduos frustrados, trucidando até em bebês com remela, que pede: Conta pra mim vovó, uma história antes de dormir... Pra eu poder acordar no paraíso de anjos negros e mãe preta, uma história sem fim...!!

Mas ele acorda no inferno vermelho pintado pelo homem branco de sangue azul que mora na casa-grande, a casa do Cordeiro Divino, a White House onde se prepara os vampirescos repastos de sangue negro e de negresco[2].
Desse modo, a história sem pretos que são lidas para ela, se perdem entre as narrativas emotivas de Frozen, Brancas de Neve e Cinderela, sem vovó, nem preto velho, só uma vara de marmelo como lembrança do cativeiro que se tornou o mundo inteiro, para cada preta e cada preto de sangue vermelho.

Pela estrada afora, eu vou bem sozinha, levar esse doces para a vovozinha... Pois a mãezinha morreu de bala perdida e o painho foi sumido pelo verme vil pintado como herói nas páginas dos livros didáticos dessa pátria que nos pariu.




[1] Sinônimo de policial na cidade do Rio de Janeiro
[2] Diz-se do negro que é preto por fora e branco (ou tem atitudes de branco) por dentro, fazendo alusão ao biscoito com o mesmo nome.

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